Capítulo 2

Ponto de Vista: Elenora Queiroz

Kaila, sempre pragmática, já havia pego um pequeno kit de primeiros socorros de sua bolsa lotada. Ela limpou o corte na minha prótese, a testa franzida em concentração. O antisséptico frio parecia estranho contra o metal gelado.

"Pronto", disse ela, finalmente fechando o pequeno frasco. "Novinha em folha. Agora, sobre a minha certidão de casamento..." Ela me olhou, um brilho travesso nos olhos. "Você me deve uma nova, sabe. Aquela era minha única cópia."

Consegui um sorriso fraco.

"Claro. E um suprimento vitalício do que você quiser. Considere feito."

Um pensamento repentino me ocorreu.

"Na verdade, acabei de receber pelo último comercial de balé. Então, o jantar é por minha conta hoje à noite. O champanhe mais caro que eles tiverem."

A expressão de Kaila, que havia se suavizado em um sorriso brincalhão, de repente se fechou. O brilho travesso desapareceu, substituído por uma nuvem de tempestade.

"Elenora", disse ela, a voz baixa e séria. "O que você estava pensando? Aparecendo aqui? Você sabe o que hoje significa para ele."

Dei de ombros, o movimento causando uma dor surda no meu ombro.

"Não importa o que hoje significa para ele. Ele não é mais nada para mim."

"Nada?" Kaila zombou, sua voz se elevando. "Ele é a razão de você estar usando isso." Ela gesticulou enfaticamente para minhas próteses. "Ele é a razão pela qual seus pais se foram. Ele é a razão pela qual você passou três anos naquele inferno."

Suas palavras eram uma batida de tambor da verdade que eu tentava tanto ignorar.

"Eu sei, Kaila." Minha voz era monótona. "Mas eu tenho que viver. E dançar... dançar é viver para mim. É a única coisa que me faz sentir inteira de novo."

Ela passou a mão pelo cabelo, sua frustração evidente.

"Mas a que custo, Elenora? Você dança até desmaiar. Você se leva ao limite. Essa carreira vale mais que a sua vida?"

Encarei seu olhar, minha própria convicção inabalável.

"Essa carreira é a minha vida, Kaila. É o que me fez superar os tempos mais sombrios. É a única coisa que faz a dor fantasma nas minhas pernas parecer menos real."

Os olhos de Kaila se suavizaram, e ela soltou um suspiro longo e irregular. Ela sabia. Ela entendia a profundidade do meu vazio, o buraco que ele havia cavado na minha alma.

"Eu ainda não consigo acreditar", ela sussurrou, a voz embargada de emoção. "Eu me lembro do jeito que ele olhava para você, Elenora. Como se você fosse o sol, a lua e todas as estrelas. Todo mundo via. Ninguém acreditaria que terminaria assim."

Ela estava certa. Ninguém acreditaria. Não depois de tudo.

Fechei os olhos, uma onda de exaustão me invadindo.

"Ele salvou minha vida, Kaila", murmurei, as palavras um sussurro cru. "Mais de uma vez."

Minha mente viajou para trás, puxada à força para o labirinto da memória.

Eu tinha apenas oito anos quando me levaram. O mundo era um borrão de mãos ásperas, uma mordaça sufocante e o cheiro de cigarro velho. Fui parar em um porão escuro e úmido, meu corpo pequeno tremendo de medo. Havia outras crianças lá, magras e pálidas, seus olhos vazios. Elas me ensinaram as regras rapidamente: obedeça, ou sofra.

Eu nunca fui boa em obedecer. Meu espírito, mesmo naquela época, era selvagem demais, desafiador demais. Um dia, um homem corpulento de risada cruel me arrastou para fora, gritando sobre minha "atitude". Ele segurava uma faca enferrujada, sua lâmina brilhando na luz fraca. Eu gritei, mas ninguém se moveu. Estavam todos com muito medo, muito quebrados.

Justo quando a faca desceu, um menino pequeno e magro, não mais velho que eu, se jogou na minha frente. Era Heitor. Ele gritou quando a lâmina cortou seu braço, um rasgo irregular em sua camisa fina. O sangue floresceu como uma flor escura em sua pele.

Eu olhei, minha mente de oito anos incapaz de processar o horror. Então eu gritei, um som gutural que rasgou o silêncio do porão.

Heitor, pálido e tremendo, virou-se para mim. Seus olhos, mesmo através da dor, continham um estranho tipo de proteção feroz.

"Não chore", ele engasgou, a voz mal um sussurro. "Está tudo bem. Eu te protejo."

Anos depois, depois que fomos resgatados, depois que minha família o adotou, eu traçaria a cicatriz irregular em seu antebraço. Era um mapa de seu sacrifício, um lembrete permanente do menino que me escolheu. Eu a beijaria, murmurando desculpas, promessas. Ele apenas sorriria, seus olhos cheios daquele mesmo calor possessivo.

"Qualquer coisa por você, Elenora. Sempre."

Ele era meu protetor. Meu salvador. Minha família. Meu marido.

Meu marido. A palavra parecia uma mentira, uma piada cruel pregada por um deus malicioso.

A voz aguda de Kaila cortou a névoa das minhas memórias.

"Elenora? Você está me ouvindo?"

Olhei para cima, piscando. Ao nosso redor, o corredor movimentado do cartório de repente parecia barulhento demais, claro demais. Notei alguns homens, seus olhares demorando em minhas pernas, depois em meu rosto, uma mistura de pena e algo mais sombrio. Era uma sensação familiar, que eu aprendi a ignorar.

Peguei o copo de água que Kaila me entregou mais cedo e o esvaziei de um só gole. O gelo bateu nos meus dentes.

"Ele disse que me amava mais que a própria vida", murmurei, as palavras com gosto amargo. "Meu pai disse isso também, pouco antes do nosso casamento. Ele me disse que Heitor sempre me colocaria em primeiro lugar. Que eu era o mundo dele."

Uma risada áspera e sem humor escapou dos meus lábios.

"Que piada. O 'amor' dele era apenas mais uma arma, não era? Outra maneira de me controlar. De me destruir."

A memória do vídeo explícito, aquele que destruiu minha reputação, passou pela minha mente. Aquele que ele havia feito.

"O amor dele era uma mentira", repeti, a convicção fria e sólida no meu peito. "Uma mentira cruel e distorcida."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Elenora Queiroz

O frenesi da mídia após meu sequestro foi avassalador. A família Queiroz, uma dinastia da tecnologia, raramente ficava fora das manchetes, mas isso era diferente. Todos os canais de notícias, todos os jornais, gritavam meu nome. Os sequestradores, um bando desajeitado de criminosos de quinta categoria, foram rapidamente presos. A influência da minha família, mesmo naquela época, era vasta.

As histórias mudaram de foco. Não apenas sobre a herdeira sequestrada, mas sobre o menino de rua sem nome que a salvou. "Herói Órfão Salva Princesa da Tecnologia", estampavam as manchetes. Heitor, um menino que ninguém sabia que existia, de repente se tornou um nome conhecido. Meus pais, imensamente gratos, o adotaram. Nossas vidas, já entrelaçadas pelo destino, tornaram-se inseparáveis.

Meu pai passou inúmeras horas com a agência de adoção, com advogados, com o conselho tutelar. Cada vez que ele voltava, sua expressão estava um pouco mais tensa, um pouco mais preocupada. Heitor, ao que parecia, não era uma criança fácil.

Lembro-me do incidente no ensino médio. Um garoto, do último ano, me encurralou no corredor, suas palavras cheias de desrespeito, suas mãos me alcançando. Antes que eu pudesse gritar, Heitor estava lá. Ele se moveu como uma sombra, rápido e silencioso. Agarrou o garoto pelo pescoço, batendo-o contra os armários. Seus olhos, geralmente tão gentis quando olhavam para mim, estavam selvagens, ferozes.

Ele não apenas o atingiu. Ele usou uma chave inglesa que guardava em seu armário, para consertar sua moto velha. Ele a desceu, de novo e de novo, na mão do garoto, depois no joelho dele. O som doentio de osso quebrando foi um som que eu nunca esqueceria. Então, com uma calma arrepiante, ele rasgou um pedaço da camisa do garoto, enfiou na boca dele e a fechou com fita adesiva.

O garoto nunca mais me incomodou. Na verdade, ele nem sequer olhava para mim. Quando voltou à escola semanas depois, com o braço na tipóia, ele se encolhia visivelmente sempre que eu passava. Uma repulsa física e visceral que sempre revirava meu estômago.

Depois houve o incidente no baile de gala da universidade. Um CEO rival, um homem conhecido por seu charme predatório, fez um comentário inadequado sobre meu vestido, seus olhos demorando demais na minha clavícula. Heitor, que estava a poucos metros de distância, ouviu. Ele pegou uma taça de champanhe, não pela haste, mas pelo bojo, e a quebrou no rosto do homem. O homem cambaleou para trás, o sangue florescendo em sua bochecha. Heitor, com os nós dos dedos sangrando do vidro quebrado, simplesmente se colocou na minha frente, me protegendo da cena.

"Ninguém fala com ela assim", ele rosnou, sua voz uma ameaça baixa.

Ele sempre me protegeu. Sempre.

"Ele te vê como mais importante que a própria vida." As palavras do meu pai, ditas gentilmente na véspera do meu casamento, ecoaram em minha mente. Ele havia colocado a mão no ombro de Heitor, seus olhos cheios de orgulho. "Elenora, você tem uma sorte incrível de ter um homem que morreria por você."

Meu pai sorriu, um sorriso caloroso e amoroso.

"Que vocês dois sejam felizes, minha filha. Para todo o sempre."

A voz aguda e insistente de Kaila perfurou meu devaneio.

"Elenora! Você está viajando de novo."

Pisquei, voltando ao presente. O cheiro enjoativo de purificador de ar barato no cartório, o murmúrio distante de vozes, a forma como o sol do final da tarde entrava pelas janelas empoeiradas.

Senti uma dor familiar atrás dos olhos. Ele me amava mais que a própria vida. As palavras eram uma zombaria agora. Uma distorção cruel e viciosa de uma memória.

Pensei no vídeo deepfake. Aquele que destruiu minha carreira, minha reputação. Aquele que ele havia criado. Eu havia enviado fotos para ele, centenas delas, confiando nele implicitamente. E ele as usou para criar uma mentira tão convincente, tão vil, que despedaçou meu mundo.

Não. O amor dele não era amor. Era uma farsa. Uma arma. Uma piada doentia e distorcida.

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