A minha carteira desapareceu.
Simplesmente sumiu.
Procurei no bolso do casaco, na mala, em todo o lado. Nada.
O pânico inicial não foi pelo dinheiro ou pelos cartões de crédito, mas por uma foto gasta de mim e da Isabela, e pela nossa "certidão de casamento" que eu guardava dobrada ali há cinco anos.
Sem pensar duas vezes, fui direto ao cartório de registro civil em São Paulo para pedir uma segunda via.
O ar condicionado do cartório estava gelado, contrastando com o calor da rua. Esperei a minha vez, o coração a bater um pouco mais rápido do que o normal.
Quando finalmente fui atendido, expliquei a situação ao funcionário.
Ele digitou os nossos nomes no sistema, o som das teclas a ecoar no silêncio do balcão.
Ele franziu a testa, olhou para o ecrã, e depois para mim.
"Senhor, não há registo de casamento entre Lucas e Isabela."
Fiquei confuso. "Deve haver um engano. Casámo-nos há cinco anos. Talvez tenha escrito o nome errado?"
Ele virou o monitor na minha direção. "Veja por si mesmo. Não há nada. Lucas, de Minas Gerais. Solteiro."
O meu sangue gelou. "E a Isabela?"
O funcionário hesitou por um momento, como se não quisesse ser o portador de más notícias.
"Na verdade," ele disse, baixando a voz, "a senhora Isabela é casada com um homem chamado Ricardo."
O mundo pareceu parar.
"Ricardo? Impossível. Isso é um erro."
A minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
O funcionário, sentindo o meu desespero, continuou a falar com uma calma profissional. "O registo é claro, senhor. Isabela e Ricardo, casados legalmente há sete anos. O casamento foi registado em Lisboa, Portugal, e validado aqui no Brasil."
Sete anos.
Isso significava que ela já era casada dois anos antes de nos conhecermos.
A minha mente recusava-se a processar a informação. Tinha de ser um engano, uma confusão de nomes, qualquer coisa.
"Pode verificar de novo? Por favor," eu implorei, a minha voz a tremer.
Ele suspirou, mas com paciência, digitou novamente. O resultado foi o mesmo. O nome de Ricardo estava ali, ligado ao de Isabela, oficial, inegável.
Senti um pavor crescente a tomar conta de mim. A confirmação dolorosa da traição estava ali, num ecrã de computador, em letras pretas e frias.