Capítulo 2

O telefone tocou de forma estridente, rasgando o silêncio da noite no meu pequeno apartamento no Porto. A voz do outro lado era apressada, quase sem fôlego.

"Raelyn? É o Afonso. O Kieran... ele sofreu um acidente de mota. Estamos no Hospital de São João."

O meu coração parou por um segundo. Senti o frio da noite entrar pela janela aberta, mas não era nada comparado ao gelo que se espalhava pelas minhas veias. Larguei a guitarra, o som surdo ecoando no chão de madeira. Sem pensar, agarrei num casaco e corri para a rua.

Cheguei ao hospital ofegante, o cheiro a desinfetante a invadir-me as narinas. Encontrei o corredor do quarto dele, mas parei antes de entrar. A porta estava entreaberta e ouvi risos.

"Aquela fadista idiota, a Raelyn. Aposto que já está a caminho, a chorar."

Era a voz do Afonso, o melhor amigo do Kieran.

"Claro que está," respondeu o Kieran, a sua voz arrastada pela dor, mas cheia de desprezo. "Ela é a minha cadelinha de fado. Nunca me deixaria, não importa o que eu faça."

A minha mão, que estava prestes a empurrar a porta, congelou no ar. Senti uma dor aguda no peito, uma humilhação que me queimava por dentro. Cadelinha de fado. Era assim que ele me via.

Respirei fundo, empurrei a porta e entrei. O sorriso desapareceu do rosto dos amigos dele. O Kieran olhou para mim, os seus olhos azuis frios e calculistas.

"Olha quem chegou," disse o Afonso com um sorriso trocista. "A nossa salvadora."

"Ouve, Raelyn," continuou ele, "o Kieran está magoado e aborrecido. Porque não cantas um fado para nós? Algo sobre como ele é incrível e como tu não és nada sem ele. Isso animá-lo-ia."

Senti o sangue a subir-me ao rosto. A minha garganta secou. Eu era uma fadista, o meu orgulho estava na minha música, na dor e na saudade que ela transmitia. Usá-la para me humilhar era a pior das torturas.

Mas então lembrei-me do meu objetivo. Lembrei-me do Tiago. O casamento tinha de acontecer. Não podia estragar tudo agora.

"Claro," disse eu, a minha voz um sussurro.

Peguei na guitarra imaginária, fechei os olhos para não ver os seus rostos trocistas e comecei a cantar uma melodia improvisada, com letras que me rasgavam a alma a cada palavra. Elogiei a sua coragem, a sua beleza, a sua força, e rebaixei-me a um mero servo.

Quando estava prestes a terminar, o Kieran interrompeu-me com um gesto de enfado.

"Chega. Para com essa porcaria. A tua voz irrita-me."

Ele atirou-me a carteira.

"Vai àquele restaurante no Douro, o que eu gosto. Traz-me leitão assado. Agora."

Saí do quarto como um autómato, as lágrimas a quererem cair, mas eu não as deixei. A humilhação era um preço pequeno a pagar. Atravessei a cidade de volta ao Vale do Douro, uma viagem de quase duas horas, apenas para lhe comprar o jantar.

Quando voltei, o quarto estava escuro e silencioso. Os amigos dele tinham ido embora. Aproximei-me da cama e ouvi-o a murmurar durante o sono.

"Fiona... por favor, volta para mim... Se voltares, eu cancelo o casamento... Eu cancelo tudo..."

O prato de leitão escorregou das minhas mãos e partiu-se no chão. O cheiro da comida misturou-se com o cheiro do desinfetante, criando um aroma nauseante. O meu sangue gelou. A mão que eu tinha cortado num caco de vidro do prato começou a sangrar, mas eu não senti nada.

Nesse momento, uma voz mecânica soou na minha cabeça, fria e sem emoção.

[Progresso da missão: 99%.]

Eu sabia. Eu sempre soube que não era amada. Mas ouvi-lo dizer aquilo, mesmo em sonhos, confirmou a verdade brutal. Eu era apenas uma ferramenta, um peão no seu jogo para reconquistar a Fiona.

Mas não importava. Nada disso importava.

Fechei os olhos e a imagem do Tiago invadiu a minha mente. O seu sorriso, o seu toque, o som da sua risada. Ele era a minha única razão de viver, a única razão pela qual eu estava a suportar este inferno.

"Tiago," sussurrei para o vazio do quarto. "Aguenta mais um pouco. Eu vou trazer-te de volta."

Capítulo 3

Acordei na poltrona desconfortável ao lado da cama do hospital, com o pescoço dorido. O sol da manhã entrava pela janela, iluminando o rosto do Kieran. Ele já estava acordado, a olhar para o telemóvel com um sorriso que eu nunca tinha visto dirigido a mim. Era um sorriso terno, cheio de saudade.

Ele estava a ver fotos da Fiona.

"Raelyn," disse ele sem desviar os olhos do ecrã. "A Fiona vai voltar do Brasil. Vai haver uma festa de boas-vindas para ela na propriedade esta noite. Vais comigo."

Não era um pedido, era uma ordem. O meu estômago revirou-se. Eu sabia o que aquilo significava: mais uma noite de humilhação, desta vez em frente à mulher que ele realmente amava.

"Kieran, eu..."

"Vais," repetiu ele, finalmente olhando para mim, o seu olhar frio como gelo. "E veste-te de forma apropriada. Não me envergonhes."

A festa na Gordon Port Wine Estate era um espetáculo de riqueza e poder. O cheiro a vinho do Porto e a comida cara pairava no ar. Eu sentia-me deslocada no meu vestido simples, um peixe fora de água no meio de tubarões.

Assim que chegámos, um grupo de amigos do Kieran, liderado pelo Afonso, cercou-nos. A Fiona estava com eles, deslumbrante num vestido vermelho, com um sorriso vitorioso nos lábios.

"Kieran, querido!" disse o Afonso, com a voz alta para que todos ouvissem. "Estávamos a falar sobre a tua... nova aquisição. Ela parece muito dedicada. Ouve, as regras da casa dizem que tens de beber um copo de Porto por cada ano que a Fiona esteve fora. São três anos. Mas tu acabaste de sair do hospital. Não podes beber."

Ele olhou para mim com um brilho malicioso nos olhos.

"Mas a tua noiva pode beber por ti, não pode?"

O Kieran encolheu os ombros, um sorriso cruel a formar-se nos seus lábios. Ele não disse nada, o que era uma resposta em si. A humilhação era o prato principal da noite, e eu era o sacrifício.

Um a um, eles encheram três grandes copos com o vinho do Porto mais forte da propriedade. Peguei no primeiro copo, a minha mão a tremer ligeiramente. O líquido escuro desceu a queimar pela minha garganta. Depois o segundo. E o terceiro. O meu estômago começou a protestar, uma dor aguda a espalhar-se pelo meu corpo. Senti o suor frio na minha testa.

Corri para a casa de banho, vomitando tudo numa torrente violenta. Quando voltei, pálida e a tremer, ouvi a Fiona a falar com o Kieran num canto.

"Ela realmente faz tudo o que tu mandas, não é? É como um cãozinho obediente."

"Ela sabe o seu lugar," respondeu o Kieran, a sua voz cheia de arrogância. "É submissa. Gosta de servir."

Senti uma onda de náusea, mas não era do álcool. Era da dor, da verdade nua e crua das suas palavras. Eu era invisível para ele, um objeto a ser usado e descartado.

Nesse momento, a Fiona fez o seu grande anúncio, a sua voz a ecoar pela sala.

"Queridos amigos, tenho uma notícia maravilhosa para partilhar. Eu e o meu querido noivo, o maior magnata do café do Brasil, vamos casar-nos no próximo mês!"

O copo na mão do Kieran estilhaçou-se no chão. O seu rosto ficou pálido, os seus olhos fixos na Fiona com uma mistura de choque e fúria. A sua mandíbula estava tensa, os nós dos dedos brancos.

A festa acabou abruptamente. O Kieran agarrou-me pelo braço, a sua força a magoar-me, e arrastou-me para fora. Ele estava cego de raiva, e eu sabia que a noite estava longe de terminar. Eu apenas o segui, uma sombra silenciosa na sua tempestade de fúria.

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