"Bela? O que aconteceu? Você parece..."
A voz de Caio, clara e firme mesmo pelo telefone, foi a primeira coisa sólida que senti em horas. Eu estava sentada no chão do meu apartamento vazio, aquele que eu costumava dividir com Gustavo.
"Estou indo te ver", eu disse, minha voz falhando.
"Estou a caminho." Ele não fez perguntas. Não precisava. Ele ouviu a fratura na minha voz. "Meu jato está sendo preparado. Estarei em São Paulo em cinco horas. Não se mova. Estou indo até você."
A linha ficou muda. Deixei o telefone cair no chão e finalmente permiti que as lágrimas viessem. Não eram soluços altos e engasgados, mas um fluxo silencioso e constante que encharcou a frente do meu vestido. Caio estava vindo. Eu não estava sozinha.
Enquanto esperava, caminhei pela cobertura minimalista e austera que um dia pareceu um lar. Agora parecia um museu de uma vida que era uma mentira. Abri um armário e peguei uma mala grande e vazia.
Metodicamente, comecei a juntar todos os vestígios de Gustavo. Seus ternos caros, suas gravatas de seda, as fotos de nós sorrindo em porta-retratos de prata. Encontrei a pequena caixa de veludo que continha o primeiro par de brincos de diamante que ele me deu, sussurrando que eram tão brilhantes quanto o meu futuro. Encontrei os bilhetes de amor manuscritos que ele costumava deixar no meu travesseiro.
"Minha linda Bela, meu mundo começa e termina com você."
Cada item era uma nova punhalada de dor. Guardei tudo, cada presente, cada memória, cada mentira. Arrastei a mala pesada até o duto do incinerador no corredor de serviço e, um por um, alimentei os pedaços da minha vida estilhaçada na escuridão. O terno sob medida que ele usou no nosso casamento. A primeira edição do livro de poesia que ele havia dedicado a mim. O medalhão de prata com nossas iniciais. Eu os vi desaparecer sem um som.
Eu estava limpando minhas mãos, meu rosto uma máscara estoica, quando ouvi uma chave na fechadura. A porta se abriu e Gustavo estava lá, um buquê dos meus lírios brancos favoritos na mão.
Ele viu meu rosto e seu sorriso vacilou. "Bela? O que aconteceu?"
Ele largou as flores e correu para mim, me puxando para seus braços. Fiquei rígida, uma estátua em seu abraço. Eu não senti nada.
"Sinto muito, meu amor", ele murmurou em meu cabelo. "A reunião se estendeu demais. Senti sua falta."
Ele se afastou, suas mãos emoldurando meu rosto. Seus olhos, os mesmos olhos castanhos e quentes pelos quais me apaixonei, estavam cheios do que parecia ser uma preocupação genuína. Ele havia contratado um chef particular. A mesa de jantar estava posta com velas e uma garrafa de champanhe caro. Um grande gesto para se desculpar por sua ausência.
"Eu sempre estarei aqui para te proteger, Bela", ele disse, sua voz uma promessa baixa e sincera. "Nada nem ninguém jamais ficará entre nós."
Senti um distanciamento frio e arrepiante. Eu estava assistindo a uma performance, uma muito convincente, mas eu não fazia mais parte da plateia. Eu sabia a verdade por trás da cortina.
"Você parece exausta", ele disse, interpretando mal meu silêncio. "O baile deve ter te esgotado. E com o que aconteceu com o prêmio em memória do seu pai... deve ser uma noite emocionante."
Ele estava atribuindo meu estado ao luto pelo meu pai, uma dor segura e compreensível. Ele já estava reescrevendo a narrativa.
"Eu planejei uma viagem para nós", ele continuou, tentando me tirar do meu suposto luto. "Nosso aniversário. Uma semana em uma vila particular em Trancoso. Só nós dois. Sem telefones, sem trabalho. Podemos nos reconectar."
Suas palavras foram interrompidas pelo toque agudo de seu telefone. Ele olhou para a tela e, por uma fração de segundo, sua máscara escorregou. Um lampejo de pânico.
"Preciso atender", ele disse, a voz tensa. Ele me deu as costas, caminhando em direção à varanda. "É uma emergência."
Enquanto ele se movia, a tela do telefone piscou. Eu vi o identificador de chamadas. Não era um investidor. Não era seu advogado. Era um único nome: Helena.
Ele correu para a varanda, sua voz um murmúrio baixo e urgente. Ele não notou a expressão no meu rosto. Ele não notou que eu havia morrido um pouco mais por dentro.
Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando tive uma febre alta e repentina. Liguei para ele do meu escritório, minha voz fraca. Ele estava no meio de fechar um negócio de um bilhão de reais. Ele largou tudo. Estava ao meu lado em quinze minutos, seu rosto marcado pela preocupação. Ele mesmo me carregou para fora do prédio, sem se importar com as dezenas de pessoas assistindo. Ele segurou minha mão na emergência, recusando-se a sair até que os médicos garantissem que eu estava bem.
Aquele homem, o homem que moveria montanhas por mim, havia desaparecido. Seus instintos protetores, sua preocupação urgente, tudo pertencia a outra pessoa agora. A Helena e seu filho.
Passei a noite no quarto de hóspedes, com a porta trancada. Não dormi. Na manhã seguinte, Gustavo estava me esperando, seu rosto um retrato perfeito de contrição. Ele tinha um dia inteiro planejado. Um passeio romântico para compensar sua ausência.
Deixei que ele me levasse até o carro. Ao entrar no banco do passageiro, meu pé bateu em algo pequeno e duro no tapete. Eu me abaixei. Era um brinco. Um único coração de cristal rosa, de aparência cafona. Não era meu.
Eu o ergui. Ele olhou para ele, seus olhos se arregalando por um momento antes que sua expressão se suavizasse.
"Droga", ele disse, pegando-o da minha mão. "A filha do Jairo deve ter deixado cair. Ele a trouxe ao escritório ontem. Crianças." Ele o jogou no porta-luvas sem pensar duas vezes.
Eu não disse nada. Apenas olhei pela janela, um sorriso amargo e autodepreciativo nos lábios.
Ele me levou ao restaurante onde tivemos nosso primeiro encontro. Um bistrô francês charmoso e íntimo. Ele pediu nosso vinho favorito, relembrando aquela primeira noite.
"Eu soube no momento em que te vi", ele disse, seus olhos se fixando nos meus do outro lado da mesa. "Eu soube que você era a pessoa certa."
Lembrei-me daquela noite. Eu estava tão nervosa, tão cativada por aquele homem poderoso e carismático que parecia ver diretamente em minha alma. Ele me fez sentir como a única mulher no mundo.
Ele estava falando, tecendo uma bela história do nosso amor, mas seu telefone não parava de vibrar na mesa. Ele olhava para ele, seu polegar digitando rapidamente uma resposta por baixo da mesa.
"Preciso sair por um momento", ele disse de repente, seu sorriso tenso. "Uma ligação rápida que tenho que fazer. Um negócio fechando. Volto já."
Ele se afastou da mesa, indo em direção aos fundos do restaurante. Minha intuição, uma coisa fria e afiada, me disse para segui-lo. Saí da minha cadeira e o segui à distância. Ele não foi ao banheiro nem ao saguão. Ele passou por uma porta marcada como "Privado".
Pressionei meu ouvido contra a porta. Pude ouvir sua voz, baixa e terna.
"A febre dele baixou? Ele tomou o remédio?" Uma pausa. "Ótimo. Diga ao João Pedro que o papai está muito orgulhoso dele por ser tão corajoso. Estarei aí assim que puder. Só preciso terminar este jantar. Eu te amo."
Ouvi a voz de um menino, metálica através do telefone. "Eu também te amo, papai! Volta logo pra casa!"
Então ouvi a voz de Helena. "Estaremos esperando. Não demore muito."
O mundo girou em seu eixo. Ele não estava fechando um negócio. Ele estava brincando de casinha. Ele estava falando com seu filho, prometendo à sua amante que estaria em casa em breve.
Recuei cambaleando da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Um garçom se aproximou de mim.
"Senhora, está tudo bem? Você parece pálida."
Antes que eu pudesse responder, um gerente se apressou. "Desculpe, senhora, esta área é apenas para funcionários." Ele estava gentilmente, mas firmemente, bloqueando meu caminho.
Eu estava sendo afastada, uma estranha no próprio lugar que simbolizava o início da minha maior história de amor. Era uma área privada. E eu não fui convidada.
Voltei para nossa mesa, minha mente repassando sua desculpa. Uma ligação rápida que tenho que fazer. Uma mentira. Tão fácil. Tão praticada.
Passei direto pela mesa e saí pela porta da frente do restaurante. O ar fresco da noite não fez nada para acalmar o fogo em meu peito. Comecei a andar, meus saltos batendo um ritmo frenético no asfalto. Meu pé, que eu havia torcido um pouco mais cedo, latejava de dor, mas eu mal sentia. A agonia em meu coração era avassaladora.
Andei por quarteirões, sem rumo, até me encontrar em um pequeno parque. Afundei em um banco, o mundo uma bagunça turva e sem sentido de luzes e sons.
Então, uma risada. Um som quebrado e histérico escapou dos meus lábios. Ri até as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, até meu estômago doer e eu não conseguir respirar. Ri do absurdo, da crueldade, da escala épica e pura de sua traição.
E então, tudo ficou preto.
Acordei com o cheiro estéril de antisséptico e o bipe suave de uma máquina. Minha cabeça latejava. Eu estava em um quarto de hospital. Gustavo estava sentado ao lado da minha cama, com a cabeça entre as mãos. Ele olhou para cima quando me mexi, seu rosto marcado pela preocupação.
"Bela", ele disse, a voz embargada de emoção. "Você acordou. Você me deu um susto de morte."
Eu apenas o encarei. A preocupação em seus olhos parecia outra performance.
A porta se abriu e uma enfermeira entrou, seguida por Helena Soares. Ela segurava a mão de João Pedro.
"O que ela está fazendo aqui?", perguntei, minha voz um sussurro rouco.
Gustavo se levantou, colocando-se entre mim e a porta. "Bela, acalme-se. Helena estava preocupada. Ela viu você desmaiar. Foi ela quem chamou a ambulância."
"Tire-a daqui", eu disse, minha voz se elevando. Tentei me sentar, mas uma onda de tontura me atingiu.
Helena caiu de joelhos ao lado da minha cama, seu rosto uma máscara de tristeza manchada de lágrimas. "Isabela, sinto muito. Eu nunca quis isso. Por favor, deixe-me ficar. Só quero ter certeza de que você está bem."
Foi uma performance magistral. A mulher injustiçada, a amante lamentável.
"Saia. Daqui.", repeti, cada palavra um caco de vidro.
De repente, o menino, João Pedro, avançou. Ele bateu com seus pequenos punhos na minha perna, bem onde o soro estava inserido. Uma dor aguda e lancinante subiu pelo meu braço.
"Você é uma mulher má!", ele gritou, o rosto contorcido em uma careta. "Você fez minha mamãe chorar!"
"João Pedro, pare com isso!", Gustavo gritou, puxando o menino para trás. Mas seus movimentos foram lentos, seu aperto não tão firme quanto deveria ser.
"Ele é apenas uma criança, Gustavo", Helena soluçou, puxando João Pedro para seus braços. "Ele não entende. Ele é meu sobrinho. Ele é muito protetor comigo."
Sobrinho. A mentira era tão audaciosa, tão descarada, que me deixou sem fôlego.
Gustavo voltou sua atenção para mim, seu foco no soro deslocado, no sangue que brotava na minha pele. Ele chamou a enfermeira, sua voz afiada com comando. Mas seus olhos continuavam a se desviar para a porta, para onde Helena estava confortando o menino chorando. Sua prioridade era clara. Ele estava protegendo eles.
A enfermeira consertou meu soro, sua expressão profissional, mas tensa. Gustavo agradeceu, depois se virou para mim, seu rosto uma mistura de preocupação e impaciência.
"O médico disse que você desmaiou de exaustão e desidratação. Você precisa descansar."
"Aquele menino", eu disse, minha voz tremendo de raiva. "Ele me atacou."
"Ele tem quatro anos, Bela", disse Gustavo, seu tom apaziguador. "Ele não quis fazer mal. Ele só estava com medo."
Ele não estava me defendendo. Ele estava defendendo o menino. O filho dele. O homem que uma vez largou um negócio de um bilhão de reais porque eu tive febre agora estava me dizendo que uma agressão física não era motivo de preocupação. A percepção foi um golpe físico, um soco no estômago que me deixou sem fôlego. Uma cãibra aguda tomou meu abdômen, e eu me encolhi, um grito silencioso preso na garganta.
Virei as costas para ele, puxando o fino cobertor do hospital até o queixo. Foi uma dispensa clara. Ouvi-o suspirar, um som de frustração, antes de sair do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
Devo ter caído em um sono exausto, porque a próxima coisa que soube foi a porta do meu quarto se abrindo com um estrondo. Eu estava sendo sacudida para acordar, bruscamente.
Gustavo estava sobre mim, seu rosto contorcido por uma raiva que eu nunca tinha visto antes. Seus olhos estavam injetados, sua mandíbula tensa.
"O que você fez?", ele rosnou, seu aperto em meus ombros se intensificando. "Onde ele está?"
"Do que você está falando?", perguntei, minha mente nebulosa de sono e confusão.
"João Pedro! Ele desapareceu! Helena disse que você foi a última a falar com ele. Ela disse que você a ameaçou!"
Antes que eu pudesse processar sua acusação, seus pais, o Sr. e a Sra. Almeida, invadiram o quarto. Eles foram seguidos por uma Helena frenética e chorosa.
"Sua mulher malvada!", a Sra. Almeida gritou, seu dedo perfeitamente manicure apontando para mim. "Você não pôde dar um herdeiro a Gustavo, então decidiu se livrar do único filho dele! Você o sequestrou!"
João Pedro foi ensinado a apontar para mim. Seu pequeno dedo, guiado por sua mãe, selou meu destino. A polícia chegou. Fui acusada de orquestrar o sequestro do filho ilegítimo do meu marido. O motivo? Ciúmes. Loucura.
Olhei para Gustavo, meus olhos implorando para que ele visse a verdade, para que confiasse em mim. "Gustavo, você sabe que eu nunca faria algo assim."
Seu rosto era uma máscara fria e dura. "Eu não sei mais do que você é capaz, Isabela." Ele se virou para os policiais. "Levem-na."
Eles me colocaram em uma cela. Era fria, imunda e cheirava a desespero. As horas se arrastaram por uma eternidade. Revivi cada promessa que ele já me fez. Eu vou te proteger. As palavras zombavam de mim, ecoando no silêncio sufocante. As lágrimas finalmente secaram, deixando para trás uma dormência oca e dolorida.
Dois dias depois, a porta se abriu. Um guarda me disse que eu estava livre para ir. João Pedro havia sido "encontrado". Aparentemente, ele havia se afastado e sido encontrado por um segurança em um parque próximo. Foi um milagre.
Saí da delegacia para a luz dura do dia. Gustavo estava me esperando. Ele me puxou para um abraço que parecia uma jaula.
"Sinto muito, Bela", ele sussurrou. "Foi tudo um mal-entendido. Eu estava tão preocupado."
Eu não respondi. Deixei que ele me levasse para o carro e me dirigisse de volta ao nosso apartamento. Quando entramos, Helena estava lá, sentada no meu sofá, segurando um João Pedro adormecido.
"O que ela está fazendo aqui?", perguntei, minha voz monótona.
"Helena e João Pedro ficarão conosco por um tempo", anunciou a Sra. Almeida, saindo da cozinha. Sua voz pingava condescendência. "Para a segurança deles. Não podemos permitir que sejam alvos novamente."
"Não vou sair do lado de Gustavo", disse Helena, sua voz baixa, mas firme, uma declaração clara de sua nova posição nesta casa.
Virei-me para sair, para ir para o meu quarto, para escapar deste pesadelo. Ao passar pelo sofá, o pé de João Pedro se esticou, me fazendo tropeçar. Gritei ao cair, meu corpo batendo no chão duro. Uma dor aguda e insuportável rasgou meu abdômen.
Olhei para baixo. O sangue estava se acumulando no chão sob mim, uma mancha escura se espalhando no mármore branco. Os olhos de Helena encontraram os meus, e vi um lampejo de malícia triunfante neles. João Pedro, dos braços de sua mãe, fez uma careta grotesca para mim.
Gustavo correu para o meu lado, seu rosto pálido de choque. Ele me pegou nos braços, gritando para alguém chamar uma ambulância. Minha visão estava embaçando, o quarto girando. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o sorriso presunçoso de Helena.
Acordei novamente em um quarto de hospital. Estava quieto. Quieto demais. Eu estava sozinha. Apertei o botão de chamada da enfermeira. Ninguém veio.
Ouvi vozes do lado de fora da minha porta. Gustavo e seu advogado, Jairo.
"Como ela está?", Jairo perguntou.
"Ela está estável", respondeu Gustavo, a voz pesada. "Ela perdeu o bebê. Era cedo, apenas oito semanas. Ela nem sabia que estava grávida."
Uma pausa.
"E... houve complicações. A queda causou uma hemorragia grave. Eles tiveram que... tiveram que fazer uma histerectomia. Ela não pode mais ter filhos."
O mundo se dissolveu em um grito silencioso. Um bebê. Nosso bebê. Perdido. Minha capacidade de ter outro, perdida. Arrancada de mim por uma criança maliciosa e pela mulher que roubou minha vida.