"Estamos bem", eu disse, minha voz fria.
Ele se mexeu, sentindo a mudança.
"Ainda está brava comigo?"
Virei-me para encará-lo no escuro.
"Você me ama, Caio?"
"Claro que amo", ele disse, sem um pingo de hesitação. A mentira vinha com tanta facilidade.
Nesse momento, o celular dele vibrou na mesa de cabeceira. Ele pegou. Eu podia ouvir os soluços suaves de uma mulher pelo alto-falante. Karina.
"Caio, não me deixa", ela chorava. "Por favor, não se case. Eu não consigo viver sem você."
Seu corpo inteiro ficou tenso.
"Karina, calma. Eu não vou te deixar."
"Mas o casamento..."
"Já estou indo aí", ele disse, a voz urgente e suave. Ele desligou e olhou para mim, um lampejo de irritação em seu rosto.
"Não começa, Clara", ele avisou. "Ela só está passando por um momento difícil."
"Então você vai até ela? Agora?"
"Eu volto logo", ele disse, já saindo da cama. "Nós ainda vamos nos casar. Apenas seja uma boa menina e cuide de si mesma. E do bebê." Ele parou na porta, como se de repente percebesse que talvez tivesse forçado a barra. "Eu vou te compensar. Eu prometo."
Então ele se foi.
Mesmo depois de tudo, mesmo depois de me deixar no meio do mato, ele ainda a escolheu. Eu era apenas a incubadora conveniente, a mulher que deveria esperar pacientemente nos bastidores.
Levantei-me da cama e fui até a caixa de fotos antigas no armário. Vasculhei-as. A última foto só de nós dois era de três anos atrás. Tudo desde então, todos os feriados, todas as festas, Karina estava lá, pairando na beirada da foto, um fantasma em nossas vidas.
Abri meu notebook. Karina tinha acabado de postar no Instagram. Uma foto de uma linda casinha de passarinho de madeira, feita à mão. A legenda dizia: "Ele ainda se lembra que eu amo sabiás-laranjeira. Algumas coisas nunca mudam. #almasgêmeas"
Caio tinha feito aquilo para ela. Ele nunca tinha feito nada para mim. Ele me comprava coisas, coisas caras, mas nunca me deu seu tempo, seu esforço. Eu era sempre a que tinha que ser compreensiva, a que não podia exigir nada.
Não era que ele gostasse de uma mulher "compreensiva". Ele simplesmente não gostava de mim.
Com uma onda de fúria fria, peguei as fotos de nós dois e as rasguei em pedaços. A borda afiada de uma foto brilhante cortou meu dedo. Observei uma gota de sangue brotar na minha pele. Não era nada comparado ao dano que ele havia causado à minha vida.
Na manhã seguinte, tirei todas as decorações de noivado. O silêncio no apartamento foi um alívio.
Por volta do meio-dia, a fechadura da porta da frente girou. Não era o Caio. Era a Karina.
"Oi, Clara", ela disse, seu sorriso doce como veneno. "O Caio está preocupado com você. Ele me pediu para vir te fazer companhia."
Eu não fiquei surpresa. Era bem a cara deles armar essa pequena performance.
"Não é necessário", eu disse, minha voz vazia.
Sua postura mudou num piscar de olhos. A doçura desapareceu.
"Ah, eu acho que é", ela disse, se aproximando. "Precisamos conversar." Ela me olhou de cima a baixo, seus olhos demorando em minha barriga. "Sabe, você realmente se descuidou. Não é à toa que ele se cansa de você."
Eu suspeitava que Caio chegaria em breve, pronto para bancar o herói.
Karina estendeu a mão, suas unhas perfeitamente cuidadas cutucando minha barriga.
"A parasita aí dentro está bem?"
Eu recuei, minhas mãos instintivamente se movendo para me proteger.
Era tudo o que ela precisava. Ela soltou um grito agudo e se jogou para trás, batendo a cabeça de propósito na quina afiada da mesa de centro.
Um corte se abriu em sua testa, e o sangue começou a escorrer por seu rosto perfeito.
A porta da frente se abriu com um estrondo. Caio entrou correndo, os olhos arregalados de pânico. Ele nem olhou para mim. Correu direto para Karina, aninhando-a em seus braços.
"O que aconteceu? Você está bem?"
Karina soluçava, agarrando-se a ele.
"Não é culpa dela, Caio. Ela só está emotiva por causa da gravidez. Eu não deveria ter vindo."
Suas lágrimas se misturaram com o sangue, criando uma imagem dramática e trágica. Ela era uma atriz magistral.
Caio se virou para mim, o rosto uma tempestade de fúria.
"Qual é o seu problema, Clara? Primeiro a minha carreira, agora isso? Você não consegue deixá-la em paz por um segundo?"
Ele agiu como se eu tivesse cometido um crime imperdoável.
Karina continuou com sua atuação.
"Caio, não a culpe. Foi um acidente. Eu estou bem, de verdade."
Ele olhou do rosto ensanguentado dela para o meu, estoico.
"Bem? Ela te machucou! Como ousa se comparar a ela? Você não é digna nem de engraxar os sapatos dela."
Eu não disse nada. Apenas fiquei ali, assistindo à sua performance.
A antiga Clara estaria histérica, implorando por seu perdão, desesperada para se explicar. Mas a antiga Clara se foi. Ela morreu em algum lugar naquela mata. Eu soube então que nunca mais suplicaria por seu amor.
Caio pareceu confuso com meu silêncio.
"Você não vai dizer nada? Pedir desculpas?"
"Já acabou?", perguntei, com a voz cansada.
"O quê?"
"Estou cansada", eu disse. "Vou para o meu quarto."
Virei-me e fui embora, deixando-o gaguejando na sala de estar com sua preciosa Karina. Eu não sentia a necessidade de explicar. Não me importava com o que ele pensava.
Naquela noite, ele entrou no quarto e deitou-se ao meu lado. Ele me abraçou, seu corpo quente contra minhas costas. Eu não me mexi.
"Estou cansado, Clara", ele sussurrou, a voz cheia de uma exaustão falsa. "Apenas seja boazinha. Pare de brigar com a Karina. O casamento é na semana que vem. Eu te darei tudo o que você quiser. Apenas se comporte."
Ele enterrou o rosto no meu cabelo e passou a mão pela minha barriga.
"Ok?"
"Ok", sussurrei de volta.
Fechei os olhos e decidi. Eu abriria mão de tudo que me ligava a ele. Começando pelo bebê.
No dia seguinte, ele insistiu que fôssemos todos a uma festa juntos. Um encontro com seus amigos mais próximos.
"Vai ser mais confortável para você no banco de trás, querida", ele disse, abrindo a porta traseira do carro para mim enquanto Karina deslizava para o banco do passageiro da frente.
Fechei os olhos e os ouvi conversar durante todo o caminho. Falaram sobre piadas internas antigas, memórias do colégio, um mundo do qual eu nunca fiz parte. Eu era apenas uma espectadora da história de amor perfeita deles.
A festa foi em uma sala privativa de um restaurante caro. Era toda a sua turma. Todos cumprimentaram Karina com abraços calorosos e me trataram com uma distância educada.
"Olha só o casal feliz!", disse Marcos, piscando para Caio e Karina. "E a... outra."
Karina corou lindamente.
"Não seja bobo. Caio e eu somos apenas amigos. Clara é a noiva dele." Ela disse isso de um jeito que soava como uma piada, como se ela fosse o prato principal e eu, o acompanhamento que ninguém pediu.
Caio franziu a testa levemente, um sinal silencioso para seus amigos pegarem mais leve, mas não me defendeu. Ele apenas puxou uma cadeira para mim, um gesto superficial, antes de fazer o mesmo por Karina, bem ao seu lado.
Quando o garçom veio servir o vinho, Caio o interrompeu antes que chegasse a Karina.
"Para ela não. Faz o rosto dela ficar vermelho." Ele sabia desse detalhe minúsculo e íntimo sobre ela. Meu copo já estava cheio. Ele nem tinha notado.
Eu sorri um sorriso fraco e cansado.
Alguém sugeriu um jogo. Verdade ou consequência com uma garrafa. A garrafa girou, parando, é claro, em Karina.
Marcos gritou.
"Consequência! Eu te desafio a jogar o jogo do biscoito com alguém nesta sala!"
Karina fingiu timidez, seus olhos percorrendo o ambiente antes de pousarem em Caio.
"Caio, você me ajuda? É só um jogo."
Ele olhou para mim. Meu rosto era uma máscara em branco. Não lhe dei a satisfação de uma reação. Não vendo protesto, ele deu de ombros.
"Claro, por que não?"
Eles colocaram o biscoito coberto de chocolate entre os lábios. A sala explodiu em aplausos enquanto eles mordiscavam cada vez mais perto. Seus rostos estavam a centímetros de distância.
Coloquei a mão na minha barriga lisa, um gesto que agora parecia vazio. Todos naquela sala haviam esquecido que eu estava ali, que eu era sua noiva, que eu estava carregando seu filho.
As orelhas de Caio ficaram vermelhas. Eu só tinha visto isso acontecer quando ele estava genuinamente nervoso, genuinamente afetado.
"Eu lembro quando vocês dois foram eleitos o Casal Mais Bonito no último ano do colégio", Léo disse, arrastando as palavras, feliz. "Todos nós pensamos que vocês iam se casar."
"É, e lembra daquela vez que o Caio dirigiu a noite toda para te levar sopa quando você estava com gripe?", acrescentou Marcos.
Caio lançou-lhes um olhar de advertência.
"Gente, calem a boca." Ele estendeu a mão e pegou a minha. A dele estava quente, a minha estava gelada. "Eles só estão bêbados e falando besteira. Não liga pra eles."
"Eu não ligo", eu disse, meu sorriso parecendo frágil em meu rosto.
Ele assentiu, satisfeito. Ele realmente acreditava que eu era tão estúpida. Que eu ainda era a mesma garota que engoliria qualquer mentira que ele me contasse.