Eu correspondi com um beijo no rosto e um sorriso contido.
- Está tudo indo bem? - Ele olhou de soslaio para toda sua volta observando todo o evento.
- Sim, pai. Todos os preparativos foram concluídos.
- Esperamos que sim. A presença de vocês aqui é um reflexo direto do nosso nome.
Era sempre assim. Eu sentia que era mais uma vitrine do que uma filha. Um retrato daquilo que meu pai gostaria de exibir: pureza, devoção, disciplina. E um corpo que, se dependesse dele, seria moldado como porcelana.
Caminhei um pouco com eles até a mesa, onde um dos voluntários oferecia doces em bandejas pequenas. Distraída, peguei uma dessas porções - um bolinho delicado, com açúcar por cima e um cheiro suave de limão. Não planejava comer ali, na frente de todos. Mas o gesto foi automático. E, assim que dei a primeira mordida, ouvi a voz do meu pai atrás de mim, baixa, mas cortante como sempre:
- Às vezes, os pequenos excessos dizem muito sobre o que não conseguimos controlar, Laura.
Fiquei com o bolinho parado na boca, o sabor antes leve e doce agora se transformando em algo pesado, amargo. O guardanapo que eu segurava tremia um pouco, mas disfarcei. Engoli devagar, sentindo o coração acelerar como se tivesse cometido um pecado imperdoável. A vergonha era maior do que qualquer prazer que aquele pedaço de bolo pudesse ter me dado.
Antes que eu pudesse responder - ou reagir - meus olhos foram puxados por uma figura ao fundo do salão.
Ele estava ali.
Não precisei que ninguém o apresentasse. Eu soube, na mesma hora, que era ele. O homem que o arcebispo mencionara. Padre Andrei Iliescu.
Alto, expressão serena, olhos claros demais para serem ignorados. A batina preta bem alinhada contrastava com a leve sombra da barba por fazer - quase imperceptível, mas suficiente para dar-lhe uma humanidade desconcertante.
Ao lado do arcebispo, ele caminhava lentamente na minha direção, atento às palavras que lhe eram ditas. Mas antes que chegasse perto, eu notei algo.
Ele olhou para mim.
Não foi um olhar qualquer. Foi um olhar preciso, direto, como se tivesse escutado o comentário do meu pai. Como se tivesse percebido a tensão no ar. Seus olhos não carregavam julgamento, mas havia uma pergunta neles. Uma pausa. Um silêncio que me atravessou inteira.
Desviei o olhar antes de entender o que aquilo queria dizer. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que não era eu quem estava observando o mundo - mas o mundo que estava me observando de volta.
Virei-me devagar, encarando meu pai, minha mãe, a mesa de doces; encaro qualquer direção, menos na direção do padre novato. De alguma maneira bizarra, olhar para a presença dele tão onipotente pareceu um pouco errado. Até que eu ouvi a voz do arcebispo atrás de mim:
- Laura, - disse ele com aquele tom sempre afável. - Este é o Padre Andrei Iliescu, recém-chegado da Romênia. Veio colaborar conosco nas próximas semanas.
Eu já estava de frente para ele quando nossos olhos se encontraram. E mesmo assim, senti como se o chão tivesse mudado de lugar sob meus pés.
Padre Andrei não era como os outros homens que costumavam passar por ali. Não era como ninguém que eu já tivesse visto, na verdade. Alto, de semblante sóbrio, a pele Laura contrastava com os traços fortes e marcados. Os olhos eram frios como aço, e ainda assim, havia neles uma intensidade silenciosa. Eu não sabia explicar por quê, mas senti um desconforto estranho, um incômodo que era quase físico. Uma sensação de que ele via mais do que deveria.
- É um prazer, Irmã Laura - ele disse com um leve aceno, a voz carregando um sotaque firme e gentil ao mesmo tempo.
Respondi com um gesto contido, lutando contra a vontade involuntária de recuar um passo. A presença dele era... demais. Não de forma indevida. Mas pesada. Marcante. Como se o ar tivesse ficado mais espesso ao redor de mim.
Não era a primeira vez que eu via um padre bonito - mas nunca assim. Nunca alguém que parecesse tão deslocado do mundo e, ainda assim, incrivelmente presente.
- Ele ficará conosco por algumas semanas - disse o arcebispo, com orgulho. - Vai nos ajudar com os projetos sociais, especialmente com os jovens em situação de vulnerabilidade. Tem uma experiência admirável, mesmo sendo tão novo.
"Tão novo", repeti em pensamento, tentando não fixar os olhos nele. Mas era difícil. Não por vaidade. Nem por desejo - não, eu não era esse tipo de mulher. Não mais. Mas havia algo naquele homem que instigava. Como um ímã, ou um lembrete de tudo que eu me proibia sentir.
Me repreendi em silêncio. O coração ainda acelerado, como se eu tivesse cometido uma infração só por perceber demais.
Logo, mais pessoas se aproximaram, e a conversa se dispersou em cumprimentos formais e palavras corteses. O salão estava lindamente decorado, com luzes suaves e música clássica ao fundo. Era o tipo de noite que minha mãe chamaria de "abençoada".
- O jantar estava maravilhoso - comentou o arcebispo, sorrindo largo.
- De fato - respondeu minha mãe, elegante no vestido vinho. - Aquele arroz com amêndoas estava divino.
- Mas equilíbrio é sempre importante, não é, Laura? - disse meu pai, num tom leve, mas que ardia por dentro. - Principalmente quando se trata de certos exageros.
O comentário veio como uma colherada de sal no meio da sobremesa.
Abaixei os olhos. Eu tinha comido pequeno pedaço de bolo de limão, como todo mundo. Nada demais. Mas meu pai tinha um talento especial para transformar qualquer pequena liberdade em um alerta.
E então, sem querer, olhei de novo para o padre. Ele estava ao lado do arcebispo, mas os olhos dele... estavam em mim. Não exatamente. Mas sim. Era como se ele tivesse escutado a frase. Ou sentido a tensão. O olhar de Andrei era impassível - e ainda assim, havia algo na maneira como franziu levemente a testa que me fez remexer, desconfortável.
Como se ele estivesse catalogando tudo.
Desviei o olhar, sentindo um calor no rosto que não vinha das velas. Nem do vinho.
**
Pouco depois, afastada do burburinho, encontrei minha mãe perto de uma das colunas laterais, observando os convidados com um sorriso satisfeito no rosto. Um alívio suave me atravessou o peito ao vê-la assim, desperta, presente. Ultimamente, isso estava acontecendo com mais frequência do que eu esperava. Ainda era raro... mas menos raro do que antes. E, naquele instante, era o suficiente.
- Está tudo muito bonito, não acha? - disse ela, estendendo a mão para ajeitar discretamente a manga do meu hábito. - Você sempre foi boa com os detalhes. Seu pai finge que não nota, mas ele se orgulha.
Tentei sorrir.
- Acho que ele se orgulharia mais se eu tivesse recusado o bolo - falei, tentando soar leve, mas sentindo a dor ainda presa na garganta.
- ah, mas quem resiste a uma boa sobremesa, principalmente depois desse jantar maravilhoso.- Minha mãe suspira e me olha com doçura. Tocou meu braço de leve.
- Você é forte, Laura. E é boa. Não precisa se esforçar tanto para provar isso.
Aquelas palavras me pegaram de surpresa.
- Eu não...
- Eu sei - ela me interrompeu com um sorriso sereno. - Só não se esqueça de que ser correta não é o mesmo que ser dura consigo mesma.
Por um instante, me senti pequena. Não infantilizada... mas acolhida. Era raro sentir isso vindo dela, mas quando acontecia, era como um cobertor morno numa noite fria.
- E o novo padre? - minha mãe perguntou, voltando os olhos em direção à entrada do salão. - As meninas não falam de outra coisa. Acho que os cochichos já chegaram aos seus ouvidos, não é?
Assenti, quase rindo.
- Chegaram.
- Bem... não é todo dia que aparece um padre que parece ter saído de um filme europeu.
Arqueei as sobrancelhas, divertida.
- Mãe! - Eu sorrio divertida balançando a cabeça.
- Só estou dizendo que é inusitado. Ele parece... diferente. E isso sempre atrai olhares.
Não respondi. Preferi guardar o silêncio. Talvez fosse isso. Só isso. Algo diferente. E é por isso que eu não conseguia parar de pensar no modo como ele me olhara. Ou no fato de que, ao lado do arcebispo, ele parecia estar ali... e não estar.
Suspirei, deixando o olhar escorregar até a porta principal.
**
Algo naquela noite estava fora do lugar. E eu, mesmo sem entender, já sentia que era apenas o começo.
Observei o salão com os braços cruzados diante do peito, os olhos vagando pelo ambiente com a precisão de quem já conhecia cada canto daquele espaço, mas sempre se impressionava com a sua grandiosidade. As velas iluminavam suavemente o ambiente, refletindo nas paredes de pedra os seus brilhos dourados. Os arranjos de flores estavam dispostos com delicadeza, conforme os planos que eu e as outras freiras havíamos idealizado, e o cheiro da madeira, misturado com o aroma de incenso e flores frescas, preenchia a Basílica.
Era quase irônico que tudo estivesse tão perfeitamente alinhado enquanto eu, por dentro, me sentia tão deslocada. O evento estava sendo um sucesso, sem dúvidas. O arcebispo, imerso em sua conversa com os doadores, sorria em satisfação. As outras freiras circulavam pelo salão, fazendo suas funções com diligência, e os convidados pareciam maravilhados com o que a Basílica tinha a oferecer. Eu, porém, não conseguia sentir o mesmo êxtase que via nos rostos de todos à minha volta.
Talvez fosse o contraste entre o que era exigido de mim e o que sentia dentro de mim. Sempre fui boa em cumprir papéis, mas a sensação de que tudo ao meu redor estava tão distante de quem eu realmente era, de quem eu queria ser, se intensificava à medida que a noite avançava. Procurava algo que me conectasse com aquele evento, com o ambiente ao redor. Mas o que realmente me puxava era a sensação de que algo estava prestes a acontecer.
Olhei discretamente para o outro lado do salão, onde o Padre Andrei conversava com um pequeno grupo de religiosos, todos em tons de cinza e preto, com os hábitos alinhados e serenos. Ele se destacava entre eles de maneira sutil, não por sua aparência, mas pela postura calma, mas imponente. Mordi o lábio inferior sem querer, tentando não pensar mais sobre o fato de que ele era muito... bonito para um padre. O fato de ser romeno, misterioso, apenas acentuava aquilo. Eu já não sabia se aquilo era natural ou se apenas a tensão do evento estava começando a me afetar de uma maneira inesperada.
Respirei fundo, tentando afastar esses pensamentos. Ele era apenas mais um homem, como qualquer outro. Apenas um padre que logo estaria de volta à sua missão. Ele não tinha nada a ver com a minha vida, não deveria ter.
Ainda assim, não pude deixar de reparar na maneira como ele se movia, como a luz da Basílica destacava os traços fortes de seu rosto e os olhos que pareciam, por um momento, encarar algo distante.
- Irmã Laura.
A voz suave e firme da Abadessa me interrompeu, trazendo-me de volta à realidade. Virei-me e encontrei a madre Elisa, como sempre, impecável em sua postura e com um olhar atento e preciso, como se estivesse constantemente lendo a situação ao seu redor. Ela usava o hábito com a mesma solenidade de sempre, mas seus olhos, embora gentis, não deixavam de ser afiados.
- Abadessa Elisa, boa noite - disse, forçando um sorriso.
- O arcebispo falou muito bem de você, minha filha - disse a madre, sem rodeios, seu tom direto e inquestionável. Observei-a atentamente. Ela parecia querer dizer algo mais, mas deixou o silêncio suspenso por um instante. - Amanhã cedo - continuou a Abadessa - o Padre Andrei estará se familiarizando com a Basílica. Ele precisará conhecer as áreas onde os atendimentos são realizados, os alojamentos e as dependências sociais. Nada mais justo que você o acompanhe, pois é você quem conhece melhor este lugar.
Franzi ligeiramente a testa, surpresa pela ordem inesperada. Eu não estava preparada para essa responsabilidade.
- Eu? - perguntei, com uma expressão confusa, quase involuntária. Era uma tarefa que eu geralmente desempenhava com outras freiras ou com os visitantes comuns, mas o fato de estar sendo designada para guiá-lo, especialmente ele, fez com que meu estômago se revirasse um pouco. Era mais do que uma simples obrigação - havia algo no tom da madre que soava como um convite para algo além do esperado.
A madre Elisa me olhou com uma suavidade que contrastava com sua postura rígida e sua autoridade natural. Senti-me, por um momento, vulnerável sob aquele olhar. Eu poderia tentar argumentar, mas sabia que seria em vão.
- Sim, madre. Estarei lá - respondi com firmeza, tentando esconder a apreensão que me apertava o peito.
A madre Elisa assentiu com um movimento de cabeça, e notei como seus olhos estavam atentos a cada um dos meus gestos, como se estivesse esperando mais do que um simples consentimento.