Capítulo 2

A fumaça preta encheu os meus pulmões.

Tossi violentamente, o meu corpo a tremer no chão frio do quarto. O alarme de incêndio soava sem parar, um barulho agudo que perfurava a minha cabeça.

Agarrei no meu telemóvel com as mãos a tremer. O ecrã iluminou o meu rosto coberto de fuligem.

Liguei ao meu marido, Miguel.

O nosso apartamento estava em chamas. Eu estava grávida de oito meses e presa.

Ele atendeu ao terceiro toque. A sua voz estava ofegante, cheia de pânico.

"Sofia? O que se passa?"

"Miguel, fogo! O apartamento está a arder! Não consigo sair do quarto, a porta está bloqueada!"

Houve um silêncio do outro lado, apenas o som de gritos distantes e do alarme do prédio.

"Miguel, onde estás?"

"Estou no andar de cima," disse ele rapidamente. "Estou no apartamento da Clara. A fumaça aqui também é densa."

Clara. A sua amiga de infância. A mulher que a minha sogra desejava que ele tivesse casado.

"Vem ajudar-me, por favor! Estou com medo!" A minha voz quebrou.

"Calma, Sofia, eu vou," prometeu ele. "A Clara está a ter um ataque de asma, preciso de a tirar daqui primeiro. Ela não consegue respirar. Fica onde estás, perto da janela. Eu já vou."

Ele desligou.

Não me pediu para esperar. Ele ordenou.

Olhei para a porta. As chamas já lambiam a parte de baixo. O calor era insuportável.

O tempo passou. Cada segundo era uma eternidade.

Liguei-lhe outra vez. E outra. E mais outra.

Caixa de correio de voz.

O fumo tornou-se tão espesso que eu já não conseguia ver a outra ponta do quarto. A minha respiração era curta e dolorosa. A minha mão pousou instintivamente na minha barriga.

O meu bebé. O nosso filho.

A última coisa que me lembro é do som de um machado a partir a porta do quarto e da cara de um bombeiro a olhar para mim.

Depois, tudo ficou escuro.

Acordei num quarto de hospital branco e estéril. O cheiro a antissético invadiu as minhas narinas.

Uma enfermeira estava a ajustar o meu soro.

"O meu bebé..." sussurrei, a minha garganta seca e a doer. "O meu bebé está bem?"

A enfermeira olhou para mim com pena. O seu silêncio foi a resposta mais alta que alguma vez ouvi.

Senti um vazio profundo e oco dentro de mim. Olhei para a minha barriga. Estava coberta por um lençol, mas eu sabia. Estava mais pequena. Vazia.

O meu filho tinha-se ido.

As lágrimas começaram a cair, silenciosas e quentes, no travesseiro do hospital.

Eu tinha perdido o meu bebé porque o meu marido escolheu salvar outra mulher primeiro.

Capítulo 3

A porta do quarto abriu-se.

Miguel entrou, seguido de perto pela sua mãe, Helena.

Ele tinha a cara suja e a roupa chamuscada. Parecia exausto. Helena, como sempre, estava impecável, o seu rosto uma máscara de desaprovação fria.

"Sofia, estás bem?" perguntou Miguel, aproximando-se da cama.

Não lhe respondi. Apenas o encarei, o meu olhar vazio.

"O médico disse que inalaste muita fumaça, mas que vais ficar bem," continuou ele, evitando os meus olhos.

"O bebé," disse eu, a minha voz sem emoção.

Miguel hesitou. Foi Helena quem falou.

"Foi uma tragédia," disse ela, com um tom que não tinha nada de trágico. "Mas estas coisas acontecem. Agora tens de ser forte."

Ser forte.

"Onde estavas, Miguel?" perguntei, a minha voz baixa mas firme.

"Eu disse-te. Estava a ajudar a Clara. O apartamento dela encheu-se de fumaça muito depressa. Ela tem asma, Sofia. Ela podia ter morrido."

"E eu?" perguntei. "E o teu filho? Nós não podíamos morrer?"

"Claro que não! Eu ia voltar para te buscar!" ele disse, levantando a voz. "Os bombeiros chegaram primeiro! O que é que eu podia fazer?"

"Podias ter vindo a mim primeiro. Eu era a tua mulher. Eu estava a carregar o teu filho."

Helena deu um passo em frente, o seu perfume caro a encher o ar estéril.

"Não sejas dramática, Sofia. O Miguel fez o que qualquer pessoa decente faria. A Clara estava em perigo imediato. Tu estavas num quarto com a porta fechada, mais protegida."

Protegida. Eu quase morri asfixiada. O meu filho morreu.

"O apartamento dela fica no andar de cima. O nosso fica no oitavo. Tiveram de evacuar o prédio de baixo para cima. Como é que ela estava em perigo mais imediato do que eu?"

A lógica fria da minha pergunta pareceu apanhá-los de surpresa.

Miguel gaguejou. "A fumaça sobe, Sofia. É óbvio."

"Não me interessa," disse eu, cortando a sua desculpa esfarrapada. "Eu liguei-te a pedir ajuda. Tu escolheste. Escolheste-a a ela."

Virei a cabeça e olhei para a parede branca.

"Quero o divórcio."

O silêncio no quarto foi pesado.

Depois, a fúria de Miguel explodiu.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Depois de tudo o que aconteceu? Perdemos o nosso filho e a primeira coisa em que pensas é em divórcio? Que tipo de pessoa és tu?"

"Sou o tipo de pessoa que não quer estar casada com um homem que me deixou para morrer," respondi, sem olhar para ele.

"Isso é mentira!" gritou ele.

"Saiam," disse eu, a minha voz a ganhar força. "Ambos. Saiam do meu quarto. Agora."

Helena olhou para mim com puro desprezo.

"Sempre soube que não eras boa o suficiente para o meu filho. Ingrata. Ele salva uma vida e é assim que lhe agradeces."

Ela agarrou no braço de Miguel e puxou-o para a porta.

"Vamos, filho. Deixa-a ter o seu ataque de histeria. Ela vai mudar de ideias quando perceber o que está a perder."

Eles saíram, batendo a porta atrás de si.

Fiquei sozinha com o som do monitor cardíaco. Um som rítmico e constante.

A prova de que o meu coração ainda batia, mesmo que parecesse ter parado.

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