No dia do nosso aniversário de casamento, o meu marido, João, deu-me um presente.
Eram papéis de divórcio.
A assinatura dele já estava lá, preta e nítida. O nome dele parecia zombar de mim.
Ele disse, com a voz desprovida de qualquer emoção: "Assina, Lúcia. Estou farto."
Eu olhei para ele. Ele usava o fato que eu lhe comprei. Parecia cansado, mas os seus olhos estavam frios, como se estivesse a olhar para uma estranha.
"Farto? Farto de quê, João?"
A minha voz tremia um pouco, mas eu forcei-me a manter a calma.
"Farto de tudo," ele respondeu, passando a mão pelo cabelo. "Farto desta casa, farto do teu cheiro a hospital, farto de ter de cuidar do teu pai."
O meu pai. Ele estava no quarto ao lado, a dormir. O cancro tinha-lhe tirado quase tudo, mas não a sua dignidade.
"O meu pai está a morrer," eu disse, com a voz baixa. "Tu prometeste que cuidarias de nós."
"Eu sei o que prometi," ele cortou-me. "Mas a Sofia precisa de mim. O filho dela está doente. Ela não tem mais ninguém."
Sofia. A ex-namorada dele. A mulher que ele nunca esqueceu.
O nome dela atingiu-me. Senti uma dor surda no peito.
"E nós? O que somos nós, João? O que sou eu?"
"Tu és forte, Lúcia. Sempre foste," ele disse, e pela primeira vez, evitou o meu olhar. "A Sofia é frágil. Ela precisa de proteção."
Ele pegou na sua mala, já pronta ao pé da porta. Ele tinha planeado isto.
"Eu vou transferir dinheiro para a tua conta todos os meses. O suficiente para o tratamento do teu pai e para as tuas despesas."
Ele agia como se estivesse a fazer-me um favor. Como se dinheiro pudesse substituir a sua presença, a sua promessa.
"Não quero o teu dinheiro," eu disse, empurrando os papéis de volta para ele. "Quero o meu marido."
Ele riu, um som amargo e sem alegria. "Tu não tens um marido, Lúcia. Não há muito tempo."
Ele abriu a porta. O ar frio da noite entrou, fazendo-me arrepiar.
"Assina os papéis. O meu advogado entrará em contacto contigo."
E com isso, ele saiu. A porta fechou-se com um clique suave, mas soou como um tiro no silêncio do nosso apartamento.
Fiquei ali, a olhar para a porta fechada, os papéis de divórcio na mesa à minha frente.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem da Sofia. Uma foto.
Era ela e o João, a sorrir. Na legenda, dizia: "Finalmente em casa. Obrigada por escolheres a nós."
"Nós." A palavra ficou a ecoar na minha cabeça.
Então era verdade. Ele não estava apenas a ajudá-la. Ele estava a construir uma nova vida com ela.
Senti as lágrimas a quererem sair, mas engoli-as. Não ia chorar. Não por ele.
Peguei nos papéis. A minha mão tremia tanto que mal conseguia segurar a caneta.
Mas eu assinei.
Dois dias depois, o meu pai teve uma crise. A respiração dele tornou-se fraca e superficial.
Chamei a ambulância. Os paramédicos entraram a correr, as suas caras sérias.
Enquanto o colocavam na maca, o meu pai abriu os olhos. Ele procurou a minha mão.
"Lúcia," ele sussurrou, a sua voz um fio. "Onde está o João?"
Eu apertei a mão dele. "Ele está a trabalhar, pai. Teve uma emergência."
Menti. A mentira saiu com um gosto amargo.
Ele sorriu, um sorriso fraco. "Ele é um bom rapaz. Cuida bem de ti."
Depois, fechou os olhos.
No hospital, os médicos foram diretos. O cancro tinha-se espalhado. Era uma questão de dias.
Sentei-me ao lado da cama dele, a segurar a sua mão, a ouvir o som constante do monitor cardíaco.
O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Atendi.
"É a Lúcia?" Uma voz profissional de mulher.
"Sim."
"Sou a advogada do João. Ele pediu-me para finalizar o processo de divórcio o mais rápido possível. Ele quer casar-se novamente."
Casar-se novamente.
Senti o chão a desaparecer debaixo dos meus pés.
"Ele não pode esperar?" perguntei, a minha voz a falhar. "O meu pai está a morrer."
Houve uma pausa do outro lado. "Lamento a sua perda. Mas o meu cliente insiste. Ele precisa de se casar por causa do seguro de saúde do filho da noiva dele. É urgente."
O filho da Sofia. Claro.
"Diga-lhe que eu concordo com tudo," disse eu, a voz vazia. "Apenas acabem com isto."
Desliguei. Olhei para o meu pai. O seu rosto estava pacífico. Ele não sabia de nada. E eu não lhe ia contar.
Naquela noite, o meu pai morreu.
Eu estava sozinha na sala de espera quando o médico me deu a notícia.
Não chorei. Senti-me oca, como se tudo dentro de mim tivesse sido arrancado.
Peguei no meu telemóvel e liguei ao João. Precisava que ele soubesse. Apesar de tudo, ele era a única pessoa que me restava.
A chamada foi para o voicemail.
Deixei uma mensagem. "O pai morreu."
A minha voz soou estranha, distante.
Esperei. As horas passaram. Nenhuma chamada de volta. Nenhuma mensagem.
Silêncio.