Capítulo 2

Helena Santiago POV:

Ricardo não ficou apenas parado; ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. Meu pulso, ainda ardendo dos arranhões da gata, latejou de dor.

"Você vai para casa comigo, Helena", ele rosnou, seus olhos escuros com uma fúria possessiva que eu não tinha visto antes. "Nós vamos conversar. Direito."

Ele me arrastou de volta para o carro, ignorando meus protestos. A viagem para casa foi silenciosa, densa com uma tensão que parecia mais pesada que a neblina da manhã. Minha mente corria, tentando processar a crueldade flagrante de Beatriz com a gata, a defesa imediata de Ricardo a ela, e a raiva crua e inegável em sua voz dirigida a mim.

Uma vez dentro de casa, a cena já estava montada para outro confronto. Ambos os casais de pais estavam lá, seus rostos sombrios. Os pais de Ricardo, Eleonora e Roberto, pareciam furiosos. Meus pais, Sônia e Marcos, pareciam aterrorizados. Os papéis do divórcio que eu havia deixado na mesa de centro agora estavam empilhados de forma organizada, quase acusadora.

"Ricardo, qual o significado disso?", Roberto exigiu, apontando para os papéis. "Isso é real?"

Ricardo se encolheu, evitando o olhar de seu pai. "É a Helena, pai. Ela... não está bem. Está fazendo acusações absurdas."

"Acusações absurdas?", Eleonora zombou. "Ela mencionou uma amante grávida. É isso que você chama de 'absurdo'?" Ela virou seu olhar furioso para mim. "E isso", ela apontou um dedo com a unha feita para os papéis do divórcio, "essa exigência de acordo. Você enlouqueceu, Helena? Metade dos bens de Ricardo? Você acha que tem direito a isso depois de tudo que ele fez por você?"

"Tudo que ele fez por mim?" Minha voz era fria. "Você quer dizer o acidente que me deixou infértil e com dor crônica? Aquele que ele causou?"

"Aquilo foi um acidente!", Eleonora retrucou, seu rosto corando. "E ele cuidou de você até você se recuperar! Ele pagou por tudo! Ele te deu uma vida de luxo! E agora você quer sangrá-lo até secar por causa de algum... algum boato sobre outra mulher?"

Meus pais se mexeram desconfortavelmente. Minha mãe torcia as mãos. "Helena, querida, você está sendo irracional. Pense no que está fazendo. Isso é demais. Você não pode pedir tanto. É... ganancioso."

"Ganancioso?" Encarei minha mãe, meus olhos ardendo. "Ele me traiu. Ele engravidou outra mulher. Ele me manipulou por anos, me fazendo acreditar que eu estava louca. E vocês acham que sou gananciosa por pedir o que é meu por direito?"

"Por direito?", Roberto zombou. "Você não tem provas. Nenhuma evidência de que Ricardo traiu. Você acha que algumas fotos em um celular e as divagações de alguma interesseira vão se sustentar no tribunal?"

"Eu tenho provas suficientes", afirmei, minha voz firme. "E estou preparada para usá-las. Eu quero o divórcio. E quero o que é justo. Se foi ele quem quebrou o contrato de casamento, então, por lei, ele deveria ser o único a pagar por isso."

Ele traiu. Ele quebrou seus votos. Ele deveria perder tudo. O pensamento ecoou em minha mente, um mantra de justiça.

Ricardo, que estava em silêncio, ouvindo seus pais me repreenderem, de repente explodiu. "Não! Helena, por favor! Não faça isso! Eu te dou qualquer coisa! Dinheiro, uma casa, o que você quiser! Apenas não siga com este divórcio. Não arruíne tudo o que temos." Ele parecia desesperado, seus olhos arregalados, um brilho de suor na testa. "Eu assino o que você quiser! Apenas... não me deixe."

Seu desespero era quase patético. Mas minha mente estava mais clara agora. Ele está escondendo algo. Ele sempre foi bom nisso. Eu sabia que sua empresa havia crescido exponencialmente nos últimos anos, muito além do que ele declarava publicamente. Ele tinha contas no exterior, empresas de fachada. Eu tinha visto papelada suficiente, vislumbres suficientes de seus negócios ao longo dos anos, para saber que sua riqueza proclamada era apenas a ponta do iceberg. Ele não estava apenas com medo de me perder; ele estava apavorado de perder seu império cuidadosamente escondido.

Nesse momento, a campainha tocou.

Ricardo pareceu confuso. "Quem poderia ser?"

A porta se abriu, e Beatriz Neves estava lá, parecendo surpreendentemente composta, um sorriso recatado no rosto. Sua mão instintivamente foi para a barriga, um gesto sutil e deliberado.

"Oh, me desculpem por interromper", disse ela, sua voz suave, quase pedindo desculpas. Ela olhou para mim, depois para Ricardo, seus olhos arregalados e inocentes. "Eu só... ouvi toda a gritaria. Fiquei preocupada com o Ricardo. E eu queria pedir desculpas à Helena. Eu não deveria ter dito aquelas coisas na cafeteria mais cedo. Foi errado da minha parte."

Meus pais pareceram aliviados, quase esperançosos. Eleonora e Roberto trocaram um olhar, sua fúria amenizada por essa inesperada demonstração de civilidade.

"Pedir desculpas?", zombei, incrédula. "Depois de você jogar uma gata numa caçamba de lixo e depois tentar me culpar por isso?"

Os olhos de Beatriz se encheram de lágrimas. "Eu... eu entrei em pânico. A gata, ela simplesmente continuava voltando. E estou tão estressada com a gravidez. Eu não quis." Ela olhou para Ricardo, seu lábio inferior tremendo. "Ricardo, diga a ela. Diga a ela que eu nunca machucaria ninguém."

Ricardo hesitou, depois deu um passo à frente, colocando o braço ao redor de Beatriz. "Helena, ela está frágil. Ela está grávida. Você não deveria tê-la abordado em público."

"Abordado ela?" Eu quase ri. "Ela acabou de admitir que jogou um animal vivo numa caçamba de lixo!"

"Era só uma gata!", Beatriz lamentou, sua voz se elevando. "E você estava gritando comigo e me empurrando! Meu bebê quase-" Ela agarrou a barriga, balançando levemente.

Minha mãe correu para frente. "Oh, querida, você está bem?"

"Viu, Helena?", Eleonora retrucou, seu rosto tenso de desaprovação. "Você está causando uma cena. Você está perturbando essa pobre moça."

Ela é boa. Muito boa. A atuação de Beatriz foi impecável. Mas notei um pequeno detalhe. Seus olhos, embora lacrimejantes, corriam para o rosto de Ricardo, avaliando sua reação. E seu 'pânico' mais cedo, quando ela jogou a gata, foi muito frio, muito deliberado. A maneira como ela havia acariciado a barriga na cafeteria, e agora de novo, era uma arma.

"Beatriz", eu disse, cortando a súbita onda de simpatia dirigida a ela. "Diga a eles. Diga a eles há quanto tempo você e Ricardo têm um caso."

Beatriz enrijeceu. Sua fachada inocente rachou, apenas por um segundo. Ela olhou para Ricardo, um olhar desesperado e suplicante em seus olhos.

"Caso?", Sônia, minha mãe, ofegou. "Helena, o que você está dizendo?"

"Estou dizendo", comecei, minha voz fria, "que esta 'mulher grávida inocente' é a amante de Ricardo. Ela morava ao nosso lado. E aquele bebê pelo qual ela está tão preocupada? É de Ricardo."

A sala mergulhou em um silêncio atordoado. Eleonora parecia que ia desmaiar. O rosto de Roberto era uma máscara de incredulidade e raiva. Meus pais estavam sem palavras.

Beatriz ofegou, agarrando a barriga novamente, mas desta vez, parecia menos dor e mais uma tentativa desesperada de ganhar controle. "Como você pode dizer uma coisa dessas?", ela chorou, sua voz ainda trêmula, mas com um novo tom de acusação. "Eu... não acredito que você seria tão cruel a ponto de tentar arruinar a reputação de Ricardo e o futuro do meu filho só porque você não pode ter um!"

A alfinetada sobre minha infertilidade atingiu em cheio, com a intenção de ferir, de silenciar. Mas apenas alimentou meu fogo.

Ricardo, surpreendentemente, se recuperou rápido. Ele puxou Beatriz para mais perto, seu olhar varrendo seus pais, depois os meus. "Helena, querida, isso é absurdo. Beatriz é uma funcionária. Uma associada júnior. Ela está claramente apaixonada, e eu tentei dispensá-la gentilmente, mas ela é... instável. É uma situação triste, mas não há caso nenhum."

"Instável?", ri, um som amargo e oco. "Ela mora no apartamento ao lado, Ricardo! Aquele que você alugou para ela! Ela tem fotos suas! Ela usa seu anel! E ela está esperando seu filho!"

"Isso é mentira!", Beatriz gritou, sua voz de repente perdendo sua qualidade frágil. "Você está com ciúmes! Você não suporta que Ricardo tenha encontrado felicidade, um futuro, uma família com outra pessoa!" Ela se virou para Eleonora e Roberto, sua voz pingando veneno. "Ela só está atrás do dinheiro dele! Ela quer esgotá-lo, deixá-lo sem nada!"

"Já chega!", Roberto berrou, finalmente encontrando sua voz. "Ricardo, isso é verdade? Ela está grávida do seu filho?"

Ricardo hesitou, seus olhos correndo freneticamente entre mim, Beatriz e seus pais. "Eu... eu não sei, pai. É... complicado. Ela alega que sim, mas eu tenho minhas dúvidas."

"Dúvidas?", zombei. "Depois de você a mudar para o apartamento ao lado para poder ir lá escondido todas as noites enquanto eu me recuperava do seu acidente? Depois de você comprar aquele anel de diamante para ela, aquele que você nunca se deu ao trabalho de me comprar?"

"Você tinha um anel, Helena", Ricardo retrucou, sua voz tensa. "A herança de família."

"E ela tem um novo", disparei de volta. "Um símbolo da sua nova família."

"Isso tudo é um mal-entendido", Beatriz interveio, sua voz de repente firme, perdendo toda a pretensão de fragilidade. "Helena está apenas tentando destruir Ricardo. Ela é invejosa. Ela sempre teve ciúmes de qualquer mulher que se aproximasse dele. Ela provavelmente tem um caso próprio, é por isso que está projetando!"

As palavras me atingiram como um golpe físico. Minha visão embaçou por um momento, uma onda de raiva vertiginosa me dominando. Ela está tentando virar o jogo contra mim. O movimento clássico do traidor.

Minha mão se moveu antes que meu cérebro registrasse o pensamento. Um tapa forte e estalado ecoou pela sala silenciosa. A cabeça de Beatriz virou para o lado, seu rosto perfeitamente inocente agora vermelho com a marca de uma mão.

"Não se atreva", sibilei, minha voz tremendo de fúria contida. "Não se atreva a me acusar disso. Você quer falar sobre o meu futuro? Sobre a minha esterilidade? Tudo bem. Mas você não vai difamar meu nome."

Beatriz gemeu, tocando sua bochecha. Ricardo olhou para mim, puro choque em seu rosto, rapidamente se transformando em raiva incandescente. Meus pais ofegaram. Eleonora e Roberto encararam, horrorizados. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Capítulo 3

Helena Santiago POV:

Ricardo rugiu, um som de fúria crua e pura que vibrou pela sala.

"Você bateu nela? Você bateu numa mulher grávida, Helena?" Ele me empurrou para trás, suas mãos tremendo de raiva. Seus olhos, geralmente tão calculistas, estavam selvagens, cheios de ódio. Eu tropecei, me segurando na beirada da mesa de centro. A dor no meu pulso, depois nas minhas pernas, era uma dor surda comparada à picada aguda de sua traição.

Ele imediatamente se virou para Beatriz, sua postura se suavizando. "Beatriz, querida, você está bem? Oh, Deus, sua bochecha." Ele segurou o rosto dela em suas mãos, seus polegares roçando suavemente a marca vermelha que eu havia deixado. Sua preocupação por ela era nauseantemente genuína.

Beatriz, sempre a atriz, desabou em lágrimas de verdade desta vez. "Ela... ela simplesmente enlouqueceu, Ricardo. Eu só estava tentando me desculpar, fazer as pazes por sua causa. E ela me atacou. Não sei o que fiz de errado." Ela enterrou o rosto no ombro dele, seus soluços sacudindo seu corpo esguio. "Eu só queria que todos ficassem felizes."

Ricardo a puxou para um abraço apertado, me fuzilando com o olhar por cima da cabeça dela. O olhar em seus olhos era um que eu nunca tinha visto dirigido a mim antes: nojo absoluto e venenoso.

"Peça desculpas a ela, Helena", ele ordenou, sua voz baixa e perigosa. "Agora."

Eu o encarei, meu sangue gelando, depois fervendo. "Pedir desculpas? Por expor as mentiras dela? Por me defender da calúnia dela? Ela mereceu. Cada pedacinho ardido."

Ele recuou, seu rosto se contorcendo. "Você está doente, Helena. Verdadeiramente doente." Ele soltou Beatriz, dando um passo em minha direção. "O que deu em você? Essa não é você. Esta é uma mulher desequilibrada e rancorosa."

Então, incrivelmente, ele levantou a própria mão e se esbofeteou, com força, no rosto. O estalo agudo ecoou no silêncio atordoado. Meus pais ofegaram. Eleonora e Roberto encararam, horrorizados.

"Pronto", Ricardo engasgou, sua voz grossa de autodepreciação, ou talvez, astúcia. "Eu me machuquei, Helena. Está satisfeita? Vai parar com essa loucura agora? Por favor, querida, pare. Não sei o que está acontecendo com você, mas vou te conseguir ajuda. Podemos fazer terapia, fazer você voltar a tomar seus remédios. Apenas... por favor, pare de nos punir. Pare de me punir."

Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes, cheios de lágrimas. "Eu te amo, Helena. Juro, eu amo. Seja lá o que for isso, podemos consertar. Vou mandar a Beatriz embora. Farei qualquer coisa. Apenas, por favor, não me deixe. Não jogue fora tudo o que construímos." Seu desespero era palpável, mas parecia uma atuação. Uma atuação desesperada e manipuladora.

"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas que soou como um rugido. "Não, Ricardo. Eu cansei. Estou total e irrevogavelmente cansada." Olhei para ele, meu olhar inabalável. "Eu não te amo. Eu te odeio. Sinto-me sufocada por suas mentiras, por seu controle, por sua própria presença. Não consigo respirar no mesmo cômodo que você."

Meus pais olharam para mim horrorizados, seus rostos pálidos. Eleonora e Roberto trocaram olhares chocados. Seu filho perfeito, humilhado. Sua vida perfeita, estilhaçada.

Eleonora, com o rosto uma máscara de fúria aristocrática, agarrou o braço de Roberto. "Roberto, estamos de saída. Não posso tolerar essa demonstração de... vulgaridade. Ricardo, resolva isso. Discutiremos isso mais tarde." Ela me lançou um olhar de puro desprezo. "Você vai se arrepender disso, Helena. Vai ficar sem nada, só com seu rancor." Com isso, ela saiu, com Roberto a seguindo, sua expressão sombria.

Meus próprios pais ficaram para trás, seus rostos marcados pela decepção. "Helena", minha mãe sussurrou, sua voz carregada de desespero. "Você foi longe demais. Você vai ficar completamente sozinha. Vai se arrepender disso, pode escrever."

Meu pai apenas balançou a cabeça, seus ombros caídos. "Que pena. Que desperdício." Eles também saíram, seus passos pesados, me deixando sozinha com Ricardo e sua amante.

Eles não entendem. Eu não queria a pena deles. Eu não queria a proteção deles. Eu só queria liberdade. Liberdade das mentiras, da pretensão sufocante de uma vida perfeita que foi construída sobre meu corpo quebrado e seus votos quebrados.

Eu sabia, com uma certeza arrepiante, que isso seria uma guerra. E eu precisava estar preparada.

Mais tarde naquele dia, depois de convencer Ricardo a sair, usando a ameaça de uma medida protetiva, me retirei para o meu escritório. O zumbido silencioso do computador era um bálsamo para meus nervos em frangalhos. Eu passei os últimos dias, desde a descoberta da presença de Beatriz, instalando secretamente pequenas câmeras em locais discretos pela casa e, mais importante, no escritório de Ricardo em casa, onde ele pensava que seus arquivos estavam seguros.

Eu também havia contatado um detetive particular, um ex-colega do meu escritório de arquitetura que havia se tornado consultor de segurança. Ele era discreto, eficiente e me devia um favor. Ele vinha investigando silenciosamente as finanças de Ricardo, os registros de sua empresa e, o mais importante, seus movimentos.

A tela do laptop brilhava, exibindo uma pasta marcada como "Evidências". Dentro havia fotos, capturas de tela de transferências bancárias e dados de localização. O detetive particular era minucioso. Meus dedos voaram pelo teclado, organizando, cruzando informações. Esta era minha nova arquitetura. Construindo um caso.

De repente, a porta rangeu ao se abrir. Eu pulei, fechando o laptop com força, meu coração martelando contra minhas costelas. Ricardo estava lá, seus olhos vermelhos, seu rosto pálido.

"O que você está fazendo?", ele perguntou, sua voz áspera.

"Não é da sua conta", respondi, minha voz mais afiada do que eu pretendia. Tentei parecer calma, mas minhas mãos tremiam.

Ele entrou mais no cômodo, seu olhar varrendo os livros, as plantas antigas, os esboços de design. Ele parou perto da minha prancheta, onde uma renderização inacabada de um novo parque da cidade estava sob uma folha protetora.

"Por que você está fazendo isso, Helena?", ele perguntou, sua voz mais suave agora, quase suplicante. "Por que está tentando me destruir? Nossa vida?" Ele se virou para mim, seus olhos cheios de uma tristeza familiar que costumava torcer meu estômago de culpa. "É porque você não pode ter filhos? É por isso que está tão zangada?"

As palavras foram como um tapa físico. Sempre eram. Ele conhecia minha ferida mais profunda e a usava como uma arma.

"Foi por isso que você fez isso, Ricardo?", contrapus, minha voz tensa de raiva contida. "Porque eu não posso te dar um filho? Diga-me, Ricardo, como exatamente isso aconteceu de novo? Minha infertilidade. Me lembre."

Ele se encolheu, seus olhos caindo para o chão. A memória do acidente, a pista preta, suas insistências para que eu fosse mais rápido, mais ousada, apesar dos meus apelos por cautela. O som nauseante da neve se compactando, a dor lancinante, os longos e intermináveis meses de recuperação. Os rostos sombrios dos médicos, nos dizendo que os ferimentos internos eram graves demais, que eu nunca carregaria um filho.

Ele murmurou algo ininteligível. Sua culpa, geralmente enterrada sob camadas de charme e autopiedade, emergiu por um momento fugaz.

Nesse momento, meu laptop, que eu apenas fechei, não bloqueei, emitiu um ping suave. Uma notificação. Tarde demais.

A cabeça de Ricardo se ergueu. Seus olhos, rápidos e predatórios, fixaram-se na tela. O pequeno ícone brilhante indicava um novo arquivo de áudio.

Ele se moveu mais rápido do que eu esperava, avançando para o laptop. Eu o empurrei, mas ele era mais forte, alimentado pelo pânico. Seus dedos desajeitados mexeram no trackpad, clicando na notificação.

A sala se encheu de som. Não qualquer som, mas a voz dele. Baixa, íntima, carregada de desejo.

"Não, querida, não conte para a Helena. Ela é muito frágil. E além disso, ela não entenderia. Ela simplesmente... não é como você. Você é tão viva, tão selvagem. Ela está acabada, Beatriz. Depois do acidente, ela simplesmente... se tornou uma pessoa diferente. Não a mulher por quem me apaixonei."

Então, a voz de Beatriz, rouca e satisfeita. "E você ainda a ama, Ricardo? Sério? Porque seus beijos contam uma história diferente."

A voz de Ricardo novamente, uma risada baixa. "Ela não chega aos seus pés, meu amor. Nem de perto. Ela simplesmente não me excita mais. Ela é um fardo. Mas você... você é minha fuga. Minha adrenalina. Meu futuro."

As palavras pairaram no ar, um testemunho grotesco de sua traição. Cada sílaba era um golpe de martelo no meu coração, no meu próprio ser. Ele me chamou de acabada. Um fardo. Não a mulher por quem ele se apaixonou.

Ricardo congelou, seu rosto pálido, a cor sumindo como se ele tivesse acabado de ver um fantasma. A gravação continuou, sua voz, tão íntima, tão amorosa, para outra mulher. A mulher que estava esperando seu filho. Era uma sinfonia viciosa e brutal de mentiras.

Ele tentou fechar o laptop, seus dedos tremendo, mas eu fui mais rápida. Eu o arranquei dele, puxando-o para perto do meu peito.

"Um fardo, sou eu?", sussurrei, minha voz desprovida de emoção, um eco frio e vazio na sala. "Acabada? Não a mulher por quem você se apaixonou?" Olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi o monstro sob a fachada encantadora. "Você é verdadeiramente uma obra de arte, Ricardo Ferraz. Uma obra-prima do engano."

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