Capítulo 2

Ponto de Vista: Helena Soares

Deitada no mármore frio, olhei para os dois rostos retorcidos por um ódio tão profundo que parecia sugar o próprio ar da sala. Um terror primitivo, frio e agudo, me dominou. Não era por mim. Era pela pequena vida pulsante dentro de mim. Meu bebê.

"O bebê... é do Augusto", engasguei, as palavras com gosto de sangue e medo. "Caio, você tem que me ouvir-"

Ele não me deixou terminar. Ele caminhou até a grande mesa de entrada, pegou um pesado vaso de cristal – um presente de Augusto – e o espatifou no chão. Cacos de vidro explodiram pelo mármore como confete mortal.

"Não se atreva a pronunciar o nome dele", Caio rugiu, o peito arfando. Ele pegou um punhado dos pedaços maiores e irregulares. "Você tem alguma ideia do que passamos? Comendo comida estragada, morando num apartamento de um cômodo com ratos, enquanto você estava aqui, dormindo em lençóis de seda!"

Ele se agachou, forçando meu queixo para cima com uma mão enquanto a outra trazia o vidro afiado para minha boca. "Você quer conversar? Tudo bem. Coma isso."

Ele enfiou o vidro na minha boca.

O mundo se dissolveu em uma cacofonia de dor. As bordas afiadas como navalhas cortaram meus lábios, minha língua, o interior das minhas bochechas. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta, mas eu não conseguia vomitar, não conseguia respirar. O gosto metálico do meu próprio sangue preencheu meus sentidos.

Tentei levantar uma mão, arranhar seu rosto, empurrá-lo para longe, mas era como se mover debaixo d'água. Meus membros estavam pesados, inúteis.

Então, uma nova dor excruciante. O salto agulha de sola vermelha de Jéssica desceu com força sobre minha mão estendida, prendendo-a no chão. Ouvi um estalo doentio, e uma agonia incandescente subiu pelo meu braço.

Um grito se formou na minha garganta, mas ficou preso, silenciado pelo vidro e pelo sangue. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, borrando seus rostos demoníacos em um quadro grotesco.

Caio finalmente afastou a mão, um olhar de satisfação sombria no rosto. Ele cuspiu no chão ao lado da minha cabeça. "É isso que prostitutas mentirosas ganham."

Meu corpo inteiro tremia com uma dor tão imensa que parecia que eu estava me partindo. Mas então, meu olhar caiu sobre Jéssica. Ela estava movendo o pé, lenta e deliberadamente. O salto fino e pontudo de seu sapato pairava diretamente sobre a curva da minha barriga.

Um novo tipo de terror, uma rajada ártica de pavor, congelou o sangue em minhas veias.

"Não", a palavra foi um sussurro mutilado e sangrento. "Por favor... o bebê não."

Com uma força que eu não sabia que possuía, eu me lancei, minha mão esmagada esquecida. Enrolei meus dedos em seu tornozelo fino, meu aperto uma morsa desesperada de ferro. Eu morreria antes de deixá-la machucar meu filho.

Este bebê não era apenas um desejo. Foram três anos de esperança silenciosa e decepções esmagadoras. Três anos de exames invasivos, procedimentos dolorosos e conversas sussurradas com especialistas que todos diziam a mesma coisa: o acidente de Augusto havia deixado suas chances de ter um filho perto de zero. Esta gravidez era um milagre. Uma chance em um milhão que trouxe uma luz aos olhos reservados de Augusto que eu nunca tinha visto antes. Este bebê era nosso tudo.

Jéssica me olhou com desdém, o lábio curvado em nojo. "Olhe para você. Como uma cadela protegendo seus filhotes. É patético."

"Acabe logo com isso, Jéssica", disse Caio impacientemente, limpando a mão ensanguentada nas calças. "Não quero que ninguém descubra que uma Soares deu à luz um bastardo enquanto vivia sob o teto dos Mendonça. É humilhante."

A ordem era explícita. A intenção, monstruosa.

"Livre-se disso."

Minha cabeça balançava para frente e para trás, um gesto frenético e inútil. Sangue e saliva escorriam do meu queixo, misturando-se com os detritos no chão. Tentei falar, gritar, fazê-los entender o erro catastrófico que estavam cometendo.

Finalmente, com um esforço de revirar o estômago, consegui cuspir os cacos de vidro. O alívio foi instantaneamente substituído por uma necessidade desesperada de fazê-los me ouvir.

"Augusto", solucei, o nome rasgando minha garganta ferida. "O bebê é do Augusto! Ele é o pai!"

Olhei do semblante incrédulo de Caio para o sorriso zombeteiro de Jéssica, meu coração afundando a cada batida. "Estou dizendo a verdade. É o filho dele. Seu sobrinho."

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Capítulo 3

Ponto de Vista: Helena Soares

Por um segundo fugaz, um lampejo de incerteza cruzou o rosto de Caio. Ele congelou, os olhos arregalados.

Então, ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada selvagem e insana que ecoou pelos tetos altos. Era o som da loucura.

"Augusto?", ele finalmente ofegou, enxugando uma lágrima de alegria do olho. "Você realmente é uma vadia desesperada e mentirosa. Não poderia ter escolhido uma pessoa pior para nomear."

Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu, o hálito quente e azedo. "Todo mundo sabe, Helena. Todo mundo. Meu irmão é estéril. O acidente de carro de dez anos atrás cuidou disso. Ele tem sido um homem morto-vivo desde então, incapaz de produzir um herdeiro. Eu", ele apontou um polegar para o peito, "sou o único que pode continuar a linhagem dos Mendonça."

Jéssica assentiu avidamente, seus olhos brilhando com malícia. "Ele está certo. Como ousa arrastar um homem bom como Augusto para suas mentiras imundas? Ele te deu abrigo, e é assim que você o paga? Alegando que seu bastardo é dele?"

Eu vi então. Suas mentes estavam fechadas, seladas por anos de conhecimento público e sua própria ganância desesperada. Discutir era inútil. Era como argumentar com um furacão. Só os deixaria mais irritados, mais violentos.

Minha única prioridade era meu bebê. Eu tinha que sobreviver. Eu tinha que protegê-lo.

Parei de lutar, deixando meu corpo amolecer no chão. "É verdade", sussurrei, minha voz rouca. "É filho do Augusto."

Tive uma última ideia desesperada. "Deixe-me... deixe-me ligar para ele. Deixe-me ligar para o Augusto. Ele mesmo vai te dizer."

Um fio de esperança se acendeu em meu peito. Se eu pudesse apenas colocar Augusto no telefone, este pesadelo acabaria. Ele cairia sobre eles com toda a força de sua fúria silenciosa, e eles não seriam nada mais que poeira.

Tateei o bolso do meu vestido, meus dedos se fechando ao redor do metal frio do meu celular.

Antes que eu pudesse tirá-lo, o pé de Caio se esticou, chutando o celular da minha mão. Ele deslizou pelo chão de mármore.

"Acho que não", ele debochou. "Você não vai ligar para ninguém. Você não vai conseguir que meu irmão te acoberte para que você possa colocar as mãos no meu dinheiro."

Ele caminhou até o celular e pisou nele com um estalo doentio. A tela se estilhaçou e depois ficou preta.

Minha esperança se quebrou junto com ela.

"Não", implorei, balançando a cabeça enquanto o último vestígio de minha força se esvaía. "Não é pelo dinheiro. Eu não quero nada disso. Apenas... apenas me deixe ir."

Mas eles não estavam ouvindo. Estavam perdidos em sua própria narrativa distorcida.

Os olhos de Jéssica se estreitaram, uma cruel percepção surgindo em seu rosto. "Ela não vai desistir, Caio. Enquanto essa coisa estiver dentro dela, ela continuará lutando por isso. Ela continuará tentando fazê-lo passar por um Mendonça."

Ela olhou para o pé, ainda pairando sobre minha barriga. Então ela olhou para Caio, uma pergunta silenciosa e cruel passando entre eles.

Ele deu um aceno de cabeça curto e decisivo.

O salto agulha de sola vermelha desceu. O salto pontudo cravou em meu abdômen com força brutal e calculada.

Um grito, primitivo e cru, rasgou minha garganta. Era um som de agonia além de qualquer coisa que eu já conhecera. Um fogo irrompeu em meu útero, uma dor dilacerante que fez o golpe no meu rosto e os ossos esmagados na minha mão parecerem memórias distantes.

Sob o salto, senti um tremor frenético e aterrorizado. Meu bebê. Meu filho. Ele estava se debatendo, convulsionando em uma agonia silenciosa própria.

Minha visão se afunilou. O teto dourado, os rostos cruéis, tudo se desvaneceu em um ponto preto. Tudo o que existia era a dor e os movimentos desesperados e desvanecentes do meu filho.

Levantei a cabeça, meus olhos se fixando nos de Jéssica. "Por favor", implorei, a palavra um soluço quebrado. "Não mate meu bebê. Eu faço qualquer coisa."

Jéssica sorriu, uma curva lenta e triunfante de seus lábios. "Qualquer coisa?", ela ronronou.

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