Ponto de Vista: Alice Evangelista
A lasca de esperança, nascida da mensagem de Heitor, parecia uma piada cruel agora. Meus pés se arrastavam no carpete felpudo enquanto eu me aproximava de seu escritório, o som dos soluços teatrais de Kátia ficando mais alto a cada passo. Parei do lado de fora da porta entreaberta, minha mão pairando sobre o metal frio.
"É tão injusto, Heitor!" Kátia choramingava, sua voz grossa com lágrimas falsas. "Todo mundo está me olhando como se eu não merecesse. Como se a Alice fosse muito melhor que eu!"
"Shh, shh, está tudo bem, querida," Heitor acalmava, sua voz um murmúrio baixo e reconfortante. "Não dê ouvidos a eles. Você conquistou isso. Você sabe disso. E eu sei disso."
Meu estômago se contraiu. Imaginei-o acariciando o cabelo dela, o braço em volta dela. As mesmas palavras calmantes, o mesmo toque gentil que ele usara em mim inúmeras vezes depois de uma reunião de diretoria particularmente brutal, ou quando eu estava estressada com um projeto. "Você é incrível, Alice. Não deixe ninguém te dizer o contrário."
Quantas vezes eu chorei para ele, exausta e desmoralizada depois de ser minada por um colega homem ou dispensada por um cliente? E quantas vezes ele apenas ouviu, assentiu e ofereceu platitudes vazias? Nenhuma vez ele realmente me defendeu. Nenhuma vez ele se levantou por mim. Ele apenas me deixou carregar o peso, depois ofereceu uma mentira açucarada para me manter na linha.
A percepção me atingiu com a força de um maremoto. Ele nunca se importou de verdade. Nunca. Nem com meus sentimentos, nem com minhas lutas, nem com minha dor. Eu era apenas um recurso a ser gerenciado, um problema a ser resolvido com o mínimo de esforço.
Um vazio oco e ecoante floresceu em meu peito. Empurrei a porta, o som ecoando anormalmente alto na sala subitamente silenciosa. O braço de Heitor, que claramente estava em volta dos ombros de Kátia, caiu instantaneamente. Kátia, com o rosto manchado, mas os olhos instantaneamente calculistas, fungou dramaticamente.
O olhar de Heitor endureceu, um lampejo de irritação cruzando suas belas feições. "Alice. O que você quer?" Seu tom era frio, acusador.
Ele estava irritado por eu ter interrompido sua pequena performance.
"Eu... eu só estava passando para ver como estavam," gaguejei, minha voz mal um sussurro, a luta subitamente desaparecida de mim.
"Passando para ver? Ou você está aqui para reclamar da promoção bem merecida da Kátia?" ele retrucou, seus olhos faiscando. "Porque, francamente, Alice, seu ciúme está se tornando antiprofissional. Kátia trabalhou duro – mais duro do que você imagina – e ela merece isso."
Meu queixo caiu. Mais duro do que eu imagino? Ele estava ativamente me manipulando, me acusando de algo que eu nem sentia mais, não depois de ouvir sua verdadeira avaliação do nosso "relacionamento".
"Eu não estava-" comecei, mas ele me cortou.
"Não, quer saber? Esquece. Kátia está chateada. E, francamente, sua atitude não está ajudando. Acho que você deve a ela um pedido de desculpas." Seus olhos me desafiaram a desafiá-lo.
Minha mente repassou todas as vezes que defendi suas decisões questionáveis, todas as vezes que racionalizei seu comportamento, convencendo-me de que ele era apenas "ambicioso" ou "sob pressão". Que patético. Como eu fui completamente cega.
O gosto ácido de autoaversão encheu minha boca. Eu não tinha mais luta. Nem palavras. Apenas um cansaço profundo e doloroso.
Respirei fundo, pressionando a sensação quente e amarga na minha garganta. Era isso. A humilhação final. A última lasca da minha dignidade seria arrancada aqui, neste escritório, na frente do homem que me amou – ou fingiu amar – e da mulher que agora colhia os frutos de seu engano.
Virei-me para Kátia, sentindo um estranho distanciamento, como se me observasse de longe. "Kátia," comecei, minha voz plana, desprovida de toda emoção. "Eu peço desculpas. Eu... peço desculpas se minha presença lhe causou algum desconforto."
Então eu me curvei, um movimento brusco, quase robótico. Parecia que minha espinha era feita de vidro, ameaçando se estilhaçar. Mantive a reverência, esperando por algum reconhecimento, algum sinal de alívio de Kátia. O silêncio se estendeu, espesso e sufocante.
Então, uma dor súbita e lancinante atravessou minha lombar. A mão de Heitor, firme e inflexível, pressionou a base das minhas costas, empurrando-me para baixo, forçando-me a uma reverência mais profunda e subserviente.
"Mais respeito, Alice," ele murmurou em meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele. "Mostre a ela que você está falando sério. Ela é sua diretora agora."
A dor explodiu. Não era apenas a pressão aguda; era a memória chocante. Anos atrás, durante um evento de cliente, um ex-funcionário descontente invadiu, brandindo uma garrafa quebrada. Heitor estava bem na minha frente. Eu instintivamente o empurrei para fora do caminho, recebendo o impacto contra uma pesada mesa de mármore. Minha lombar gritou. Ele se desculpou profusamente, cuidou de mim até eu me recuperar e prometeu sempre me proteger. "Você salvou minha vida, Alice. Eu nunca vou esquecer."
Ele havia esquecido. Ou talvez, ele nunca se importou de verdade.
Agora, aquela velha lesão ardia com vingança, fogo se espalhando pelos meus músculos. Minhas pernas ameaçaram ceder.
"Oh, Alice, querida, você está bem?" A voz de Kátia, enjoativamente doce, me puxou de volta. Ela deu um passo mais perto, seus olhos brilhando com satisfação maliciosa. "Você parece um pouco... tensa."
A mão de Heitor permaneceu colada nas minhas costas por mais um segundo agonizante, então ele me soltou abruptamente. Eu balancei, agarrando meu lado, minha visão nadando. Seus olhos encontraram os meus, uma estranha mistura de algo parecido com preocupação, mas principalmente, um vazio arrepiante.
Engoli um grito de dor, endireitei-me lentamente e, sem outra palavra, virei-me e saí do escritório. Cada passo era uma agonia, física e emocional. Eu podia sentir o olhar de Heitor nas minhas costas, mas não me virei.
Consegui chegar à minha baia, desabando na minha cadeira. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, mas silenciosas. Não eram por Heitor. Eram pela mulher ingênua e esperançosa que eu tinha sido, a mulher que acreditava no amor e na lealdade, a mulher que sacrificou tudo por nada.
Estava realmente acabado.
Meus dedos, ainda trêmulos, digitaram duas palavras: "Gustavo Almeida." Imprimi o documento, caminhei até sua baia e, sem palavras, entreguei-lhe minha carta de demissão.
Ponto de Vista: Alice Evangelista
Gustavo olhou para a carta de demissão em minha mão, seu rosto geralmente gentil gravado com incredulidade. Seus olhos, normalmente suaves, estavam arregalados de choque.
"Alice? O que é isso? Você está falando sério?" Ele examinou o documento, depois olhou para mim, a testa franzida de preocupação. "Você não pode simplesmente pedir demissão. Não depois de tudo que você investiu neste lugar. Você é inestimável aqui, Alice. Todo mundo sabe disso."
Suas palavras, destinadas a me tranquilizar, pareciam distantes, como ecos de uma vida que eu já estava deixando para trás. Inestimável? Para quem? Certamente não para Heitor, que acabara de me forçar a rastejar para seu novo projeto de estimação.
"Estou falando sério, Gustavo," eu disse, minha voz plana. Meu olhar se desviou dele, através da janela, em direção ao distante horizonte de São Paulo. Parecia alienígena, desapegado.
"Mas... por que agora? É por causa da promoção? Eu sei que é difícil, mas às vezes essas coisas levam tempo. Heitor te valoriza, Alice. Ele realmente valoriza. Ele só é... complicado." Gustavo estava tentando encontrar desculpas para ele, assim como eu fiz por tanto tempo.
Heitor te valoriza. A frase era uma pílula amarga. Lembrei-me de suas promessas, de suas garantias sussurradas durante nossos encontros secretos ao longo dos anos. "Só mais um pouco, Alice. Então poderemos ser abertos sobre nós. Então tudo vai mudar." Palavras vazias. Todas elas.
E agora, aqui estava eu, com quase 30 anos, sem nada para mostrar por meus anos de devoção, a não ser um coração partido, uma carreira comprometida e uma dor constante na lombar. A voz da minha mãe da manhã anterior ecoou na minha cabeça: "Um bom arquiteto, uma família..." A ideia, antes um anátema, agora parecia um bálsamo calmante.
Gustavo suspirou, um som pesado que parecia carregar o peso de sua própria impotência dentro desta máquina corporativa. Ele conhecia os jogos de Heitor, mas era impotente para detê-los. Ele pegou uma caneta, sua mão tremendo levemente enquanto assinava o formulário.
"Escuta, Alice," ele disse, sua voz baixando para um sussurro, "vou processar isso imediatamente. Mas tente manter a discrição. Heitor... ele não vai gostar disso. Apenas cumpra suas duas semanas em silêncio. Evite-o se puder."
Uma leveza estranha e vertiginosa me invadiu. Estava feito. As correntes foram quebradas. Pela primeira vez em anos, senti um sopro de liberdade pura e absoluta.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Heitor. "Alice, você está bem? Parecia um pouco estranha mais cedo. Talvez devêssemos remarcar o jantar para hoje à noite? Só nós dois."
Um vislumbre de sua manipulação usual. Ele provavelmente pensou que eu ainda estava magoada com a promoção e estava estendendo a mão para me enrolar novamente. Mas o feitiço estava quebrado. Eu via através de sua atuação com uma clareza arrepiante.
Eu digitei de volta: "Agradeço a oferta, Heitor, mas estou bem. E não, obrigada. Tenho outros planos." As palavras pareciam poderosas, uma fronteira definitiva traçada na areia.
Mais tarde naquela tarde, enquanto eu estava empacotando alguns itens pessoais da minha mesa, Kátia se aproximou, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. "Adivinha, Alice? Heitor acabou de me dizer que vai dar um jantar de comemoração pela minha promoção hoje à noite. Você deveria vir! Vai ser divertido." Seus olhos brilhavam com alegria maliciosa. Ela queria torcer a faca, exibir sua vitória.
"Ah, acho que não, Kátia," eu disse, minha voz calma, de costas para ela enquanto eu organizava arquivos antigos. "Eu tenho planos."
"Besteira!" A voz de Heitor trovejou atrás de mim. Ele devia estar ouvindo. "É uma comemoração da equipe, Alice. Você faz parte da equipe. Você tem que estar lá." Seu tom não deixava espaço para discussão. Era uma ordem, não um convite.
Um gosto amargo encheu minha boca. Ele não estava tentando me incluir; ele estava afirmando seu controle, garantindo que eu murchasse sob o triunfo de Kátia. A ironia de tudo isso. Ele nunca celebrou minhas conquistas, nunca se lembrou do meu aniversário sem um lembrete. Lembrei-me do meu aniversário de 27 anos, dois anos atrás. Eu tinha dado uma dica sutil, esperando por algo, qualquer coisa. Ele estava muito ocupado em uma viagem de negócios "crítica" com o pai de Kátia. Ele enviou uma mensagem de texto seca no dia seguinte: "Feliz aniversário atrasado. Espero que tenha tido um bom dia."
Agora, porque Kátia exigia, ele estava me forçando a suportar sua celebração. Meus sentimentos eram, como sempre, irrelevantes. Assim como ele me negou o direito de lamentar a promoção, ele estava me negando o direito a uma saída silenciosa e digna. Ele ainda estava tentando ditar meu estado emocional, controlar minhas reações.
Olhei para Gustavo, que observava a troca com uma expressão de dor. Ele balançou a cabeça sutilmente, um apelo silencioso para que eu evitasse mais conflitos. Expirei lentamente. Este era meu último ato de conformidade.
"Tudo bem," eu disse, minha voz mal audível. "Eu estarei lá."
Eu trataria isso como uma despedida. Um adeus final e amargo à empresa, a eles e à garota tola que eu costumava ser.
O jantar foi um borrão de sorrisos forçados e taças tilintando. Heitor e Kátia eram o centro das atenções, rindo, brindando, suas cabeças próximas. Pareciam o casal de poder corporativo perfeito. E eu fiquei na periferia, observando, uma estranha sensação de calma se instalando sobre mim. Eu finalmente vi a verdade. Este era o mundo dele. Este era o tipo de mulher dele. Ambiciosa, implacável e totalmente desprovida de empatia genuína. Eu não pertencia aqui. Eu nunca pertenci.
Alguns colegas mais jovens, alheios às correntes subterrâneas, se inclinaram. "Uau, Heitor e Kátia realmente são uma dupla de poder, não são?" um deles sussurrou, os olhos brilhando. "Eles ficam tão bem juntos."
Senti uma estranha sensação de distanciamento. As palavras não me feriram. Elas simplesmente se registraram como um fato. "Ficam mesmo," concordei, surpreendendo-me com a facilidade da minha voz. "Eles realmente ficam."
Minha concordância casual os fez parar, um lampejo de confusão cruzando seus rostos. Então Kátia, corada de vinho e triunfo, encontrou meu olhar. Seu sorriso se alargou, um brilho predatório em seus olhos. "Então, Alice," ela chilreou, sua voz um pouco alta demais, "alguma novidade interessante na sua vida amorosa? Ou você ainda está esperando um príncipe encantado?"