Subimos um lance de escadas, e durante o caminho, ela foi nos explicando como tudo funcionava no nosso lado, ou melhor, o lado B.
-Agora só terão quinze minutos, então se apressem... –Ela começou a distribuir as chaves dos dormitórios, para mim ela entregou a chave com o numero vinte gravado em um chaveiro metálico. –Todas terão uma colega de quarto, é outra forma de se adaptarem aos dias aqui. –Ela falou ao ver nossa expressão. –É uma boa lição, digo, um bom aprendizado, pois acredito que todas aqui mesmo tendo ou não irmãs ou irmãos... Nunca dividiram o quarto com outra pessoa. –Olhei para as outras três meninas que estavam ao meu lado, todas estavam desconfortáveis com a situação. A velha arrogante tinha razão, eu nunca tinha divido meu quarto com outra pessoa, e agora dividiria com uma estranha. Cadê a privacidade? Aquilo provavelmente era o caminho para uma grande encrenca. –Não precisam se preocupar, todas se adaptaram muito facilmente, garanto que vão fazer o mesmo. Vão ser praticamente melhores amigas em no mínimo duas semanas, quase irmãs... Não é ótimo? –Era falou com sarcasmo. As duas primeiras meninas foram deixadas no segundo andar, a outra menina e eu seguimos juntas na companhia da mulher até o terceiro andar. –Aí está seu dormitório. Espero encontrá-la no refeitório daqui a sete minutos, caso contrario... Mais um dia será adicionado em sua ficha... Não queremos começar dessa maneira, não é mesmo? –Ela piscou e saiu com a outra menina, deixando-me parada diante a porta de numero 20. Não bati na porta, pois se aquele seria meu dormitório, era tão dona quanto a atual “moradora”. Assim que entrei, fui atingida por uma almofada. Estava tão distraída que a almoçada acertou em cheio minha cabeça, com o susto dei alguns passos para trás.
-Cadê a privac... –A menina parou de falar assim que me viu. Na verdade, eram duas meninas, as duas estavam sentadas na cama, pareciam conversar.
-Aí... –Reclamei retomando ao meu lugar.
-Quem é você? –A mesma garota que havia lançado a almofada, questionou enquanto me encarava com curiosidade.
-Nova colega de quarto. –Ergui minha mão e mostrei o chaveiro do dormitório. –Sinto muito, pensei que ninguém estaria aqui... –Menti. –Por isso não bati. –Não queria começar ainda pior, então tentei ser amigável. –Sou Helena. –Ofereci meu melhor sorriso.
-Ganhei uma colega de quarto, estava na hora! –Ela sorriu brandamente.
-Ainda bem, assim me deixa em paz... –A outra menina falou. –Sou a Dóris... Sua vizinha de porta. –Ela levantou e veio até mim. –Seja bem vinda.
-Obrigada... –Respondi de forma sincera.
-Eu sou a Manuela, sua colega de quarto. –Ela disse enquanto também levantava e vinha até mim, ou melhor até nos. Antes que pudéssemos continuar nossa provável conversa, um som extremamente alto e chato ecoou pela escola. –Já é hora de comermos novamente? –Ela perguntou a Dóris.
-É o que parece... –Dóris respondeu enquanto recolhia seu casaco e colocava o mesmo.
A tal Manuela correu até sua cama e se debruçou sobre ela, tirando de baixo da mesma um par de tênis rosa da Nike, se apressando em seguida para calçá-los.
-Vai tocar o segundo, Manu... –A tal Dóris a alertou enquanto eu assistia tudo em segundo plano. –Se apressa. –Ela falou impaciente e dito isso, outro sinal ecoou, Manuela que ainda estava sem um tênis, correu até a porta junto a Dóris.
-Se apressa Helena, no terceiro é castigo! –Ela me aconselhou antes de sair apressada porta a fora, deixando-me sozinha. Droga! Lembrei do que a velha arrogante falou, ela alertou umas três vezes que devíamos trocar de roupa. Desci meu olhar pelo corpo, estava vestida com uma calça jeans de lavagem escura, uma jaqueta jeans preta e uma camisa de uma banda que conheci através de um amigo, acho que só nos dois éramos fãs dessa banda... Balancei a cabeça negativamente enquanto corria até minha mala e começava a jogar roupas para fora, o terceiro sinal tocou, deixando-me ainda mais aflita. Peguei uma blusa qualquer, tinha mangas longas e nem sinal de decote, não me preocupei em ver a estampa ou coisa assim, apenas sai apressada porta a fora e corri pelos corredores ainda desconhecidos. Quarto sinal, eu não conhecia nada ali, mas pelo jeito? Eu estava ferrada! Ao perceber o quão atrasada eu deveria estar, parei de correr e comecei a andar em passos lentos, do que adiantaria se apressar agora? Eu já havia “burlado” as regras. Comecei a me xingar mentalmente enquanto seguia atravessava a enorme passarela. Aquele espaço era amplo e incrivelmente alto, já era possível ver o entardecer, as janelas de vidros permitiam ter uma excelente visão não só da escola, como também dos espaços próximos. Acabei me distraindo com a visão, debrucei meu corpo em uma dessas janelas e fiquei olhando tudo atentamente, as luzes do internato eram ligadas uma a uma, e aos poucos o lugar, ou melhor, “o pátio” do lugar ganhava vida mesmo estando vazio.
-Senhorita? –Ouvi uma voz masculina bem ao meu lado. Resultado? Um galo! Pois com o susto, minha cabeça foi de encontro ao vidro. –Droga! Machucou? –Coloquei uma de minhas mãos na testa e a outra em meu peito, tentando apartar meus batimentos pra lá de acelerados.
-O quê deu em você pra aparecer assim do nada? –Falei irritada enquanto alisava minha testa. –Se eu tivesse algum problema, poderia até ter morrido! –O cara ao meu lado sorri brandamente, como se eu tivesse tido alguma piada. –Do que está rindo? –Digo completamente indignada.
-Pelo jeito é nova... Ainda não tive o prazer de conhecer a dona desse dramalhão todo em minhas aulas. –O tal homem diz.
-Aulas? –Repito. –Você é um dos professores? –Falo meio desconcertada pela forma como eu o tratei. –Espero que isso não interfira em minhas futuras notas, pois você também deverá levar em conta o machucado que me causou, estou até meio tonta... –Finjo enquanto coloco as mãos em minha cabeça, o estranho, que agora havia apresentado-se como professor, começa a sorrir como se estivesse diante de uma comedia.
-Você é muito engraçada... –Ele fala assim que termina de sorrir. –Espero que esteja realmente fingindo, caso contrario, terei de te levar até a enfermaria e... –O interrompo.
-Eu estou atrasada, digo, bem mais do que atrasada! –Falo alarmada retomando meu pensamento. –Essa ida a enfermaria poderia me salvar do castigo... –Falo como se estivesse pensando alto. –Quero ir a enfermaria, minha cabeça começou a doer horrores, além disso o responsável foi você e... –Ele ergue as mãos em defesa.
-Você está na hora errada e no lugar errado, se não fosse eu, poderia ser uma das diretoras, posso afirmar que esse encontro seria bem pior pra você. –Ele fala agora em um tom mais serio.
-Por favor... –Junto as minhas mãos enquanto me aproximo dele de maneira cautelosa. –Esse é meu primeiro dia, na verdade cheguei há algumas horas, me leva até a enfermaria e explica o que houve... –O estranho me encara de uma forma que eu não conseguia descrever, seus olhos e sua expressão estavam vazios, bem diferente do cara sorridente de minutos atrás. –Por favor... –Peço outra vez.
-Vamos então! –Ele diz apenas isso e se vira, voltando a caminhar pelo corredor em sentido contrario do refeitório, me apresso para acompanhá-lo, seus passos são largos. Caminhamos com certa distancia em silencio até o quarto andar. –Eduarda? –O estranho chama assim que entramos em um pequeno corredor.
-Aqui! –Uma voz feminina surge no ambiente, ele me encara brevemente.
-Trouxe uma paciente pra você. –Ele fala assim que entramos em uma sala incrivelmente clara. –Bateu com a testa em algum lugar, a encontrei escorada na passarela. –Ele fala com naturalidade, o encaro e ele faz o mesmo.
-Ah sim... –A enfermeira fala enquanto se aproxima de mim. –É coisa simples. –Ela fala ao tocar minha testa. –Apenas um band aid e uma aspirina resolve tudo. –Ela sorri pra mim e se afasta, mexe em algumas gavetas e logo retorna. –Esse curativo vai combinar perfeitamente com seu pijama. –Ela fala sorridente.
-O quê? –Falo sem entender. –Pijama? –Ela balança a cabeça positivamente enquanto coloca o band aid em minha testa. Assim que ela termina, desço meu olhar até minha blusa e entendo o seu comentário, estou vestida com a camisa de meu pijama da Liga da Justiça. Me xingo mentalmente enquanto me levanto. –Vou ter que ir para o refeitório com essa camisa? –Pergunto a enfermeira.
-Sim, esse simples acontecimento não necessita de uma dispensa, foi coisa simples, você vai sobreviver. –Dito isso, ela me entrega um copo descartável e uma aspirina. –Saúde! –Ela recolhe o copo assim que termino de beber minha água. –Pode levá-la, Thiago. –Viro em direção do ex estranho, que em poucos minutos já havia se apresentado como professor, e agora eu tinha descoberto seu nome.
-Vamos. –Ele acena com a cabeça.
-Obrigada! –Agradeço a enfermeira antes de sair.
-Se eu fosse você, não tirava esse curativo, é tipo uma prova da sua enorme lesão... –Ele fala com certa ironia, mas carrega nos lábios um sorriso brincalhão.
-Adorei as boas vindas! –Falo e passo a frente dele, desço as escadas sem esperá-lo, e faço o mesmo durante o breve caminho até o refeitório.
Novamente entrei na passarela que dava acesso ao refeitório, mas dessa vez, a mesma não estava vazia, quer dizer, havia algumas pessoas no final dela. Tentei ver quem era, ou melhor, a quantidade de pessoas, mas não tive êxito, então continuei andando e vi que era uma mulher e dois meninos, eles pareciam discutir, ao me aproximar vi que era a mulher que havia pego o meu celular minutos antes. Eles pararam de discutir assim que cheguei perto deles, todos me olharam e ela bufou.
-Mais uma atrasada! –Ela falou num tom de reprovação.
-Desculpe, eu... –Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi a voz do tal Thiago atrás de mim.
-Essa aluna tem uma justificativa, Elisa. –Todos, inclusive eu, olhamos para ele. –Ela estava na enfermaria, e eu a acompanhei. –A tal Elisa me encarou, assim como os dois meninos.
-Tudo bem então. –Ela disse. –Mas vocês dois... Posso apostar meu salário desse mês que não estavam na enfermaria... –Os meninos se entre olharam e o que estava a esquerda de Elisa deu os ombros e olhou pra mim.
-Eu estava dormindo. –O outro menino falou. –O meu colega de quarto não me acordou e deu nisso. –Ele disse com naturalidade. –Adiciona mais um dia na minha ficha e me deixe passar logo, Elisa! –Disse impaciente.
-Peço licença. –O Thiago disse enquanto empurrava a porta do refeitório, as vozes inundaram a passarela, mas logo cessaram quando o mesmo fechou as portas assim que entrou no espaço.
-Eu vou chamar a senhora Sandra. –A Elisa disse, fazendo o mesmo caminho que o tal Thiago, deixando-me na companhia dos dois estranhos. Me afastei um pouco e encarei com mais atenção os dois meninos, ambos me encararam, o da esquerda era alto e magro, mas tinha lá seus encantos, ele tinha uma pequena tatuagem abaixo do olho, mesmo com seu moletom escuro, eu conseguia ver com clareza algumas tatuagens em suas mãos, seus cabelos eram escuros, parte dele caiam sobre sua testa. Seu olhar era intenso, me deixava desconcerta de uma maneira inexplicável.
-Novata. –O da direita comentou sem tirar os olhos de mim. Senti meu rosto queimar, com certeza estava ruborizada por conta do olhar deles sob mim.
-É. –O da esquerda falou com um esboço de sorriso no canto dos lábios, mas não era um sorriso de “boas vindas”, era um sorriso meio cínico. E cá entre nós? O deixava ainda mais irresistível. Dito isso, eles viraram frente a frente e começaram a conversar entre si, deixando-me isolada novamente. Ambos trocavam olhares e sorrisos, e eu sabia perfeitamente que o assunto da vez era a “novata” aqui.
-Gustavo e Bernardo... Porquê eu não estou surpresa? –A velha arrogante surgiu na passarela com a tal Elisa atrás dela.
-Você deveria ficar feliz, Sandra... –O garoto loiro falou de maneira ríspida. –Mais um dia, mais dinheiro pra você. Não é assim que funciona? Não é por isso que a cada “imprudência” nos castiga com mais um dia? –A tal “Sandra” sorriu com desdém.
-Não me culpe pelos seus atos, Bernardo. Todos nos aqui sabemos o quanto o Gustavo e você aprontam. –Ela deu os ombros enquanto caminhava até eles. –Se eu não me engano, quatro dias foram adicionados a vocês por conta de visitas noturnas de meninas em seus dormitórios. Estou enganada? –Ela os encarou de forma sínica. Os garotos se entreolharam e trocaram sorrisos cúmplices, deixando a tal mulher visivelmente irritada. –Ainda acham isso engraçado? Isso é uma catástrofe! –Ele alterou seu tom de voz, mas de repente sua atenção mudou de foco quando o tal Gustavo me encarou. Ela fez o mesmo, e mirou seu olhar em mim. –E você senhorita Sarthi... Já no primeiro dia está na companhia de tais pessoas? –Ela balançou a cabeça negativamente, mexi a boca duas vezes, na tentava de me justificar, ou melhor, me inocentar, mas o olhar do garoto de nome Gustavo me deixava desconcertada, insegura, eu mal conseguia me manter equilibrada, pois mesmo sem olhá-lo, sabia perfeitamente que o mesmo me encarava de maneira curiosa e excessiva.
-O professor Thiago a levou a enfermaria, ele justificou o atraso dela, senhora. –Elisa explicou para Sandra, que ainda não havia tirado seus olhos de mim.
-Pois bem. –Ela disse depois de algum tempo em silencio. –Por hoje a senhorita está livre, mas não se acostume... Conhecemos perfeitamente essa tática de ir para a enfermaria quando são obrigados a fazer algo. –Ela se aproximou de mim. –Cuidado, estarei observando-a de perto. –Assenti enquanto a encarava. –E vocês dois. –Ela virou na direção dos meninos. –Mais um dia será adicionado na ficha de cada um. Bom jantar a vocês. –Dito isso, ela caminhou pela ampla passarela, atravessando a mesma e indo só pra Deus sabe onde, Elisa a seguiu, deixando-me sozinha com os dois meninos, que agora me observavam mais atentamente.
-Gostei da camisa. –O garoto loiro disse, mas era notável o sarcasmo em sua voz. –Seja bem vinda ao purgatório. –Ele piscou e passou a frente de nos, empurrando a porta do refeitório e entrando, Gustavo me encarou por breves segundos, antes de seguir o amigo.