ELARA POV:
Naquela noite, a mansão do Alfa parecia menos um lar e mais uma prisão lindamente decorada. O ar estava denso de mentiras.
Quando Heitor entrou pela porta, o cheiro de Seraphina estava por todo ele. Não o perfume dela, mas o cheiro único de sua loba — uma mistura enjoativa de mel e beladona que revirava meu estômago. Era um cheiro íntimo, que só vinha de um contato próximo e prolongado. A marca de outra fêmea no meu companheiro.
Minha loba interior, uma parte de mim que eu mal conhecia, recuou com um rosnado.
"Aí está você", disse ele, sua voz suave como pedra polida. Ele se moveu para me abraçar.
Eu dei um passo para trás. Não foi uma escolha; foi um reflexo. Meu corpo, minha própria alma, recusou seu toque. O laço de companheirismo, que antes ansiava por sua presença, agora o via como uma fonte de veneno.
O sorriso de Heitor vacilou. Ele viu a rejeição em meus olhos. "Ainda chateada com o parque de diversões? Não seja infantil, Elara. Vou te comprar aquele colar de diamantes que você estava olhando. O mais caro da cidade."
Ele achava que podia comprar meu perdão. Ele achava que eu era tão superficial. Tão simples.
Forcei um sorriso pequeno e frágil. "Estou apenas cansada. O dia foi longo." Eu interpretei o papel que ele esperava que eu interpretasse: a companheira obediente e um pouco emburrada.
Ele engoliu. Ele sempre engolia.
Mais tarde, enquanto ele dormia profundamente ao meu lado, sua respiração profunda e regular, eu deslizei para fora da nossa cama. A luz da lua entrava pela janela, iluminando o caminho para seu escritório particular. A única porta em toda a mansão que estava sempre trancada. Não com uma chave, mas com uma fechadura pesada e ornamentada de prata pura.
Prata. A única substância que podia queimar nossa espécie, bloqueando nossa força e cura. O que quer que estivesse por trás daquela porta, ele estava escondendo de outros lobisomens.
Parei diante do teclado numérico ao lado da fechadura, meu coração martelando contra minhas costelas. Respirei fundo e digitei os números. Meu aniversário. O dia em que eu deveria ter minha primeira Transformação. O mesmo dia do aniversário do filho dele.
2-1-0-8.
Um clique suave ecoou no corredor silencioso. A fechadura de prata se retraiu.
A porta se abriu.
O escritório estava escuro e cheirava a livros velhos e ao cheiro dele — cedro e geada de inverno. Eu não acendi a luz. Não precisei. Minha visão de lobisomem cortava a escuridão.
Fui direto para a mesa dele. Na gaveta de baixo, escondido sob uma pilha de relatórios financeiros, havia um álbum de fotos com capa de couro. Minhas mãos tremiam enquanto eu o abria.
A primeira foto era de Heitor e uma Seraphina grávida, ambos radiantes de felicidade. A seguinte era Heitor segurando um bebê recém-nascido. Página após página documentava uma vida que eu nunca soube que existia. Festas de aniversário, férias em família, manhãs de Natal.
E então eu vi. Uma foto que fez o ar sumir dos meus pulmões. Era um retrato de família. Heitor, Seraphina e o pequeno Léo. Ao lado deles, sorrindo, estavam meus pais. O antigo Alfa Ricardo e a antiga Luna Eleonora. Minha mãe tinha o braço em volta dos ombros de Seraphina.
Eles sabiam. Todos eles sabiam. Eles fizeram parte dessa mentira desde o início.
Minha dor se transformou em fúria gelada. Fui para o laptop dele. Estava protegido por senha, é claro. Em um palpite desesperado, digitei os mesmos números. Meu aniversário.
Acesso concedido.
Eu encontrei tudo. Uma pasta chamada 'Léo' continha sua certidão de nascimento, vídeos caseiros de seus primeiros passos, suas primeiras palavras. Outra pasta, chamada 'Finanças', expunha toda a conspiração.
Nos últimos cinco anos, meus pais vinham desviando milhões de reais das contas públicas da alcateia. O dinheiro estava sendo transferido para uma empresa de fachada. O nome da empresa era Galeria Rhes.
Eles estavam usando os fundos da alcateia para financiar uma vida secreta para meu companheiro e sua outra família. Para minha substituta.
Minhas mãos se moveram com vida própria. Encontrei um pen drive na gaveta de sua mesa e comecei a copiar tudo. Cada arquivo, cada foto, cada registro de transação. Criptografei o pen drive com uma série complexa de runas antigas de lobisomem, uma língua da qual meu pai se orgulhava, mas que nunca se preocupou em ensinar à sua filha de verdade. Eu havia aprendido sozinha.
Quando o último arquivo terminou de copiar, um pensamento agudo e malicioso perfurou minha mente. Não era meu. Era uma projeção, uma violação. Seraphina estava usando a conexão de Heitor comigo, forçando uma imagem em minha cabeça.
Era o retrato de família com meus pais.
Então veio a voz de Seraphina, escorrendo veneno e triunfo.
*Ouvi dizer que você estava se sentindo excluída. Só um lembrete do seu lugar, ômega inútil. Você é apenas uma substituta conveniente. Um estepe com o sangue certo.*
Ômega. O posto mais baixo. Um termo usado para os fracos, os submissos, os inúteis.
Foi isso. Foi o empurrão final. A dor se foi. O sofrimento se foi. Tudo o que restou foi um fogo ardente e consumidor.
Eles queriam que eu fosse um estepe? Tudo bem. Eu lhes mostraria o que acontece quando se tenta enjaular um Lobo Branco.
ELARA POV:
Na manhã seguinte, eu sabia o que tinha que fazer. Eu precisava de mais. Mais provas. Mais informações. Eu precisava ver a jaula que eles construíram para mim com meus próprios olhos.
Eu precisava entrar na Galeria Rhes.
Ir como eu mesma era impossível. Então me tornei outra pessoa. Usei um celular pré-pago para ligar para a agência de empregos da galeria, criando uma identidade falsa — Esperança, uma humana desesperada por trabalho. Um pequeno suborno em dinheiro, transferido de uma conta não rastreável que Bruna me ajudou a criar, garantiu que eu fosse contratada como faxineira temporária para o dia.
Antes de sair, esmaguei um punhado de hortelã e alecrim do jardim, esfregando os óleos perfumados na minha pele e roupas. O forte cheiro de ervas mascararia minha própria essência de loba, o sinal revelador de um Lobo Branco que qualquer lobisomem poderia identificar. Eu cheiraria como uma humana.
Puxei um gorro sobre o cabelo e coloquei uma máscara facial descartável. Olhando no espelho, vi uma estranha. Não Elara, a herdeira perdida. Não a futura Luna. Apenas Esperança, uma garota com olhos assombrados. O medo me transformou em um fantasma. A fúria estava me transformando em uma estrategista.
Entrar na galeria como faxineira foi uma experiência surreal. O lugar era um monumento à traição deles, financiado com o dinheiro da minha alcateia. Fui designada para limpar o segundo andar, que incluía os escritórios particulares. O escritório de Seraphina.
A porta dela estava destrancada. A sala era opulenta, decorada em tons de creme e dourado. E em sua mesa, em uma moldura de prata, havia uma foto dela e de Heitor. Eles estavam posando formalmente, como um verdadeiro Alfa e Luna. Uma 'foto de casal' destinada a declarar seu laço ao mundo. Isso não era apenas um caso. Era um governo paralelo, uma família secreta sancionada pelos anciãos da alcateia — meus próprios pais.
Trabalhei rapidamente, minhas mãos se movendo no piloto automático enquanto minha mente corria. Na sala de descanso dos funcionários, encontrei minha chance. Uma jovem loba, pouco mais velha que eu, estava limpando o balcão. Seu cheiro era fraco, sua postura submissa. Uma Ômega. Seu crachá dizia 'Ana'.
"Dia cheio", eu disse, minha voz cuidadosamente neutra, humana.
Ela deu um pulo, assustada. "Ah! Sim. Os anciãos têm vindo muito aqui ultimamente."
"Anciãos?" perguntei, fingindo ignorância enquanto esvaziava uma lixeira.
"Sim, o antigo Alfa Ricardo está aqui quase todos os dias", ela sussurrou, inclinando-se conspiratoriamente. "Ele supervisiona os negócios da galeria pessoalmente. Passa mais tempo aqui do que no conselho da alcateia, eu juro."
Meu sangue gelou. Meu pai.
"E a antiga Luna Eleonora", continuou Ana, com os olhos arregalados, "ela traz convidados de outras alcateias aqui o tempo todo. Alfas e Lunas importantes. Ela sempre apresenta a Sra. Seraphina como 'a filha que ela sempre quis'."
Cada palavra era um golpe físico. A filha que ela sempre quis. O que isso fazia de mim? A filha com quem ela foi obrigada a ficar?
Naquele momento, o sino da porta da frente tocou. Minha cabeça se ergueu. Heitor entrou, segurando a mão de Léo. Seraphina estava do outro lado, radiante.
Virei-me rapidamente, pegando um borrifador e um pano, fingindo estar absorta na limpeza de uma vitrine. Meu coração era um tambor frenético contra minhas costelas.
"—quando finalmente vamos nos livrar dela?" A voz de Seraphina era um lamento agudo. "Estou cansada de te dividir, Heitor. Estou cansada de viver nas sombras."
A resposta de Heitor foi impaciente, dura. "Você sabe por quê, Seraphina. Tudo o que temos, esta galeria, o futuro de Léo, tudo depende dela. Do status dela como herdeira do Lobo Branco. Assim que ela estiver totalmente ligada a mim, assim que ela tiver produzido um herdeiro, então poderemos lidar com ela. Até lá, você será paciente."
Ele estava me usando. Pela minha linhagem. Por um herdeiro. A percepção foi sufocante.
Eu tinha que sair. Comecei a me mover em direção à saída, mantendo a cabeça baixa. Eu estava quase na porta.
"Você."
A voz era baixa, carregada de poder. A voz de um Alfa. A voz de Heitor.
Eu congelei, ainda de costas para ele.
"Não reconheço seu cheiro", ele rosnou. "Você é nova."
Meu corpo inteiro ficou tenso. Ele era um Alfa. Seus sentidos eram mil vezes mais aguçados que os de um lobo normal. As ervas... seriam suficientes?
Mantive meu rosto escondido, dando um pequeno aceno de cabeça.
"Vire-se", ele ordenou.
Fiquei parada, meus pés parecendo colados no chão.
Sua voz baixou, agora cheia da força inconfundível e irresistível do Comando do Alfa. Vibrou pelo ar, tomando controle dos meus músculos, dos meus nervos, da minha vontade.
"Eu disse, vire-se. E tire essa máscara. Agora!"