Deitada e imóvel sob as cobertas, prendi a respiração, em expectativa. A porta do quarto logo se abriu e Elliott entrou, completamente encharcado. Ele foi direto para o banheiro, sem nem olhar para mim. Alguns segundos depois, ouvi o barulho da água caindo.
A essa altura, eu já estava totalmente desperta. Levantei-me e vesti uma camisa de dormir sobre a camisola de seda. Depois, peguei o pijama de Elliott e o coloquei sobre a cômoda ao lado da porta do banheiro antes de ir para a varanda.
Era a estação das chuvas. Começou com uma garoa, mas agora, já se ouvia o som das fortes gotas de chuva batendo nas janelas fechadas e nas paredes. Observei uma árvore balançar, como se dançasse.
De repente, ouvi um barulho atrás de mim. Virei-me e vi Elliott saindo do banheiro com uma toalha de banho enrolada na cintura. Gotículas de água pingavam de seu cabelo e escorriam pelo corpo, deixando seu peitoral firme e o abdômen definido reluzentes. Ele parecia um deus grego, e eu não conseguia desviar os olhos.
Quando Elliott notou que eu o encarava, olhou para mim com o cenho franzido. "Venha aqui." Seu tom era impassível.
Aproximei-me dele, obediente. Ele jogou uma toalha pequena em minha direção e ordenou em voz baixa: "Seque meu cabelo."
Havia um secador no banheiro, mas Elliott odiava usá-lo. Ele sempre me pedia para secar seu cabelo, e eu já estava acostumada. Ele se sentou na cama. Sem hesitar, subi, ajoelhei-me atrás dele e comecei a secar seu cabelo com a toalha.
"O funeral do seu avô é amanhã, teremos que ir para a antiga mansão mais cedo." Não era minha intenção puxar conversa. No entanto, como Elliott só pensava em Olivia, temi que ele se esquecesse do funeral se eu não o lembrasse.
"Certo." Ele assentiu e mergulhou em silêncio outra vez.
Entendendo o recado, não disse mais uma palavra. Apenas fiz o que me foi pedido e me deitei, pronta para dormir.
Ultimamente, eu andava com muito sono. Bocejei e me enrolei no meu lado da cama. Elliott costumava ficar em seu escritório até a meia-noite depois do banho. Contudo, por algum motivo, desta vez ele apenas vestiu o pijama e se deitou ao meu lado.
Enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo, ele me puxou para seus braços e me beijou com força.
Sem fôlego, eu o encarei, confusa. "Elliott, eu..."
"O quê? Não quer?", ele perguntou, seus olhos se tornando gélidos e selvagens.
Desviei o olhar, desconfortável. Embora não quisesse transar com ele, eu não tinha o direito de dizer não.
"Pode ser um pouco mais gentil?" O feto tinha apenas seis semanas. Se Elliott fosse tão bruto quanto da última vez, o bebê poderia se machucar.
Elliott franziu a testa e não disse nada.
A chuva ficava mais forte a cada segundo. Trovões retumbavam ocasionalmente, acompanhados por relâmpagos que iluminavam o quarto. Os gemidos e o som de pele contra pele só pararam muito tempo depois. Minha cabeça estava um nó. Antes que eu recobrasse os sentidos, Elliott se levantou e foi para o banheiro como se nada tivesse acontecido.
Minha barriga e minhas partes íntimas doíam tanto que um suor frio brotou em minha pele. Estendi a mão para a gaveta do criado-mudo para pegar alguns analgésicos, mas, ao me lembrar do bebê, desisti de tomá-los.
De repente, um zumbido cortou o silêncio do quarto. O celular de Elliott estava vibrando na mesa de cabeceira. Olhei para o relógio na parede e vi que já passava das onze da noite.
Ninguém ligaria para Elliott a uma hora dessas, a não ser Olivia.
O barulho da água no banheiro cessou. Vestindo um roupão, Elliott secou as mãos e atendeu o celular. Tentei ouvir o que a pessoa do outro lado da linha dizia, mas não consegui entender uma palavra.
"Pare de agir como criança, Olivia", disse Elliott, franzindo levemente a testa.
No segundo seguinte, ele suspirou fundo e desligou. Vestiu uma roupa qualquer, preparando-se para sair, como já fizera tantas vezes. Normalmente, eu fazia vista grossa para suas saídas noturnas, mas algo me impeliu a segurar sua mão e implorar: "Não vá. Por favor, você não pode só ficar aqui esta noite?"
Elliott me olhou como se eu tivesse duas cabeças. Um instante depois, uma sombra de frieza e desagrado surgiu em seu belo rosto. "Ficou carente só porque fodemos?"
Suas palavras foram frias e irônicas.
A pergunta me pegou de surpresa, mas não pude evitar uma risada amarga. Que ousadia a dele presumir isso. Olhei para ele, com o rosto inexpressivo, e disse: "O funeral do seu avô é amanhã. Lembre-se que temos que sair cedo. Mesmo que sinta tanto a falta dela, você sabe qual é a coisa certa a fazer."
"Isso é uma ameaça?" Os olhos de Elliott se estreitaram. De repente, ele agarrou meu queixo e me encarou nos olhos. Então, disse com uma voz gélida: "Gianna Happer, você ficou mais ousada."
Mesmo sabendo que Elliott era um homem teimoso, eu tinha que tentar. De repente, uma ideia me ocorreu. Encarando-o, eu disse: "Aceito o divórcio, mas com uma condição. Você terá que ficar aqui esta noite e me acompanhar ao funeral amanhã. Assinarei os documentos do divórcio logo depois do funeral."
Um sorriso zombeteiro brilhou nos olhos escuros de Elliott, que os semicerrou e disse: "Então me satisfaça."
Ele soltou meu queixo e sussurrou no meu ouvido: "Gianna, se você quer algo, terá que conquistar."
A voz nítida dele estava repleta de desejo e malícia. Era óbvio o que ele estava pedindo. Sem hesitar, abracei-o e ergui a cabeça para encará-lo. Ele era bem mais alto do que eu, e eu sabia que era patético da minha parte recorrer a esse artifício apenas para fazer o homem que eu amava ficar comigo.
No momento em que eu estava prestes a passar minha mão por baixo da camisa dele, ele me interrompeu. Ao olhar para cima, fiquei surpresa com o desejo ardente no olhar dele. Nesse momento, ele disse: "Chega."
Sem saber o que ele queria dizer com isso, eu o encarei perplexa. Ele tirou a roupa e vestiu o pijama cinza dele.
Levei vários segundos para entender o que ele estava fazendo. Quando percebi que ele ia ficar, abri um sorriso de orelha a orelha, mas minha felicidade não durou muito. De repente, a voz de uma mulher veio do lado de fora da janela. "Elliott..."
Pela enésima vez nos últimos minutos, fiquei atônita. Ao ouvi-la, Elliott foi para a varanda e olhou para baixo. Em um piscar de olhos, ele voltou, pegou o casaco e saiu do quarto sem nem olhar para mim.
Curiosa, fui até a varanda e vi Olivia parada na chuva, com um vestido fino. Ela tremia, o que a fazia parecer tão frágil e digna de pena.
Logo em seguida, Elliott apareceu e colocou o casaco dele sobre os ombros dela. Quando ele estava prestes a repreendê-la, ela o abraçou e começou a soluçar como uma criancinha. Nesse momento, ele começou a afagar as costas dela carinhosamente.
Aquela cena me mostrou mais uma vez que eu não estava à altura de Olivia. Mesmo estando casada com Elliott há dois anos, essa mulher ainda o tinha nas mãos.
Elliott pegou Olivia no colo e a levou para dentro. Parada no topo da escada, encarei os dois amantes encharcados, bloqueando o caminho.
"Saia da minha frente!", bradou Elliott, com um olhar de repulsa.
Será que eu estava triste por ele estar trazendo outra mulher para casa sem se importar nem um pouco comigo? Talvez...
Aquela cena feria mais a minha vista do que o meu coração. Afinal, qual mulher ficaria feliz em ver o próprio marido, tão indiferente a ela, tratar a amante dele como se fosse uma rainha?
"Elliott, sei que você não tem respeito algum por mim, mas já não respeita nem o seu avô? Lembre-se de que você prometeu a ele que nunca a traria aqui enquanto eu morasse sob este teto."
Era um insulto que Elliott quisesse trazer Olivia para dentro do meu lar conjugal. Este era o único lugar onde eu não precisava competir com ela. Eu o deixei ficar com ela por incontáveis noites. Como ela teve a audácia de aparecer aqui e fazê-lo quebrar a promessa?
"Hum!", zombou Elliott. Ele me empurrou para o lado e disse: "Você se acha demais, Gianna!"
Suas palavras foram como mil facas cravadas no meu frágil coração. Fiquei parada lá, vendo Elliott levar Olivia para o quarto de hóspedes.
Pelo jeito, essa noite estava amaldiçoada.
Olivia sempre foi doentia. Como ela havia se encharcado na chuva, não demorou muito para que pegasse um resfriado e tivesse febre alta. Elliott estava morrendo de preocupação. Entrei de fininho no quarto de hóspedes e fiquei observando. Ele trocou a roupa de Olivia e secou o cabelo dela.
Ele provavelmente estava desconfortável ou com nojo da minha presença. Depois de aconchegar sua amante na cama, ele me lançou um olhar gélido e disse: "Pode ir para a antiga mansão da minha família e passar a noite lá. Olivia está com febre, e a noite já vai alta. Não posso mandá-la para casa."
Que cara de pau! Ele sabia que a noite já ia alta, mas estava me mandando para a antiga mansão. Será que ele me odiava tanto assim? Ha... ha... ha...
A culpa era toda minha. Eu não deveria nem ter vindo aqui.
Fiquei olhando para as costas dele por um tempo indeterminado, pensando em como lembrá-lo de que a antiga mansão era longe e que era perigoso para uma mulher estar na rua sozinha àquela hora.
Ele parecia ter se esquecido da minha presença; acariciava as bochechas coradas de Olivia, olhando para ela com preocupação e amor.
Era evidente que minha segurança não importava para ele. Apesar disso, consegui dizer calmamente: "Vou ficar no meu quarto. Não posso ir para a antiga mansão agora."
Eu jamais me colocaria em perigo só porque ele queria um tempo a sós para cuidar de Olivia.
Amaldiçoei os dois mentalmente e saí do quarto de hóspedes. No corredor, vi Colton Blake se aproximando apressadamente. Ele usava um pijama preto e um par de chinelos. Parecia que tinha acabado de acordar e viera o mais rápido possível.