Capítulo 2

A estradinha de barro que guiava do portal até a casa era repleta de buracos e os pneus respingavam lama por todo lado a cada uma das poças pela qual passavam. Dois vira-latas chapinharam pela estrada, correndo ao lado do carro enquanto este avançava. Os rabinhos balançavam, alegres e eles rodeavam o veículo, curiosos sobre quem seriam os visitantes. O dia cinzento e úmido tornava o local um tanto tristonho, mas ainda assim, podia-se considerá-lo um belo cenário.

Victoria ria, divertida, acenando para os cachorros, que, ignorando o frio, pulavam e giravam através da estradinha, distraindo-se de quando em quando um com o outro ao iniciar uma simulação de peleja que sempre acabava tão repentinamente quanto havia começado.

Bruno manobrou para estacionar ao lado da casa. Um telhado, apoiado sobre vários pilares de tronco de eucalipto, delineava uma charmosa varanda aonde havia uma mesa rústica com dois bancos, também rústicos, um a cada lado. Uma rede balançava preguiçosa entre dois dos pilares e um banquinho, construído sobre rodas de carroça, servia como acento para quem quer que sentisse desejo de observar o dia em seu decorrer.

Sentado a uma cadeira de balanço, um velho senhor enrolava um cigarro de palha entre os dedos. Ele levantou a mão em um cumprimento casual, mas, fora isso, não fez menção alguma de recepcioná-los.

— Tem certeza de que estamos no lugar certo? – Victoria perguntou.

Bruno desafivelou o cinto de segurança e saiu do veículo, correndo em direção ao idoso, que lhe estendeu a mão sem se levantar, em seguida, acendendo o palheiro com um isqueiro.

Os dois conversaram por algum tempo e, depois disso, ele fez sinal para que as duas saíssem do carro.

Victoria pôs o pé para fora, sentindo todo o corpo se arrepiar por conta de um frio com o qual não estava acostumada. A garoa que tornava o clima ainda mais cinzento cobria seus cabelos encaracolados de gotículas brancas e, ao correr para se esconder da sensação gelada, foi interpelada por um dos vira-latas que, aparentemente, achou que ela estava disposta a brincar e saltou, apoiando as patas enlameadas sobre sua barriga.

— Não! – Ela gritou, lamentando as marcas de barro em seu moletom. – Para.

O senhor, que até então não havia feito menção de se levantar, se ergueu da cadeira, praguejando contra o cachorro.

— Sai daí! Seu jaguara. – A voz soou arranhada e feroz. Tanto o cachorro quanto Victoria se encolheram por conta do susto.

O velho levou a mão até o chão, catando de lá uma pedra imaginária e lançando-a em direção ao vira-latas, que ganiu e correu, ressentido.

O velho riu uma risada medonha, pigarreou com um gorgolejo molhado e então, estendeu a mão ossuda para o pai de Victoria.

— Eu sou o Aderbal. – Ele parecia ter um aperto firme por conta da idade. – Mas pode me chamar de Quila.

— Bruno. Sou irmão do Antônio.

O velho estendeu a mão para Victoria, pitando o cigarro de palha e lançando uma fumaça branca e fedorenta no ar.

— Ele me avisou que viriam. Ele deve voltar logo. – Victória pôde sentir os calos na palma da mão enrugada. – Enquanto isso, podem entrar. Tem um cafezinho passado na garrafa. Podem se servir.

Uma velha senhora gorducha apareceu sobre o umbral da porta. Ela secava as mãos com um pano de louça.

— Boa tarde. Achei que chegariam mais cedo. Eu sou a dona Rute. – Ela sorria. – Tem um pão fresquinho que saiu do forno agora há pouco. Por que não entram? Descansem um pouco. Logo os meninos devem chegar para ajudarem a descarregar as malas.

Bruno avançou em direção à senhora, que o cumprimentou.

— Você deve ser o Bruno, certo? – Ela olhou de Bruno para Victoria. – Então você é a Victoria. Achei seu nome tão lindo quando seu tio me contou.

Ela beijou o rosto de Victoria de uma maneira quase maternal.

Sara saiu do carro e veio de maneira um tanto barulhenta, produzindo um vídeo de si mesma enquanto caminhava até a varanda sem cumprimentar as pessoas.

— Esta é minha namorada, Sara. – Bruno tampou o canto da boca. – Ela adora postar essas coisas na internet.

A madrasta erguia o indicador e o dedo médio, em um sinal de "paz e amor" e sorria para a câmera do celular, falando qualquer coisa em uma vozinha estridente e infantil, fazendo com que, tanto Victoria quanto Bruno, ficassem obviamente envergonhados diante do velho casal.

Movida por uma enorme quantidade de vergonha alheia, Victoria se dirigiu para dentro da casa, sendo guiada pela Dona Rute e acompanhada pelo pai e por Seu Aderbal.

A casa era modesta. A mesa estava repleta de preparos que eram, obviamente, realizados artesanalmente. Linguiça, queijo e geleias de vários tipos, além de pães, rosca de polvilho e biscoitinhos de vários tipos povoavam a mesa retangular, coberta por uma toalha quadriculada em verde e branco.

Todos os sabores exageradamente caseiros eram uma novidade no paladar da garota, que ainda decidia do que gostava e do que precisaria provar mais vezes para fazer uma avaliação precisa.

— Uma pena estar chovendo. Matheus estava doido para te mostrar o lugar. – Rute despejava um pouco de leite em uma xícara, segurando a nata que se havia se formado na superfície com uma colher.

A mesa ficava de frente para uma grande janela para a qual Victoria havia sentado de costas. Ela sentiu o estômago se embrulhar, ansioso. "Pelo menos ele não me esqueceu" pensou, escondendo o sorriso enquanto sorvia um gole de café com leite.

— Eu ouvi o meu nome? – A voz havia vindo da porta, aonde um rapaz alto descalçava um par de galochas enlameadas.

Victoria sentiu seu rosto se aquecer. Seu primo havia crescido muito.

Capítulo 3

Um olhar trocado e um breve sorriso sem mostrar os dentes.

Se o humor de Victoria já não vinha sendo dos melhores, o reencontro entre ela e o primo o havia deixado ainda pior. Certamente, de todas as possíveis reações durante o seu tão esperado reencontro, aquela estava realmente aquém, mesmo da pior hipótese dentre elas.

Ele a havia cumprimentado como se ela fosse uma completa estranha. Nem mesmo se havia dignado a mostrar os dentes enquanto sorria.

— O que foi, princesa? – Perguntou Bruno, enquanto tomava, da mão de Victoria, a mala pesada. Quando se tratava de consolá-la, sua voz se tornava inexplicavelmente terna e suave para uma voz, normalmente, tão grave e imponente.

Victoria suspirou, levando nos braços a bolsa na qual havia guardado a pelúcia que pretendia devolver para Matheus.

— Não é nada, pai. – Ela sabia que não acabaria com aquele diálogo antes de esclarecer o que a havia entristecido, mas explicar o que estava sentindo era quase impossível, uma vez que, nem mesmo ela, era capaz de entender. – Acho que só estou cansada da viagem.

Ele permaneceu em silêncio enquanto os dois atravessavam a casa em direção ao quartinho que ficava nos fundos, mas, quando ambos haviam entrado no quarto e estavam a sós, se aproximou, de frente para ela, segurando em seu queixo e a fazendo encará-lo. Ele a fitou como se explorasse calmamente os recônditos de seu jovem coração.

Se comparada à escura cor de ébano de seu pai, Victoria podia ser considerada um tanto mais clara, mas a semelhança entre os traços de ambos eram tantas que seria impossível dizer não se tratarem de pai e filha.

Resignada, ela suspirou mais uma vez.

— Ele nem me reconheceu. – Um beicinho ressentido surgiu na boca de Victoria.

Ela remoía o momento em que os olhares, dela e do primo, se haviam cruzado, por um brevíssimo momento enquanto ele passava direto para o interior da casa.

A boca do pai se torceu num sorriso de dentes muito brancos.

— Vem cá. – Ele a puxou em um abraço protetor. – Não ouviu a dona Rute dizendo que ele estava doido para te mostrar o lugar? É claro que ele te reconheceu.

— Mas então, por que ele nem me cumprimentou direito? – A voz de Victoria traía ressentimento.

A manzorra do pai se pousou sobre seus caracóis em um afago de acalento.

— Pelo mesmo motivo que você não o cumprimentou direito. – Ele explicou, paciente. – Deve ter ficado com vergonha. Ele acha que você não é mais a menininha que costumava brincar com ele.

— Mas eu sou. – A garota proferiu, como se precisasse se explicar. – Sou a mesma menininha.

Bruno se afastou de Victoria, voltando em direção à porta para continuar a descarga.

— Vocês vão ter tempo para perceber isso.

*

A tarde se havia passado com Victoria a remoer aquilo que lhe havia dito seu pai. Seu ânimo havia melhorado consideravelmente, mas, o cansaço da viagem parecia, então, ter começado a fazer efeito.

Quando ela e o pai terminaram de ajeitar todas as coisas em seus respectivos quartos, sem a ajuda de Sara, que se havia desembestado a andar pelas terras da fazenda tendo os cachorros a lhe fazerem companhia, duas batidas soaram à porta, que se encontrava aberta.

— Oi gatinha. – Victoria se virou para olhar. – Meu Deus, menina! Olha só como você cresceu.

Antônio era muito parecido com Bruno, tanto na fisionomia, quanto nos trejeitos. O tio, no entanto, talvez por conta do trabalho pesado na fazenda, havia envelhecido de maneira muito mais aparente. O homem que a observava sobre o umbral da porta ostentava uma proeminência na barriga e, os cabelos já se acinzentavam nas têmporas e na barba hirsuta.

— Tio Toni! – Ela correu para abraçá-lo. – Aonde estava?

Ele a envolveu com os dois braços que mais se pareciam toras. Ele exalava um cheiro de suor que se misturava com vários outros aromas estranhos ao olfato da garota e ela percebeu, talvez tarde demais, que suas roupas estavam encardidas por conta do trabalho.

— Oh! Me desculpe. Estou fedendo. – Ele gargalhou enquanto a apertava mais contra si. – Uma vaca decidiu dar à luz no meio do pasto e estive até agora auxiliando o veterinário.

Aquilo tudo soava tão surreal aos ouvidos de Victoria que, por um momento, ela cogitou a possibilidade de ele estar apenas tentando enganá-la, como fazia quando era uma criança.

— Aonde está o seu pai? – Perguntou.

Victoria deu de ombros.

— Deve ter ido atrás da namorada, que saiu por aí fazendo vídeos para postar naquela página idiota dela.

Ele levou a manzorra até o ombro miúdo de Victoria e ela pôde, mesmo por sob a blusa de lã que vestia, sentir os endurecidos calos que ele possuía na palma da mão.

— Dá um desconto para ela. – Ele sorriu, tentando ser conciliador, mas percebendo a própria falha quando os olhos negros de Victoria rolaram nas órbitas. – Bom, eu vou tomar um banho para poder comer alguma coisa. Fique à vontade, pequena.

Quando ele se virou e caminhou pelo corredor, Victoria cheirou sua própria blusa, constatando que o cheiro que o tio carregava, havia-se impregnado ali.

Ela voltou até o guarda-roupas, que ficava na parede oposta à porta e pegou um moletom. Atirou-o sobre a cama e se despiu da blusa de lã. O frio do inverno úmido fez com que sua pele se arrepiasse da barriga até os pequenos seios, contidos pelo sutiã de bojo e ela admirou o próprio corpo em um velho espelho. Seus olhos se arregalaram em um susto quando percebeu através do reflexo que Matheus a observava, boquiaberto estacado à porta.

Ato reflexo, Victoria deixou um gritinho escapar de sua garganta, levando a mão até o moletom e puxando-o contra si, à tento de esconder sua nudez parcial.

— Me desculpa. – O primo conseguiu articular, mas, sem fazer menção de sair de onde estava. – Eu não vi nada.

—Sai daqui! – Gritou.

Victoria correu em direção à porta e a esbarrou com força, fazendo com que as tábuas da casa reverberassem.

Ela sentiu as maçãs do seu rosto se aquecerem violentamente enquanto ouvia os passos do primo soarem sobre o assoalho.

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