A mensagem pairava no ar, um desafio digital lançado no vazio. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida caótica no silêncio repentino da minha decisão. Eu não sabia se ele sequer a veria. Dois anos. Era muito tempo para permanecer bloqueado.
Meu celular vibrou quase imediatamente. Um toque agudo e insistente que me fez pular. O nome dele brilhou na tela: "Constantino Alcântara". Ele não havia apagado meu número. A percepção me causou um arrepio na espinha.
Fiquei olhando, meu dedo pairando sobre o ícone verde. Minha respiração falhou. Eu conseguiria fazer isso? Eu conseguiria realmente soltá-lo no mundo cuidadosamente construído de Christian?
O toque parou. E começou de novo, ainda mais persistente desta vez. Respirei fundo, me preparando. Isso não era mais sobre medo. Era sobre sobrevivência. Era sobre vingança.
"Ana Luiza", sua voz, um rosnado baixo, cortou a linha telefônica no momento em que atendi. Não houve saudação, nem hesitação. Apenas meu nome, falado com uma intensidade que me puxou de volta através dos anos.
"Constantino", respondi, minha voz surpreendentemente firme.
"Acabar com o seu casamento?", ele repetiu, com um tom perigoso. "É um pedido e tanto, mesmo para você. Finalmente desistiu daquele playboyzinho de tecnologia?"
Suas palavras doeram, mas eu as ignorei. Ele tinha todo o direito de ser cínico.
"Se não estiver interessado, tenho certeza de que posso encontrar outra pessoa", eu disse, com uma calma deliberada na voz. Eu sabia como jogar esse jogo. Sabia como provocá-lo.
Uma inspiração aguda do outro lado da linha. O silêncio se estendeu, denso de raiva não dita.
"Outra pessoa? Você acha que qualquer outra pessoa poderia fazer o que eu posso, Ana Luiza? Você acha que qualquer outra pessoa ousaria sequer tentar?"
Sua voz estava subindo agora, uma fúria mal contida.
"Você não tem ideia com quem está lidando."
"Eu sei exatamente com quem estou lidando", contrapus, minha voz ainda nivelada. "E agora, preciso de alguém que possa queimar uma casa até o chão. Você é esse homem, ou não?"
Outro longo silêncio. Este era diferente. Parecia calculista, predatório. Imaginei-o, onde quer que estivesse, seus olhos escuros semicerrados, um sorriso lento se espalhando por seus lábios enquanto ele pesava as possibilidades. Meu estômago se revirou. Ele era perigoso, potencialmente ainda mais do que Christian. Mas Christian já havia me mostrado o seu pior.
Preparei-me para a rejeição, uma pontada familiar antecipando sua chegada. Ele recusaria. Ele zombaria de mim. Ele me diria que eu merecia o que quer que Christian me desse.
"Lembra do que eu te disse, Ana Luiza?", ele disse, sua voz voltando àquele rosnado baixo e perigoso. "Você me bloqueou. Você me excluiu. Você achou que podia simplesmente ir embora." Uma risada sem humor escapou dele. "Agora olhe para você. De joelhos, implorando pela minha ajuda. Engraçado como o mundo funciona."
Meu maxilar se contraiu.
"Eu não estou de joelhos, Constantino. Estou tomando uma decisão estratégica."
"Uma decisão estratégica que você deveria ter tomado há cinco anos", ele retrucou, sua voz tingida de triunfo. "Então, o que mudou agora? Seu garoto de ouro finalmente mostrou suas verdadeiras cores?"
Fechei os olhos, uma onda de exaustão me invadindo.
"Eu fui uma tola", admiti, as palavras cruas e dolorosas. "Uma tola ingênua e idiota que acreditou em uma miragem."
"Uma miragem, de fato." Ele fez uma pausa, e eu quase pude ouvir o sorriso em sua voz. "Conte-me tudo. Cada detalhe. E então, e somente então, decidirei se você vale o esforço."
"Eu não tenho tempo para seus jogos, Constantino", eu disse, tentando injetar um pouco de aço em minha voz.
"Ah, mas você tem, Ana Luiza", ele ronronou. "Porque você está vindo até mim. Você vai restaurar cada número bloqueado, cada e-mail deletado. Você vai me enviar sua localização atual, e eu enviarei meu jato. Você me contará tudo, e eu ouvirei. E então, falaremos sobre acabar com um casamento."
"E se eu recusar?"
"Então você pode lidar com seu 'playboyzinho de tecnologia' sozinha", ele disse, a diversão clara em sua voz. "Eu não faço caridade, Ana Luiza. E certamente não entro em propostas perdedoras."
Meus ombros caíram em derrota. Ele me tinha.
"Tudo bem", eu disse entre dentes. "Vou enviar os detalhes."
"Boa menina", ele disse, e a linha ficou muda.
Fiquei ali por um longo momento, o telefone ainda pressionado contra meu ouvido, o tom de discagem um zumbido zombeteiro. Constantino Alcântara. O homem que chamavam de "Tubarão do Rio". Um magnata de private equity cuja reputação de crueldade o precedia. Dois anos atrás, ele invadiu a cena de São Paulo, comprando empresas falidas e transformando-as em ouro, deixando um rastro de carreiras destruídas e concorrentes aterrorizados. Ele era selvagem, imprevisível e ferozmente inteligente. E ele, por alguma razão inexplicável, havia me escolhido como alvo. Achei sua intensidade sufocante, sua possessividade alarmante e, eventualmente, o cortei. Agora, eu estava correndo de volta para seu abraço perigoso.
Finalmente abaixei o telefone, meu olhar varrendo a rua movimentada. Um arrepio frio percorreu meu corpo. O que eu tinha feito? Mas então, o rosto zombeteiro de Christian, suas palavras cruéis, brilharam em minha mente. Não. Este era o único jeito.
Era final de tarde quando finalmente voltei para minha cobertura, meu corpo doendo, minha mente entorpecida. O prédio parecia opressivamente silencioso. Abri a porta, esperando um apartamento vazio, mas então ouvi uma voz.
"Analu! Aí está você, meu amor. Eu estava tão preocupado."
Christian. Ele emergiu da sala de estar, uma imagem de preocupação, seus braços abertos. O cheiro familiar de seu perfume, antes reconfortante, agora fazia meu estômago se revirar.
"Onde você esteve? Liguei para o seu celular uma dúzia de vezes." Ele se moveu em minha direção, seus olhos arregalados com uma preocupação fingida.
Consegui um sorriso fraco.
"Apenas... resolvendo umas coisas. Meu celular descarregou."
A mentira pareceu natural, uma facilidade praticada que vinha de anos navegando em suas manipulações, embora eu não tivesse percebido até agora.
Ele franziu a testa, seu olhar inquisitivo.
"Você está pálida. Viu alguém? Alguém estava com você?"
Seus olhos percorreram a entrada, um brilho de suspeita em sua profundidade.
"Não, Christian. Só eu", eu disse, tentando soar convincente, afastando-me de sua tentativa de abraço. "Estou um pouco cansada."
Ele fez uma pausa, depois sorriu, sua expressão se suavizando.
"Bem, fico feliz que você esteja de volta. Eu estava prestes a fazer o jantar. Que tal uma noite agradável e relaxante?"
Ele deu um passo em minha direção novamente, uma mão alcançando minhas costas.
Eu me encolhi, instintivamente me afastando.
"Eu... eu realmente só quero tomar um banho. Sinto-me um pouco suja."
"Besteira", ele riu, sua mão já em minha cintura, me puxando para mais perto. "Você está sempre linda, Analu. Vamos, um abraço rápido."
Ele pressionou os lábios contra minha têmpora, seu toque fazendo minha pele arrepiar.
Nesse exato momento, uma risada leve e feminina ecoou da cozinha. Meu sangue gelou.
Uma jovem mulher apareceu, carregando uma bandeja cheia de biscoitos recém-assados. Seus longos cabelos loiros caíam sobre os ombros, e seus olhos, grandes e inocentes, encontraram os meus. Ela usava uma das camisas grandes de Christian, o tecido macio agarrado à sua figura esbelta.
"Ah, oi!", ela disse animadamente, um rubor subindo em suas bochechas. "Você deve ser a Ana Luiza! O Christian me falou tanto de você."
Christian tirou o braço da minha cintura, um leve rubor em seu próprio rosto.
"Analu, esta é a Bárbara. Bárbara... uma velha amiga. Ela acabou de voltar para a cidade e precisava de um lugar para ficar por um tempo."
Ele terminou com um encolher de ombros, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.
Minha mente girou. Bárbara. Seu amor de infância. A mulher com quem ele planejava se casar. A mulher por quem ele ia me humilhar. Ela estava aqui. Na minha casa.
Forcei um sorriso, meus lábios parecendo rígidos.
"Bárbara. Claro."
Meus olhos se voltaram para Christian, uma acusação silenciosa em sua profundidade. Ele evitou meu olhar.
Bárbara sorriu docemente, seus olhos piscando para Christian, depois de volta para mim.
"O Christian disse que você poderia ficar um pouco sensível com a minha estadia aqui, mas eu prometo que não sou problema. Se preferir que eu vá embora, eu entendo completamente."
Ela juntou as mãos, parecendo totalmente inocente, uma mestra manipuladora já em ação.
Eu estudei Bárbara, uma estranha mistura de emoções se agitando dentro de mim. Na superfície, ela era tudo o que Christian sempre exaltou: doce, inocente, quase frágil. Mas por baixo da fachada, eu senti uma rigidez, um brilho calculista em seus olhos que traía sua vulnerabilidade cuidadosamente construída. Meu olhar se voltou para Christian. Seu maxilar estava tenso, um tique nervoso em sua têmpora. Ele estava preocupado que eu fizesse uma cena. Meus lábios se curvaram em um sorriso lento e deliberado.
"De forma alguma", eu disse, minha voz suave como seda. "Os amigos do Christian são sempre bem-vindos. Especialmente velhos amigos." Meu sorriso não alcançou meus olhos. "Por favor, sinta-se em casa."
Christian relaxou visivelmente, um suspiro escapando dele.
"Viu, eu te disse que a Analu era compreensiva, Bárbara." Ele sorriu para ela, depois se virou para mim. "A Bárbara fez o jantar para nós hoje à noite, meu amor. Ela é uma ótima chef."
Meu estômago se revirou, mas mantive a compostura. Christian não conseguia nem se dar ao trabalho de esconder seu desrespeito flagrante por mim agora. Ele estava tão consumido por seu "amor verdadeiro" que negligenciava até mesmo a pretensão de respeito.
"Maravilhoso", respondi, minha voz monótona. "Tenho certeza de que está delicioso."
Bárbara deu uma risadinha, um som agudo e açucarado.
"Ah, não é nada de especial. Só algo que eu preparei rapidinho. O Christian disse que você adora refeições orgânicas, sem glúten e com poucos carboidratos, então tentei fazer algo saudável para você!"
Ela apresentou dois pratos. Um, carregado com uma variedade colorida de vegetais grelhados, peixe magro e quinoa, ela colocou na frente de Christian. O outro, uma porção miserável do que parecia ser frango cozido e arroz branco, ela colocou diante de mim.
"E para você, Ana Luiza", ela disse, seu sorriso inabalável, "espero que goste. Sei como você é exigente com sua dieta."
Ela até piscou para Christian, que assentiu com aprovação.
Olhei para o prato, uma onda de náusea me invadindo. O frango cozido estava sem sabor, o arroz empapado. Era um insulto, uma tentativa flagrante de afirmar seu domínio, mal disfarçada de consideração.
"Que atencioso", eu disse, minha voz pingando gelo. Peguei meu garfo, depois o coloquei de volta com um tilintar delicado. "Bárbara, querida, você por acaso esqueceu de temperar isso? Ou está tentando me dizer alguma coisa?"
Meus olhos, frios e afiados, encontraram os dela.
A fachada inocente de Bárbara desmoronou instantaneamente. Seus olhos se encheram de lágrimas e seu lábio inferior começou a tremer.
"Oh! Me desculpe, Ana Luiza! Eu fiz algo errado? Posso fazer outra coisa para você! O que você quiser!"
Sua voz estava tingida com uma vulnerabilidade ensaiada, projetada para provocar simpatia.
Christian, previsivelmente, franziu a testa para mim.
"Analu, qual é o seu problema? A Bárbara fez isso com amor. Não seja tão ingrata!" Ele se virou para Bárbara, sua voz se suavizando. "Não se preocupe, querida. A Analu só tem estado um pouco estressada ultimamente."
Meu queixo caiu. Ingrata? Ele estava realmente a defendendo. Em vez de mim. Depois de tudo. Ele estava verdadeiramente cego. Cego por seu próprio ego, pela ilusão de um amor puro e imaculado.
"Sabe de uma coisa?", eu disse, empurrando minha cadeira para trás com um som arrastado que ecoou na sala subitamente silenciosa. "Perdi o apetite."
Levantei-me, meu olhar varrendo Christian, depois Bárbara.
"Aproveitem o jantar, vocês dois."
Caminhei em direção à cozinha, uma fúria fria fervendo sob meu exterior controlado. Christian chamou meu nome, mas eu o ignorei. Eu precisava de água. Precisava escapar. Ele viu minhas costas se afastando, um brilho de algo indecifrável em seus olhos, uma pontada momentânea de... algo. Mas desapareceu rapidamente, substituído por um sorriso presunçoso enquanto Bárbara se aninhava mais perto dele.
"Ela é tão difícil, não é?", Bárbara ronronou, acariciando seu braço. "Mas não se preocupe, Christian. Eu cuidarei de tudo. Então, sobre os planos do casamento... Você ainda vai abandoná-la no altar como disse?"
Os olhos de Christian endureceram, um sorriso cruel torcendo seus lábios.
"Claro. Faz tudo parte do plano, meu amor. Ela cumpriu seu propósito. Agora é hora de ela ir."
As palavras, frias e afiadas, ressoaram pela porta aberta da cozinha. Gelei, minha mão pairando sobre a torneira. Eles nem se deram ao trabalho de baixar a voz. Estavam celebrando minha queda, bem na minha própria casa.
Uma única lágrima, quente e ardente, traçou um caminho pelo meu rosto. Meu propósito. Meu propósito era ser usada, ser humilhada, ser descartada. O peso de sua traição, cru e agonizante, se abateu sobre mim mais uma vez.
Caminhei até a lata de lixo, meus movimentos rígidos e deliberados. Meu anel de noivado, um diamante brilhante que agora parecia uma algema, deslizou do meu dedo. Olhei para ele por um momento, depois o joguei na lixeira. Ele tilintou contra o vidro, um som pequeno e final.
"Estou me sentindo mal", anunciei a Christian mais tarde naquela noite, minha voz monótona, desprovida de emoção. "Acho que preciso descansar. Não vou participar de nenhum evento social nos próximos dias."
Era minha fuga, minha maneira de recuar, de processar, de planejar.
Christian, sempre o manipulador, fingiu preocupação.
"Oh, Analu, coitadinha. Eu fico com você. Eu cuido de você."
Ele apareceu na minha porta, trazendo uma bandeja com um copo de leite e algumas torradas secas.
Eu o observei, uma diversão fria borbulhando sob a superfície. Sua atuação era impecável, quase convincente o suficiente para me fazer duvidar do que eu tinha ouvido. Quase.
"Não, Christian, tudo bem", eu disse, minha voz abafada, fingindo uma tosse. "Eu só preciso de um pouco de silêncio. Você e a Bárbara... divirtam-se. Sério."
Acenei com uma mão displicente.
Ele hesitou, depois assentiu.
"Se você insiste. Apenas descanse um pouco, meu amor. Estarei aqui se precisar de alguma coisa."
Ele me deu um sorriso açucarado, depois fechou a porta, me deixando na penumbra. Ouvi seus passos se afastarem, depois o murmúrio fraco de vozes, e a risada de Bárbara, novamente.
Mais tarde, muito mais tarde, a porta rangeu novamente. Christian entrou, uma carranca preocupada em seu rosto.
"Analu? Você está acordada?"
Ele acendeu a lâmpada de cabeceira, banhando o quarto em um brilho forte.
Meus olhos, ainda fechados, se abriram. Eu o vi, parado ali, sua camisa ligeiramente desarrumada. E então eu vi. Uma leve marca vermelha em seu pescoço, mal visível sob o colarinho. Um chupão recente. Meu estômago se revirou.
Rapidamente desviei o olhar.
"Christian? O que foi?"
"Só verificando você", ele disse, sua voz suave. Ele se sentou na beirada da cama, alcançando minha mão. "Você me deixou preocupado."
Puxei minha mão, fingindo desconforto.
"Eu te disse, só preciso descansar. E... e se você vai ficar aqui, poderia talvez... não ficar? Ouvi dizer que a Bárbara está no quarto de hóspedes. Não gostaríamos de deixá-la desconfortável, não é?"
As palavras, uma provocação calculada, rolaram da minha língua.
Christian piscou, sua testa franzida.
"Desconfortável? Do que você está falando, Analu? Ela é apenas uma amiga." Ele parecia genuinamente perplexo, ou talvez, apenas um ator muito bom. "E por que você está de repente tão... distante?"