Capítulo 2

Dustyn

Eu nunca precisei de ninguém na minha vida.

Essa não é uma afirmação de orgulho. É apenas um fato que aprendi cedo demais, da maneira mais brutal possível, dentro de uma casa enorme e fria onde o dinheiro pagava tudo exceto presença.

Meu pai trabalhou a vida inteira para construir um império e morreu sem saber a cor favorita do próprio filho. Minha mãe aprendeu a amar o sobrenome Calloway muito antes de aprender a amar qualquer pessoa que o carregasse.

Então eu cresci sozinho dentro de uma família completa.

E aprendi que precisar de alguém era a forma mais eficiente de se destruir.

Aos trinta e cinco anos eu era o Ceo do Grupo Calloway, o homem mais temido do setor financeiro, alguém que fechava negócios com a mesma frieza com que outras pessoas tomavam café da manhã. Minha reputação era construída sobre uma verdade simples, eu nunca perdia. Nunca recuava. Nunca deixava que nenhuma emoção interferisse em nenhuma decisão.

E então eu vi o currículo de Madeline Whitmore numa tarde de quarta-feira.

Ela estava sendo considerada para uma vaga no setor de comunicação interna. Currículo competente. Experiência suficiente. Nada extraordinário no papel. Eu normalmente nem teria olhado para aquele documento porque não era minha função analisar contratações de nível médio dentro da empresa.

Mas o nome dela havia chegado até mim por outro caminho primeiro.

Três semanas antes, numa conversa casual com Donna Reeves, ex-funcionária da nossa subsidiária que havia pedido demissão para se aposentar, ouvi pela primeira vez sobre Madeline Whitmore. Donna a descreveu com aquele afeto genuíno de quem fala de alguém que realmente admira, não de forma profissional, mas humana.

- Ela perdeu o noivo um dia antes do casamento - Donna disse simplesmente. - E voltou a trabalhar seis semanas depois porque precisava segurar a própria vida com as próprias mãos. Nunca vi ninguém com tanta força quanto essa menina.

Eu não sei explicar o que aconteceu naquele momento.

Não foi curiosidade comum. Foi algo mais incômodo do que isso. Uma atenção involuntária que se instalou na minha cabeça e não foi embora independente de quantas reuniões eu tivesse na sequência ou quantas decisões milionárias eu precisasse tomar antes do fim do dia.

Então quando o currículo dela chegou ao RH eu pedi para ver.

Li três vezes.

Aprovei a contratação pessoalmente sem que ninguém soubesse o motivo real.

E na manhã seguinte cheguei ao escritório mais cedo do que o habitual, sem motorista, sem paletó de três mil dólares, sem nenhum dos marcadores visuais que imediatamente sinalizavam para qualquer pessoa que eu era Dustyn Calloway e que aquilo significava algo que elas precisavam respeitar ou temer.

Eu queria ver quem ela era antes que ela soubesse quem eu era.

Isso era tudo que eu dizia a mim mesmo naquele momento. Apenas curiosidade. Apenas a vontade breve e inofensiva de observar antes de ser observado. Nada além disso.

Foi uma mentira conveniente que durou exatamente até o momento em que o copo de café dela atingiu meu terno no saguão do primeiro andar.

Ela olhou para cima esperando minha raiva.

Eu vi isso claramente. Vi o momento exato em que ela se preparou para o impacto de alguma grosseria, os ombros levemente contraídos, os olhos grandes fixos no meu rosto calculando a extensão do estrago que havia causado e quanto aquilo ia custar.

E algo dentro de mim recusou completamente a ideia de ser mais uma coisa difícil no dia dessa mulher.

Então sorri.

E o que aconteceu no rosto dela naquele segundo foi a coisa mais honesta que eu havia visto em anos dentro daquele edifício cheio de pessoas que sorriam estrategicamente e falavam o que era conveniente falar.

Ela ficou completamente surpresa.

Como se gentileza fosse algo inesperado demais para ser real.

Eu disse meu nome. Ouvi o dela. Ouvi o apelido logo em seguida, Mandy, dito com uma naturalidade desarmante, e senti algo que não soube nomear imediatamente, mas que reconheci como perigoso no mesmo instante.

Fui embora antes que ela percebesse que eu havia ficado um segundo a mais do que deveria.

Subi pelo elevador privativo até o décimo segundo andar, entrei na minha sala, fechei a porta de vidro e fiquei parado na frente da janela olhando para a cidade lá embaixo tentando ser racional sobre o que havia acabado de acontecer.

Não tinha acontecido nada.

Uma mulher derrubou café no meu terno. Eu fui gentil. Fim.

Mas às três da tarde eu me peguei verificando pelo sistema interno se ela havia sido aprovada na entrevista.

Havia.

Começaria na semana seguinte.

Passei os cinco dias seguintes me convencendo de que não faria nada com essa informação. Que observaria de longe com a distância profissional adequada. Que aquela atenção estranha e inconveniente desapareceria naturalmente quando eu a visse de perto e descobrisse que Donna havia exagerado na descrição.

No primeiro dia de trabalho dela eu estava no corredor do quarto andar verificando meu celular quando a vi entrar pela porta lateral com uma mochila no ombro e o mesmo blazer preto levemente apertado do dia da entrevista.

Ela não me viu.

Estava olhando para o papel na própria mão com uma concentração séria e levemente ansiosa que me fez lembrar involuntariamente da descrição de Donna. Força silenciosa. Foi exatamente isso que eu vi naquele momento sem que ela estivesse fazendo absolutamente nada extraordinário.

Apenas uma mulher tentando encontrar sua mesa nova num lugar desconhecido.

Mas havia algo na postura dela. Na forma como respirou fundo antes de empurrar a porta do setor. Na maneira como os ombros baixaram ligeiramente depois, como se ela estivesse dando a si mesma uma ordem silenciosa para continuar funcionando.

Eu me afastei do corredor antes que ela me visse.

E fui direto até o vestiário auxiliar do décimo segundo andar onde eu guardava roupas reservas para emergências corporativas, troquei o terno por uma calça simples e uma camisa sem gravata, peguei o carro comum que eu usava ocasionalmente para reuniões discretas e decidi uma coisa com a clareza fria e absoluta de quem está acostumado a tomar decisões irreversíveis.

Ela nunca poderia saber quem eu era.

Não ainda.

Não enquanto eu não entendesse o que era aquilo que ela havia acendido dentro de mim com um copo de café derrubado e um olhar surpreso diante de uma gentileza simples.

Porque se Madeline Whitmore descobrisse que eu era o Ceo da empresa antes que eu descobrisse quem ela realmente era, eu jamais saberia se o que viesse depois seria real.

E pela primeira vez em trinta e cinco anos, eu precisava que algo fosse completamente real.

Capítulo 3

Madeline

A Calloway Industries tinha uma energia que eu não esperava encontrar.

Não era o tipo de lugar que acolhia. Era o tipo de lugar que avaliava. As pessoas andavam pelos corredores com aquela pressa calculada de quem precisa parecer ocupado o tempo todo, os sorrisos eram rápidos e profissionais, as conversas no elevador duravam exatamente o tempo necessário para não criar intimidade desnecessária com alguém que poderia ser seu concorrente interno na próxima promoção.

Eu entendi o ambiente em aproximadamente quarenta minutos.

Então abaixei a cabeça, aprendi o sistema com a velocidade que a necessidade exige e fiz exatamente o que havia feito nos últimos dezoito meses em todos os outros lugares que precisei sobreviver.

Funcionei.

Minha mesa ficava no quarto andar, no setor de comunicação interna, entre uma mulher chamada Patricia que falava baixo e sorria pouco e um rapaz chamado Henrique que compensava o silêncio da colega falando por três pessoas ao mesmo tempo. Era um equilíbrio estranho que de alguma forma funcionava, e eu me encaixei naquele espaço sem fazer muito barulho, que era exatamente o que eu sabia fazer melhor.

Na primeira semana não pensei no homem do saguão nenhuma vez.

Isso é mentira.

Pensei nele pelo menos uma vez por dia, sempre de forma rápida e seguida imediatamente de uma repreensão interna por estar desperdiçando atenção mental em alguém cujo sobrenome eu nem sabia.

Era apenas um homem que havia sido gentil num momento em que eu esperava grosseria. Meu cérebro havia registrado aquilo como extraordinário simplesmente porque gentileza genuína era rara o suficiente para parecer notável.

Não havia nada além disso.

Foi o que continuei me dizendo até a quinta-feira da segunda semana, quando entrei na fila do café do segundo andar e ouvi uma voz familiar atrás de mim.

- Dessa vez eu fico longe do seu copo.

Eu me virei e ele estava lá.

Sem gravata. Camisa simples com as mangas levemente dobradas nos antebraços. Sorrindo com aquela calma característica que já havia me desarmado uma vez e aparentemente não havia perdido nenhuma eficiência desde então.

- Você trabalha aqui? - perguntei antes de pensar se era uma pergunta inteligente de se fazer.

- Terceiro andar - ele respondeu simplesmente, como se aquilo explicasse tudo e ao mesmo tempo não explicasse nada. - E você? Conseguiu a vaga?

- Quarto andar. Comunicação interna.

Ele acenou com a cabeça de um jeito que parecia genuinamente satisfeito com a informação, não de forma exagerada, apenas com aquela expressão tranquila de alguém que recebe uma boa notícia pequena e a recebe com proporção adequada.

Ficamos em silêncio por alguns segundos enquanto a fila avançava.

O silêncio com ele era diferente. Não era o tipo desconfortável que me fazia procurar algum assunto para preencher o espaço. Era apenas silêncio. Neutro. Respirável.

- Você parece mais relaxada do que no segundo dia - ele disse eventualmente.

Eu pisquei.

- Você me viu no segundo dia?

- De passagem - ele respondeu com uma leveza que não me deixou certeza de se era verdade ou uma forma educada de encerrar o assunto.

Peguei meu café. Ele pegou o dele. E nos sentamos na mesma mesa pequena perto da janela de uma forma que não foi combinada, apenas aconteceu, como se fosse a continuação natural de uma conversa que havia começado no saguão duas semanas antes e nunca realmente terminado.

Dustyn falava de uma forma que eu não estava acostumada a receber.

Ele perguntava coisas e depois esperava de verdade pela resposta, sem aquela pressa disfarçada de atenção que a maioria das pessoas demonstrava em conversas educadas. Quando eu respondia ele processava o que eu havia dito antes de responder de volta, como se as palavras tivessem peso real e merecessem ser tratadas como tal.

Era desconcertante de uma forma que eu não sabia bem como classificar.

Perguntei o que ele fazia no terceiro andar e ele respondeu de forma vaga que trabalhava com gestão e análise, algo administrativo, nada interessante, com um sorriso de canto que eu interpretei como modéstia genuína de alguém que simplesmente não achava o próprio trabalho um assunto empolgante de conversa.

Não desconfiei de nada.

Por que desconfiaria?

Ele usava camisa simples de algodão. Relógio discreto. Sapato decente, mas sem aquela ostentação sutil que os homens ricos usavam como código entre si. Não havia nada nele que sinalizasse qualquer coisa além do que ele apresentava, um funcionário comum num edifício cheio de funcionários comuns.

Quando nos levantamos para voltar aos respectivos andares ele perguntou meu número de ramal interno com uma casualidade tão natural que eu o dei antes de processar completamente que havia feito isso.

- Para o caso de precisar te avisar se estou na fila do café - ele justificou com seriedade falsa nos olhos.

Eu ri.

E o som da minha própria risada me surpreendeu.

Não porque fosse extraordinário. Mas porque foi involuntário. Genuíno. O tipo de riso que sai antes que você decida se quer rir, o tipo que não pede licença nem avisa que está chegando, e que eu não havia produzido dessa forma em dezoito meses de funcionamento cuidadosamente controlado.

Subi as escadas de volta para o quarto andar com o café na mão e aquele riso ainda ecoando levemente no peito de uma forma que era pequena demais para ser preocupante mas grande o suficiente para que eu percebesse.

Patricia olhou para mim quando me sentei.

- Você está diferente - ela disse com a economia de palavras que era sua característica principal.

- Tomei café - respondi.

Ela voltou para a tela dela sem comentar mais nada.

Mas eu fiquei olhando para o meu próprio monitor por alguns segundos antes de começar a trabalhar, pensando numa coisa pequena e aparentemente irrelevante que havia acontecido lá embaixo na mesa perto da janela.

Dustyn havia me perguntado qual era minha parte favorita do trabalho.

Não o que eu fazia. Não quanto eu ganhava. Não onde eu havia trabalhado antes.

Qual era minha parte favorita.

E eu havia respondido sem hesitar que era o momento em que um texto confuso se tornava claro, quando as palavras certas encontravam a ordem certa e de repente a comunicação acontecia de verdade entre duas pessoas.

Ele havia ficado quieto por um segundo inteiro olhando para mim.

Depois disse:

- Eu entendo exatamente isso.

Com uma convicção tão simples e tão direta que pareceu a coisa mais honesta que alguém havia me dito em muito tempo.

E eu não sabia ainda por que aquilo importava tanto.

Mas importava.

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