Ponto de Vista: Fernanda Moraes
A maioria das pessoas não sabia que Fernanda Moraes não era meu nome verdadeiro. Era o nome que eu havia adotado cinco anos atrás, um nome mais simples e comum para uma vida mais simples e comum com Bruno. Meu nome verdadeiro é Aurora Valois, a única herdeira do império imobiliário Valois, um nome que carregava o peso do dinheiro antigo e de um poder imenso. Eu havia escondido tudo por ele, acreditando que nosso amor era suficiente.
Naquela noite, algo dentro de mim se quebrou. A garota que acreditava em contos de fadas, a mulher que se mudaria por um homem, morreu naquele chão frio do corredor do hotel. Em seu lugar, uma nova mulher nasceu das cinzas da traição.
Respirei fundo, meus dedos voando pela tela enquanto eu respondia à mensagem anônima.
"Estou interessada."
A resposta foi instantânea. "Ótimo. Estou em outra cidade pelos próximos dois meses. Não podemos nos encontrar pessoalmente ainda. Mas podemos começar agora. Você está dentro?"
Era uma proposta estranha, construída sobre mistério e distância. Mas agora, o mistério parecia mais seguro do que as verdades brutais que eu acabara de descobrir. A distância parecia um escudo.
"Sim", digitei. "Mas com uma condição."
"Diga."
"A mulher com quem você está começando isso não é Fernanda Moraes. É Aurora Valois."
A pausa do outro lado foi breve, mas pude sentir a surpresa. "Como desejar, Aurora."
Naquela noite, não fui para casa. Fui a um bar, o tipo de lugar barulhento e lotado que Bruno sempre odiou. Bebi até as bordas da minha dor se desfocarem, e então tropecei de volta para o apartamento que eu dividia com um homem que não era meu noivo.
Daniel estava me esperando, seu rosto uma máscara de afeto preocupado que agora me dava arrepios. "Fernanda, onde você esteve? Está tão tarde. E você andou bebendo."
Ele estendeu a mão para mim, e eu recuei, meus olhos imediatamente caindo em seu pulso. Ele não estava usando o Rolex. Claro que não. Aquele estava com sua nova dona. O detalhe foi uma confirmação pequena e afiada de tudo que eu agora sabia.
"Não me toque", eu disse, minha voz mais fria do que eu pretendia.
Ele pareceu magoado, a imagem perfeita de um noivo preocupado. "Meu bem, o que há de errado?" Ele se aproximou, segurando meu rosto em suas mãos. "Você sabe que eu amo seus olhos mais quando eles estão brilhando. Não quando estão tristes assim."
Suas palavras foram como veneno, um eco direto do que eu ouvi Bruno dizer na villa. Meu estômago se revirou. Ele queria meus olhos. Ele estava elogiando a mesma coisa que planejava roubar.
Suportei seu toque, meu corpo rígido de repulsa. Ele se inclinou e me beijou. Foi um beijo suave e gentil, uma imitação perfeita do de Bruno. Parecia ser beijada por um fantasma, um espectro que usava o rosto do homem que eu amei um dia, mas carregava a alma de um estranho. Era total e profanamente errado.
No momento em que seus lábios deixaram os meus, eu me afastei. "Estou cansada. Vou para a cama."
Caminhei para o meu quarto sem olhar para trás, sentindo seu olhar confuso em mim. Fechei a porta e me encostei nela, meu corpo inteiro tremendo com uma mistura de fúria e nojo.
Do outro lado da porta, ouvi-o rir baixinho para si mesmo. Sua atuação caiu no segundo em que ele pensou que eu não podia ouvir. Não era o som de um amante preocupado. Era o murmúrio baixo e satisfeito de um predador aproveitando a caça.
"Isso é mais divertido do que eu pensava", ouvi-o resmungar.
Na manhã seguinte, abri meu armário e passei pelas fileiras de roupas bege, cinza e azul-marinho — a paleta preferida de Bruno. Bem no fundo, encontrei o que procurava. Um vestido vermelho-sangue vibrante que eu não usava há anos. Eu o vesti, apliquei o batom vermelho escuro que ele odiava e saí do meu quarto.
Daniel estava na sala de estar, vestido com um dos ternos sob medida de Bruno. Ele ergueu os olhos do jornal e seus olhos se arregalaram.
"O que você está vestindo?", ele perguntou, a testa franzida em desaprovação.
"Um vestido", respondi secamente.
Ele se levantou e veio até mim, sua mão estendendo-se para tocar o tecido de seda. "É... muito chamativo. Vá trocar por aquele branco que eu escolhi para você. Vamos visitar o vovô hoje."
Ele tentou me guiar em direção ao quarto, seu toque um comando gentil, mas firme. A antiga Fernanda teria obedecido sem uma palavra.
Dei um tapa na mão dele.
"Não", eu disse, minha voz clara e firme. "Eu gosto deste."
Sua máscara de paciência escorregou por uma fração de segundo. Um lampejo de irritação cruzou seu rosto antes que ele o suavizasse de volta a um sorriso plácido. "Fernanda, não seja difícil."
"Eu disse não."
Dirigimos para a mansão da família Medeiros em um silêncio tenso. A mansão era tão grandiosa e imponente quanto eu me lembrava, um lugar onde eu sempre me senti como uma estranha, uma convidada com um prazo de validade.
Tínhamos acabado de entrar no grande hall quando Carla apareceu no topo da escada, guiada por uma empregada. Ela estava vestida com um vestido branco imaculado, seu rosto pálido e inocente, a bandagem ainda em volta de seus olhos.
No momento em que ela "ouviu" minha voz cumprimentando o mordomo, seu rosto se contorceu em uma máscara de fúria.
"Sua vadia!", ela gritou, sua voz de repente forte e afiada. "O que você está fazendo aqui?"
Antes que eu pudesse reagir, ela se lançou. Ela se moveu com uma velocidade e certeza que uma pessoa cega não deveria possuir, suas mãos encontrando o pesado vaso de cristal em uma mesa próxima. Ela o ergueu bem alto e o trouxe com força contra a minha cabeça.
A dor explodiu atrás dos meus olhos. O mundo girou em uma névoa estonteante. Cambaleei para trás, minha mão voando para a minha cabeça. Quando a afastei, meus dedos estavam pegajosos com sangue quente e escuro.
"Que porra há de errado com você?", gritei, minha voz tremendo de choque e fúria.
Comecei a me mover em direção a ela, para me defender, mas Bruno — o verdadeiro Bruno — apareceu de repente. Ele se moveu como um raio, colocando-se entre mim e Carla, seu braço bloqueando meu caminho.
"Fernanda, pare!", ele ordenou, sua voz uma lâmina de gelo.
Ponto de Vista: Fernanda Moraes
"Bruno?", Daniel gaguejou, seu rosto empalidecendo ao olhar para seu irmão idêntico. "O que você está fazendo aqui? Eu pensei que..."
"Eu moro aqui", Bruno o interrompeu, seus olhos frios fixos apenas em mim. Ele não deu uma olhada sequer em seu gêmeo. Era como se Daniel não fosse nada mais do que um móvel.
"Ela tentou atacar a Carla", afirmou Bruno, sua voz desprovida de qualquer emoção.
"Ela me atacou!", retruquei, apontando para o sangue escorrendo pela minha têmpora. "Ela é louca! Ela precisa se desculpar."
O corte na minha cabeça latejava, uma dor profunda e ardente. Mas a humilhação doía mais. Eu era a que estava sangrando, a que tinha sido agredida, e ainda assim ele olhava para mim como se eu fosse a vilã.
Seu olhar era impassível, indiferente à visão do meu ferimento.
Carla, enquanto isso, havia desabado no chão, seu corpo tremendo com soluços. "Irmão, estou com tanto medo", ela choramingou, estendendo a mão cegamente. "Eu ouvi a voz dela, e eu só... pensei que ela ia te machucar. Me desculpe, eu só estava tentando te proteger."
A expressão gélida de Bruno derreteu imediatamente. Ele se ajoelhou ao lado dela, envolvendo-a em seus braços com uma ternura que fez meu estômago se contrair. Ele a embalou gentilmente, murmurando palavras suaves de consolo.
"Está tudo bem, Carla. Eu estou aqui. Ninguém vai te machucar."
Eu os observei, uma risada amarga subindo em minha garganta. Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando escorreguei e caí da escada em nossa casa. Eu havia torcido o tornozelo feio, e a dor era excruciante. Bruno simplesmente ficou no topo da escada, seu rosto impassível, e me disse para ser mais cuidadosa antes de chamar o mordomo para me ajudar.
Sua gentileza, sua preocupação, seu calor... nunca foram para mim. Eram reservados para ela e somente para ela.
Eu não aguentava mais assistir aquilo. "Estou indo embora", eu disse, minha voz embargada de nojo.
Virei-me para sair, mas a voz de Bruno me parou. "Você não vai a lugar nenhum."
Ele estava de pé novamente, seu corpo alto bloqueando a saída. Carla ainda se agarrava a ele, o rosto enterrado em seu peito.
"Você empurrou a Carla", ele disse, sua voz um rosnado baixo. "Você será punida de acordo com as regras da família Medeiros."
"Punida?", eu o encarei, incrédula. "Eu sou a que está machucada! Ela é quem deveria ser punida!"
Carla espiou por trás do braço dele. "Irmão, faça-a se ajoelhar no salão dos ancestrais. Dê-lhe vinte chibatadas. Ela precisa aprender o seu lugar."
Meu sangue gelou. "Você não tem o direito", cuspi. "Eu não sou um membro da sua família."
"Você será no próximo mês", disse Bruno friamente. "Isso é perto o suficiente."
Daniel, sempre o ator, deu um passo à frente com um olhar de falsa preocupação. Ele ergueu o pequeno e surrado caderno de esboços de couro que eu sempre carregava comigo. Estava cheio de meus desenhos particulares, a última peça remanescente da artista que eu costumava ser.
"Fernanda, apenas peça desculpas", ele insistiu, sua voz suave. "Você sabe o quanto ama seu caderno de esboços. O vovô Medeiros te deu este chicote como presente de casamento, um símbolo de autoridade na família. Se você não aceitar a punição, ele pode... destruir isso."
A ameaça pairava no ar, pesada e sufocante. Aquele chicote não era um presente; era uma ferramenta de controle. E o caderno de esboços... continha meu último resquício de identidade. Bruno sabia disso. Ele sabia que era a única coisa que eu tinha deixado que era verdadeiramente minha. Ele me deu uma escolha: minha dignidade ou minha alma.
Meus ombros caíram em derrota.
Eles me arrastaram para o salão dos ancestrais, uma sala fria e escura cheia de retratos dos Medeiros mortos, seus olhos pintados me observando com julgamento silencioso. Eles me forçaram a ajoelhar no chão de pedra dura.
A primeira chibatada cortou o ar com um assobio vicioso antes de pousar em minhas costas. A dor, aguda e elétrica, percorreu todo o meu corpo. Parecia que minha pele estava sendo rasgada. Mordi o lábio com força, recusando-me a gritar, sentindo o gosto do meu próprio sangue.
Outra chibatada. E outra. A dor era imensa, um fogo ardente que me consumia. Meu vestido fino não oferecia proteção. Cada golpe aterrissava com força brutal, rasgando tecido e carne.
Após dez chibatadas, o homem parou. Bruno deu um passo à frente, seu rosto uma máscara indecifrável.
"Você admite seu erro agora?", ele perguntou, sua voz tão fria quanto a pedra sob meus joelhos.
Levantei a cabeça, meu corpo tremendo, minhas costas uma tela de agonia. Encarei seu olhar, meus próprios olhos queimando com desafio.
"Eu não fiz nada de errado", murmurei.
Seu maxilar se contraiu. "Continue", ele ordenou ao homem com o chicote.
As chibatadas recomeçaram, mais ferozes do que antes. A dor era insuportável. Uma antiga lesão nas costas da minha queda da escada se inflamou, uma dor profunda e agonizante que se juntou ao tormento fresco do chicote. Eu não aguentava mais.
"Por favor", implorei, a palavra arrancada da minha garganta. "Pare... por favor, pare."
Mas Bruno nem olhou para mim. Ele já estava se virando, guiando gentilmente Carla, que ainda soluçava artisticamente, para fora do salão.
"Vamos, Carla", ele disse suavemente, sua voz um contraste gritante com a violência que ele acabara de comandar. "Vou te levar de volta para o seu quarto."
Ele havia me pedido em casamento nesta mesma mansão. Ele se ajoelhou e prometeu me proteger, me valorizar, ser meu escudo contra o mundo. Ele me prometeu uma vida inteira de amor.
Enquanto ele se afastava, deixando-me sangrando no chão, suas promessas ecoavam em minha mente, um coro cruel e zombeteiro.
O mundo se dissolveu em um vórtice de dor. A última coisa que vi antes de perder a consciência foi suas costas se afastando, uma silhueta de traição suprema.