O mundo retornou não como luz, mas como uma cacofonia abafada de vozes em pânico e o grito implacável do vento. Eu estava deitada em uma depressão rasa na neve, um buraco cavado às pressas. Bruno e Carla estavam agachados sobre mim, suas formas silhuetas borradas contra o branco rodopiante.
"Ela simplesmente desmaiou!", Carla dizia, sua voz um lamento agudo que feria meus ouvidos. "Ela rasgou a própria jaqueta e depois... desmaiou. Acho que a altitude está afetando ela."
Bruno estava me sacudindo, seu aperto rude nos meus ombros. "Alex! Alex, acorde! Pare com essa palhaçada!"
Tentei falar, dizer a eles que eram assassinos, mas minha mandíbula estava travada. Meus pulmões queimavam a cada respiração superficial e irregular. O frio era agora uma presença invasora, dentro do meu peito, do meu crânio, da minha medula. Não era mais uma sensação; era o que eu estava me tornando.
"Ela está fingindo", uma nova voz zombou. Um dos outros alpinistas, amigo de Bruno, olhou para dentro do meu buraco de neve. "Ela só está irritada porque você deu o cobertor para a Carla. Que criança."
Bruno soltou um bufo de respiração exasperada. Ele olhou para mim não com preocupação, mas com total desprezo. "Eu sabia. Ela está tentando me manipular. Tentando me fazer sentir culpado."
"Bruno, ela não está se movendo", disse Carla, uma nota de pânico genuíno agora colorindo sua falsa simpatia. "Talvez devêssemos..."
"Talvez ela devesse aprender que nem tudo é sobre ela", Bruno retrucou. Ele me agarrou pelos braços e me arrastou mais para dentro do buraco de neve, minhas botas raspando inutilmente no gelo. Ele amontoou neve ao redor das bordas, efetivamente me sepultando. "Ela precisa de um tempo para esfriar a cabeça. Literalmente."
Ele se levantou, limpando a neve de suas luvas caras com um ar de finalidade.
Tentei agarrar sua perna, meus dedos se fechando no tecido de sua calça de neve com o último resquício de minha força. "Bruno... por favor..."
Ele olhou para baixo e chutou minha mão para longe, sua expressão de puro nojo. "Você é patética."
Através do vento uivante, ouvi a voz suave de Carla. "Não seja tão duro com ela, Bruno. Ela só não é tão forte quanto pensa que é."
"Você é gentil demais, Carla", ele respondeu, e o calor em sua voz foi um golpe físico. "Vamos. Ela virá rastejando para a barraca principal quando ficar com fome o suficiente."
Seus passos desapareceram, engolidos pela tempestade.
Eu estava sozinha.
Totalmente, completamente sozinha. Deixada para morrer pelo homem com quem eu havia prometido me casar.
O frio era um predador, cravando seus dentes mais fundo. Meu corpo havia parado de tremer agora, um marco aterrorizante. Eu sabia o que significava. Minha temperatura corporal estava crítica. Meus músculos estavam congelando, meus órgãos começando a falhar.
Meu olhar caiu sobre meu traje. O rasgo estava logo abaixo do meu ombro. Um corte longo e irregular de cerca de vinte centímetros, expondo as camadas internas aos elementos. O vento canalizava diretamente para a brecha, um ataque constante e brutal ao meu corpo já falhando. Carla não apenas sabotou meu equipamento; ela desferiu um golpe mortal.
Uma necessidade primal e desesperada de sobreviver surgiu em mim. Meu telefone via satélite havia sumido. Mas havia uma última chance. Um segredo que eu nunca havia contado nem mesmo a Bruno.
Meu traje. O que eu estava vestindo. Não era apenas um traje padrão da AlpiniaTech. Era um protótipo secundário, projetado para interagir com o cobertor térmico. E escondido no punho da manga esquerda, costurado na própria costura, havia um minúsculo sinalizador de emergência ativado por pressão. Um sistema redundante. Minha apólice de seguro particular.
Eu tinha que alcançá-lo.
Meu braço esquerdo era uma coisa estranha, um tronco de carne congelada. Tentei comandá-lo para se mover, para se dobrar em direção ao meu rosto, mas ele mal se mexeu. Meu braço direito estava um pouco mais responsivo. Com uma lentidão agonizante, arrastei-o pelo meu peito, meus dedos enluvados arranhando a manga oposta.
O tecido estava rígido de gelo. Meus dedos, dormentes e inúteis, não conseguiam encontrar apoio. Eu não conseguia segurar.
Lágrimas congelaram em minhas bochechas. Era isso. Era assim que terminava. Traída, abandonada e congelada em uma vala cavada pelo meu próprio noivo.
A raiva, pura e não diluída, me deu uma explosão final de força. Eu não ia morrer assim. Eu não ia deixá-los vencer.
Levei meu pulso esquerdo à boca e mordi com força o punho. Meus dentes se prenderam no material grosso, ignorando a dor lancinante na minha mandíbula. Usei minha cabeça para arrastar a manga para cima, expondo a costura.
Lá estava. Uma pequena protuberância quase invisível no tecido.
Bati meu pulso contra a parede gelada do buraco. Uma vez. Duas vezes. Nada. O sensor de pressão estava congelado. Precisava de um impacto agudo e localizado.
Com um grito gutural que foi roubado pelo vento, bati meu pulso contra meu próprio capacete.
Uma pequena luz vermelha, quase imperceptível, piscou uma vez de dentro da costura.
Estava ativo.
O alívio me invadiu, tão potente que era quase doloroso. Foi seguido imediatamente por uma onda avassaladora de exaustão. Meu corpo não tinha mais nada para dar.
Minha cabeça pendeu para trás contra a neve. Minhas pálpebras pareciam impossivelmente pesadas. O mundo estava se desvanecendo para um branco pacífico e entorpecente. Seria tão fácil apenas fechar os olhos. Dormir.
Justo quando a escuridão começava a me reivindicar, uma sombra caiu sobre meu buraco de neve.
Pisquei, minha visão embaçada. Era Carla. Ela estava olhando para mim, a luz azul do meu cobertor iluminando seu rosto. As lágrimas falsas haviam sumido. Sua expressão era de uma curiosidade fria e calculista.
"Ainda viva?", ela murmurou, sua voz mal um sussurro contra o vento. "Você é mais resistente do que eu pensava."
Ela ergueu o piolete. Um pequeno sorriso cruel brincou em seus lábios. "O Bruno é tão ingênuo. Ele realmente acha que você está só fazendo birra. Ele me disse que te ressentia há anos. Odeia viver na sua sombra. Odeia que todo mundo saiba que você é o verdadeiro gênio na AlpiniaTech. Ele só estava esperando por um motivo para te rebaixar."
As palavras eram como gelo, perfurando a última parte quente do meu coração.
"Ele ficou feliz em fazer isso", ela sussurrou, seu sorriso se alargando. "Feliz em te ver fracassar."
Ela jogou o piolete na neve ao meu lado, um gesto final e desdenhoso. "Não se preocupe. Eu vou cuidar bem dele para você."
Ela se virou e se afastou, desaparecendo no branco total, deixando-me com a terrível e congelada verdade da minha própria destruição.
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O vento uivava, uma sinfonia fúnebre para minha morte iminente. A pequena luz vermelha do sinalizador era uma promessa secreta, mas uma promessa que se desvanecia a cada segundo que passava. O tempo era meu inimigo. O frio era meu carrasco.
As palavras de Carla ecoavam em minha mente, um mantra cruel de traição. Ele ficou feliz em fazer isso.
O rasgo em meu traje era uma ferida aberta. A camada de GORE-TEX, a barreira impermeável e à prova de vento que era minha última linha de defesa, estava comprometida. Minhas camadas de base estavam agora expostas, rapidamente se saturando com a neve fina e impulsionada pelo vento. Eu podia sentir a umidade se transformando em gelo contra minha pele.
Minha vida estava sendo medida em minutos.
O som fraco de neve sendo pisada me fez forçar minhas pálpebras pesadas a se abrirem. Eram Bruno e os outros, voltando da barraca principal. Por um momento selvagem e insano, uma centelha de esperança se acendeu em meu peito. Ele voltou por mim.
Então eu vi seu rosto.
Carla estava agarrada ao braço dele, soluçando teatralmente. "Ela me atacou, Bruno! Eu só fui ver como ela estava, e ela se lançou contra mim com o piolete dela! Ela enlouqueceu!"
Meu piolete. O que ela usou para rasgar meu traje. O que ela acabara de jogar ao meu lado. Estava ali na neve, uma prova silenciosa e condenatória que estava sendo distorcida em uma arma contra mim.
"Que diabos é isso?", Bruno rugiu, seus olhos caindo sobre o rasgo em minha jaqueta. Ele viu o corte não como uma ferida mortal, mas como prova da minha suposta insanidade.
"Ela mesma fez isso!", outro alpinista interveio. "Ela está tentando incriminar a Carla!"
Tentei falar, negar. "Ela... ela cortou...", as palavras saíram como um grasnido congelado, perdido no vento.
Bruno não me ouviu. Ou não quis. Ele olhou do rosto de Carla, manchado de lágrimas, para minha forma quebrada, e seu veredito foi instantâneo e absoluto.
O olhar em seus olhos foi o que finalmente me quebrou. Não era raiva. Não era confusão. Era uma certeza fria e dura. Ele acreditava nela. Ele olhou para mim, sua noiva, a mulher que ele deveria amar e proteger, e viu um monstro.
"Você sempre teve ciúmes de qualquer um a quem eu dou atenção", ele rosnou, sua voz pingando veneno. "Mas isso? Isso é um novo nível de baixeza, mesmo para você."
"Ela simplesmente não foi feita para esse nível de pressão", disse outra pessoa com um encolher de ombros desdenhoso. "Sempre tem que ser a estrela. Não aguenta quando um rostinho bonito recebe um pouco de atenção."
"Tão antiprofissional", acrescentou outra voz. "Completamente desequilibrada."
As palavras me atingiram, cada uma um golpe físico. Eles estavam construindo uma narrativa ao meu redor, uma jaula de mentiras da qual eu era fraca demais para escapar.
Bruno se ajoelhou ao lado de Carla, envolvendo meu cobertor térmico mais apertado em torno dela. "Está tudo bem, querida", ele murmurou, sua voz grossa com uma ternura que ele não me mostrava há anos. "Estou aqui. Não vou deixar ela te machucar."
O apelido carinhoso, tão casual, tão íntimo, foi a torção final da faca.
Carla fungou, enterrando o rosto no peito dele. Mas por cima do ombro dele, seus olhos encontraram os meus. Eles brilhavam com triunfo.
"Você é um risco, Alex", disse Bruno, sua voz plana e desprovida de qualquer emoção. Ele se levantou, olhando para mim como se eu fosse um equipamento defeituoso a ser descartado. "Você é um perigo para a equipe e um perigo para si mesma."
Minha esperança, aquela pequena e tola centelha, morreu completamente. Não havia mal-entendido a ser esclarecido. Não havia amor a que apelar. Havia apenas a realidade fria e dura de seu desprezo.
Afundei de volta na neve, o último resquício de minha luta se esvaindo. O frio era um conforto agora, uma promessa de um fim para a dor.
"Eu sou o Gerente de Projeto", anunciou Bruno, sua voz assumindo um tom oficial e autoritário para o benefício dos outros. "E estou revogando oficialmente a autorização da Alex Gray para esta expedição. Ela deve permanecer aqui até que possamos providenciar sua evacuação."
Ele estava formalizando minha sentença de morte.
Uma nova onda de tontura me atingiu, e o mundo começou a embaçar. Meu corpo estava desistindo.
Eu estava caindo, caindo em um abismo branco e profundo.
Justo quando minha consciência começou a se desfazer, um novo som cortou o rugido da nevasca. Era um som que não pertencia aqui, um zumbido rítmico e profundo que ficava cada vez mais alto.
Vum. Vum. Vum.
Um helicóptero.
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