PONTO DE VISTA DE CATARINA:
Mais tarde naquela noite, Ricardo voltou. Ele entrou no meu quarto estéril e branco carregando uma tigela de caldo fumegante, o cheiro de ervas e carne assada enchendo o ar. Ele usava o mesmo olhar de preocupação gentil que havia aperfeiçoado nos últimos três anos.
"Eu trouxe um pouco de sopa para você," ele disse suavemente, sua voz um murmúrio baixo. "Está cheia de nutrientes. Vai te dar força."
O aroma rico deveria ter sido reconfortante, mas revirou meu estômago. Eu sabia exatamente de onde vinha aquela sopa. Na visão do casarão, eu tinha visto Isabela embalá-la. Eu a ouvi dizer a Ricardo: "Ele é um Alfa em crescimento, precisa comer. Não se preocupe, vou levar o resto para a loba doente. Ela não vai saber a diferença."
A loba doente.
Aos olhos dele, eu nem era mais sua Luna. Eu era menos que uma Ômega, digna apenas das sobras do filho bastardo dele.
A humilhação era uma coisa quente e afiada, e fez com que a Essência de Acônito em meu sangue surgisse com força. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta, violenta e incontrolável. Saí da cama às pressas, minhas pernas fracas tremendo, e tropecei no banheiro anexo, desabando na frente do vaso sanitário.
Eu vomitei, meu corpo convulsionando enquanto eu colocava para fora a pouca água que havia bebido naquele dia. Parecia que eu estava tossindo minha própria alma, cada ânsia mais dolorosa que a anterior, até que manchas de sangue pontilharam a porcelana da tigela.
"Catarina!" A voz de Ricardo estava cheia de alarme do outro lado da porta. Ele sacudiu a maçaneta. "Catarina, você está bem? Deixe-me entrar!"
Sua atuação era impecável. O Companheiro preocupado, desesperado para ajudar sua Luna doente. Eu queria gritar, dizer a ele que monstro ele era, mas eu só conseguia engasgar e cuspir, o veneno queimando meu esôfago.
Ele continuou a bater, seus chamados ficando mais frenéticos. Eu o ignorei, descansando minha testa contra o azulejo frio do chão, esperando a náusea passar.
Eventualmente, as convulsões diminuíram, deixando-me fraca e tremendo. Consegui me arrastar de volta para a cama, puxando o cobertor fino até o queixo. O acônito havia desencadeado uma febre violenta. Meu corpo estava em chamas, minha mente à deriva em uma névoa de dor. Fechei os olhos, deixando a escuridão me levar.
Algum tempo depois, voltei à consciência, mas mantive os olhos fechados e a respiração regular. Eu podia ouvir vozes no quarto. Eram Ricardo e o Dr. Breno.
"A condição dela está piorando, Alfa," disse Breno, seu tom sombrio. "Sua força vital está... se esvaindo. Não acho que ela chegue à próxima lua cheia."
Houve uma longa pausa. Esperei que Ricardo mostrasse algum sinal de dor, algum lampejo de sofrimento através do nosso Laço de Companheiros enfraquecido.
Não houve nada. Apenas um silêncio frio e calculista.
"E a Flor da Lua?" Ricardo finalmente perguntou.
"Como você ordenou, está sendo preparada para a mãe de Isabela," Breno respondeu, uma pitada de desaprovação em sua voz. "Mas Alfa, sem ela..."
"Vou dizer à alcateia que Renegados invadiram e a roubaram durante a noite," disse Ricardo, sua voz plana e desprovida de emoção. "É uma tragédia, mas essas coisas acontecem."
Meu sangue gelou. Ele tinha tudo planejado. Minha morte seria uma 'tragédia' que ele poderia usar para ganhar a simpatia da alcateia.
"Eu cuidei dela por três anos," Ricardo continuou, sua voz endurecendo. "Dormi em um catre ao lado de sua cama. Alimentei-a com minhas próprias mãos. Paguei minha dívida com os pais dela. Ninguém pode dizer que não fiz tudo o que podia pela minha Companheira de destino."
As palavras não eram para Breno. Eram para si mesmo. Uma justificativa para o assassinato.
Ele não era apenas um traidor. Ele era um monstro, esperando pacientemente que eu morresse para que ele pudesse ser livre. A febre ardia, mas por dentro, meu coração havia se transformado em gelo. Ele achava que eu era uma loba fraca e moribunda. Ele não fazia ideia da tempestade que tinha acabado de despertar.
PONTO DE VISTA DE CATARINA:
Quando acordei na manhã seguinte, a febre havia passado, deixando para trás uma clareza arrepiante. A primeira coisa que fiz foi usar a runa para contatar minha tia novamente.
"A Flor da Lua, tia Helena. Ele está dando para a mãe da Isabela. Você tem que interceptá-la."
Sua resposta foi rápida e feroz. "Já está feito, minha querida. Meus guerreiros a protegeram. Está segura comigo. Apenas se concentre em ficar forte o suficiente para viajar."
Um alívio me invadiu, tão potente que quase me deixou tonta. A única coisa que poderia me salvar estava segura.
Aquela tarde foi uma aula magistral de sua enganação. Ele caminhou ao lado da minha cadeira de rodas enquanto uma enfermeira me empurrava para a sala de sol da ala de cura, sua mão repousando possessivamente no meu ombro. Os membros da alcateia por quem passávamos baixavam a cabeça em respeito, seus olhos cheios de admiração por seu Alfa devotado.
"Ele é tão bom para a nossa Luna," ouvi uma Ômega sussurrar para outra. "A Deusa da Lua nos abençoou com um líder tão atencioso."
A ironia era tão espessa que eu poderia ter engasgado com ela.
Para testá-lo, olhei para cima e falei, minha voz deliberadamente fraca. "Ricardo, eu gostaria de ir para casa. Para o casarão dos meus pais."
Seu sorriso se contraiu instantaneamente. O pânico brilhou em seus olhos antes que ele pudesse esconder. "Meu amor, não acho que seja uma boa ideia. Aquele lugar... guarda tantas memórias tristes. Não seria bom para sua recuperação."
Ele precisava de tempo para tirar Isabela e o filho deles de lá. Ele precisava esfregar o cheiro de sua traição da casa dos meus pais. Eu não o confrontei pela mentira. Apenas assenti docilmente, deixando-o pensar que eu ainda era a boneca frágil e complacente que ele podia manipular facilmente.
Então veio o evento principal. A mãe de Isabela foi transferida para a ala de cura, apenas duas portas abaixo da minha. E com ela, veio Isabela.
Ela apareceu na minha porta, os braços cruzados sobre o peito, um sorriso presunçoso no rosto. Ela era bonita, de uma forma afiada e predatória, com olhos que não continham calor.
"Você não parece nada bem, Catarina," ela disse, sua voz pingando falsa simpatia. "Ouvi dizer que os curandeiros estão preparando um remédio especial para você. Seria uma pena terrível se algo acontecesse com ele. Acidentes acontecem, sabe."
Antes que eu pudesse responder, Ricardo apareceu atrás dela. Seu rosto era uma nuvem de tempestade. Ele estava furioso, não porque ela estava me ameaçando, mas porque estava fazendo isso em público, onde sua imagem perfeita poderia ser manchada.
"Isabela!" ele rosnou.
Ele não falou. Ele usou seu Comando de Alfa.
A voz vibrou pelo ar, uma força física que fez todos os lobos de ranking inferior no corredor se encolherem e desviarem o olhar. A própria Isabela tropeçou para trás como se tivesse sido atingida, sua cabeça curvada em submissão.
"Você não vai falar com sua Luna dessa maneira," Ricardo comandou, sua voz ressoando com poder. "Mostre seu respeito. Agora saia."
Ela fugiu sem outra palavra. Ricardo se virou para mim, sua expressão suavizando para uma de fúria protetora. "Eu sinto muito, meu amor. Eu vou lidar com ela."
Ele parecia o herói, o Alfa poderoso defendendo sua Companheira querida. Eu queria rir. Em vez disso, apenas fechei os olhos, fingindo exaustão. Eu o deixaria jogar seus jogos. Eu juntaria minhas forças e esperaria o momento perfeito para fazer seu mundo inteiro desabar.
Esse momento chegou mais cedo do que eu esperava.
Por volta da meia-noite, acordei com a garganta seca. Fui silenciosamente pelo corredor silencioso até a estação de água. Ao me aproximar do final do corredor, ouvi vozes baixas e urgentes vindo de um armário de suprimentos vazio.
Eram Ricardo e Isabela.
"Você foi uma tola em confrontá-la!" Ricardo sibilou. "Você tem alguma ideia de como isso pareceu?"
"Eu não me importo como pareceu!" ela retrucou. "Minha mãe está morrendo, e aquela vadia tem a única cura! Você me prometeu, Ricardo. Você prometeu que a salvaria."
"E eu vou," ele disse, sua voz suavizando. "Eu dei a última sala de alinhamento lunar para sua mãe, não dei? Não para a Catarina. Isso não é suficiente por enquanto?"
Suas palavras foram outro choque, outra camada de sua enganação. Ele não apenas deu meu remédio; ele deu a própria sala projetada para amplificar suas propriedades curativas.
Ouvi um gemido suave, o farfalhar de roupas. Eles estavam se beijando. No corredor, a poucos metros do meu quarto, enquanto ele deveria estar cuidando de sua companheira "moribunda".
A última centelha de esperança dentro de mim, a parte minúscula e tola que pensava que talvez ele estivesse apenas confuso, finalmente se extinguiu, não deixando nada além de cinzas frias e duras.