Capítulo 2

Ponto de Vista: Clara

Daniela, irradiando uma ambição inocente, deu um passo à frente, sua mão estendida para mim.

"Clara! Ouvi falar tanto de você", ela disse animadamente, seu sorriso genuíno, quase brilhante demais. "O Arthur diz que você é uma arquiteta incrível. Estou realmente ansiosa para trabalhar com você."

Ela se agarrou ao braço de Arthur, seus dedos traçando o tecido caro de seu paletó.

Um gesto de posse.

"Ele tem estado tão ocupado ultimamente, sempre trabalhando até tarde", ela confidenciou aos meus pais, seu olhar de adoração enquanto olhava para Arthur. "Mas ele sempre diz que é para o 'nosso futuro'. Eu só queria que ele tirasse mais folgas."

Meus olhos se voltaram para a mão esquerda dela.

Um diamante, ofuscante em seu brilho, estava aninhado em seu dedo anelar.

Não era apenas um anel.

Era o anel.

Aquele da vitrine da joalheria pela qual passamos inúmeras vezes, aquele sobre o qual ele brincou, dizendo: "Um dia, quando estivermos prontos para o mundo saber, este será seu."

Meu estômago se contraiu, um nó frio e duro se formando bem no fundo.

Cada palavra, cada momento secreto, cada olhar roubado que compartilhamos, parecia uma mentira agora.

Arthur, o homem que me disse que estava "ocupado demais" para uma escapada de fim de semana no mês passado, estava planejando um pedido de casamento.

Para ela.

Não para mim.

As orelhas dele, notei, estavam levemente vermelhas.

Um sinal claro de seu desconforto, uma pequena rachadura em sua fachada perfeita.

Ele apertou a mão de Daniela.

"Querida, não se preocupe. Vou arranjar mais tempo agora. Temos uma vida inteira de fins de semana pela frente", ele murmurou, sua voz tingida com uma ternura que eu um dia pensei ser reservada para mim.

Suas palavras me feriram mais do que qualquer outra coisa.

Ele me prometeu uma vida inteira.

Um ano atrás, ele me disse que estar "ocupado" era um mal necessário, um sacrifício para nosso futuro compartilhado, nosso futuro secreto.

Agora era tudo para o futuro dela.

Minha mãe, sempre a casamenteira, virou-se para mim novamente, seus olhos brilhando.

"Clara, querida, já está mais do que na hora de você encontrar alguém especial também! Lembra daquele jovem adorável, Caio Bastos, ex-aluno do seu pai? Ele está tão elegante e bem-sucedido agora."

Um buraco se formou no meu estômago.

Meus pais, sem saber, estavam girando a faca.

"Ele sempre pergunta por você", ela continuou, completamente alheia. "Não seria maravilhoso se vocês dois...?"

Arthur pigarreou, um som agudo, quase imperceptível.

"Sra. Luz, Clara e eu somos apenas colegas. Como eu disse, ela é como uma irmã para mim", ele interrompeu, sua voz firme, não deixando espaço para interpretações erradas.

Ele me lançou um olhar, um aviso gravado em seus olhos.

Não se atreva.

A humilhação, quente e ardente, me invadiu.

Publicamente dispensada. Publicamente rebaixada.

Uma irmã. Uma colega. Nunca uma amante. Nunca uma parceira.

Era como se ele estivesse me esfregando sistematicamente de seu passado, presente e futuro.

Meu coração parecia um tambor oco, batendo um ritmo lento e doloroso de desespero.

Eu queria gritar, atacar, expor seu engano cuidadosamente construído.

Mas eu não podia.

Ainda não.

Respirei fundo, forçando uma aparência de compostura em meu rosto.

"Você está certo, Arthur", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Apenas colegas. Mas tenho certeza de que encontrarei alguém. E quando encontrar, prometo que você será o primeiro a saber. E não será um segredo."

Minha mãe bateu palmas, encantada.

"Essa é a minha garota! Esse é o espírito!", ela comemorou, perdendo completamente o tom farpado.

Encontrei o olhar de Arthur uma última vez.

Seus olhos continham um lampejo de surpresa, um toque de algo indecifrável, antes que ele rapidamente o mascarasse.

A festa continuou ao nosso redor, uma cacofonia de risos e alegria, mas tudo que eu conseguia ouvir era o silêncio ensurdecedor do meu coração partido.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Clara

"Nós podemos te apresentar a tantos jovens maravilhosos, Clara", declarou minha mãe, com o braço entrelaçado no do meu pai. "É só você dizer. Nossa garotinha merece o melhor."

Meu pai assentiu em concordância, seu olhar caloroso e reconfortante.

"Com certeza, princesa. Chega de segredos. Você merece um amor que possa ser gritado aos quatro ventos."

Arthur, enquanto isso, estava completamente absorto com Daniela.

Ele segurava a mão dela, seu polegar acariciando suavemente as juntas dos dedos dela, um gesto pequeno e íntimo que eu conhecia muito bem.

Meu sangue gelou.

A dor, aguda e sufocante, ardeu novamente.

Era uma queima lenta, uma dor constante que latejava a cada olhar, a cada palavra sussurrada entre eles.

Uma raiva súbita e feroz, fria e calculista, ferveu sob minha fachada cuidadosamente construída.

Ele acha que pode fazer isso? Me apagar? Me substituir?

Ele acha que vai sair impune?

Respirei fundo, uma faísca perigosa se acendendo dentro de mim.

Virei-me para Arthur, minha voz clara, cortando a conversa de fundo.

"Na verdade, pai, o Arthur está certo. Não estou procurando ninguém agora", comecei, um sorriso doce brincando em meus lábios. "Eu, na verdade, já tenho alguém."

A atmosfera festiva ao nosso redor pareceu congelar.

As risadas morreram. As conversas vacilaram.

A mão de Arthur, que estava acariciando a de Daniela, parou.

Seu sorriso, antes tão natural, tornou-se rígido, uma máscara de polidez forçada.

Ele se virou para mim, seus olhos arregalados, um aviso silencioso piscando entre nós.

Não se atreva, Clara.

Uma risada amarga borbulhou em meu peito.

Ah, mas eu vou, Arthur. Com certeza eu vou.

"Ele é, na verdade, bastante estabelecido", continuei, saboreando o tremor sutil em sua postura. "Um arquiteto de sucesso, assim como você, Arthur. Dono de sua própria firma."

Os olhos de Arthur dispararam ao redor, uma busca desesperada por uma rota de fuga, uma maneira de controlar a narrativa.

O pânico começou a nublar seu olhar geralmente composto.

Ele tentou balançar a cabeça sutilmente, um apelo silencioso para que eu parasse.

Mas a dor que ele infligiu, a humilhação, era um fogo violento dentro de mim.

Ignorei seu apelo silencioso, meu olhar se fixando no dele, um desafio silencioso.

Meu coração estava batendo forte, uma batida selvagem contra minhas costelas, mas uma estranha sensação de poder percorria meu corpo.

"Ele é um homem adorável", acrescentei, uma doçura açucarada cobrindo minhas palavras. "Muito gentil. Muito atencioso. E o melhor de tudo, ele acredita em honestidade e transparência nos relacionamentos."

O rosto de Arthur perdeu a cor.

Sua mão apertou a de Daniela, quase imperceptivelmente.

Senti uma onda de satisfação, uma emoção sombria e potente.

É isso que você ganha, Arthur. É isso que você merece.

A dor latejante em meu peito, aquela que era constante desde que o vi beijá-la, intensificou-se, um lembrete agudo de sua traição.

Mas agora, era acompanhada por um lampejo de outra coisa: vingança.

Desviei o olhar dele, meu olhar varrendo meus pais.

"Mas é tudo muito novo", esclareci, com um encolher de ombros casual. "Então estamos apenas aproveitando para nos conhecermos. Não há necessidade de apressar nada."

Arthur visivelmente relaxou de alívio.

A tensão em seus ombros diminuiu, e um leve rubor voltou às suas bochechas.

Ele soltou um suspiro que não percebeu que estava segurando.

Nesse momento, o telefone do meu pai tocou, afastando-o da conversa.

"Querida, vou atender essa ligação lá fora", disse ele, dando um beijo rápido na bochecha da minha mãe.

"Cuidado, querido", ela gritou atrás dele. "Está frio lá fora."

Daniela, sempre a noiva solícita, virou-se para mim, um sorriso caloroso no rosto.

"Clara, está ficando tarde. Você gostaria que a gente te deixasse em casa?", ela ofereceu, sua voz gentil, quase maternal.

Meu estômago se revirou.

A ideia de ficar presa em um carro com eles, respirando o mesmo ar, fingindo que tudo estava bem, era insuportável.

"Não, obrigada, Daniela", respondi, minha voz fria. "Eu vou ficar bem. Meus pais ainda estão aqui."

Mas Arthur, sempre o controlador, interveio.

Ele colocou a mão no meu braço, seu toque enviando arrepios de repulsa pela minha espinha.

"Bobagem, Clara", disse ele, seu tom firme, não deixando espaço para discussão. "Está no nosso caminho. É o mínimo que podemos fazer."

Ele me guiou gentil, mas firmemente, em direção à saída, seu aperto em meu braço um comando silencioso.

A noite, que havia começado com esperança, estava rapidamente se transformando em um pesadelo.

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