Capítulo 2

O cheiro estéril do quarto do hospital era um contraste gritante com o caos do parque. A médica, com o rosto sério, falava com Heitor em tons abafados sobre a fragilidade da minha condição, o perigo para o bebê, a necessidade absoluta de repouso e zero estresse. Heitor assentia, os ombros caídos, parecendo um fantasma. Ele parecia cansado. Exausto. Bom.

Ele veio até a minha cama, os olhos avermelhados. "Juliana", ele sussurrou, a mão pairando sobre a minha, sem ousar tocar. "Eu sinto muito. Eu estraguei tudo. Muito mesmo."

Eu olhava para o teto, o olhar vazio. Suas palavras não significavam nada. Eram apenas sons no ar.

"Eu não vou te deixar", ele jurou, a voz falhando. "Nunca mais. Eu prometo."

O toque estridente de seu celular cortou sua súplica desesperada. Ele se encolheu, tirando-o do bolso como se fosse uma cobra. Ele viu o identificador de chamadas e o enfiou de volta.

"Não é nada", ele murmurou, os olhos se desviando dos meus. "Só trabalho. Ligo para eles mais tarde."

Ele não ligaria. Ele não podia. Eu sabia.

"Vá", eu disse, minha voz rouca, a voz de uma estranha. "Vá para ela."

Ele olhou para cima, assustado, os olhos arregalados. "O quê?"

"Vá", repeti, a palavra uma pedra na minha boca. "Eu quero que você vá embora. Quero que você vá para a Kênia e o filho dela. E quero que você fique lá. Não volte."

Seu rosto empalideceu, a cor se esvaindo como se alguém tivesse puxado um tampão. "Juliana, não fale assim", ele suplicou, a voz fina. "Você está chateada. Está magoada. Você não quer dizer isso."

"Ah, mas eu quero", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Quero dizer cada palavra."

Ele tentou me alcançar de novo, os dedos roçando meu braço. Eu recuei, meu corpo se tensionando. Ele puxou a mão para trás como se estivesse queimado.

"Juliana, por favor", ele implorou, a voz rachando. "Nós podemos consertar isso. Eu posso consertar isso. Você, eu, nosso bebê... somos uma família. Vou conseguir os melhores médicos para você. Qualquer coisa que você precisar. Qualquer coisa que precisarmos. Só... não diga isso."

Ele estava divagando, jogando palavras desesperadamente contra uma parede que já havia sido construída.

"Meu café preferido é puro, sem açúcar, sem nada", eu disse, minha voz um sussurro. "Agora você sempre pede com um pingo de leite pra mim. Porque *ela* gosta de um pingo de leite."

Ele congelou, a boca ligeiramente aberta.

"Minhas flores favoritas são lírios", continuei, o olhar fixo no soro intravenoso. "Você me comprou rosas na semana passada. Rosas vermelhas. Assim como ela adora."

Ele me encarou, o rosto desmoronado.

"Você tem amado ela, Heitor", eu disse, finalmente encontrando seus olhos. Os meus pareciam mortos. "Você nunca parou. Você só fingiu."

"Isso não é verdade!", ele gritou, uma negação desesperada e patética.

"É sim", eu disse, fechando os olhos. "E eu cansei de fingir também. Acabou. Eu quero o divórcio."

"Não!", ele gritou, a voz ecoando no quarto silencioso. "Não, você não quer dizer isso! E o nosso bebê? E o nosso casamento? Nossos votos?"

"Nossos votos?", zombei, abrindo os olhos para encará-lo. "Que votos, Heitor? Aqueles que você quebrou no momento em que olhou para ela de novo? Aqueles que você pisoteou enquanto bancava a família feliz no parque, enquanto eu estava sentada sozinha numa sala de espera, temendo pela vida do nosso filho?"

Seu rosto ficou cinzento. Ele tentou falar, mas nenhuma palavra saiu.

"Onde você estava, Heitor?", insisti, minha voz ganhando força, uma fúria fria crescendo dentro de mim. "Quando eu estava com uma dor excruciante? Quando eu estava sangrando? Quando eu pensei que estava perdendo nosso bebê? Onde você estava, meu marido amoroso?"

Ele finalmente encontrou a voz, um som gutural. "Eu... eu estava com a Kênia. Estava tentando explicar."

"Explicar?", ri, um som áspero e quebradiço que rasgou minha garganta. "Explicar o quê? Como você estava posando para fotos, parecendo o pai perfeito, o marido perfeito, com o filho dela? A foto que ela me mandou, a propósito. Uma pequena lembrança do seu momento de família perfeita."

Senti uma onda de adrenalina, uma energia perigosa correndo pelas minhas veias. Eu me levantei, arrancando o soro do meu braço com um puxão selvagem. A pequena ferida sangrou livremente, mas eu não me importei.

"Você é um mentiroso!", gritei, pegando o objeto mais próximo - um copo de plástico - e atirando-o contra a parede. Ele bateu inutilmente. "Um mentiroso egoísta e patético! Você me deixou acreditar nas suas mentiras! Você me deixou ser ferida! Você deixou nosso bebê ser ferido!"

"Juliana, pare! Você vai se machucar!" Ele correu para frente, mas eu o empurrei com toda a minha força.

"Por que você simplesmente não me disse?", solucei, as lágrimas finalmente vindo, quentes e furiosas. "Por que você não disse que a queria? Por que me arrastou por este inferno? Você gostou? De me ver desmoronar? De me ver perder tudo?"

Ele parecia ter levado um soco. "Eu... eu não queria te magoar", ele gaguejou, a voz fraca. "Eu pensei... pensei que poderia lidar com isso. Ela estava morrendo. E o Léo... ele precisava de um pai. Eu só queria fazer a coisa certa."

"A coisa certa?" As palavras tinham gosto de cinzas. Meu coração, que estava acelerado, de repente pareceu pesado, frio, como uma pedra afundando em um poço escuro. "A sua 'coisa certa' quase matou nosso bebê, Heitor. A sua 'coisa certa' me quebrou."

"E nós?", ele perguntou de novo, a voz rachando. "E o nosso filho? Nós não importamos?"

"Você teve sua chance de fazer a gente importar", eu disse, minha voz mal um sussurro, como se as últimas brasas do meu amor tivessem finalmente se apagado. "Você os escolheu. Todas as vezes. E agora... agora é tarde demais."

Eu o observei. Seu rosto, congelado em uma máscara de choque e arrependimento, era agora o rosto de um estranho. Eu não sentia nada além de um vasto e vazio deserto dentro de mim.

Capítulo 3

Heitor saiu, seus passos pesados e lentos, a porta se fechando atrás dele como um martelo final. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, mas era um silêncio bem-vindo, um espaço onde eu finalmente podia respirar sem o peso sufocante de suas mentiras. Minhas mãos ainda tremiam da confrontação, mas minha mente estava friamente clara.

Primeiro, peguei meu celular. Meus dedos voaram pela tela, discando o número que Corina me dera semanas atrás – um advogado de divórcio discreto, mas formidável, que ela conhecia. Isso não era um impulso; era uma decisão forjada na dor, endurecida pela traição. Falei com calma, concisão, descrevendo minha situação, solicitando os papéis necessários.

Então, liguei para Corina. Sua voz estava carregada de alívio quando ouviu a minha. "Juliana, querida! Você está bem? Eu estava tão preocupada."

"Estou bem, Corina", eu disse, a mentira com gosto de serragem. "E vou deixá-lo."

Um instante de silêncio, depois um soluço engasgado do outro lado. "Oh, minha pobre menina", ela sussurrou. "Meu filho é um tolo. Um completo idiota. Venha para casa, Juliana. Venha para mim. Minha casa é sua casa."

"Não é sua culpa, Corina", eu disse a ela, as palavras genuinamente sentidas. Ela tinha sido minha rocha, minha única aliada neste pesadelo.

"É minha culpa por criar um idiota tão cego", ela corrigiu, a voz afiada de autorrecriminação. "Mas você... você foi a melhor coisa que já aconteceu a ele. Você o tirou daquele lugar escuro. Ele nunca te mereceu."

Suas palavras trouxeram uma nova onda de dor, não por ele, mas pelo fantasma de um passado que não existia mais. Meus dedos instintivamente foram para a cicatriz fraca no meu pulso, um lembrete constante da profundidade do meu compromisso com Heitor, e do preço que eu paguei.

Fechei os olhos, e as memórias inundaram, nítidas e vívidas, um contraste gritante com o homem oco que acabara de sair do meu quarto.

Foi há quatro anos. O acidente. Uma lesão que encerrou a carreira de Heitor, um arquiteto em ascensão. Ele estava quebrado, física e emocionalmente. Os médicos salvaram sua perna, mas a luz em seus olhos havia morrido. Ele jazia naquela cama de hospital, uma sombra do homem vibrante que eu conhecia, recusando a reabilitação, recusando-se a comer.

Eu era apenas uma cuidadora na época, recém-formada, designada para o caso dele. Ele era hostil, amargo, afastando todos. Mas eu vi além da raiva, a dor crua por baixo. Dia após dia, eu sentava com ele, conversando, ouvindo, às vezes apenas estando silenciosamente presente. Ele xingava, ele se enfurecia, ele jogava coisas.

"Apenas me deixe em paz!", ele rugiu um dia, a voz rouca, os olhos ardendo de autopiedade. "Eu sou inútil! Minha vida acabou!"

"Não, não acabou!", eu retruquei, surpreendendo a ele e a mim mesma. "Sua vida não acabou, Heitor. Sua vida antiga acabou. E talvez isso seja uma coisa boa. Você não é suas pernas. Você não é sua carreira. Você é mais do que isso."

Ele me encarou, chocado em silêncio. E lentamente, meticulosamente, um lampejo de algo retornou aos seus olhos. Esperança.

Eu o incentivei, gentilmente no início, depois com ferocidade. Eu estava lá para cada passo doloroso, cada lágrima, cada pequena vitória. Meus braços, fortes e firmes, apoiavam seu corpo trêmulo enquanto ele reaprendia a andar. Minha risada enchia seu quarto silencioso. Meu amor, puro e inabalável, o costurou de volta, pedaço por pedaço.

"Você me salvou, Juliana", ele sussurrou uma noite, meses depois, forte e quase inteiro novamente, me puxando para perto. "Você me trouxe de volta à vida. Eu nunca vou esquecer isso. Eu nunca vou te deixar ir."

A memória se desvaneceu, substituída pela amarga realidade de sua traição. Ele havia esquecido. Ele me deixou ir. Ou melhor, ele me deixou cair, enquanto segurava outra.

Um zumbido agudo do meu celular me trouxe de volta ao presente. Meu coração deu um salto, um lampejo de esperança de que pudesse ser Corina, ou o advogado. Mas era Kênia. Uma mensagem com foto.

Meu sangue gelou. Era o meu colar. O medalhão da minha avó, um presente do meu falecido pai, uma herança inestimável. Estava em um chão de azulejo rachado, estilhaçado, sua delicada corrente de prata quebrada. E ao lado, um pé pequeno e triunfante, o pé de Léo, calçado com um tênis sujo.

O texto que acompanhava era simples, brutal: *Ele deu para o filho de verdade dele. Disse que era só lixo. Você não sabia que o filho de verdade dele brinca pesado?*

A raiva, fria e pura, surgiu em mim, eclipsando todo o resto. Meu corpo tremia, não de medo, mas de uma fúria vulcânica. Isso não era apenas sobre Heitor. Era sobre meu pai. Sobre minha família. Sobre crueldade deliberada e calculada.

Arranquei o soro completamente desta vez, a ferida ardendo. Ignorei as enfermeiras que correram, suas vozes frenéticas. "Não!", gritei, passando por elas. "Saiam da minha frente!"

Minhas pernas, ainda fracas, me levaram na pura adrenalina. Invadi as portas, ignorando os protestos, e marchei pelo corredor. Eu sabia exatamente onde ela estava. Heitor tinha deixado escapar. Sua "suíte de recuperação", como ele a chamava. A ironia me sufocou.

Abri a porta do quarto dela com um estrondo. Kênia estava na cama, apoiada em travesseiros, pintando as unhas tranquilamente. Um cheiro fraco e enjoativo de esmalte enchia o ar. Ela parecia totalmente serena, uma imagem de felicidade doméstica, exceto pela camisola hospitalar berrante.

Ela olhou para cima, assustada, os olhos se arregalando. Um sorriso lento e malicioso se espalhou por seu rosto. "Ora, ora, ora", ela ronronou, largando a lixa de unha. "Olha quem decidiu se juntar à festa. Ainda sangrando, estamos? Tão dramática."

"Sua vadia desgraçada", sibilei, minha voz baixa e perigosa. "Você quebrou o medalhão do meu pai. Você deixou seu filho destruir o legado da minha família."

"Ah, aquela coisa velha?", ela zombou, acenando com a mão de forma desdenhosa. "Heitor deu para o Léo. Disse que era lixo. Ele não queria mais que você o tivesse. Disse que o lembrava do erro dele." Ela fez uma pausa, seu sorriso se torcendo. "E por falar em erros... seu pai também foi um erro, não foi? Um verme covarde que deixou sua mãe ser humilhada. Assim como você."

O insulto ao meu pai, que me amou ferozmente, foi a gota d'água. Minha visão ficou vermelha. Eu me lancei sobre ela, minhas mãos encontrando apoio em seus ombros. Eu a sacudi, com força, a cama frágil chacoalhando sob nós.

"Você não sabe nada sobre meu pai!", gritei, minha voz crua de dor e raiva. "Você não sabe nada sobre mim! Você é uma sanguessuga! Uma parasita! Você só quer o dinheiro dele!"

Ela riu, um som agudo e zombeteiro. "Oh, querida, eu quero mais do que o dinheiro dele. Eu o quero. E eu o tenho. Ele está na minha cama todas as noites. Ele chama meu nome. Ele diz que me ama." Ela se inclinou, a voz caindo para um sussurro teatral. "Ele diz que sou eu quem o entende de verdade. Aquela que ele sempre se arrependeu de ter perdido."

Meu estômago revirou. A bile subiu na minha garganta. A imagem de Heitor com ela, a intimidade que ela descreveu, pintou um quadro vívido e doentio em minha mente.

"Você é patética", ela zombou, apreciando minha dor. "Sempre rastejando de volta para ele. Você acha que ele te ama? Ele comprou esta suíte inteira para mim. Ele está pagando por tudo. Ele sabe onde está sua lealdade. Você não é nada para ele. Uma obrigação esquecida."

Algo se partiu dentro de mim. O último fio da minha contenção, da minha dignidade, se desfez e quebrou. Eu a esbofeteei. Com força. O som ecoou pelo quarto. Sua cabeça virou para o lado, uma marca carmesim aparecendo em sua bochecha.

"Você é uma doença", sussurrei, minha voz tremendo de nojo. "E eu vou te cortar das nossas vidas."

"Saia!", ela gritou, agarrando a bochecha. "Heitor! Me ajude! Ela está me atacando!"

A porta se abriu com um estrondo. Heitor estava lá, os olhos arregalados de horror ao ver a cena: eu, de pé sobre Kênia, minha mão ainda levantada, a bochecha dela vermelha e inchada.

"Juliana!", ele berrou, a voz cheia de uma fúria fria que eu nunca tinha ouvido dirigida a mim. Ele agarrou meu braço, seu aperto machucando, e me puxou para longe de Kênia. "Qual é o seu problema? Ela está doente! Ela está debilitada!"

Kênia começou a soluçar dramaticamente, agarrando-se a Heitor. "Ela me atacou, Heitor! Ela está louca! Ela está tentando machucar nosso bebê!"

Nosso bebê. As palavras torceram a faca ainda mais fundo. Eu encarei Heitor, seu rosto contorcido de raiva. Ele olhou para mim como se eu fosse o monstro.

"Você realmente acredita nela?", perguntei, minha voz mal um sussurro, meu coração se desfazendo em pó. "Depois de tudo?"

"Olhe para você!", ele rugiu, sacudindo meu braço. "Você está fora de controle! Você é violenta! Que tipo de exemplo você está dando? Você está colocando tudo em risco!"

"Eu estou colocando tudo em risco?", zombei, uma risada amarga e histérica me escapando. "Você colocou tudo em risco, Heitor! Você! Suas mentiras! Sua traição! Você nos destruiu!"

"Saia!", ele gritou, me empurrando em direção à porta. "Saia daqui antes que você faça mais algum estrago!"

Tropecei para trás, meu braço latejando onde ele me segurou. Meus olhos encontraram os dele uma última vez. Não havia amor ali. Apenas acusação. Apenas nojo.

"Tudo bem", eu disse, minha voz estranhamente calma. "Espero que você aproveite sua nova família. Porque você acabou de perder a sua antiga. Para sempre."

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