Capítulo 3

O funeral foi três dias depois.

Foi um dia cinzento e chuvoso, a condizer com o meu humor.

A minha sogra, a Dona Isabel, agarrou o meu braço com força.

"Eva, tens de ser forte. Pelo Pedro. Ele está a sofrer muito."

Eu não respondi. Apenas olhei para o pequeno caixão a ser baixado à terra.

O meu sofrimento não importava para ninguém?

O Pedro estava a chorar alto, apoiado pelo seu pai, o Senhor Artur.

Parecia um espetáculo.

Eu não derramei uma única lágrima. Estava vazia por dentro.

Depois do enterro, todos foram para casa dos meus sogros.

Eu não queria ir, mas a Dona Isabel insistiu.

"Tens de vir. Somos uma família. Temos de nos apoiar uns aos outros."

A casa estava cheia de gente. Parentes e amigos do Pedro.

Todos lhe davam os pêsames. Todos o abraçavam.

A mim, lançavam-me olhares de pena ou de acusação.

Como se eu fosse a mãe fria que não chorava pelo filho.

A Sofia também lá estava, sempre ao lado do Pedro.

Ela trazia-lhe um copo de água, um prato de comida.

Sentei-me num canto, a observar.

O Senhor Artur aproximou-se de mim, a sua expressão era severa.

"Eva, ouvi dizer que pediste o divórcio ao Pedro."

"Sim."

"Retira o que disseste. Foi um momento de dor. Não estavas a pensar com clareza."

"Eu estava a pensar com mais clareza do que nunca."

Ele franziu o sobrolho. "O meu filho cometeu um erro. Um erro terrível, admito. Mas ele ama-te. E amava o Leo. Destruir o teu casamento não vai trazer o Leo de volta."

"Eu sei disso. Mas ficar casada com o homem cuja negligência matou o meu filho é algo que não consigo fazer."

A sua voz tornou-se mais dura. "Não uses essa palavra. Não foi negligência, foi um acidente. E tu também tens culpa. Onde estavas tu? A trabalhar, como sempre. Se fosses uma mãe mais presente, talvez isto não tivesse acontecido."

As suas palavras atingiram-me.

Ele estava a culpar-me.

Levantei-me. O meu corpo tremia ligeiramente.

"Vou-me embora."

"É melhor assim", disse ele, virando-me as costas.

Saí daquela casa e não olhei para trás.

A chuva tinha parado, mas o céu continuava cinzento.

Como o meu futuro.

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