Ponto de Vista: Elisa Monteiro
Eu mesma me dei alta do hospital na manhã seguinte, contra o conselho médico. A resposta de Caio chegou em minutos, um simples e inequívoco: "A caminho. Não se mova." Mas eu não podia ficar lá, não naquele quarto estéril que testemunhou tanto do meu luto fabricado.
Quando Bernardo chegou de volta à nossa cobertura, ele me encontrou no quarto principal, de pé diante da lareira. Eu estava alimentando nosso álbum de casamento às chamas, página por página. As fotos brilhantes de nossos rostos sorridentes se enrolavam, enegreciam e viravam cinzas.
"Elisa! O que você está fazendo?" Ele correu para frente, tentando arrancar o livro das minhas mãos, mas eu o segurei firme. O calor lambeu meus dedos.
"Simbolismo", eu disse, minha voz tão vazia quanto eu me sentia. Joguei o álbum inteiro e arruinado no fogo. Ele subiu com um sopro.
Ele enfiou a mão nas chamas para recuperá-lo, um gesto desesperado e tolo. Ele gritou, puxando a mão de volta, a pele na ponta dos dedos vermelha e com bolhas. Ele me encarou, seus olhos de tempestade cheios de uma dor que, pela primeira vez, eu sabia que era mentira.
"Meu amor, o que há de errado? Fale comigo", ele implorou, embalando a mão queimada. "Seja o que for, podemos consertar. Eu vou consertar. Eu juro."
Eu olhei para ele, para o homem que havia orquestrado meticulosamente a destruição da minha vida enquanto sussurrava promessas de amor. O ódio era uma coisa física, um peso frio e pesado no meu peito. Ele estava certo. Não podíamos consertar isso. Mas eu ia fazê-lo pagar por isso.
"Não há nada para consertar", eu disse, virando-me do fogo, dele. Caminhei em direção ao banheiro, meus movimentos rígidos. "Estou apenas cansada, Bernardo."
Ao fechar a porta do banheiro, senti uma cãibra aguda e lancinante no meu abdômen, mais violenta do que qualquer uma que eu já havia sentido. Apoiei-me na bancada de mármore, a náusea subindo pela minha garganta. Meu celular vibrou no balcão. Uma mensagem de um número desconhecido.
Era um vídeo. Minha mão tremeu quando apertei o play.
A tela se encheu com o rosto de Cíntia Vasconcelos. Ela estava sorrindo de lado, seus olhos escuros brilhando com malícia. Ela estava se filmando e, atrás dela, eu podia ver o inconfundível cenário estéril de um quarto de hospital. Ela moveu a câmera para baixo, e minha respiração ficou presa na garganta.
Ela estava grávida. Muito grávida.
A câmera voltou para o rosto dela. "Soube do número dez", ela ronronou, sua voz pingando de falsa simpatia. "Que pena. Parece que você simplesmente não consegue segurar nada, não é, Elisa? Nem sua empresa, nem seus pais... nem mesmo um bebê. Mas não se preocupe. Bernardo e eu teremos família suficiente por todos nós."
Uma onda de escuridão me envolveu. A cãibra no meu estômago se intensificou em uma dor agonizante, dilacerante. Sangue. Havia tanto sangue. Encharcou minhas roupas, formando uma poça no chão de mármore frio. Eu desabei, meu corpo convulsionando, o celular caindo da minha mão. Meu último pensamento consciente foi um grito desesperado e primitivo enquanto eu tentava discar para a emergência.
Acordei com as vozes sussurradas das enfermeiras do lado de fora da porta do meu quarto de hospital. A dor havia sumido, substituída por uma dormência oca e medicada.
"...a hemorragia foi grave. Ela tem sorte de estar viva", dizia uma enfermeira. "Mas o Sr. Castilho... nunca vi um homem tão frenético."
"Eu sei", sussurrou a outra. "Ele praticamente carregou a Sra. Vasconcelos para a emergência. Ela só teve uma quedinha, mas ele exigiu que todos os melhores especialistas fossem designados para ela. Disse que o bem-estar dela era sua prioridade absoluta."
Uma risada amarga e histérica tentou borbulhar do meu peito, mas ficou presa na minha garganta como um caco de vidro. Claro. A pequena queda de Cíntia era sua prioridade máxima. Minha hemorragia com risco de vida era uma preocupação secundária. Ele provavelmente parou a caminho do quarto dela para encomendar os lírios para o meu. O pensamento era tão grotescamente irônico, tão perfeitamente Bernardo, que era quase engraçado.
Ele nunca demonstrou esse nível de pânico por mim. Preocupação, sim. Tristeza, sim. Mas nunca o medo cru e primitivo da perda. Porque ele nunca estava perdendo nada que realmente valorizasse. Minhas gestações eram apenas transações. A de Cíntia era o investimento real.
Eu me levantei da cama, meus músculos gritando em protesto. Arranquei o soro do meu braço, ignorando a picada. Eu tinha que ver por mim mesma.
Vestindo uma camisola de hospital, saí do meu quarto e desci o corredor silencioso e estéril da ala VIP. Segui o som de sua voz baixa e suave até um quarto no final do corredor. A porta estava entreaberta.
Eu espiei lá dentro.
Bernardo estava sentado na beira da cama, descascando uma maçã para Cíntia com uma pequena faca de prata, as fatias caindo perfeitamente em um prato. Ele estava dando a ela, pedaço por pedaço, como se ela fosse uma boneca delicada e preciosa. Ele afagou o cabelo dela para trás da testa, seu toque infinitamente terno.
"Você tem que ser mais cuidadosa", ele murmurou, sua voz a que ele costumava reservar para mim. "Nada pode acontecer com você. Ou com nosso bebê."
Cíntia fez beicinho, uma performance magistral de vulnerabilidade. "Foi tão estressante, Bernardo. Saber que ela estava em casa. Isso me deixa nervosa. Talvez... talvez pelo bem do bebê, ela não devesse estar lá quando eu sair. A cobertura é tão grande, ela poderia morar na ala de hóspedes. Fora de vista."
Meu sangue gelou. Ela queria me relegar aos aposentos de hóspedes da minha própria casa. Minha casa. A casa que ele comprou com o dinheiro que ganhou destruindo minha família.
Eu não conseguia respirar. Cambaleei para trás da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. O movimento chamou a atenção dele.
Sua cabeça se virou bruscamente. "Elisa."
Ele se levantou em um instante, seu rosto uma máscara de choque e algo mais — culpa. Ele correu em minha direção, mas eu já estava me virando, fugindo pelo corredor o mais rápido que meu corpo maltratado permitia.
"Elisa, espere! Não é o que você pensa!", ele gritou atrás de mim.
Eu não parei. Corri, alimentada por cinco anos de mentiras e uma dor tão profunda que ameaçava me despedaçar. Entrei com tudo pela porta da escada, meu único pensamento era fugir, desaparecer.
Ele me alcançou no patamar, sua mão apertando meu braço. Seu aperto era como aço.
"Me solta", eu sibilei, minha voz rouca.
"Não até você ouvir", disse ele, sua respiração saindo em arquejos irregulares. "Cíntia é... ela concordou em ser uma barriga de aluguel para nós. Depois de todos os seus abortos, eu pensei... eu queria te fazer uma surpresa. Com nosso bebê."
A mentira era tão audaciosa, tão insultuosa, tão completamente desdenhosa da minha inteligência, que eu só pude encará-lo. Uma barriga de aluguel. Ele estava chamando sua amante, a mulher para quem ele pagou sua "dívida" com as vidas dos meus filhos, de barriga de aluguel.
"Uma surpresa?", eu sussurrei, as palavras pingando veneno. "Você queria me fazer uma surpresa."
"Sim", disse ele, seus olhos suplicantes, desesperados para que eu acreditasse na fantasia que ele estava tecendo. "Tudo o que eu faço, Elisa, é por você. Sempre."
Antes que eu pudesse responder, um grito ecoou do corredor acima de nós. A voz de Cíntia. "Bernardo! Socorro! Acho que estou sangrando!"
Sua cabeça se virou. Seu corpo inteiro ficou tenso. Por uma fração de segundo, ele ficou dividido, seu olhar vacilando entre mim e o som da voz dela.
Foi apenas um segundo. Mas naquele segundo, eu vi sua escolha. Eu vi tudo.
Então, de baixo, um grito de pânico. Um carrinho de hospital, carregado com pesados tanques de oxigênio, havia se soltado de um funcionário no andar de baixo. Estava descendo a rampa em direção à escadaria, diretamente em nossa direção.
Não havia tempo para pensar. Apenas para reagir.
Naquele momento final e esclarecedor, Bernardo Castilho fez sua escolha. Ele não me empurrou para a segurança. Ele não tentou nos proteger a ambos.
Ele soltou meu braço e se jogou na frente de Cíntia, que havia aparecido no topo da escada. Ele se tornou seu escudo humano.
E me deixou para enfrentar o impacto sozinha.
O mundo explodiu em uma cacofonia de metal rangendo e vidro se estilhaçando. A força da colisão me jogou contra a parede de concreto. Minha cabeça bateu contra o corrimão, e uma dor lancinante atravessou meu corpo.
Enquanto a escuridão me consumia, a última coisa que vi foi Bernardo, já de pé, me ignorando completamente, seus braços envolvendo uma Cíntia choramingando, sussurrando palavras de conforto em seu cabelo. Ele nem sequer olhou para trás.
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Ponto de Vista: Bernardo Castilho
Um pesadelo.
Essa era a única palavra para aquilo. Eu estava preso em um sonho recorrente onde eu estava na beira de um penhasco, Elisa de um lado, Cíntia do outro. O chão desmoronava, e eu só podia salvar uma. Todas as vezes, eu estendia a mão para Elisa, meus dedos roçando os dela, apenas para ela escorregar do meu alcance enquanto eu era forçado a puxar Cíntia de volta da beira. Eu acordava suando frio, o nome de Elisa um grito rouco em meus lábios.
Quando finalmente saí da névoa da anestesia no hospital, o sonho se agarrou a mim como uma mortalha. A primeira coisa que vi foi Elisa. Ela estava sentada em uma cadeira ao lado da minha cama, o rosto pálido e abatido, uma bandagem enrolada na cabeça. Seus olhos, geralmente da cor de mel quente, estavam frios e vazios.
Alívio, tão agudo e potente que era doloroso, me invadiu. "Você está bem", eu sussurrei, minha voz rouca. "Graças a Deus."
Estendi a mão para a dela, mas ela se afastou como se meu toque a queimasse.
"O médico disse que você teve uma concussão", disse ela, seu tom plano, desprovido de qualquer emoção. "E várias costelas fraturadas. Cíntia está bem. Você a protegeu bem."
A culpa era um peso físico, pressionando meu peito, dificultando a respiração. "Elisa, eu... eu entrei em pânico. Eu nunca quis que você se machucasse. Você tem que acreditar em mim."
"Eu acredito que você entrou em pânico", disse ela, seu olhar inabalável. "E no seu pânico, você fez uma escolha. Você sempre faz." Ela se levantou. "Eu quero o divórcio, Bernardo."
As palavras me atingiram mais forte que os tanques de oxigênio. "Não. De jeito nenhum. Nós não vamos nos divorciar."
"Não é uma negociação."
"Qualquer coisa menos isso", eu implorei, tentando me sentar, mas a dor nas minhas costelas era cegante. "Eu faço qualquer coisa. Eu me livro dela. Eu mando a Cíntia embora, eu juro. Podemos voltar a ser como éramos."
Um lampejo de algo — desprezo, talvez — cruzou seu rosto. "Você quer que eu te perdoe? Tudo bem. Eu perdoo, com uma condição."
Esperança, desesperada e patética, surgiu em mim. "Qualquer coisa."
Seus olhos endureceram. "Eu quero que ela sofra um aborto. Igual aos meus. Faça acontecer, Bernardo. Faça ela perder o bebê que vocês dois criaram. Então podemos falar sobre perdão."
Eu a encarei, horrorizado. A crueldade da exigência era chocante, mas o que me chocou mais foi que veio dela. Minha gentil e compassiva Elisa. "Eu não posso fazer isso", sussurrei. "É uma criança inocente."
Sua risada foi um som frágil e feio. "Inocente? Meu primeiro filho era inocente? Meu quinto? Meu décimo? Eles não eram inocentes o suficiente para você poupar? Ou sua dívida com Cíntia superou a vida deles?"
O sangue sumiu do meu rosto. Ela sabia. Deus, ela sabia de tudo.
"Como..."
"As paredes deste hospital são mais finas que as suas mentiras", ela cuspiu. "Você a escolheu, Bernardo. Você a escolheu em vez de mim, repetidamente. Você escolheu protegê-la de uma queda pequena enquanto eu estava sangrando até a morte. Você escolheu protegê-la de um carrinho desgovernado enquanto eu recebia o impacto total. Você escolheu o bebê dela em vez dos dez que você assassinou dentro de mim. Então não ouse falar comigo sobre inocência."
Ela caminhou até a porta, suas costas retas e rígidas.
"Onde você vai?", gritei, minha voz falhando.
"Ver sua 'barriga de aluguel'", disse ela, sem se virar. "Quero dar meus parabéns."
A porta se fechou atrás dela, me deixando sozinho com os destroços das minhas escolhas.
Eu tinha que consertar isso. Tinha que fazê-la entender. A dívida com Cíntia era real, uma obrigação tóxica que apodreceu por uma década. Mas meu amor por Elisa... isso também era real. Era a única coisa pura e inegável na minha vida. Era uma obsessão, uma possessão, o próprio cerne do meu ser. Eu construí meu império para ela, destruí sua família para possuí-la, e eu queimaria o mundo até o chão antes de deixá-la ir.
Ignorando a dor lancinante, arranquei meu próprio soro e saí cambaleando do meu quarto, seguindo-a pelo corredor.
Quando cheguei ao quarto de Cíntia, a cena lá dentro me congelou no lugar. Elisa estava de pé ao lado da cama, um sorriso sereno, quase agradável, no rosto. Cíntia estava apoiada nos travesseiros, parecendo triunfante.
"Bernardo, querido", Cíntia arrulhou, me vendo na porta. "Elisa estava me dizendo como está feliz por nós. Ela entende que algumas mulheres são simplesmente... estéreis. Não é culpa dela ser defeituosa." Ela deu um tapinha na barriga. "Mas graças a Deus você me tem para te dar um herdeiro saudável."
O sorriso de Elisa não vacilou. "Sim", disse ela, sua voz suave como seda. "Estou tão emocionada. Na verdade, vim te dar um presente."
Antes que alguém pudesse reagir, ela se esticou e pegou a jarra de água da mesa de cabeceira de Cíntia. Com um movimento do pulso, ela esvaziou a jarra inteira de água gelada diretamente na barriga grávida de Cíntia.
Cíntia gritou, um som agudo de choque e indignação.
"Que porra você está fazendo?", eu rugi, correndo para frente.
Elisa apenas ficou lá, sua expressão beatífica. "Apenas ajudando-a a se refrescar. Os hormônios da gravidez podem ser tão... inflamatórios."
Eu empurrei Elisa para o lado, minhas mãos pegando uma toalha para secar uma Cíntia furiosa e engasgada. "Você está louca?", gritei por cima do ombro para minha esposa.
"Talvez", Elisa respondeu calmamente. "Você teve cinco anos para me levar até lá."
Cíntia, vendo sua oportunidade, caiu em soluços dramáticos. "Ela está tentando machucar o bebê, Bernardo! Ela está com ciúmes! Você tem que tirá-la de perto de mim!"
Virei-me para Elisa, meu rosto uma nuvem de fúria. "Saia. Agora."
Ela apenas olhou para mim, seus olhos cheios de uma decepção arrepiante e profunda. Era um olhar que dizia que eu havia falhado em um último e crucial teste. Sem outra palavra, ela se virou e saiu do quarto.
Eu sabia que deveria ter ido atrás dela. Sabia que estava cometendo outro erro catastrófico. Mas Cíntia estava chorando, agarrando o estômago, e o instinto primitivo e protetor — aquele que eu aprimorei por uma década para mantê-la segura, para pagar minha dívida — assumiu o controle.
Eu fiquei. Acalmei Cíntia. Prometi a ela que Elisa não chegaria perto dela novamente. E a cada palavra, eu podia sentir o fio invisível que me conectava à minha verdadeira esposa se esticando cada vez mais fino, até que finalmente se partiu.
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