Capítulo 2

Ponto de Vista de Elna:

A mansão parecia a mesma, mas tudo parecia diferente. Meu antigo quarto ainda era meu, mas a presença de Kátia estava em toda parte. Suas coisas novas já estavam na suíte de hóspedes, um toque de cores vibrantes contra os tons suaves que eu preferia. Seu perfume pairava no ar, uma doçura enjoativa que revirava meu estômago.

Heitor parecia mais leve, mais feliz. Seus negócios estavam florescendo, seus acordos fechando um após o outro. Seu rosto, antes tenso de preocupação com Clarice, agora exibia uma confiança relaxada. Ele frequentemente saía cedo e voltava tarde, seu celular zumbindo com chamadas e mensagens. Ele estava sempre sorrindo, sempre rindo, especialmente quando Kátia estava por perto.

Uma noite, ele anunciou uma grande celebração. "Uma festa da vitória", ele chamou, seus olhos brilhando. "Pelo progresso da Clarice, pelo meu último negócio, por... tudo de bom que está acontecendo." Ele não me mencionou. Ele não mencionou a "clínica de correção".

Alguns dias antes da festa, um pacote chegou ao meu quarto. Dentro havia um vestido. Um lindo vestido verde-esmeralda, de seda cintilante. Era deslumbrante. Heitor havia deixado um bilhete com ele. *Use isto. Venha sozinha. Chegue na hora.* Nenhum carinho. Nenhuma explicação. Apenas uma ordem.

Na noite da festa, vesti-me lentamente, meus dedos traçando o tecido delicado. Parecia pesado, como uma fantasia. Cheguei ao grande salão de festas sozinha, como instruído. O lugar já estava fervilhando de convidados, um mar de vestidos brilhantes e ternos elegantes. Eu me sentia como um fantasma, flutuando pela multidão opulenta, invisível.

Então, os murmúrios começaram. Um silêncio caiu sobre o salão quando as portas principais se abriram. Heitor estava lá, radiante em um terno sob medida, um sorriso deslumbrante no rosto. E ao seu lado, com o braço orgulhosamente entrelaçado no dele, estava Kátia.

Ela estava usando exatamente o mesmo vestido verde-esmeralda.

Minha respiração ficou presa na garganta. Minhas mãos se fecharam, amassando a seda do meu vestido. Não foi um erro. Foi uma humilhação deliberada e calculada. Seus olhos encontraram os meus através do salão lotado, um flash de triunfo malicioso em sua profundidade.

Os sussurros ficaram mais altos, subindo como uma maré. "Meu Deus, elas estão usando o mesmo vestido!" "Que vergonha para a Elna!" "Aquela é a nova namorada do Heitor? Ela é deslumbrante!"

Heitor e Kátia entraram no salão, um casal poderoso, banhados pelos holofotes. Eles nem sequer olharam na minha direção. Eu era uma mera sombra, uma cópia mal executada. A humilhação me inundou, quente e ardente.

Ouvi trechos de conversas enquanto as pessoas passavam. "Ela sempre foi meio... estranha", murmurou uma mulher. "Emocionalmente atrofiada, sabe." Outra riu. "Pobre Heitor, ele merece alguém vibrante, não uma lousa em branco."

Uma onda de náusea me atingiu. Senti meu rosto corar, um calor raro consumindo minhas bochechas. Uma emoção desconhecida, aguda e dolorosa, perfurou minha dormência habitual. Parecia... vergonha profunda e avassaladora. E uma fúria abrasadora. Pela primeira vez em muito tempo, senti algo parecido com raiva de verdade.

Eu precisava sair. Tinha que sair. Abri caminho pela multidão de convidados, meus olhos procurando uma saída. Mas as portas estavam bloqueadas, as pessoas se acotovelando para vislumbrar o casal celebrado. Eu não conseguia me mover. Estava presa.

O salão de festas estava muito quente, o ar denso com perfume e conversa. Avistei uma pequena e isolada porta de terraço e escapei para fora, precisando de um pouco de ar fresco. A noite estava fria, o vento cortando a seda fina do meu vestido. Tremi, mas o frio era uma distração bem-vinda da humilhação ardente lá dentro.

Depois de alguns minutos, o frio se tornou insuportável. Voltei para o salão, buscando refúgio em um canto tranquilo, tentando me misturar às sombras. Do meu ponto de vista, observei Heitor e Kátia na mesa principal, reinando. Eles pareciam em todos os aspectos o casal perfeito.

Um repórter se aproximou da mesa deles, microfone na mão. "Sr. Almeida, os rumores estão circulando. Quem é esta bela mulher ao seu lado esta noite?"

Heitor riu, um som suave e praticado. Ele olhou para Kátia, que sorriu recatadamente. "Kátia é... muito importante para mim. Para minha família. Ela tem sido uma rocha, uma fonte de força incrível." Ele evitou a pergunta direta, deixando o status dela ambiguamente elevado.

"Aquele vestido cai maravilhosamente bem nela", sussurrou outra convidada por perto, uma mulher que eu não reconheci. "Não como... a outra. Sempre tão rígida, tão fria."

As palavras foram como punhais. Senti-me pequena, insignificante. Meu passado, todo o meu ser, reduzido a um sussurro. Esta era a minha vida agora, não era? Uma coisa descartada, observando o homem que eu amava construir um mundo novo e mais brilhante com outra pessoa. Um mundo onde eu era o fantasma inconveniente e sem sentimentos.

A festa finalmente atingiu seu clímax. Heitor ergueu um brinde, reconhecendo sua família, seu sucesso e "o futuro brilhante à frente". Ele não olhou para mim. Ele não reconheceu minha existência nem uma vez.

De repente, um rangido alto ecoou pelo salão. Um enorme lustre de cristal, pendurado precariamente no teto alto, balançou. As pessoas olharam para cima, murmurando nervosamente. Alguns cristais se soltaram, tilintando no chão de mármore.

Então, com um gemido aterrorizante, toda a estrutura começou a cair.

Aconteceu tão rápido. Puro instinto, uma onda primal que eu não sabia que possuía, tomou conta. Heitor estava diretamente abaixo dele, de costas para o perigo que descia. Kátia estava ao lado dele, seus olhos arregalados de terror. Sem pensar, eu me lancei para frente, empurrando Heitor com toda a minha força.

Ele tropeçou, caindo para longe do caminho direto do lustre. Kátia gritou, puxando-o ainda mais para trás. Senti um impacto tremendo, um flash ofuscante de dor branca. O mundo ficou preto.

A última coisa que vi, antes que a escuridão me consumisse, foi o rosto de Heitor. Ele estava olhando para Kátia, seus olhos cheios de medo e preocupação, não por mim, mas por ela.

Acordei com o cheiro estéril de antisséptico. Minha cabeça latejava, meu corpo doía. Pisquei, desorientada. Hospital. Eu estava em um hospital. O quarto era branco e silencioso. Ninguém estava lá. Nenhum Heitor. Nenhuma família. Apenas eu. Sozinha.

Minha garganta estava seca. Minha língua parecia uma lixa. Tentei me sentar, mas uma dor aguda atravessou meu lado. Ofeguei, caindo de volta nos travesseiros. Finalmente, com um esforço monumental, consegui alcançar o copo de água na mesa de cabeceira. Minha mão tremia tanto que metade derramou antes que eu pudesse levá-lo aos lábios.

A porta rangeu ao se abrir. Heitor estava lá, seu rosto sombrio. Meu coração deu um salto estranho. Ele estava aqui. Ele se lembrou de mim.

Mas então, ele jogou algo na minha cama. Um pedaço de papel amassado, uma pequena mola intrincada e um fio minúsculo, quase invisível. Seus olhos estavam frios, duros como lascas de gelo.

"O que é isso, Elna?", ele exigiu, sua voz baixa e ameaçadora. "O que você estava tentando fazer?"

"Eu... eu não sei do que você está falando", sussurrei, confusa e fraca. Minha cabeça ainda estava nebulosa.

"Não se faça de inocente!", ele rosnou, dando um passo mais perto. "A filmagem da segurança. Mostra você, Elna. Logo antes do lustre cair. Mexendo na fiação. Tentando sabotá-lo."

Sabotar? Meu sangue gelou. "Não! Eu não fiz isso! Eu te empurrei para fora do caminho, Heitor! Eu te salvei!"

Ele riu, um som amargo e sem humor. "Me salvou? Você tentou matar a Kátia! Você estava com ciúmes, não estava? Você queria machucá-la, se livrar dela. Porque ela é importante. A família dela. As conexões dela. Tudo."

"Isso não é verdade!", gritei, lágrimas brotando em meus olhos. "Kátia... ela é quem me machucou! Ela usou o mesmo vestido, ela me humilhou!"

"E que trágica coincidência que tudo o que você alegou que ela fez não pode ser provado, enquanto suas ações são cristalinas", Heitor zombou. "Encontramos isso perto do lustre. A fiação foi adulterada, Elna. E suas impressões digitais estão por toda parte."

Ele ergueu um tablet. Um vídeo granulado passava. Mostrava uma figura, indistinta, mas claramente eu, em pé em uma cadeira perto do lustre, as mãos estendidas para cima. Era uma armação perfeita e condenatória.

"Isso é impossível", sussurrei, balançando a cabeça. "Eu não... eu não faria..."

"Você sempre foi um enigma, Elna", disse Heitor, sua voz tingida de nojo. "Sempre tão quieta, tão desprovida de emoção. Mas por baixo dessa calma exterior, você é uma víbora, não é? Uma víbora ciumenta e manipuladora."

"Eu não sou!", implorei, a injustiça de tudo aquilo uma dor lancinante no meu peito. "Kátia é a manipuladora! Ela mentiu para você! Ela é cruel!"

"Chega!", ele rugiu, batendo a mão na mesa de cabeceira. O copo de água saltou, chacoalhando. "Você não vai falar mal da Kátia! Ela é uma mulher gentil e altruísta que ajudou imensamente minha família. Ela é inocente! Você, Elna, é a consumida pela amargura e pela inveja."

Ele me encarou, seus olhos cheios de um ódio que revirou minhas entranhas. "Você vai pagar por isso, Elna. Você vai se desculpar com a Kátia, e vai entender o seu lugar. Você vai aprender a se controlar. Ou acredite em mim, as consequências serão muito piores do que algumas semanas em uma clínica."

Ele se virou para sair, mas parou na porta. "Sabe, Elna", disse ele, sua voz perigosamente suave, "eu costumava pensar que por baixo da sua... natureza incomum, havia um bom coração. Um coração puro. Mas eu estava errado. Você é apenas vazia. Um vácuo. E, francamente, estou cansado de tentar preenchê-lo."

Suas palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe físico. Vazia. Um vácuo. Ele me via como nada. As lágrimas que eu estava segurando finalmente se libertaram, escorrendo pelo meu rosto. Meu corpo tremia com soluços silenciosos. Parecia que meu peito estava sendo rasgado.

Eu o observei ir, a porta se fechando atrás dele. O som foi final. Irrevogável.

Vazia. Um vácuo.

Ele estava certo. Eu estava vazia. Vazia de esperança, vazia de amor, vazia de tudo que eu pensei que tínhamos. Mas também, vazia dele. E com essa percepção, uma determinação fria e dura se instalou profundamente dentro de mim.

Eu o deixaria. Eu deixaria esta vida. Eu deixaria tudo para trás.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Elna:

As palavras de Heitor ecoavam no silêncio estéril do quarto de hospital: *Vazia. Um vácuo.* Eram um ferro em brasa, marcando-se em meu próprio ser. No entanto, uma calma estranha se instalou sobre mim. Ele me via como nada. Se eu era nada, então não tinha nada a perder.

Fechei os olhos e, contra minha vontade, as memórias surgiram. Não dos horrores recentes, mas de um tempo anterior. Um tempo mais suave.

"Elna", Heitor murmurou, seus dedos traçando a linha da minha mandíbula. Estávamos na varanda de sua cobertura, as luzes da cidade brilhando abaixo como diamantes espalhados. "Você é tão linda."

Eu apenas pisquei, confusa com a intensidade de seu olhar. Eu não entendia "linda" da maneira que ele queria dizer. Para mim, era apenas uma palavra. Mas seus olhos, tão quentes, tão cheios de... algo, fizeram meu peito se sentir um pouco menos apertado.

"Eu sempre vou te proteger", ele sussurrou, me puxando para mais perto. "Você é minha, e eu nunca vou deixar ninguém te machucar."

Ele me comprou um delicado medalhão de prata, gravado com minha inicial. "Isto", ele disse, pressionando-o na minha palma, "é um símbolo da minha promessa. Do meu amor. Mantenha-o perto."

Suas palavras, seus gestos, tinham sido tão convincentes. Ele me perseguiu implacavelmente, pacientemente quebrando minha concha protetora, tentando entender minha alexitimia. Ele leu livros, buscou conselhos, sempre dizendo: "Eu quero aprender sua língua, Elna."

Ele uma vez passou uma tarde inteira tentando explicar o sentimento de alegria, desenhando diagramas e fazendo analogias, apenas para ver um lampejo de compreensão em meus olhos. Ele chamava minha natureza quieta de "serena", não de "vazia". Minhas dificuldades emocionais, de "uma perspectiva única", não de "quebrada".

Para onde aquele homem tinha ido? Quando sua paciência se transformou em nojo, sua compreensão em julgamento? Foi Clarice? O rim? Ou sempre esteve lá, à espreita sob a superfície, esperando o momento certo para emergir?

As perguntas giravam na minha cabeça, um carrossel vertiginoso. Fiquei ali a noite toda, incapaz de dormir, juntando os cacos quebrados do nosso passado, tentando encontrar o momento preciso em que as rachaduras começaram a aparecer. Não encontrei nenhuma. Apenas um estilhaçamento súbito e brutal.

Na manhã seguinte, o hospital me deu alta. Voltei para a mansão, uma sensação de pavor se instalando em meus ossos. Eu sabia o que me esperava.

Quando entrei no hall, Heitor e Kátia estavam lá, abraçados. Os braços de Kátia estavam em volta do pescoço dele, a cabeça dela inclinada para trás, um sorriso triunfante no rosto. Heitor a segurava perto, os olhos fechados. Era um quadro íntimo e possessivo.

Então Kátia me viu. Seu sorriso não vacilou. Em vez disso, ela apertou seu abraço em Heitor, pressionando-se ainda mais contra ele. Ela esfregou a bochecha na dele, um gesto deliberado e provocador.

Um rubor estranho e quente se espalhou por mim. Não era a vergonha ardente da festa. Isso era diferente. Uma sensação primal e crua que fez minhas mãos se fecharem. Meu peito ficou apertado, minha respiração superficial. Era... ciúme? A palavra parecia estranha na minha língua, afiada e desconhecida.

"O que você está fazendo?", ouvi-me perguntar, as palavras cortando o ar, surpreendentemente firmes.

Os olhos de Heitor se abriram. Ele se desembaraçou de Kátia, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Kátia, no entanto, permaneceu no lugar, um sorriso presunçoso brincando em seus lábios.

"Elna, querida", Kátia ronronou, sua voz doce como veneno. "Apenas confortando o Heitor. Ele ficou tão preocupado comigo, sabe, depois daquele terrível incidente com o lustre. E seu... envolvimento infeliz." Ela suspirou teatralmente. "Foi realmente uma experiência traumática, até para mim, apenas por estar ao lado."

Ela fez uma pausa e acrescentou: "Mas é tão bom ver que você está se recuperando. Estávamos todos tão preocupados." As palavras eram um ramo de oliveira coberto de espinhos.

"Elna", disse Heitor, sua voz afiada, cortando a simpatia fingida de Kátia. "Você precisa sempre causar uma cena? Kátia ainda está se recuperando. Ela não precisa do seu... drama."

Meu maxilar se contraiu. "Drama? Eu não estou causando nada. Acabei de entrar."

"E sua própria presença parece perturbá-la", ele retrucou, olhando para Kátia, que sutilmente se encolheu e agarrou o braço. "Estou avisando as duas. Não vou tolerar mais brigas. Esta é a minha casa. Vocês duas vão se comportar."

Ele se virou para mim, sua voz endurecendo. "Agora, peça desculpas a Kátia por seu comportamento na festa e por perturbá-la agora mesmo."

Minha respiração engatou. Pedir desculpas? Por ser incriminada? Por ser humilhada? A raiva explodiu, quente e afiada. "Eu não vou me desculpar. Não fiz nada de errado."

Os olhos de Heitor se estreitaram. Ele deu um passo em minha direção, depois parou. Seu olhar caiu sobre a pequena fotografia emoldurada na mesa lateral. Era uma foto minha, sorrindo levemente, segurando o medalhão de prata que ele me dera. O medalhão que ainda estava em volta do meu pescoço.

Ele estendeu a mão, o dedo traçando a prata. Uma ameaça sutil. Ele sabia o quanto aquele medalhão significava para mim. Era a única lembrança física de sua promessa, de um tempo em que ele afirmava me amar.

A raiva se esvaiu de mim, substituída por um medo frio e entorpecente. Ele o pegaria. Ele o destruiria. Ele apagaria todo e qualquer vestígio de nossa história compartilhada.

"Eu... sinto muito", engasguei, as palavras com gosto de cinzas. "Peço desculpas, Kátia."

O sorriso de Kátia se alargou, um flash triunfante de dentes brancos. "Oh, Elna, está tudo bem", disse ela, sua voz pingando falsa magnanimidade. "Eu entendo que você passou por muita coisa. Eu te perdoo. De verdade." Ela se virou para Heitor, piscando os cílios. "Viu, Heitor? Ela não é tão má. Apenas um pouco... equivocada."

"Agora que isso está resolvido", continuou Kátia, sua voz ganhando um tom mais firme, "Heitor, querido, estou me sentindo um pouco fraca. O choque, sabe. Você poderia talvez me levar às compras? Preciso de uma distração. Algo bonito para levantar meu ânimo." Ela se inclinou para ele, seu olhar deslizando para mim, um desafio silencioso.

Heitor hesitou por uma fração de segundo. "Claro, meu bem." Ele pegou a carteira. "Aqui, pegue este cartão. Compre o que precisar. Qualquer coisa para te fazer sentir melhor." Ele entregou a ela um cartão black. "Elna, você acompanhará Kátia. Ajude-a. Certifique-se de que ela tenha tudo o que deseja."

Meu sangue gelou. Acompanhá-la? Servi-la? A humilhação era infinita.

Lembrei-me de um tempo, não muito tempo atrás, em que Heitor pedia minha opinião, respeitava minhas escolhas. *"O que você quer, Elna? Sua felicidade é tudo o que importa."* Suas palavras, antes cheias de tanto calor, agora pareciam uma zombaria cruel. Ele estava me forçando. Reduzindo-me a um papel subserviente.

"Bem, Elna? Vai ficar aí parada o dia todo?", a voz de Heitor era afiada, impaciente. "Kátia está esperando."

Suspirei, um som profundo e cansado que parecia vir das profundezas da minha alma. "Sim, Heitor", murmurei, minha voz desprovida de emoção. "Claro."

Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Kátia ainda agarrada possessivamente ao braço de Heitor, observei a interação deles. Kátia estava rindo, a cabeça jogada para trás, a mão apoiada no peito de Heitor. Ele olhou para ela, um sorriso suave no rosto. Meu peito se apertou novamente, aquela sensação desconhecida e ardente retornando.

"Sabe, Heitor", Kátia ronronou, alto o suficiente para eu ouvir. "Prefiro sentar ao seu lado no carro. Elna pode ir no banco de trás. Ela é tão quieta, não vai se importar."

Heitor riu, dando um aperto no ombro dela. "O que você quiser, minha querida." Ele olhou para mim, seu sorriso desaparecendo. "Elna, você entende, não é? Kátia ainda está frágil. Ela precisa de conforto."

*"Ela está sempre tão frágil, não é?"*, pensei, um gosto amargo na boca. Meus lábios, no entanto, permaneceram fechados.

"Além disso", continuou Heitor, seus olhos endurecendo, "você não costuma expressar muito, não é? Kátia, por outro lado, é tão cheia de vida, de emoção. É uma alegria estar perto dela." Ele fez uma pausa, um brilho cruel em seus olhos. "Você realmente deveria tentar ser mais como ela, Elna. Aprender a... sentir."

Kátia deu uma risadinha, um som triunfante e zombeteiro.

Senti uma onda de algo quente e afiado, uma dor tão intensa que fez minha visão embaçar. Sentir? Eu queria gritar. Queria dizer a ele que estava sentindo mais do que ele jamais poderia imaginar. Que suas palavras estavam me despedaçando, pedaço por pedaço agonizante. Mas as palavras não saíam. Elas nunca saíam. Minhas emoções eram uma bagunça emaranhada e silenciosa dentro de mim.

O Heitor que pacientemente tentou me ensinar a sentir, agora zombava da minha incapacidade de fazê-lo. A ironia era uma pílula amarga. Deslizei para o banco de trás, o medalhão em volta do meu pescoço parecendo mais pesado que uma pedra.

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