Capítulo 2

O médico entregou-me o relatório do teste de paternidade.

"Senhora, o resultado saiu, o feto não tem qualquer relação de sangue com o seu marido, o Senhor Miguel."

As palavras dele foram como um trovão num dia de sol, deixando-me completamente atordoada.

Eu segurava o relatório com as mãos a tremer, cada palavra a desfocar-se à minha frente.

Impossível, como é que isto é possível?

Eu só estive com o Miguel.

Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Era uma chamada de vídeo da minha sogra, a Clara.

Atendi, ainda em estado de choque.

No ecrã, o rosto zangado da Clara apareceu.

"Eva, onde estás? Não te disse para ires buscar a Sofia ao aeroporto? Ela acabou de me ligar a dizer que está à tua espera há meia hora!"

A voz dela era aguda e cheia de acusação.

A Sofia, a sua sobrinha, tinha acabado de regressar do estrangeiro e ia ficar em nossa casa.

Eu respondi com a voz trémula: "Clara, eu estou no hospital, o bebé..."

Antes que eu pudesse terminar, a Clara interrompeu-me bruscamente.

"Hospital? Que hospital? Estás a fingir que estás doente para não ires buscar a Sofia? Deixa-me dizer-te, a Sofia não é uma estranha, ela é a minha sobrinha! E mais, o Miguel está numa viagem de negócios importante, não o podes incomodar com estas ninharias!"

A sua voz era fria, sem um pingo de preocupação.

"Eu não estou a fingir, o bebé..."

"Chega!"

Ela gritou.

"Se não fores buscar a Sofia agora, nem penses em voltar a esta casa!"

A chamada terminou abruptamente.

Olhei para o ecrã escuro, o meu coração a afundar-se.

Olhei novamente para o relatório na minha mão, e depois para a minha barriga de sete meses.

Uma sensação de absurdo tomou conta de mim.

Este bebé, que eu carregava com tanto amor e expectativa, não era do meu marido.

E a minha sogra, em vez de se preocupar com o seu neto, só se importava com a sua sobrinha.

Senti um arrepio.

Esta família, esta casa, pareciam uma piada de mau gosto.

Decidi.

Este casamento tinha de acabar.

Este bebé, eu não o podia ter.

Tomei a decisão mais difícil da minha vida.

Fiz uma cirurgia de interrupção da gravidez.

Quando acordei, a anestesia ainda me deixava grogue. O meu corpo estava vazio e o meu coração também.

O Miguel regressou da sua "viagem de negócios" três dias depois.

Assim que entrou em casa, viu-me sentada no sofá com o acordo de divórcio na mesa.

"Eva, que raio estás a fazer? Onde está o bebé?"

O seu tom era de impaciência, como se eu o estivesse a incomodar.

Eu olhei para ele, o homem com quem estive casada durante dois anos, e senti-me uma estranha.

"Miguel, vamos divorciar-nos."

A minha voz era calma, surpreendentemente calma.

"O bebé... já não existe."

Capítulo 3

O rosto do Miguel mudou instantaneamente.

A sua fúria explodiu como um vulcão.

"O quê? Tu abortaste o meu filho? Eva, enlouqueceste?"

Ele agarrou-me pelos ombros, a sua força era brutal.

"Quem te deu o direito? Aquele era o meu filho!"

Eu olhei para ele, sentindo a dor nos meus ombros, mas a dor no meu coração era muito maior.

"Teu filho?"

Eu ri, um riso amargo e desolado.

"Miguel, tens a certeza que era teu filho?"

Joguei o relatório do teste de paternidade na cara dele.

"Abre os olhos e vê bem. Este bebé não tinha nada a ver contigo."

O Miguel ficou paralisado, a sua expressão congelou.

Ele pegou no relatório, os seus olhos percorreram as palavras, e o seu rosto ficou pálido.

"Isto... isto é impossível! É falso! Tu falsificaste isto para te divorciares de mim!"

Ele rasgou o relatório em pedaços, atirando-os ao ar como confetes numa celebração macabra.

"Eva, tu tiveste um caso! Tu traíste-me!"

A sua acusação era a coisa mais ridícula que eu já tinha ouvido.

Nesse momento, a porta abriu-se e a Clara entrou com a Sofia.

A Sofia, com a sua aparência delicada e inocente, olhou para a cena com os olhos arregalados.

"Tia, Miguel, o que se passa?"

A Clara viu os pedaços de papel no chão e a minha expressão fria.

Ela correu para o lado do Miguel, protegendo-o como se eu fosse uma ameaça.

"Eva, o que fizeste ao meu filho? Porque é que estás a gritar com ele?"

Eu olhei para ela, a raiva a borbulhar dentro de mim.

"Pergunta ao teu filho precioso o que ele fez. Pergunta-lhe porque é que o bebé que eu carregava não era dele."

A Clara ficou chocada.

"Do que estás a falar? Estás a insinuar que o meu filho não é capaz?"

O Miguel, recuperando do choque, apontou para mim e gritou: "Mãe, ela traiu-me! Ela engravidou de outro homem e agora quer culpar-me!"

A Sofia aproximou-se, pegando no braço do Miguel com uma expressão de preocupação.

"Miguel, não fiques assim. A Eva não deve ter feito de propósito. Talvez tenha sido um erro."

A sua voz era suave e reconfortante, mas as suas palavras eram venenosas.

Eu olhei para ela, para a sua falsa inocência.

"Um erro? Engravidar de outro homem é um erro?"

Eu ri-me.

"Sofia, és muito generosa."

A Clara, ouvindo as palavras do Miguel, explodiu.

"Sua desavergonhada! Como te atreves a fazer uma coisa destas à nossa família? Queres o divórcio? Ótimo! Sai da minha casa agora mesmo! Não leves nada contigo, nem um cêntimo!"

Ela apontou para a porta, o seu rosto distorcido pela raiva.

Eu olhei para eles os três.

O marido que me acusava, a sogra que me insultava, e a sobrinha que fingia ser boazinha.

Senti-me como se estivesse a ver uma peça de teatro absurda.

"Não te preocupes," eu disse, a minha voz fria como gelo.

"Eu não quero nada desta casa. Só quero o divórcio."

Virei-me e saí, sem olhar para trás.

Não havia mais nada para mim ali.

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