Capítulo 2

Se aproximou do buraco e enfiou o dedo para ver se era de verdade. Vendo que o dedo atravessou, era mesmo um buraco e não coisa da sua mente. Mas o que aconteceu afinal? Estava tão confusa com tudo. Se lembrava de estar esperando eles voltarem para casa com a comida e depois o Kenup chegar. O que aconteceu depois disso? Por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar de jeito nenhum.

Pegou o desenho e desamassou. Respirou fundo e apertou o papel contra o peito. Como ela faria para ver o Adriel de novo? Será que eles sabiam o que tinha acontecido? Quem sabe não conseguiriam abrir um portal e fossem buscá-la?

Resolveu puxar o armário para onde estava o buraco para que ninguém visse aquilo e perguntasse o que aconteceu, ela não saberia responder. Depois ficou horas deitada na cama lendo o caderno dos sonhos. Era incrível que cada coisa que escreveu foi visto naquele lugar. Sorriu sozinha com as lembranças. Acabou dormindo com o caderno em cima do peito.

No dia seguinte sentiu uma cosquinha na bochecha e abriu os olhos. A mãe dela a acordava. Será que aconteceu algo com ela? Nunca foi uma mãe carinhosa e agora estava a acordando com carinhos em vez de gritos?

— Está bem?

— Sim.

— Vamos.

— Aonde?

— Pra escola, onde mais?

— Ah não! Eu ainda estou muito mal! — Cobriu a cabeça com o travesseiro.

— Você acabou de dizer que está bem, July.

— Mas eu perdi um tempo de aula!

— Não tem problema, os professores vão te ajudar. Foram só alguns meses.

July resmungou contrariada.

Ter que vestir aquele uniforme cafona de novo a fez ficar com um grande mau humor. Sem falar no grande calor que estava sentido! Já tinha se acostumado com o frescor daquele lugar, agora voltar para o forno ia ser difícil!

— Tenha um bom dia — o pai dela falou isso depois de beijar sua testa.

— Vocês estão bem? — perguntou com a testa franzida.

— Por que não estaríamos?

— Nunca foram assim comigo.

Os dois trocaram olhares e July percebeu que ficaram incomodados com o que ela disse.

— Quando chegar, vamos conversar melhor.

— Por que não conversamos agora e amanhã eu volto pra escola?

Os dois cruzaram os braços e ela suspirou.

Saiu de casa e respirou fundo, até respirar ali era mais difícil. Caminhou até a escola, que agora era bem perto e não vinte minutos de distância a pé. Praticamente se arrastou até sua turma e quando apareceu na porta, todos olharam para ela. Alguns vieram em sua direção e perguntaram se estava bem, se não ficou com sequelas.

July espantou os curiosos quando as perguntas começaram a irritar. Agora ela entendeu porque o Adriel reclamava tanto das perguntas dela! O professor entrou na turma e cumprimentou ela. No fim da aula, quando ia embora, ele pediu para que ficasse. Parou em frente à mesa do homem careca e esperou o que ele queria falar.

— Sei que está cansada e quer ir pra casa, só queria falar sobre a matéria que se acumulou.

— Eu vou repetir, não é? Perdi muito tempo.

— Não vai repetir se você se esforçar.

— Isso quer dizer estudar até morrer...

— Quer dizer estudar para conseguir nota. Você só perdeu quatro meses de aulas.

— Dá no mesmo — resmungou e o homem olhou a porta do lugar. Se alguém visse ela falando assim, poderia dar problemas.

— Controle-se! Acho que não esqueceu as regras sobre comportamento, ou esqueceu?

— Se eu tiver esquecido por causa do acidente, ninguém pode brigar comigo, não é?

July percebeu que ele segurou o sorriso.

— Melhor você ir descansar.

— Obrigada.

— Até amanhã.

Voltou para casa reclamando sozinha por ter que ficar com o nariz enfiado em livros. Quando entrou, viu seus pais parados em pé um ao lado do outro e tinham expressões suspeitas no rosto.

— Que foi?

Os dois se afastaram e ela viu um pequeno bolo de aniversário em cima da mesa. A menina se aproximou e deixou a mochila cair no chão. Se passaram dez meses desde a guerra... Era aniversário de dezessete anos dela.

Isso não podia ser bom!

— Feliz aniversário, minha filha!

A mãe dela a abraçou e depois o pai.

— Não pode ser meu aniversário! Eu perdi dez meses da minha vida?

Os dois trocaram olhares.

— Sei que ainda está tudo complicado para você, mas as coisas não pararam enquanto você estava lá — disse o pai dela e July olhou para o chão. Realmente enquanto ela estava com Adriel, o tempo não deve ter parado. Mas por que será que eles achavam que ela ficou em coma?

— Eu não quero comemorar, por favor, não me levem a mal.

— Claro que não. A gente entende.

— Obrigada. Só quero deitar na minha cama...

Ela foi para o quarto e encostou na porta. Precisava voltar para a casa de Adriel antes que começasse a aparecer homens querendo se casar com ela! Mas não fazia ideia do que fazer!

***

Os dias começaram a passar depressa. Quanto mais os dias passavam, mais aflita July ficava. Os pais dela já tinham recebido três pessoas em casa para se casar com ela e isso estava a deixando louca! Precisava agir e já!

Passou pelo corredor como uma bala e apareceu na sala com um short curtinho, que ela cortou com a tesoura. Os pais do garoto que estava se apresentando a olharam com os olhos arregalados.

— Com licença... — A mãe de July a agarrou pelos braços e a arrastou para o quarto. — O que está fazendo?

— Evitando uma tragédia!

— Aquele foi o melhor partido que encontramos até agora!

— É mesmo? E quem disse que eu ligo?

O rosto da mulher endureceu.

— Acho melhor você começar a se controlar, July. Sabe que as coisas têm que ser feitas perante a lei.

— Eu não ligo pra essa lei idiota! — falou alto.

— Fala baixo, July! — repreendeu com o rosto vermelho, a menina não soube dizer se de raiva ou vergonha. — Comece a se acostumar! E se ficar de gracinha, escolheremos o marido mais velho que chegar aqui! — Saiu do quarto batendo a porta e July sentou na cama.

Em pouco tempo começou a chorar de soluçar. Precisava fugir dali. Como se casaria com alguém depois de encontrar o Adriel? Se antes já era ruim, agora ficou pior ainda.

***

Entrou em casa depois de mais um tedioso dia de aula. Ao passar pela sala, ficou paralisada olhando sua mãe e um homem. Estava sozinha com ele. A mulher sorriu ao ver July e o homem a olhou também. July arregalou os olhos ao ver o médico que cuidou dela. Ele sorriu ao vê-la e a olhou de cima para baixo. July estava com a roupa da escola e um pouco descabelada, mas tinha a boina na cabeça. Não encontrou reação para aquela cena que presenciava. No fundo ouvia sua mãe dizer que era o melhor partido que tinha entrado naquela casa, mas parecia até sonho. As vozes pareciam estar baixas, como se fosse um rádio tocando no volume baixo.

Saiu do transe quando o homem parou na frente dela.

— Até mais, July.

Não respondeu, pois estava chocada demais para isso. Viu sua mãe se aproximar com um largo sorriso e revirou os olhos.

— É ele!

— E se eu não quiser?

— Você não tem que querer!

July bufou estressada. Jane passou a mão no cabelo dela e tirou a boina de sua cabeça. Ela analisou a garota.

— Que é?

— Seu cabelo está muito grande — falou apontando para o cabelo que batia na altura do cotovelo. — Vamos cortar.

Quando ela falou isso, a memória de Adriel colocando o cabelo dela atrás da orelha veio sem que pudesse evitar.

— Não vai cortar nada!

— July não piora as coisas!

— Eu não quero cortar o meu cabelo por causa de um cara que nem conheço! Não quero me casar com ele e viver, comer e dormir com uma pessoa que nem sei o caráter!

— Pare de falar besteiras, July!

— Eu me nego.

— Você não pode fazer isso. Quem escolhe somos eu e seu pai.

— Mas a vida é minha!

Jane segurou o braço dela com força.

— Pare de pedir para morrer, July! Você sabe que quando faz dezessete tem que se casar com alguém!

— Eu não quero mãe...

A mulher soltou o braço dela ao ver seus olhos cheios de lágrimas.

— Eu não quero...

— Eu sei que está assustada, July, mas estamos fazendo isso para te proteger. Se não fosse essa lei, você não se casaria tão cedo.

July fechou os olhos e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.

— Vem cá.

Quando sentiu os braços de sua mãe em volta de sua cintura, chorou mais ainda. Nunca tinha acontecido isso antes e a mãe dela nunca conversou com ela sobre nada. Absolutamente nada!

— Estou escolhendo-o porque conheço e sei que vai te tratar bem. Entendeu?

July concordou.

— Confie em mim. Ele é o melhor de todos.

Não tinha muita opção mesmo, não é?

***

Alguns dias se passaram e o médico sempre visitava July depois do trabalho. Isso também era uma regra. O homem que quisesse se casar, deveria cortejar a garota até que firmasse o compromisso.

July estava sentada na varanda da casa com um grande bico. Ele chegaria a qualquer momento. Viu ele aparecer e revirou os olhos. Podia falhar pelo menos um dia, não é? Assim teria desculpa para falar que era ruim!

— Olá.

— Oi — respondeu emburrada.

— Não precisa ficar com raiva de mim.

— Não tenho raiva de você, só dessa situação.

— Você não tem travas na língua mesmo, não é? Por isso gostei de você.

Ela levantou o olhar que estava em seus pés e o encarou. O homem sorriu de lado.

— Já posso entrar?

Ele deu uma risadinha.

— Não. Vou te levar para sair hoje.

— Fala sério... — resmungou.

— Ande logo! — Agarrou o pulso dela e fez com que levantasse da cadeira.

— Não me apresse! Não gosto disso.

— Quanto mais rápido formos, mais rápido você volta.

July ficou pensativa.

— Aonde vamos? — perguntou já indo na frente dele e escutou sua risada.

— Vou te levar para conhecer meus pais.

Ela parou de andar na mesma hora e olhou para trás.

— Você está indo rápido demais!

— Pra que demorar tanto? — Ele deu de ombros.

— Não gosto que fiquem me pressionando...

— Olha eu sei que tudo isso deve ser horrível pra você. Tão nova e tendo que se casar. Mas eu estou disposto a te fazer feliz.

— Por que acha que consegue? — July riu.

— Muitas meninas queriam estar no seu lugar, sabia?

— Ótimo! Ainda por cima é convencido! — Revirou os olhos e o homem deu uma gargalhada alta.

— Vamos, eles estão esperando a gente.

— Droga! — reclamou e foi com ele.

Quando chegaram na casa dele, July ficou um pouco mais tensa do que já estava. A casa era imensa e muito bem arrumada. Olhou o loiro e ele sorriu. Entraram no lugar e ela reparou tudo. Tanta gente passando fome e eles com estátuas de ouro? Jura? Agora que não queria casamento mesmo!

— Olá! Bem-vinda! — Um homem baixinho e gorducho se aproximou e abraçou July.

Ela franziu a testa e olhou para o médico. Ele fez sinal para ela abraçar de volta e ela deu um leve tapa no ombro do homem.

— Meu nome é Augustin! É um prazer receber uma menina tão bonita como você!

July sorriu sem graça.

— Pena que eu já sou casado... — sussurrou para ela, que ergueu uma das sobrancelhas.

— Pai!

O homem deu uma risadinha.

— É brincadeira, filho! Entre! Minha esposa espera ansiosa.

Os dois seguiram o homem e entraram em um lugar bem grande com uma mesa lotada de comida. Logo uma mulher magra e bem vestida se aproximou dela. Usava um vestido extravagante até os pés e um salto alto enorme. Aparentava ter uns quarenta anos.

— Bem-vinda, querida! Estamos muito felizes em conhecer você.

— Obrigada.

— Sente-se. — Apontou para a cadeira e July seguiu até lá. — Anthony me disse que você era muito bonita, mas achei que estava exagerando.

— Talvez estivesse mesmo...

Os dois riram e July olhou o loiro, que sorria.

— Não, ele tem toda a razão.

July sentiu as bochechas esquentarem e desviou o olhar.

— Ela é tão fofa!

Capítulo 3

Depois de um longo jantar, Anthony a levou para casa finalmente. Não via a hora de sumir daquele lugar!

— O que achou? — perguntou coçando a nuca. — Sei que meus pais são meio malucos, mas são gente boa.

— Tanto faz — respondeu e o homem olhou o rosto dela. Estava olhando o nada e tinha expressão triste.

— Ei... — Segurou a mão dela e fez com que o olhasse com certa rapidez. — Não precisa ficar assim. Eu sei que é difícil pra você. Minha mãe me contou como foi pra ela quando fez dezessete.

— Quantos ela tem?

— Quarenta e um.

— Imaginei mais ou menos isso. E seu pai?

— Sessenta e oito.

— Uau!

— Pelo menos nossa diferença não é tão grande assim.

— Quantos você tem?

— Vinte e quatro.

— Hum...

— Amanhã venho marcar a data — falou acariciando a mão dela.

July engoliu em seco.

— Posso te fazer um pedido?

— Todos que quiser.

— Pode esperar mais um pouco? Eu quero me acostumar com isso tudo...

O homem ficou em silêncio por um momento.

— Tudo bem.

July suspirou aliviada.

— Mas você não tem que me ver como algo ruim ou forçado.

— Mas é forçado.

— Eu sei, mas seria menos tenso se você relaxasse mais — disse rindo.

— Impossível!

— Te dou dez dias.

— Só?

— Acha pouco?

— Óbvio!

— Você não tem como correr. Sabe disso, não é?

— Não me lembre...

O homem suspirou e se aproximou dela, fazendo com que ficasse tensa.

— Quando for morar comigo, vai ver que não sou nada do que pensa.

— Será? Você não sabe o que eu penso — falou com as sobrancelhas erguidas e ele sorriu.

— Sei que acha que sou carrasco e vou te fazer de empregada.

July balançou a cabeça, também pensou isso.

— Mas isso não vai acontecer.

— Tá.

— Agora vou indo. Diga a seus pais que em dez dias venho marcar a data.

— Tudo bem.

Ele sorriu e ficou olhando o rosto de July um momento. Ela desviou o olhar ao perceber que não tirava os olhos dela. Em pouco tempo ficou paralisada quando ele se aproximou e olhou para cima sem mexer a cabeça. Só conseguiu mexer os olhos. Viu ele curvar um pouco o pescoço e engoliu em seco. Quando chegou bem perto dos lábios dela...

— Você não pode me beijar.

Ele se afastou um pouco ao ouvir isso.

— Está nas regras. Somente depois de casados. — Sorriu, cínica.

— É, mas ninguém precisa saber que isso aconteceu antes. Não tem problema nenhum só a gente saber que você já beijou.

— Que bom saber que você pensa assim! Fico menos preocupada.

— Como assim?

— Ué, se só fica entre a gente, ótimo! Pois isso já aconteceu.

Os dois ficaram em silêncio depois do que ela disse. O homem a olhava surpreso e ela o encarava com um sorriso cínico. Ele sorriu e deu um passo à frente.

— Acha que por isso não vou querer mais casar?

— Quem sabe...? — Levantou os ombros.

— Não me importo com isso. Tem algumas regras que são bobas demais, mas a gente tem que respeitar as mais visíveis. — Começou a se aproximar dela e quando percebeu, foi dando passos para trás fugindo dele.

— Pensei que fosse do tipo respeitador...

— Depende do momento.

July engoliu em seco e parou de andar quando a parede lhe impediu de fugir mais. Anthony se aproximou dela e a cercou com os braços, apoiando-os na parede. July olhou para cima para olhar o rosto dele.

Não sabia o que fazer, se batia nele e entrava em casa correndo. Se chamava sua mãe e dizia que ele estava quebrando as regras, porém ele poderia contar que ela já tinha beijado. Pensou também em deixar ele fazer o que queria para acabar logo com aquilo. Qual era a melhor opção?

Viu o rosto dele cada vez mais perto e se encolheu. Anthony não ia beijá-la, só queria ver o que iria fazer, mas ao aproximar bem o rosto, mudou de ideia e capturou os lábios dela. July levantou as mãos para empurrá-lo, mas achou melhor não. Vai que ela o joga longe como com Kenup e ele morre? Fechou as mãos com força e ficou paralisada.

O loiro segurou o rosto dela com uma das mãos puxando e a obrigando a beijá-lo. July passou as unhas na parede pelo nervosismo. Por fim resolveu corresponder para ele ir embora logo, mas não tocou nele. Anthony se afastou e a olhou nos olhos. July estava emburrada e respirava rápido.

— Desculpe, não resisti.

— Não vi você fazer força para resistir!

— Eu não ia beijar você de verdade.

— Então por que não beijou de mentira? — perguntou irritada.

— Desculpe.

— Posso ir agora ou vai me agarrar mais?

— Pode ir.

— Ótimo! — Virou as costas e entrou em casa batendo a porta com força. Anthony respirou fundo e foi embora.

Seguiu direto para o quarto, ignorando seus pais que queriam saber como foi o jantar. Se jogou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro. Ouviu a porta abrir e resmungou frustrada.

— O que aconteceu?

— Eu não quero me casar! — falou alto.

— July entenda de uma vez que se não se casar, ele vai saber.

— Como? Tem tanta gente no mundo!

— E acha que não sabe?

July cobriu o rosto com o travesseiro.

— Eu também não gosto nada de entregar minha menina a um marmanjo qualquer, mas não posso fazer nada. Isso é o melhor pra você no momento — disse o pai dela.

— Tá bom, agora quero ficar sozinha.

Os dois saíram do quarto e July começou a chorar. Já estava perdendo as esperanças de voltar a ver Adriel e os outros. Não tinha nem uma luzinha que brotasse do nada para ajudar a saber o que fazer para ir até lá de novo. E mesmo pedindo, nenhum portal quis abrir para ela.

Sentou na cama e ficou encarando o caderno que estava em cima da mesa. Agora não precisava esconder ele embaixo da cama. Estava com tanta raiva de Kirovs e suas leis idiotas, raiva por não saber o que fazer, raiva por estar longe de Adriel e raiva por ter beijado aquele cara!

Cobriu o rosto com o travesseiro e deu um grito, que foi abafado por ele. Sentia como se fosse explodir a qualquer momento! Depois do grito, um forte choro lhe invadiu. Muitas emoções ao mesmo tempo dão nisso.

Olhou a janela e ficou paralisada. Viu alguém lá fora olhando ela. Piscou várias vezes e se aproximou da janela. Abriu o vidro e ficou de boca aberta. Ele estava ali! Estava ali!

Esticou os braços para ele segurar suas mãos e quando o fez, puxou para dentro do quarto. Foi tão forte que os dois caíram no chão fazendo um grande barulho. July caiu de costas e bateu a cabeça no chão.

— July está tudo bem?

A menina arregalou os olhos e Adriel, que caiu por cima dela, rolou para debaixo da cama. Em poucos segundos a porta se abriu.

— Está sim, mãe.

— Caiu? — Se aproximou e a ajudou a levantar.

— Sim. — Alisou a cabeça.

— Tenha mais cuidado, July.

— Estou bem — falou enquanto a mãe procurava algum machucado.

— E então, o que ele disse?

— Quem?

— Anthony.

— Ah... — Coçou a cabeça. — Que vai vir em dez dias.

— Dez dias?

— Sim.

— Por que essa demora toda?

— Não sei.

A mãe dela cerrou os olhos olhando-a com desconfiança.

— Falou alguma coisa errada, July?

— Não...Por que acha isso?

— Você sempre fala.

— Eu não disse nada.

— Aprenda a mentir, July! O que você fez?

— Pedi a ele para esperar, tá? Não quero isso e nunca vou me acostumar!

— Ele aceitou isso?

— Sim.

— A sua sorte é que ele gostou de você. Senão já teria desistido.

— Seria um favor que me fazia.

— Acho bom você começar a controlar sua língua, mocinha!

— Vou me esforçar.

A mulher respirou fundo para controlar a raiva.

— Agora durma e pense sobre o que está em risco. Sua vida! — Saiu do quarto batendo a porta. July engoliu o choro.

O garoto saiu debaixo da cama quando a mãe dela saiu do quarto. Os dois ficaram se olhando em silêncio. July estava literalmente acabada. Estava sem forças e só sabia chorar. Achou que o dia que encontrasse Adriel de novo, ia explodir, mas não. Isso porque a culpa estava consumindo-a. Ela beijou aquele cara há poucos minutos atrás...

Ele parecia hesitante e a olhava de um jeito estranho. Parecia ao mesmo tempo querer abraçá-la e brigar com ela.

— Como chegou aqui? — perguntou em meio as lágrimas.

— Eu que te pergunto isso.

— Eu não sei.

— Como não sabe?

— Acordei em um quarto de hospital e me disseram que fiquei em coma durante dez meses. Que atacaram a casa naquele dia que fui com você e o meu quarto foi o mais atingido e que eu estava nele na hora.

Adriel a olhou surpreso.

— Antes de acordar, do que se lembra?

— De esperar vocês.

— Que mais? — perguntou com semblante sério.

— Kenup...

O rosto dele se modificou e July franziu a testa.

— Sabia! — resmungou e mordeu o lábio com força.

— O que é?

— Descobri que o Kenup e a Clarisse estavam metidos com bruxas e queriam se livrar de você.

July arregalou os olhos.

— Mas não queria acreditar que ele fez isso — falou com raiva.

A lembrança veio como um raio e July se apoiou na mesa para não cair. Adriel se aproximou ao ver ela ficar pálida.

— Que foi?

— Eu me lembro.

— De que?

A menina olhou para o lado e ele estava bem próximo a ela. Engoliu em seco e desviou o olhar.

— Ele me tirou da casa falando que ia me levar para onde vocês estavam porque iam ficar à noite lá e você não queria que eu ficasse sozinha, então pediu para ele me buscar. Achei estranho porque você não o mandaria, mas fiquei com medo de ficar sozinha na casa e o segui.

— O que aconteceu depois?

— Andamos um pouco e chegamos em um lugar esquisito...

— Como era?

— Tinha árvores mortas... Lá tem árvores mortas? — Virou o rosto para olhar para ele e prendeu a respiração ao ver que estava mais perto ainda.

— Tem sim — disse olhando os lábios dela.

— Então... Quando chegamos eu fiquei confusa. Não deu tempo de perguntar nada. Ele me segurou e a mesma bruxa que quase matou a Safira jogou algo em mim. É só isso que me lembro.

O quarto ficou silencioso enquanto Adriel absorvia a história. July passava as unhas na mesa com nervosismo. Já estavam um pouco roídas pelo que ela fez na parede na hora que Anthony a agarrou. Tinha até sangrado um pouco por conta da força que ela usou.

Adriel puxou as mãos dela para que parasse de fazer aquilo e olhou seus dedos. Alguns ainda manchados de sangue. July escondeu as mãos.

— Você está namorando outra pessoa? — a pergunta foi como um sussurro.

July o olhou surpresa com a pergunta.

— Não.

— Então quem era aquele cara que estava ali fora com você?

A menina ficou sem ar.

— Você estava ali há quanto tempo?

— Estou vigiando você desde que foi pra escola.

— Por que não me chamou?

— Achei que a noite era melhor para te avisar que estava aqui. De manhã alguém poderia ver.

— Entendi... — Olhou os pés.

— Você não me respondeu.

— Respondi sim... — falou baixo.

— Tudo bem... — Virou as costas para ela e andou em direção a janela.

— Aonde você vai? — perguntou sentindo um certo desespero.

— Vou embora. — Colocou as mãos na janela e quando ia passar, sentiu os pequenos braços da menina apertarem sua barriga. Ela o agarrou antes que conseguisse sair e enfiou o rosto em suas costas.

— Por favor, não vá embora... — pediu com desespero.

Adriel soltou a janela e virou de frente para ela, deslizando em seus braços. Agora ela ficou com o rosto enfiado no peito dele. A menina apertou os braços ao redor dele e ele colocou as mãos em seus ombros. Sentiu eles subirem e descerem com os soluços dela.

Fechou os olhos com força e a envolveu em seus braços. Enfiou o rosto entre os cabelos e segurou a cabeça dela com uma das mãos.

— Me desculpa... — falou chorando e olhou para cima.

Adriel segurou o rosto dela com uma das mãos e limpou as lágrimas que rolavam sem parar. Vê-la daquele jeito estava deixando-o desnorteado.

— Pelo que?

July fechou os olhos com força e mais lágrimas caíram.

— Por causa daquele cara... — Apertou a cintura dele e enfiou o rosto em seu peito de novo.

Adriel a afastou dele segurando seus braços e olhou para seu rosto. Estava vermelha de tanto chorar e com o rosto todo molhado. Se aproximou da cama e sentou. Depois puxou July para se sentar com ele. A menina sentou em seu colo apoiando os joelhos na cama ao redor dele e agarrou seu pescoço com força. O loiro ficou surpreso com a atitude dela e envolveu sua cintura.

— O que tem ele?

— Você não viu?

— Você beijando-o? Vi.

July chorou mais forte.

— Eu não sabia o que fazer e queria que acabasse logo com aquilo...

— Quem é ele?

— Lembra que te disse que com dezessete anos as meninas têm que se casar?

— Sim.

— Eu já fiz dezessete...

Adriel fechou os olhos e respirou aliviado.

— Estão te obrigando a isso?

— Sim — respondeu soluçando.

— Fica calma — pediu acariciando os cabelos dela.

Parecia que estava mais longo do que antes. Ele colocou uma mecha atrás da orelha e acariciou o rosto dela. July sorriu com isso.

— Senti sua falta — falou encostando a testa na dela.

— Eu também — respondeu acariciando o rosto dele.

Sem demorar mais ele se aproximou e beijou ela. Pouco importava o que aconteceu antes! Só queria aproveitar o momento com ela.

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