Ellis Barker dirigia empolgada pelas ruas do centro da cidade de Nova York em direção, Wild Holdings Bank, o banco no qual foi contraída a hipoteca de sua casa. A casa foi hipotecada há dois anos para ajudar seu único irmão, Jason, que após a morte súbita de seu pai havia sido desviado e preso por operar em jogos de azar ilegais. Esses não eram exatamente os planos que a jovem mulher tinha para a casa de seus pais, mas com as dívidas contraídas por seu irmão e o advogado que ela precisava contratar, ela ficou com pouca escolha. Ellis questionou o fato de que o banco havia liberado apenas parte da hipoteca, mas cobrou o valor total da casa em juros, o gerente simplesmente disse que por ser uma herança, ela só podia hipotecar sua parte da herança e não a parte de Jason.
— Entretanto, se eu não pagar minha parte, você fica com a casa na totalidade. Isso não parece muito justo, não é mesmo? – Questionou Ellis mostrando a cláusula ao gerente.
— Compreendo sua insatisfação senhorita Barker, mas a vida nem sempre é justa. – Respondeu o gerente com um tom de deboche. — Ajudo a senhorita em algo mais?
— Não, vocês já fizeram mais que o suficiente... – Responde Ellis guardando o documento em sua bolsa, revoltada.
Ela caminhou a passos duros para fora do banco jurando para si mesma que voltaria um dia e quitaria toda a dívida. E assim foi, por longo dois anos, os quais Ellis trabalhou em dois empregos: O primeiro era de corretora de imóveis que era para a hipoteca e as coisas da casa, e o outro era de garçonete que o dinheiro era destinado para a clínica de reabilitação, onde internou seu irmão. Aliás, seu irmão também sairia da clínica naquele mesmo dia, mas primeiro ela iria até o banco quitar a última parcela e depois iria até seu irmão.
Aquele dia era importante demais para Ellis que sentia que nada seria capaz de tirá-la do sério, algo que não era tão difícil de realizar. Nem o trânsito que ela sabia que enfrentaria, nem a jovem que a atende com cara de nojo toda vez em que ela vai pagar as parcelas. Todavia, hoje parecia um dia incrivelmente especial. O céu estava azul sem nenhuma nuvem, algo raro quando se fala sobre Nova York. Até o trânsito estava calmo, que ela levou menos de uma hora para chegar ao banco, algo inimaginável em um dia comum de semana.
Será que me confundi e hoje é feriado? questionava Ellis entrando pelo portão do estacionamento do banco. Ela observa o estacionamento e nota que está lotado. Estava bom demais para ser verdade, pensou Ellis enquanto dirigia devagar pelo lugar, buscando qualquer sinal de que algum cliente fosse sair. Por fim, ela parou o veículo e decidiu consultar seu celular para ter certeza de que não era feriado.
Ela olhava o celular quando uma alma caridosa decidiu ir embora. A jovem colocou seu telefone de volta no porta-luvas, ligou seu veículo e dirigiu até a vaga, deixando seu carro passar um pouco, pois queria estacionar de ré. Já preparava para fazer sua manobra quando um Audi RS e-tron GT simplesmente estacionou em sua vaga.
Ellis fica algum tempo paralisada sem entender o que havia acontecido, já que podia jurar ter deixado bem claro sua intenção de entrar na vaga. A jovem de cabelos castanhos então decide olhar pelo retrovisor e vê dois homens de ternos saírem do veículo, rindo e conversando sem se importarem com o que havia feito. E essa foi a gota d’água para Ellis que desceu de seu veículo irada.
— Ei! – Gritou ao mesmo tempo que andava atrás dos dois homens que continuaram caminhando sem se importar com ela. Ellis acelerou o passo enquanto gritava: — Ei, imbecis de terno!
Os dois homens pararam e então se entreolharam, surpresos. Até que um deles, o mais alto e mais forte, o que parecia que o terno preto fosse rasgar a qualquer momento... justamente esse se virou em direção a Ellis, sério. Porém, não apenas se virou, como andou até Ellis que não demonstrou se intimidar com o brutamontes que respirava rente ao seu rosto, como um animal. Animal este que a jovem percebeu ser totalmente controlado pelo outro homem, de terno cinza e óculos escuros que apenas observava a cena de onde estava com suas mãos nos bolsos de sua casa, tranquilamente.
— Você estava nos chamando de quê? – Questionou o brutamontes.
—Imbecis de terno. – Respondeu Ellis tranquilamente. Ela então se esquivou do brutamontes e se direcionou ao outro que continuava apenas observando a cena. — Você roubou a minha vaga!
— Ei, não se direcione ao Senhor Amorielle. – Ordenou o brutamontes segurando no ombro de Ellis.
—Tire sua mão nojenta de mim, ou gritarei tanto nesse estacionamento que você se arrependerá amargamente disso. – Falou Ellis encarando o brutamontes que retira a mão, surpreso. — Tire a mão dela, Rocco. – Falou o outro homem, enquanto colocava a mão dentro de seu terno cinza: — Melhor resolvermos isso de forma mais... amigável.
Aos poucos a mão dele foi saindo de dentro do terno e então com ela veio também um generoso maço de dinheiro para a surpresa de Ellis.
— Mas o quê...? – Começou Ellis a dizer sendo interrompida pelo gesto do homem que jogou o maço em direção ao seu capanga.
— Uma forma de pedir recompensá-la pelo transtorno causado por Rocco ao colocar o carro na vaga que você diz ser sua. – Explicou o outro homem sob o olhar ainda em choque de Ellis.
Rocco estende o maço em direção a Ellis que dá um passo para trás recusando segurar o dinheiro. Afinal, quem daria um maço que deveria ter uns mil dólares facilmente, apenas por uma vaga de estacionamento?
— Não, obrigada. Eu não preciso do seu dinheiro. – Recusou Ellis, séria.
— Todo mundo precisa de dinheiro, não precisa ser tão orgulhosa, jovem. – Falou o homem de terno cinza.
— Além de ter roubado a minha vaga, pelo visto você não conhece a palavra “não”, não é mesmo?
— E você pelo visto gosta bastante dela, não é mesmo? – Rebateu Senhor Amorielle. Ele encarou seu relógio de pulso e então continuou dizendo: — Olhe, por mais que eu esteja gostando desse papo estranho com uma desconhecida, preciso ir para minha reunião. Então, pegue o dinheiro e siga seu rumo.
Ela encara o dono do maço de dinheiro e disse:
— Guarde esse dinheiro com você para pagar as aulas de como viver em sociedade, pois você está precisando urgente.
Ellis então voltou a caminhar em direção ao seu carro ao mesmo tempo em que era observada por Rocco e Senhor Amorielle. O brutamontes se virou para o homem do terno cinza e disse, com a mão dentro de seu terno preto:
— Só dá a ordem e eu desapareço com esse problema, Don Vittorio.
— Não. – Recusou Amorielle segurando no braço de Rocco, evitando assim da arma de seu segurança surgisse. O Brutamontes o encarou sem entender e então ele continuou dizendo: — Estamos muito expostos aqui. Vamos, temos coisa melhor a fazer do que nos preocupar com essa garota.
Os dois voltaram a caminhar em direção ao elevador sendo observados por Ellis que apertava seu volante com toda raiva.
***
— Don Vittorio Amorielle! – Falou o gerente que abria os braços e sorria em direção aos dois homens. — Que surpresa agradável.
Apesar do cumprimento efusivo, da alegria demonstrada pelo gerente geral do banco, a fala final indicava exatamente o que Vittorio almejava: ele estava surpreso e não de um jeito positivo. O suor na testa do gerente indicava nervosismo, ou medo. Também, quem não estaria com medo de se deparar com ninguém menos que o mais novo chefe da família Amorielle, a mesma que por décadas sempre se manteve nos bastidores deixando seus sócios, acionistas e pessoas como Rocco resolvessem seus assuntos: fossem os legais ou aqueles entre “amigos”.
Pelo menos era assim que agiam os Amorielle até Vittorio assumir o comando de sua família, demonstrando que as coisas iam mudar.
—Em que posso ajudá-lo? – Perguntou o gerente enquanto tentava manter o sorriso nervoso.
—Temos uma reunião. – Respondeu Vittorio tranquilamente enquanto mexia em seu bolso até que encontrou seu charuto.
—Temos? – Perguntou o gerente, surpreso.
O homem tentava buscar na memória sua agenda de compromissos do dia e não conseguiu se recordar de nada relacionado Amorielle. Talvez ele tivesse agendado com um novo código. Ou então o senhor Vittorio estivesse realmente com uma reunião marcada, mas com a diretoria, ou diretamente com Domenico Wild, o dono. Ele poderia até arriscar e perguntar, aquela figura ilustre, mas sabia que antes que fosse capaz de concluir a pergunta viraria um tapete com uma bala no meio da testa.
— Posso estar enganado, mas sinto que você não esperava que eu estivesse, Franco. – Começou Vittorio calmamente.
— Não, de forma nenhuma Sr. Amorielle. – Disse Franco , nervoso mexendo em sua gravata que parecia apertar sua garganta. Ele estendeu seu braço em direção a sua sala continuou: — Por favor, venham até minha sala.
Os dois homens ficaram parados esperando Franco dar o primeiro passo, deixando o gerente ainda mais nervoso a ponto de começar a soar na sua calvície.
— Vá na frente, Franco. – Ordenou Rocco, sério.
—Como quiserem. – Concordou Franco que então passou a andar na frente.
Ele caminhava como se estivesse indo para forca enquanto era seguido por Rocco e por último Vittorio que fumava seu charuto com cuidado.
— Cristine, entrarei em reunião com Senhor Amorielle. – Avisou Franco a sua secretária que não parava de se exibir para Vittorio. — Por favor, não importa quem seja, diga que estou ocupado. Ou melhor, feche minha agenda.
—Como quiser. – Respondeu a loira , mas não sem antes piscar para Vittorio que a ignorou completamente, diferente de Rocco que lhe mandou um beijinho.
O trio entrou na sala e então Franco fechou a porta rezando para que a visita corresse muito bem.
***
— Como assim ele não pode me atender? – Questionou Ellis, revoltada com a audácia de Cristine.
—Foram ordens do Franco, Senhorita Barker. – Respondeu Cristine ainda retocando seu batom vermelho. Afinal, nunca se sabe quando o Senhor Amorielle apareceria novamente, precisava estar preparada.
— Eu marquei hora. – Reforçou Ellis mostrando o papel do agendamento para Cristine. Na verdade, ela queria mesmo era esfregar na cara da secretária do gerente.
Cristine segurou o papel do agendamento e então em poucos segundos já soltou o seu sorriso de deboche, dizendo:
—Sim, você estava agendada para às nove da manhã e agora faltam cinco para dez, então...
— Sim, eu sei que estou atrasada. Porém, um babaca roubou a minha vaga no estacionamento e fui obrigada a estacionar há uma quadra daqui por conta do trânsito que decidiu engarrafar... – Explicou Ellis, irritada.
—Desculpe-me, mas não posso ajudar. Volte amanhã, querida. – Respondeu Cristine com pouco caso.
—Querida, você não está entendendo. A última parcela vence hoje e ainda estou dentro do horário para falar com ele...
— Bom, se a parcela vence hoje... – Começou Cristine encarando Ellis. Ela se aproxima ainda mais da jovem lhe dando esperança que falaria em seu favor. — Você deveria ter feito o pagamento antes do vencimento. Sinto muito. Ajudo você em algo mais?
—Ajudaria se essa merda de banco fizesse mais vagas de estacionamentos! – Falou Ellis em voz alta. — Porém, como são incapazes, terão que lidar com as consequências.
Antes que Cristine conseguisse se levantar de sua mesa, Ellis já avançava por a dentro no escritório de Franco e sendo surpreendida com a presença de Vittorio e Rocco que estavam sentados de frente para o gerente.
—Perfeito! – Gritou Ellis se aproximando do trio. Ela encarou Vittorio e continuou esbravejando: — Já não bastava roubar a minha vaga do estacionamento, ainda teve a audácia de roubar o meu horário de atendimento!
— Senhorita, Barker... – Começou Franco se levantando. — Por favor, não desrespeite os meus ilustres clientes.
—Ilustres? Eu não estou nem aí se são ilustres! – Esbravejou Ellis. — Esse horário é meu, então saiam!
—Deve estar acontecendo algum equívoco. – Falou Vittorio encarando a jovem. Ele dá um trago forte em seu charuto e então deixou a fumaça se espalhar pelo ambiente, o que deixou a Morena ainda mais irritada. — Eu tenho uma reunião nesse horário... E a senhorita está invadindo... Certo, Franco?
— Cristine! – Gritou Franco que é atendido prontamente pela Loira. — Por que a senhoria Barker está em minha sala? Ela por um acaso tinha horário marcado?
— Correto, senhor. O fato é que a Senhorita Barker perdeu seu horário de agendamento. – Respondeu Cristine encarando Ellis com raiva.
—Eu perdi por conta desses idiotas. Ou melhor, desse idiota. – Corrigiu Ellis apontando para Vittorio. Ela então apontou para Rocco e disse: — Esse aqui é só o capacho.
—Cuidado, está passando dos limites. – Avisou Rocco colocando a mão dentro do terno. Ele olhou para Vittorio e perguntou: — Senhor...?
— Deixe, Rocco. – Pediu Vittorio retirando seus óculos escuros e então encarou Ellis que ficou surpresa com os olhos pretos do homem. Por algum motivo tinha imaginado os olhos dele azuis ou verdes, até mel... — De que trata seu assunto, senhorita Barker?
— Não é da sua conta. – Respondeu Ellis, rispidamente.
— Seu assunto é rápido, senhorita Barker? – Reforçou Vittorio depois de respirar fundo, indicando que não estava tão paciente assim.
— Sim. – Respondeu a jovem encarando Franco. Ela abriu a bolsa e entregou a última bolsinha onde guardava todo seu salário. Franco acenou para Cristine que pegou a bolsinha a contragosto das mãos de Ellis. — O senhor precisa fazer do termo de quitação hipoteca da casa.
—Está bem, mais tarde farei para a senhorita e envio. – Respondeu Franco.
— Eu preciso disso agora. – Reforçou Ellis.
—Eu já disse que farei mais tarde. – Repetiu Franco sem muita paciência.
—E eu não saio daqui sem o termo em mãos. – Disse Ellis que encarava Franco, irritada.
—Franco, faça. – Disse Vittorio tranquilamente enquanto voltava a apreciar seu charuto.
—Como quiser, Senhor Amorielle. – Respondeu Franco saindo da sala com sua secretária, deixando apenas Rocco, Vittorio e Ellis.
— Você é insistente mesmo. – Comentou Vittorio quebrando o silêncio.
—Você se acha importante mesmo... – Comentou Ellis sem se virar para Vittorio.
— Acho? – Perguntou Vittorio arqueando sua sobrancelha automaticamente. O tom de voz de Ellis o incomodou, nunca alguém se atreveu a questionar seu poder e influência. Ficou tão incomodado que se levantou, ajeitando seu terno enquanto dizia para a jovem: — Você não me considera importante? Eu o fiz ir elaborar o seu termo...
— O que eu penso é irrelevante aqui. Isso ficou bem claro para mim. – Alegou Ellis encarando Vittorio. — Afinal, qual a importância de uma mera mortal falida, não é mesmo?
—Não se despreze assim... – Pediu Vittorio que se surpreendeu. Não era para aquelas palavras terem saído pelos seus lábios. Pelo menos conseguiu controlar sua mão a tempo de não ir para nos cabelos desgrenhados de Ellis que insistem em tomar o seu rosto.
— Não estou me desprezando. – Negou Ellis se afastando de Vittorio. Ela caminhou até a janela, onde ficou olhando para a rua: — Vocês que acham que podem fazer o que quiserem por terem dinheiro. Deixe-me contar um segredo: Vocês não podem comprar tudo.
— É mesmo? Diga-me uma coisa que eu não posso comprar? – Desafiou Vittorio enquanto observava a jovem.
— A felicidade. – Respondeu Ellis observando o movimento da rua. Ela se deparou com um casal apaixonado se beijando encostado no muro de uma loja e então soltou: — O amor...
— A felicidade vem inclusa nos bens que adquiro. – Respondeu Vittorio se aproximando de Ellis que o encarou, sem jeito diante do gesto.
Ela não havia notado quão alto ele era até aquele momento. Talvez fosse pelo fato de o Rocco ser praticamente duas vezes o tamanho do patrão. Porém, ele ali tão perto dela a forçava a erguer a cabeça para encará-lo.
— E o amor? – Perguntou Ellis tentando não gaguejar. — Já conseguiu comprar?
—Algumas vezes... – Respondeu Vittorio apreciando seu charuto. — Algo mais? Há algo mais que você acha que não sou capaz de comprar?
—Existe sim... – Disse Ellis se aproximando de Vittorio. Se ele achava mesmo que ele se aproximar assim dela, com essa colônia invadindo o nariz da morena a faria se sentir intimidada, ele estava muito enganado. Ela fica na ponta dos pés que estavam de tênis, conseguindo assim alcançar a orelha dele e sussurrou: — A mim.
— Você? – Perguntou Vittorio, surpreso, mas não sabia se pelo arrepio que dos lábios de Ellis tão próximo de sua orelha ou pela resposta atrevida e desafiadora.
— Você tentou me comprar no estacionamento, esqueceu? – Recordou Ellis se afastando. — Porém, acredite você nunca será capaz de me comprar.
— Está me desafiando, Senhorita Barker? - Perguntou Vittorio, surpreso.
Ele observava os lábios de Ellis se abrirem devagar , prontos para lhe responder...
— Pronto, Senhorita Barker. – Falou Franco entrando em sua sala de volta. Ele estendeu o papel em direção a jovem que se aproximou dele, pegou o papel e começou a ler: — Confie em mim, está tudo certo.
Ela ignorou completamente o pedido do gerente e continuou lendo o documento calmamente. Ao terminar, sorriu em direção a Franco e disse:
— Desculpe-me se não confio, mas da última vez quase perdemos a casa. – Ela se virou em direção ao Senhor Amorielle e se despediu dizendo: — Adeus, poderoso chefão.
Ela caminhou para fora da sala sem esperar resposta deixando Vittorio a observando, mexido diante de toda aquela situação.
— Onde estávamos? – Perguntou Franco voltando para sua mesa. — Ah é, o senhor disse que tinha uma proposta a fazer para o nosso banco...
— Qual o nome dessa mulher? – Perguntou Vittorio encarando Franco.
— Desculpe-me, mas não entendi sua pergunta... – Começou Franco, confuso.
— Essa mulher que estava aqui, quem é ela? O que faz? Seu endereço?
— Senhor Amorielle, sinto muito, mas isso são dados confidenciais... – Explicou Franco, cautelosamente. — O nosso banco tem a política de não passar informações a terceiros.
— E você disse que sou um de seus clientes mais ilustres. – Recordou Vittorio ajeitando seu terno. — Isso deve ser levado em conta, não?
— Lamento, mas essa informação só pode ser repassada com ordem expressa da diretoria. – Falou Franco mexendo nos papéis em sua mesa. —Enfim, voltemos a nossa reunião...
— Bom, se eu for o dono do banco, posso te acesso? – Perguntou Vittorio, sério.
— Como? – Perguntou Franco, surpreso.
— Se eu for o dono teria acesso, correto? – Perguntou novamente.
— Sim... Quero dizer... em uma situação hipotética, poderia sim. – Respondeu Franco oferecendo um sorriso sem graça ao mesmo tempo em que pensou na prepotência do homem em sua frente.
—Está bem, quero comprar esse banco. – Revelou Vittorio vendo os olhos de Franco se arregalarem. — Analisando, é sempre bom ter o controle das coisas... Certo, faça o contrato e eu assino.
— Senhor Amorielle, esse banco é do senhor Domenico... O senhor não pode comprá-lo aqui... Quero dizer... Não tenho autoridade para lhe vender o banco.
—Quem tem? – Perguntou Vittorio.
—Quem?
—Isso. Fale-me, quem tem que autorizar? O Domenico?
—Sim...
—Ótimo. – Respondeu Vittorio, sorridente.
Ele mexeu a cabeça em direção a Rocco que se aproximou com seu celular já discando um número. Três toques e atenderam:
— Rocco, falando. Coloque na linha. – Ordenou Rocco que entregou o celular para Franco.
—Franco falando. – Disse Franco se identificando. Então seu rosto fica pálido. — Senhor Domenico... tem certeza? Okay, Está bem... Está bem... O senhor precisa assinar... Está bem.
— Então...? – Perguntou Vittorio amassando seu charuto no cinzeiro.
—Ele confirmou... – Respondeu Franco entregando o telefone para Rocco. O gerente encarou Vittorio ainda sem acreditar no que suas próximas palavras diriam: — Parabéns, o senhor é o novo dono do Wild Holdings Bank...
— Rocco conclua o contrato. – Pediu Vittorio sem demonstrar nenhuma emoção.
— Podem finalizar o contrato. – Fala Rocco na linha até escutar os tiros. — Transação efetuada, senhor.
—Perfeito. - Ele aproximou seu rosto de Franco e então disse: — Agora, as informações da Senhorita Barker
Nome: Ellis Barker
Idade: vinte e seis anos ,
Filiação: Emily Preston e Jack Barker.
Profissão: corretora de imóveis e garçonete.
Histórico de crédito: termo de quitação expedido para o imóvel localizado.
— Droga! – Xingou Vittorio enquanto jogava a pasta com as informações bancárias de Ellis no banco do veículo, bem contrariado.
— O que foi, senhor? – Perguntou Rocco observando seu patrão pelo retrovisor.
— Infelizmente essas informações não me servem de muita coisa. – Respondeu Vittorio, respirando fundo.
— Entendo. Na verdade, devo admitir que não entendi o motivo pelo qual o senhor não recorreu ao Enrico fazer a “coleta”.
— Queria ver como seria fazer as coisas por vias... legais. – Explicou Vittorio observando a paisagem da janela de seu carro.
—Então, o senhor comprou o banco apenas para colher as informações da Senhorita Barnes... – Concluiu Rocco soltando um sorriso malicioso em seguida. — Ela parece ter mesmo impressionado o senhor.
—Eu comprei porque quis. Isso não tem nada a ver com essa moça. – Corrigiu Vittorio, sério. Ele tirou seus óculos escuros e encarou seu motorista de um jeito que Rocco sentiu que morreria ali mesmo. — Nunca mais ouse a questionar os motivos das minhas decisões, entendeu?
—Entendido, senhor. Peço perdão se fui ousado demais em minha fala. Eu apenas queria...
—Você não tem que querer nada, além de fazer o que eu mando. – Repreendeu Vittorio pegando seu celular. Ele discou alguns números e então aguardou ser atendido no primeiro toque. — Alô, Enrico? Preciso de um favor seu... Para ontem.
***
— Chegamos, senhor. – Avisou Rocco enquanto se aproximava dos elevados portões de ferro da Mansão Amorielle.
Alero Amorielle comprou a propriedade por 80.000 dólares e a transformou em uma verdadeira fortaleza, com portas pesadas de ferro, paredes grossas e uma estação para os seguranças que, junto com guarda-costas e enormes cães.
Construída em pedra e decorada em mármore branco, uma enorme piscina exterior, pisos de madeira, um enorme salão onde são realizados os bailes de gala e eventos familiares, lareiras esculpidas de pedra, enormes estantes de madeiras raras, piscina coberta om queda de água de 24 pés e enormes terraços fora de todas as suítes e fora da sala de recepção principal.
Além disso, possuía campo de tênis, golfe, quadra de basquete, SPA, academia privativa e um vasto espaço vivo de 4,5 acres totalmente vedado da propriedade fechada cercada por outras casas de milhões de dólares e apenas a uma curta 25 minutos de carro da cidade de Nova York.
O Fundador da família e todos os seus descendentes não pouparam cuidado com os detalhes que tornaria a mansão em uma propriedade de luxo refinado, de mais de 25 mil metros quadrados. Porém, Vittorio não via apenas como seu lar, mas o lugar onde nasceu, cresceu e também onde foi o último lugar onde viu seu pai feliz antes de...
— Senhor? – Falou Rocco atraindo atenção de Vittorio. — Aguardamos sua aprovação.
—Vittorio Amorielle. – Falou Vittorio ao apertar o botão de comunicação dentro do veículo.
Em questão de segundos os enormes portões se abriram e por fim o veículo acessou as dependências da Mansão. Rocco dirigiu o veículo até a vaga correspondente a ele, entre os mais de quinze veículos da família Amorielle. Nem bem o motorista estacionou e Vittorio desceu ajeitando seu terno enquanto caminhava em direção a porta de acesso a casa principal.
Seus passos pesados denunciaram sua chegada a Antonietta Amorielle, atual matriarca do clã e mãe de Vittorio. A bela senhora de cabelos naturalmente pretos, em contraste com seus olhos verdes e corpo escultural, o que impressionava devido sua idade. Ela estava mais para Sophia Loren quando tinha quarenta e cinco anos do que para uma senhora de quase sessenta.
Ela aguardava seu filho no topo de uma das escadas duplas de mármore. Seu sorriso enorme e os braços abertos quase disfarçavam a dor do luto demonstrada pelo seu vestido preto.
— Mamma. – Falou Vittorio enquanto retribuía o abraço de sua mãe.
Antonietta se afastou brevemente do abraço do filho e então segurou o rosto de Vittorio entre suas mãos como se fosse capaz de ler os pensamentos dele só de olhá-lo.
— Domenico Wild. – Soltou sua mãe enquanto dava leves tapas no rosto do seu filho.
—Ele mereceu. - Respondeu Vittorio a uma pergunta não feita por Antonietta. — Foi ele quem...
—Eu sei. – Concordou Antonietta dando um beijo na face de seu filho, em seguida. Ela sorriu e então disse: — Eu só gostaria de ter estado lá para ver a cara daquele Cascittuni¹.
— Eu também gostaria, mas tinha coisas mais importantes a tratar.
— Como adquirir o banco dele? – Questionou Antonietta erguendo as sobrancelhas.
— Papai sempre quis ter um banco. – Respondeu Vittorio enquanto se afastava de sua mãe e caminhava em direção ao bar de madeira disposto na sala principal.
Ele entrou no espaço do bar, começou a preparar dois drinques, enquanto sua mãe se aproximava com os braços cruzados. Don Vittorio sorriu em direção a Antonietta e então entregou o drinque dela como se fosse apenas um barman. Ela segurou a taça, mas não conseguiu se conter e disse:
— Você não deveria ter feito isso.
— Por que não? – Questionou Vittorio tomando seu uísque em um único gole. — É o que papai faria.
— Não, seu pai não compraria o banco do homem que ele acabou de matar. E posso dizer com propriedade, pois tenho certeza de que seu pai lotou metade do cemitério de Green-Wood com seus inimigos e não adquiriu nenhuma propriedade em seguida. Aliás, seu pai teria se consultado com Ciuseppe, antes de tomar essa decisão.
Giuseppe Denaro era o Consiglieri² do pai de Vittorio, com a morte dele o rapaz ainda não havia tomado a decisão se permaneceria com Giuseppe naquela posição ou trocaria. De fato, tinha pensado em colocar Rocco no lugar, mas depois de hoje, decidiu rever essa decisão.
—Isso, meu filho, é deixar uma mira enorme nas suas costas. E você não pode se tornar um alvo agora. Está muito vulnerável. – Continuou Antonietta.
—Vulnerável... Bela palavra para dizer que sou um homem solteiro, sem filhos e que a minha condição causa a extinção de nossa família, caso eu morra. – Disse Vittorio servindo mais um gole de uísque. Ele apontou o copo em direção a sua mãe: — Eu sei que essa conversa toda é apenas porque eu faltei a festa dos Gattone, onde provavelmente você me forçaria a voltar com a filha deles, Eleonora...
— Claro, nunca entendi o motivo de ter largado a, La povera piccola cosa.Eleonora Gattone é uma mulher belíssima, foi criada em terra nostra, possui faculdade e até assumiu algumas coisas de sua família... Ela é uma moça pura, que segue os princípios da nossa família... - Argumentou Antonietta que recebeu uma risada sarcástica de seu filho. — O que foi?
— Nada, eu estou apenas concordando. A Eleonora possui muitas qualidades, mamãe. – Disse Vittorio encarando sua mãe. — Inclusive na cama.
—Oh, Madonna mia , não me diga que você a largou porque dormiu com ela? – Questionou Antonietta balançando a cabeça com desgosto. —Você precisa parar de dormir com as filhas dos nossos amigos, ou não se casará com nenhuma...
—A pergunta é: quem não dormiu com Eleonora Gattone? Aliás, mamãe isso não foi o que me impediu de me casar com ela... – Explicou Vittorio.
—Não? Que ótimo, quer dizer então que você a considera...
— Dormir com a Eleonora não é o problema, o problema é que ... Quer dizer, o sexo é ótimo, mas...
—Você precisa falar dessa forma das mulheres, hãn? Teu pai não ensinou a você que não se deve falar das intimidades que teve para outras pessoas?
—Mas você é minha mãe... – Argumentou Vittorio.
—E sou outra pessoa. – Rebateu Antonietta. — Enfim, o que o impediu você de casar-se com Eleonora?
—Ela não me desafia. – Respondeu Vittorio, pensativo. — Papai disse que uma das coisas que atraiu na senhora foi o fato de desafiá-lo desde o início.
—Você não deveria escutar os conselhos amorosos do seu pai. Veja onde eles o levaram. – Disse Antonietta erguendo os braços.
— Levou meu pai a casar com a senhora, oras! – Respondeu Vittorio erguendo a sobrancelha.
— Em todo caso, nenhuma filha de nossos amigos irá desafiá-lo por ser quem é... Aliás, nenhuma mulher será capaz de confrontar você, Don Vittorio Amorielle, meu filho. Portanto, recomendo que esqueça isso sobre o que seu pai disse e case logo, ou então iremos de fato desaparecer da face da terra.
— Como quiser, mamãe. Porém, não será a Eleonora, isso eu lhe garanto. Nem que eu tenha que comprar uma. – Informou Vittorio recebendo um olhar atravessado de sua mãe.
—Don Vittorio – Chamou o homem na porta da sala principal.
—Entre, Enrico. – Ordenou Vittorio sendo observado por sua mãe. — Preciso atender o Enrico, mamãe. Precisa de algo mais?
—Apenas case e faça sua descendência, Vittorio. – Pediu Antonietta antes de sair.
— Senhora Amorielle. – Falou Enrico abaixando levemente sua cabeça enquanto a matriarca passava por ele. Por fim, o investigador de Vittorio o encara enquanto erguia uma pasta fina em direção ao seu chefe. — Aqui está o que me pediu.
Vittorio pegou a pasta das mãos de Enrico e ali mesmo começou a ler os documentos entregues pelo homem de cabelos ruivos. O Senhor Amorielle respirou fundo lendo praticamente as mesmas coisas que tinha no relatório do banco, estava preparado para dar um sermão em seu funcionário, quando a última página chamou sua atenção.
— Jason Barker... – Sussurrou Vittorio. Ele sorriu e então encarou Enrico enquanto dizia: — Peça ao Rocco para vir ao escritório. Tenho uma missão para ele.