Capítulo 2

Paulah

Deixei a noite passar, nenhuma resposta que preciso seria dada naquela noite. Eles beberam após a conversa que ouvi parcialmente, o som das taças batendo parecia que haviam decidido algo sobre mim. Estou cansada, tentarei adormecer um pouco, ou na manhã seguinte eu estaria ainda pior do que estou. Usei uma das roupas que aquela mulher trouxe, um vestido elegante...

Esperei mais horas passarem, me levantei e saí pela casa buscando uma saída. As principais portas da casa estavam bloqueadas por cadeados com senhas, passei na frente do quarto que acredito pertencer a ele. Tudo estava silencioso, observei que não há sinal algum da existência de uma mulher na vida dele.

Só resta saber se isso é uma desvantagem ou não, para mim!

Volto para o quarto e tranco a porta, consigo dormir um pouco... Despertando com cães latindo pelo quintal.

A porta do quarto abre, a mulher tinha uma cópia da chave.

Eu observei a mulher dobrar as roupas em silêncio, hesitante. Ela parecia tão desconfortável quanto eu me sentia naquele lugar.

- Obrigada... pelas roupas - murmurei, tentando quebrar o gelo.

Ela ergueu os olhos por um breve momento, mas não disse nada, voltando a organizar as peças com mãos trêmulas e claramente querendo sair daqui.

- A senhora... trabalha aqui há muito tempo? - arrisquei, tentando uma abordagem diferente.

Ela engoliu seco, hesitou, mas respondeu com a voz baixa: - É o que faço.

Algo no tom dela me fez insistir. - Você parece... tão desconfortável quanto eu. Não precisa ter medo de mim!

Ela olhou rapidamente para a porta, depois para mim, e sussurrou: - Não fale assim. Ele pode ouvir.

A tensão na sala era tão grande, mas eu precisava entender. 

- Por favor, me ajude a entender. Por que estou aqui? Quem é Benício para você?

Ao ouvir o nome, ela ficou visivelmente tensa, baixando o olhar. 

- Ele... ele é tudo para minha família. Sem ele, não teríamos nada.

Havia algo mais ali, algo que ela não dizia. 

- E o que ele pediu em troca? Algo que a faz ter medo até de olhar para ele?

- Benício não é perigoso para aqueles em quem possa confiar. Siga as ordens dele e você ficará bem! 

Eu dei um passo mais perto, tentando não a assustar. 

- Eu só quero sair daqui. Se você souber algo... qualquer coisa...

Ela hesitou, olhando para a porta novamente, e então sussurrou com a voz trêmula: 

- Você tinha algum marido lá fora?

A pergunta dela me deixou surpresa.

- Não, por que a pergunta?

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela se afastou rapidamente, sorrindo, como se o tempo estivesse acabando.

- Espere! Você não precisa fazer isso sozinha - implorei, a voz quase falhando. - Posso ajudar com a limpeza...

- Descanse, hoje precisa estar descansada! - respondeu ela, saindo em seguida.

- Descansada para o quê? Diabo de lugar.

Ela tem medo, ou simplesmente é mais uma cúmplice e não terá empatia por mim. Faço minha higiene, saio do quarto algum tempo depois... Não me levaram comida e pareciam querer que eu saísse da "toca".

A sala de jantar estava posta, havia um belo café da manhã.

- Sente-se, vamos servi-la. - disse a empregada.

- E... ele?

- O senhor Benício já saiu.

Respiro aliviada, consigo tomar um café que desce ardendo na garganta. Saio de dentro da casa, pela primeira vez consigo vê-la melhor... As crianças que corriam pela rua do lado de fora, olharam para mim como se eu fosse um animal em uma grade de zoológico.

- Olá! - me aproximo deles, tentando forçar um sorriso.

- Não podemos falar com ela, ainda não é uma de nós...

- Espere, quero ser sua amiga... Pode conversar comigo?  

Os dois correm para longe ao serem chamados por uma mulher, a mesma que me trouxe para cá. Ela me olha com ainda mais ódio do que olhou da primeira vez e se aproxima.

- Não sinta que faz parte daqui só porque o babaca te colocou sob o teto dele. Benício acabará decidindo acabar com a sua vida! E eu ainda apertarei o gatilho!

- O que eu fiz para me odiar assim?

Ela não respondeu, com o mesmo desprezo no olhar... Se afastou.

- Volte para dentro, não pode sair dos limites da casa - disse um dos homens, certamente que colocaram para vigiar meus passos.

As horas não passam nesse lugar, aproveitei que o dono da casa não estava. Uma das empregadas estava limpando o quarto dele, ela levou alguns lençóis para fora e deixou a porta aberta. Sem pensar, entrei e comecei a olhar o meu redor em busca de pistas sobre o passado daquele homem e qualquer coisa que me ajude a entender a situação.

A cama era enorme, arrumada e o quarto era ainda mais bonito do que o outro. Uma camisa preta estava sobre uma poltrona, certamente a última que havia sido usada por ele... Percebi pelo mesmo perfume amadeirado que senti quando ele me conteve na noite passada, sinto seu perfume e a devolvo para o mesmo lugar enquanto olho em direção à porta com medo de ser descoberta.

Um notebook estava sobre a cama, entreaberto e eu corri para verificar se estava em alguma página em especial. Ele estava bloqueado por senha, não sei por que acreditei que ele cometeria um erro tão amador quanto o deixar acessível a mim.

- Ele não seria tão idiota! Nem eu seria...

A gaveta ao lado parecia aberta e dentro dela havia algo que chamou minha atenção. Um livro de capa preta com nome: Culla del Crimine e com vários nomes, sobrenomes e datas de nascimento. Além de textos que estavam em outro idioma, a poeira quase me fez espirrar e o devolvi para o mesmo lugar. Quando fui fazer isso, uma foto que estava dentro dele acabou caindo sobre o meu pé direito e eu a peguei.

Nela estava Benício, parecia bem mais jovem e ao seu lado estava uma mulher loira e muito bonita. Certamente era a esposa dele, mas onde ela está agora? Ele mesmo a matou por ter descoberto algo? Enfiei a foto de volta e saí correndo dali, quase esbarrei em uma mulher que chegava e estava em direção ao quarto que ocupo.

- Você é Paulah, cuidaremos da sua beleza para essa noite especial. - disse ela.

Entramos no quarto, ela colocou dois vestidos de festa sobre a cama e me olhou.

- Experimente-os! - disse ela.

- Pode me dizer para quê?

- Gosta de poker? - perguntou, abrindo o zíper do modelo de cor dourada e entregando-o a mim.

- Não muito...

- Isso é uma tradição aqui, uma bela dama atrai uma festa e um jogo importante de poker.

- Darão uma festa em minha homenagem? É isso?

- Não posso dizer mais nada, não faz parte do meu trabalho. Faremos maquiagem e um penteado sexy!

Sair daqui não seria má ideia, uma festa com muita distração me ajudaria a fugir desse lugar. Não posso mais viver nessa incerteza, longe daqui eu não importaria com respostas.

Escolhi o vestido, agi como ela esperava que eu agisse e colaborei com todo aquele circo. Durante o dia, ela me preparou, fiquei produzida como nunca antes e olho para o espelho, dizendo a mim mesma que aquela é minha fantasia de fuga.

- Você está linda! Gostou de verdade?

- Eu adorei! - respondi empolgada.

A empregada misteriosa entrou, me viu arrumada e disse:

- Benício a espera para seguirem juntos!

Desci as escadas, ele estava me esperando. Usando um terno, cabelos arrumados com gel e aquela cara de vilão.

- Vamos? - disse ele.

Olhei para fora, o carro já estava nos esperando e havia seguranças demais para que saísse correndo dali. Entramos no automóvel e percorremos por uns quinze minutos até chegarmos a um salão que parecia gigantesco. Vários carros, estava lotado e todas as pessoas da cidade deveriam estar ali... Até as crianças que avistei mais cedo e a menina acenou para mim.

Benício colocou uma taça cheia de vinho em minha mão, saiu entre os convidados da festa conversando e interagindo com todos que encontrava à sua frente. Tomei um gole e devolvi a taça na primeira bandeja que encontrei, fiquei andando por lá e olhando para fora como se eu quisesse voar...

- É hora do jogo! - disse um dos homens, chamando a atenção de absolutamente todos na festa, que pareciam já esperar por aquele momento.

Benício, o homem que me levou para lá, e um velho com cara de alcoólatra... O que intrigou é que todos olhavam em minha direção.

- Por que me olham? - perguntei aflita.

- Jogarão para ganhar você! - respondeu uma criança em meio ao salão.

- Que brincadeira é essa? Isso é ridículo. Achei que essa era uma cidade respeitável...

- E é! - respondeu Benício, acomodando-se na cadeira e esperando suas cartas.

- Se apostar uma mulher nas cartas é normal para o senhor, então deve rever suas virtudes!

- Não apostamos uma noite apenas, apostamos o futuro! Se quer viver, aceite as condições que impormos. Eu já disse isso a você! - completou.

- Casamento? Estão na idade média? Certo! Me dê as cartas, quero jogar também! - Todos me olharam com surpresa, enquanto me sentava à mesa com eles. - Vamos e se eu ganhar, quero minha liberdade!

- Dê as cartas para ela, Benício, acha que uma mulher pode nos vencer uma só partida de Poker? - ironizou o velho.

Eu nunca imaginei que estaria nessa posição. Sentada à mesa, com o olhar de três homens fixos em mim, mas não pelo jogo em si. A aposta não era fichas, dinheiro ou prestígio. Era eu.

O velho à minha esquerda ajeitou o chapéu surrado, ele parecia desconfortável, mas não o suficiente para sair da mesa. Do outro lado, aquele homem mais jovem que tinha um sorriso arrogante, como se já tivesse ganho antes mesmo de as cartas serem distribuídas. E então, havia Benício e sua expressão de liderança.  Ele estava à minha frente, suas mãos descansando sobre a mesa, os olhos fixos nos meus. Ele não precisava falar para deixar claro quem comandava.

As cartas foram distribuídas. Peguei as minhas com mãos tremendo, tentando esconder meu nervosismo. Um rei de espadas e um dez de copas. Não era um início ruim, mas não era o suficiente para me dar segurança.

O velho olhou para suas cartas e fez uma aposta pequena, como se não quisesse se comprometer. O jovem riu baixinho e aumentou a aposta, empurrando fichas para o meio da mesa.

Benício acompanhou sem hesitar, empurrando suas fichas com uma calma que parecia ensaiada. E eu? Eu não tinha escolha. 

- Eu acompanho  - respondi, tentando soar firme, mas minha voz quase falhou.

O flop foi revelado: um ás de copas, um dez de espadas e um sete de ouros. Um par para mim, mas nada que me garantisse vantagem.

O velho hesitou, murmurando algo antes de passar sua vez. O jovem, com um sorriso debochado, apostou alto.

- Eu aumento  - disse Benício, empurrando uma pilha de fichas para o centro, e meu coração disparou.

Minha vez. Respirei fundo e acompanhei a aposta, sentindo os olhos de Benício queimarem em mim.

- Estou fora. - O velho suspirou, jogando suas cartas na mesa. 

Restaram apenas nós três. O jovem, talvez tentando provar algo, anunciou "all-in", jogando todas as suas fichas para o centro.

Benício sorriu e disse: - Eu acompanho.

Minha vez novamente. Olhei para minhas fichas, depois para minhas cartas. Eu sabia que não tinha a menor chance contra Benício, mas algo dentro de mim me impediu de desistir. Talvez fosse orgulho ou desespero. 

- All-in - eu disse, empurrando o restante das fichas para o centro.

As últimas cartas foram reveladas: um rei de copas e um dois de espadas. Meu coração deu um salto. Dois pares. Rei e dez.

O jovem jogou suas cartas na mesa. Ele só tinha um par. Meu olhar foi para Benício. Ele virou suas cartas com calma: um ás e um dez. Dois pares também, mas mais altos que os meus.

- Melhor sorte na próxima - disse Benício, recolhendo as fichas. Mas seus olhos estavam fixos em mim, e o sorriso em seus lábios era diferente. Não era só vitória. Era posse.

O tal livro que achei na gaveta dele estava lá, nas mãos de um dos velhos que acompanhavam tudo de longe. Queriam que nós dois o assinássemos, era um casamento...

- Eu, eu...

- Não envergonhe Benício na frente de todos. - disse a tal Elisa, minha primeira algoz.

- Não me sinto bem... - blefei.

- Assine! - gritou Benício.

Eu não tive escolha, tive que assinar aquele livro estúpido e minhas forças quase foram embora. Propuseram um brinde assim que ele assinou seu nome, estamos casados! Ao som de vários pedidos para um beijo, Benício chegou perto e eu me joguei em seus braços, forjando um desmaio. Ele me pegou nos braços, os sons foram cessando e eu abri disfarçadamente meus olhos.

Ele me levou a um lugar mais tranquilo da festa, ouvi sua voz pedindo para me trazerem água. 

- Paulah? Consegue me ouvir? - perguntou ele.

Benício colocou o copo em minha mão, decisão errada a dele! Quando meus olhos avistaram uma porta aberta, eu não tive dúvida... O acertei com o copo na cabeça e saí correndo ao som de seus xingamentos:

- Desgraçada! Filha da puta!

Capítulo 3

Paulah

A música da festa ainda tocava alta, as luzes dos carros refletindo nas poças de água espalhadas pelo asfalto. As risadas haviam sido substituídas por gritos e passos apressados. Eles estavam vindo. Todos eles!

Eu corri.

Os saltos altos que usava antes da confusão arremessei em algum lugar do caminho. Agora, meus pés descalços batiam no chão frio, eu queria poder gritar e pedir socorro. O vestido que antes era impecável agora estava rasgado, sujo de terra e suor.

- Ali! Ela foi por ali! - ouvi uma voz masculina gritar.

O som do metal das armas que carregavam me fez acelerar. Meu peito doía, e o ar parecia faltar, mas o medo era mais forte que o cansaço.

Virei a esquina e tropecei em uma lata de lixo caída. O barulho soou como uma explosão naquela noite silenciosa, e eu sabia que tinha acabado de entregar minha posição.

Luzes de lanternas varreram a rua e ouvi passos rápidos se aproximando. Não pensei, só corri para o beco mais próximo. Era estreito, apertado e o cheiro era insuportável, mas pelo menos me escondia temporariamente.

A floresta. Eu precisava chegar à floresta.

O som das vozes aumentava. Algumas estavam nervosas, outras riam como se fosse um jogo. Para eles, talvez fosse. Para mim, era vida ou morte.

Saí do beco e corri para a direção onde sabia que as árvores começavam. O céu estava escuro, mas eu podia ver o contorno das copas ao longe. 

De repente, o som de um tiro. Meu corpo inteiro congelou por um segundo antes de eu voltar a correr. Não olhei para trás. Não podia.

- Não a deixem escapar! - gritou uma mulher, era Elisa.

Mas quando finalmente vi a linha das árvores, algo dentro de mim se acendeu. Era minha única chance. Entrei na escuridão da floresta, sentindo galhos arranharem minha pele e folhas se prendendo ao meu cabelo solto. O barulho das vozes ficou mais distante, mas ainda podia ouvir os sapatos esmagando folhas secas. Eles ainda estavam me seguindo.

A escuridão era total, e eu tropecei várias vezes, mas continuei. O chão era irregular, cheio de raízes e pedras, mas aquela floresta era minha única proteção.

- Se Benício me encontrar, é o fim.

Minhas pernas tremiam, mas eu não podia parar. Não enquanto ainda houvesse uma chance, mesmo que pequena...

Foi então que aconteceu.

Meu pé afundou em algo duro e pontiagudo, e um grito escapou de mim antes que eu pudesse conter. A dor foi enorme, irradiando pela perna, como se algo estivesse rasgando minha carne. Olhei para baixo, ofegante, e vi o toco de madeira que havia atravessado toda a sola do meu pé e saía do outro lado.

- Não... não... - choraminguei, tentando entender o que estava acontecendo.

Tentei me mover, mas a dor era insuportável. Meu corpo inteiro começou a tremer, e lágrimas desciam pelo meu rosto enquanto eu lutava para me libertar. O toco estava preso, como se a própria floresta estivesse conspirando para me segurar ali e entregar-me a Benício.

Em um momento, senti que iria desmaiar de tanta dor enquanto o sangue escorria abundante. 

Agarrei minha perna com as duas mãos, comecei a puxar, ignorando os espinhos que arranhavam minha pele. A dor era tão intensa que senti náuseas, mas não podia desistir.

- Vamos, vamos, inferno... - sussurrei para mim mesma, mordendo o lábio para não gritar.

- Benício! A encontramos. - disse um dos homens que o seguiam.

As armas estavam apontadas em minha direção e ele veio logo em seguida, avistando a minha situação. O sangue ainda escorria pelo rosto dele após o golpe que lhe dei, agora eu sangrava o triplo...

- Vai! Atira de uma vez! - implorei e fechei os olhos.

Nenhum som, a dor permaneceu estranhamente igual. Até que senti o toque das mãos dele envolver minha cintura e repousar parte do meu peso.

- Puxem a perna dela - pediu Benício.

Não tive forças para gritar e quase desmaiei. Benício me sentou no chão e fez um torniquete com a própria gravata. O sangue cessou um pouco e, de repente, fui erguida no ar e jogada sobre seu ombro como se eu não pesasse nada. Minha cabeça balançava para baixo, e a visão que eu tinha era do chão da floresta, se afastando cada vez mais rápido enquanto ele caminhava com passos firmes.

Seguido pelos demais.

- Vai levá-la de volta? Enlouqueceu? - perguntou Elisa.

Benício não parou para respondê-la, quando chegamos na casa...

- Já chega de jogos por essa noite, voltem para casa! Mandem Elton para tratar dela!

O cheiro de suor e sangue misturava-se ao perfume dele, uma combinação que me dava náuseas. Cada passo que ele dava fazia meu corpo balançar, e o sangue do meu pé machucado escorria, pingando pela casa inteira até a empregada se aproximar.

Com cuidado surpreendente para alguém tão brutal, Benício me colocou na cama. Minha perna latejava de dor e eu não consegui segurar o gemido que escapou dos meus lábios.

- Fica quieta. - Sua voz era firme, mas não tão dura quanto antes. Ele ajeitou meu corpo na cama, afastando o tecido rasgado do meu vestido para examinar o ferimento no meu pé.

Eu tentei me mover, mas ele segurou meu tornozelo com firmeza. - Não se mexe. Vai piorar!

Antes que eu pudesse dizer algo, a porta se abriu de repente, e um homem entrou apressado. Ele carregava uma maleta preta, que reconheci imediatamente como sendo de médico.

- Está aqui. - Benício disse, sem nem olhar para mim. - Cuide disso rápido.

O homem, com cabelos grisalhos e óculos, colocou a maleta sobre a mesa ao lado da cama. Ele abriu com um clique, revelando uma fileira de instrumentos médicos.

- Ela perdeu muito sangue? - perguntou o homem, enquanto colocava luvas de látex.

- Não sei. Só faça o que tem que fazer. - Benício cruzou os braços e ficou de pé ao lado, observando cada movimento.

O médico se aproximou e olhou para mim com uma expressão neutra, quase profissional demais para a situação. 

- Isso vai doer um pouco. - Ele avisou antes de começar a limpar o ferimento.

A dor foi como fogo atravessando meu pé, e eu me contorci, mas Benício colocou a mão firme no meu ombro, me mantendo no lugar. 

- Eu disse para ficar quieta. - disse Benício.

Após a limpeza, anestesia e uns pontos...

- Mantenha o ferimento limpo, não apoie esse pé por alguns dias e ficará bem. Receitei um remédio para dor e outro para evitar qualquer infecção! - disse o médico, entregando a receita médica para Benício. - Agora, deixe-me verificar sua cabeça.

- Estou bem, doutor, é preciso muito mais do que isso para me deter!

A resposta era para mim, além de tamanha frieza... Ele entendeu a situação como um desafio às ordens dele.

Os dois saíram um momento, a empregada entrou.

- Ele atirou em você? - perguntou ela.

- Ainda não! - respondi prontamente.

- Não sei por quê, mas gosto de você. Não lute contra a situação.

- Eu só quero ir para casa...

- Benício salvou sua vida, duas vezes! - disse ela, antes que argumentasse mais sobre isso...

- Mande comprar os remédios dessa receita assim que amanhecer. - disse ele, entregando o papel a ela e a mulher saiu.

Eu evitava olhar para ele, Benício parecia fazer o mesmo.

- Olhe para mim! Se tentar novamente, eu juro... 

- Me diz Benício, por que tudo isso?

- Estamos casados agora. Você pertence a esse lugar, protegemos a nossa forma de levar a vida há anos!  Isso aqui não é uma cidade comum. Cada pessoa lá fora, cada rosto que você viu na festa, faz parte de algo maior.

- Que forma de vida? Eu não sei de nada... Juro por Deus!

- Somos uma cidade inteira de mafiosos. Homens, mulheres, famílias inteiras, todos unidos por um pacto que foi firmado há muitas décadas. Ninguém entra aqui sem ser notado. E ninguém sai daqui contando histórias!

Eu engoli em seco, sentindo o sangue esfriar nas veias, mas ele continuou, sem dar espaço para interrupções.

- Nosso segredo é o que nos mantém vivos. O que nos mantém no poder. Se o mundo lá fora descobrir que existimos, tudo o que construímos desmorona. Sou o líder, capo... - Ele apontou para si, o olhar queimando em mim. - Não vou deixar isso acontecer.

- Então...

- Sob o nosso regimento, se algum invasor entra em nossas dependências... Ele deve morrer! Mas encontrei uma forma de controlá-la, tornando-a uma de nós a partir de um casamento!

Agora entendi o que a empregada havia dito, se Benício ou qualquer um daqueles homens competissem por mim nas cartas... Eu já estaria morta!

- Então Paulah, você tem duas escolhas. Ou aprende a viver com isso..., ou desaparece como todos os outros que tentaram nos expor.

- Eu...

- Você não tem um passado lá fora.

- Como sabe disso? Mentira! - gritei.

- Tem apenas uma irmã chamada Lúcia, com quem não fala há oito anos. Um último namoro que acabou há um tempo... Amizades não muito sólidas e uma carreira mediana.

- Vasculhou minha vida! Estúpido...

- Já chega, descanse! - disse ele tranquilamente, deixando o quarto em seguida.

Eu não consegui dizer mais nada, as lágrimas me deixavam uma atrás da outra. Benício certamente me odiava e eu só pensava que nunca mais poderia sair dali. Ele estava certo, minha vida lá fora era um fracasso total e ele sabia...

O anestésico me deu sono, apesar de tudo que a minha mente precisava processar, adormeci.

- Bom dia! - ouço uma voz infantil me despertar. Era a menina que eu havia visto ontem na rua e na festa.

- Bom dia...

- Seu pé continua doendo? - perguntou ela, sentando-se ao lado da cama.

- Não muito. O médico cuidou dele ontem. Qual é seu nome?

- Sara, o seu é Paulah.

- Sim. Seus pais... Vivem aqui?

- Eu nasci aqui, Benício é meu tio. Mas... por que você estava tentando ir embora?

- Esqueça Sara, apenas esqueça.

Benício entrou no quarto de repente, ele nunca bate na porta.

- Trarão os remédios em algumas horas. Vejo que já se conheceram...

- Eu gostei dela, tio!

- Fico feliz por isso. Agora nos deixe um momento a sós, Sara.

- Sim senhor. - respondeu ela, dando um beijo no rosto dele e saindo em seguida.

- Todos nós temos algo valioso a perder, certo?

- Acha que eu machucaria uma criança, senhor Mendelerr? Os bandidos aqui são vocês! - Ele engoliu seco.  - Como está a cabeça?

- Melhor do que seu pé!

- Então sobreviveremos...

- Melhor do que seu pé!

- Então sobreviveremos...

Chamaram Benício do lado de fora do quarto. Ele hesitou por um instante, me lançando um último olhar antes de sair. Assim que a porta se fechou, soltei um suspiro que eu nem percebi que estava segurando.

Eu não sei como decifrar esse homem. Às vezes, ele parece o próprio demônio, com aquele olhar frio, como se pudesse esmagar qualquer um com um simples comando. Sua presença me sufoca, me faz sentir pequena, impotente.

Então... há momentos como agora. Momentos em que ele age com cuidado, como quando me colocou na cama ou mandou o médico cuidar de mim. Por mais que eu quisesse odiá-lo completamente, algo nele me confundia.

Essa dualidade me deixa louca. Não sei se devo temê-lo mais do que já temo ou se, de alguma forma insana, posso confiar nele.

Tento sair da cama mesmo sabendo que não devo, caminho apoiada apenas no pé bom, olho pela janela e o vejo conversar com Elisa. Senti uma onda atravessar minha garganta...

- Essa mulher quer me ver morta. Vai acabar o convencendo a isso!

De repente, ela o beija e eu cubro meus lábios com a mão direita... Como se quisesse cobrir o dele e protegê-lo dela. Benício vira-se na direção da janela e eu me esquivo rapidamente para que não me veja, nesse movimento acabo esquecendo o pé ferido.

- Merda! Espero que não tenham me visto.

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