Capítulo 2

CAPÍTULO 2

Eduardo Cooper

— Confesso que fiquei ansioso para saber do que se trata esse

almoço. — Ele diz.

Encaro rapidamente o homem em minha frente se empanturrar com

um pedaço de gordura da carne mal passada que ocupava todo seu prato.

— Só preciso de informações sobre uma ex-funcionária. — Digo

sem rodeios e impaciente.

— Ah, certo! De quem quer saber? — Me olha curioso.

— Natasha Damasceno. — Meu estômago vibra quando digo o

nome da minha, possível, nova funcionária.

— Ah! Como sinto falta dela. — Suspira pesadamente enquanto

limpa o canto da boca com um guardanapo.

— Por que a demitiu?

Aquilo era suspeito, não?

— A garota é um espetáculo no que faz. Sempre foi muito

empenhada e nunca precisei chamar sua atenção ou fazer qualquer

reclamação. O problema era que eu tinha alguns clientes com situações

complicadas com o Conselho Federal de Contabilidade, então eu precisava

achar uma forma de ajuda-los. Tínhamos duas opções: a dela e a minha. Eu

segui a minha. — Penso que nunca escutei ninguém descrever tão

animadamente sobre uma funcionária.

— E o que aconteceu? — Vejo o medo tomar forma em seu rosto,

havia algo bem errado.

— Segui o caminho mais rápido, de certa forma, por de baixo dos

panos, mas no fim não adiantou nada e tive que pagar uma multa absurda

para o Conselho Federal. Só para não prejudicar meus clientes. — Mesmo

ele se empanturrando e falando de boca cheia, consigo entender tudo o que

diz.

— E quanto a opção que ela deu?

— Era o certo a se fazer, mas demoraria muito. Para ser sincero,

alguns clientes não gostaram que uma simples funcionária desse tanto

palpite. Bem, – Fez uma pausa para limpar novamente a boca e dar um gole

em sua taça com água. — Ela percebeu o que estava acontecendo, me

deixei ser influenciado por eles a demiti. No fim das contas tive que fazer

da forma que ela havia proposto, era o caminho mais correto.

Clientes podem agir erroneamente.

— E por que não a chamou de volta?

Isso deveria ser bem óbvio, se sente falta da ótima funcionária era

simples. Chama de volta.

— Tentei, mas ela recusou. — Ele revira os olhos e corta outro

pedaço de gordura.

Meu estômago embrulha só de observar isso.

— Ofereceu aumento?

— Um belo aumento, mas recusou.

— Algum problema familiar?

Já bastavam os meus.

— Nunca deixou assuntos pessoais atrapalharem seu trabalho.

Alguns colegas deram em cima, as coisinhas de sempre, ela é muito bela,

mas nunca deu moral. Havia um homem, acredito que seja namorado dela,

que quase todos os dias a buscava.

— Era o que precisava saber, obrigado pelas informações Sr. Jonas.

Deixo dinheiro suficiente para a conta e me despeço. Saí o mais

rápido possível dali, mais um minuto e eu vomitaria em cima da mesa. Nem

quero pensar na situação da saúde dele.

Que homem sem decência! Aceita e concorda em fazer coisas

ilegalmente. Farei uma denúncia anônima ao Conselho Federal, eles

costumam investigar empresas que tem erros exorbitantes de contabilidade,

com certeza vão adorar minha ligação. E claro, vou pedir mais um prazo

para a minha, não que eu seja corrupto, ou roube minha própria empresa, é

que eu não sou o melhor administrador do mundo.

Sei que algo de errado está acontecendo e não sei em quem confiar.

Mesmo minha empresa tendo quase quatro anos de atuação, ainda sou

aprendiz no ramo. Não trabalho ativamente em cada detalhe, dedico boa

parte do meu dia para Zoe, sou muito presente para que ela não se sinta

menosprezada por mim, claro que nunca será.

Mesmo assim, sei os lucros que minha empresa deveria ter, mesmo

investindo em áreas diversificadas. Comecei minha empresa com Gael,

Sarah e Dorothy, cada um formado em um ramo diferente. Aos poucos,

fomos crescendo.

E Caramba! Hoje somos uma associação.

Associação Cooper.

Encho meus pulmões de ar com satisfação, pois finalmente meu

império está construído e está deslanchando. Já deveria estar entre as

nuvens, se não fosse por um detalhe.

Mas agora, depois desse breve momento com Sr. Jones, já tenho a

escolhida para saber que merda está acontecendo na minha empresa e

espero seriamente que a Srta. Damasceno faça jus a sua fama de boa moça.

As outras duas selecionadas me decepcionaram logo de cara, quer

dizer, no currículo. Natasha já fez alguns cursinhos extras relacionadas ao

ramo da economia e administração, juntando isso com seu bom senso,

certamente deve ser uma máquina de trabalho. Perfeição e ética.

Preciso correr! Sarah precisa entrar em contato com ela o mais

rápido possível. Já eu, preciso buscar Zoe na escola antes do horário, pois

houve mais uma ligação da diretora, de novo. Foi outra briga com uma

coleguinha.

Não sei mais o que fazer, já conversei, deixei de castigo, tirei alguns

brinquedos e a pestinha ainda bate nas coleguinhas. Até contrataram uma

professora só para ficar com ela. Melhorou um pouco, mas quando chega o

momento de brincar, sai de perto.

A saúde está ótima, nenhum diagnóstico de bipolaridade ou

transtorno de qualquer coisa. Já sabemos o problema, todos sabem. Faz dois

anos que todos sabem.

A falta da mãe. Ela quer uma mãe.

E isso é algo que não posso dar.

CAPÍTULO 3

Natasha Damasceno

Respiro fundo após a série de abdominais, meu corpo todo dói por

causa dos exercícios pesados de hoje. Pego minha garrafinha de água e dou

um gole grande, no fone de ouvido está tocando Alok, mas logo para com a

vibração de uma ligação. Resmungo atendendo, espero que não sejam

problemas, hoje gostaria de um dia livre para cuidar de mim.

— Alô? — Respiro fundo.

— Natasha? — Reconheço a voz e sorrio.

— Sim, eu mesma. — Banco a desentendida.

— Bom dia, aqui é Sarah do RH da Associação Cooper. Foi eu

quem fez sua entrevista.

Eu sei amorzinho.

— Ah! Olá, Sarah. Me desculpa, não reconheci sua voz.

Mentir é feio, Natasha.

— Você está bem? Está ofegante!

— Estou sim, estou na academia.

— Ah! Certo. Bem, estou entrando em contato para lhe informar

que o Sr. Cooper a escolheu para ser nossa nova parceira. — Disse

animada.

— Uau! Isso é demais!

— Podemos contar com você? — Indaga sugestiva.

— Claro, quando começo?

— Lhe encaminharei no e-mail os documentos que preciso que

traga. Assim que estiver com todos, estamos no seu aguardo.

— Estou feliz pela notícia, providenciarei tudo.

— Aguardamos, até mais. — E desliga.

Solto um gritinho de felicidade, mas logo disfarço quando algumas

pessoas me olham curiosas.

Santa Pipoca! Já posso jogar nas casas de jogos?! Com certeza

ganharia todos.

Menos Natasha, menos. A que se dane! Eu estava com uma

convicção muito forte que eu conseguiria esse trabalho.

Saio saltitante da academia, atraindo muitos olhares.

Associação Cooper se preparem, aqui vou eu!

Entro no elevador depois de falar com as recepcionistas. Meu

coração parece querer sair do peito, respiro fundo tentando manter a

respiração normalizada. Essa empresa é um sonho!

Alguém grita para que eu segure a porta e assim faço. Dou espaço

para o rapaz que entra afobado, ele sorri largo agradecendo e terminando de

arrumar a gravata.

— Eu sou desastre para chegar no horário, obrigado. — Ele

agradece.

— Não foi nada.

— Nunca te vi aqui, como se chama? — Ergue a sobrancelha direita

me olhando curioso.

— Sou Natasha Damasceno.

— Uou! Minha nova colega de trabalho. Prazer, sou Gael Baker. —

Diz todo animado me estendendo a mão. A pego sorrindo de volta.

Sinto um frio na espinha. Opa! Terreno perigoso.

— Então, quando vai começar? Preciso mesmo da sua ajuda, as

coisas aqui são uma correria.

—Talvez na quinta, só vim assinar alguns papéis.

O elevador para e ele faz sinal para que eu saia na frente.

— Então, seja muito bem-vinda.

Ele me dá uma piscadinha enquanto as portas se fecham.

Me viro na ponta dos saltos admirando o espaço enorme ao meu

redor. Magnífico! Um balcão alto de mármore preto, as enormes janelas de

vidro rodeando todo o espaço, poltronas brancas ao lado contrário do

balcão, uma pequena mesinha com algumas revistas expostas, um aroma

agradável no ambiente. Respiro fundo e sorrio. Ando até o balcão e sou

recebida com um sorriso pela moça ruiva.

— Boa tarde, posso te ajudar? — Sorri gentilmente.

Estou adorando o atendimento daqui.

— Oi, Sarah me chamou.

— Natasha?

Parece que estão à minha espera.

— Isso! — Dou um enorme sorriso.

— Siga o corredor, na última porta a esquerda. — Indicou.

— Obrigada!

Sigo até a porta mencionada e bato. Ignoro o nervosismo presente

no meu estômago enquanto espero.

A garota ruiva, que não consegui pronunciar o nome do pequeno

crachá, está me encarando, o que só me faz ficar mais afobada. Logo escuto

a voz de Sarah pedindo para que eu entre. Sarah sorri ao me ver, observo

sua sala rapidamente: espaçosa, sem muitos armários, a roupa social um

pouco frouxa em seu corpo, o coque quase se desfazendo. Percebo o

cansaço em seu rosto pela falta de maquiagem.

Fecho a porta e me sento à sua frente na cadeira almofadada.

Confortável até demais, quase sumo nela quando meu corpo se afunda. Essa

não era a sala em que fui entrevistada, a outra ficava no primeiro andar,

olhando ao redor, aqui é bem mais aconchegante.

— Animada? — Pergunta piscando repetidas vezes.

— Muito. — Suspiro aliviada por ela estar tão receptiva.

— Sr. Cooper espera que dê certo com você aqui. — Disse tão

animadamente enquanto pegava uma pasta, então ela para do nada e seus

olhos se arregalaram. — Falei demais.

— Tudo bem, não escutei nada.

Sarah entrega os papéis e repete algumas informações que deu na

entrevista. Assino todas as páginas e consigo ver que a assinatura do meu

novo chefe já está aqui também.

Credo, que rabisco. Nem o melhor falsificador conseguiria copiar

esse rabisco.

— Me acompanhe, vou mostrar sua sala.

A sigo até o elevador e quando as portas se fecham quase morro do

coração

— Mulher, você tem muita sorte! Vai trabalhar ao lado do Gael,

aquele homem é lindo de morrer.

— É mesmo. — Tento não parecer muito eufórica com a ideia

enquanto ela só faltou pular no meu pescoço de tão animada.

— Sabe quem é?

— Estava no elevador comigo.

As portas se abrem e saímos. Novamente o lugar é enorme,

desconfio que todas as saídas do elevador para as salas devem ter um

grande espaço vago até a mesa da atendente. A mesa muito bem desenhada

em forma de "L" está cheia de papéis espalhados com uma garota

concentrada mexendo no computador, mais ao fundo, duas portas, o espaço

é branco e tem apenas um sofá com um vaso decorativo, nada mais.

— Candice, essa é Natasha Damasceno. Candice é secretaria de

Gael e agora, é sua também.

Logo a mulher se vira para nós, se levanta vindo até mim. Ela é alta,

loira, os olhos castanhos claros, pouca maquiagem, um gloss rosado e seus

olhos descem e sobem por meu corpo reparando em minha roupa.

Eu também faço isso. Sei lá, não curti essa calça social com essa

jaqueta jeans que ela está usando.

— Seja bem-vinda. — Diz ela.

Trocamos rápidos beijos nas bochechas e sorrio de leve.

— Ela te deixará a par de tudo e qualquer dúvida, recorra a ela. —

Completa Sarah.

Sarah se despede e quando as portas do elevador se fecham a

secretária dá dois pulinhos animada. Estou começando a pensar que todos

aqui tem esse problema.

Santa Pipoca, espero que não seja contagioso.

— Vem! — Me chamou completamente animada.

Me puxou pelo braço, apresso meus passos para acompanha-la.

Ela foi abrindo a sala do lado esquerdo e já entrando, entro logo em

seguida. A sala é linda, uma mesa enorme, mais ao fundo com as bases de

madeira rústica e o plano de vidro e a cadeira de couro preta. Me aproximo

e encaro a enorme janela que me dá uma vista encantadora da cidade.

Olho ao redor: dois enormes armários de arquivos, um frigobar, ar-

condicionado e um aquecedor. As paredes todas brancas, o teto é de gesso

desenhado com luminárias incríveis de cristal.

— Linda, não é?

— É sim! — Digo ainda admirada.

— Como Gael ficou muito tempo sem uma parceira, eu acabei

pegando um pouco do trabalho. Só que eu faço apenas o que realmente sei e

ele revisa, mas assim que você começar a sua mesa estará cheia de papéis.

Pela pilha que está na mesa dela, com certeza deve estar animada

para se livrar da papelada.

— Tudo bem.

— Se quiser, pode fazer uma decoraçãozinha aqui para se sentir

mais à vontade. O Sr. Cooper não liga muito, desde que não suje as paredes.

— Bom saber... Candice, tem uniformes da empresa?

— Até tem, mas muitos reclamam que não fica bom e quase não

usam. Então a única exigência é estar sempre vestida formalmente.

— Eu adorei. — Não contenho minha curiosidade e pergunto. —

Por que Gael ficou tanto tempo sem uma ajudante?

— Sr. Cooper é muito meticuloso em relação aos cargos mais

complexos. O que vou te falar morre aqui, mas... Depois que o RH faz a

entrevista e seleciona as mais aptas, ele mesmo vai atrás do último emprego

da pessoa para saber mais.

— Como é?!

Calma aí sociedade! Que cara ousado.

— Isso quer dizer que ele teve um almoço de negócios com seu

último chefe e, dependendo do que eles conversaram, ele achou que você

merecia.

Por que ela está me olhando como se eu fosse um prêmio?

— Tá legal... Isso é estranho.

— Concordo. — Ela sorri sapeca e se aproxima.

— Todo mundo aqui se ajuda, somos bem próximos. Sr. Cooper não

tolera briguinhas e concorrências, então você se dará bem.

— Isso é ótimo, mas meu foco é meu serviço, Candice. Pode parecer

que eu seja antipática, mas... Só gosto das coisas corretas e isso acaba me

isolando um pouco.

— Entendo. — Percebo um pouco a decepção em sua voz.

— Mas realmente essa vista é incrível!

— Que bom que gostou! Ajuda a relaxar e preciso dos meus

funcionários relaxados. — Uma voz masculina surge.

Candice dá um pulinho de susto e logo assume uma pose mais séria.

Me viro e na porta está um homem muito elegante.

Capítulo 3

Eduardo Cooper.

Usando um terno azul marinho sob medida, o cabelo castanho

perfeitamente arrumado, a barba rala. Ele é alto, musculoso e assim como

eu o avalio, ele faz o mesmo comigo. Nessas horas que super agradeço a

amizade com Chris, ele me ensinou a me vestir muito bem.

Meu vestido no modelo tubinho preto marca muito bem minhas

curvas, mesmo ele sendo mais formal.

— É um prazer conhece-la, senhorita Damasceno. — Sua é voz

grave e sai de uma forma animada.

— Igualmente Sr. Cooper. — Deixo minha voz sair no mesmo tom.

— Candice, nos de um minuto por favor. — Pede olhando

rapidamente para ela que se retira da sala.

Dando alguns passos para frente ele me olha atentamente. Percebo a

dureza em seu olhar castanho, com certeza é do tipo que não se relaciona

com as funcionárias, mas não me deixo intimidar, mantenho meu olhar

firme.

— Espero que dê certo seu trabalho aqui, preciso de alguém de

confiança.

Acho que ganhei um ponto.

— Não terá motivos nenhum para duvidar de minhas ações. —

Respondo confiante e ele sorri.

Dois pontos para mim!

— Assim espero. Espero que a sala esteja de seu agrado e se quiser,

pode dar um... Toque feminino.

Sorrio rapidamente enquanto ele continua me olhando de cima

a baixo com as mãos nos bolsos da frente da calça. Meu lado emocional já

quer se mostrar e jogar com ele o jogo da sedução.

Santa Pipoca! Me apresso em pegar minha bolsa na mesa.

— Quinta estarei aqui, se me der licença, tenho outras coisas a fazer.

Ele assente e se afasta. Quando me aproximo da porta consigo sentir

seu perfume forte ao passar por ele. Candice me olha curiosa assim que

saio.

Não estou fugindo dele... Tá, talvez um pouco.

— Onde vejo sobre os uniformes?

Só eu que acho atraente usar uniformes?

— Terceiro andar, fale com a Janaina.

— Obrigada!

— Ah! Você pode usar o elevador privado.

Aponta para uma porta que eu não tinha visto, escondida. Percebo

que o Sr. Cooper está na porta de minha futura sala. Com a mesma pose,

atento a cada ação minha.

— Nos vemos na quinta. — Digo.

Ele abre um grande sorriso amistoso e faço o mesmo. Ando para o

elevador comum, acho que ainda não tenho necessidade de usar o privativo.

Respiro fundo movimentando meus ombros quando as portas se

fecham.

Ele é intimidador! Deve ter o que? Uns trinta e cinco anos, talvez?

Não havia procurado por essa informação. E aqueles os olhos castanhos?

São bem calculistas. Pela sua forma de andar de ser super nariz em pé.

Logo acho a Janaina e ela me leva a sala de uniformes.

Primeiro: a cor não é muito linda. Um verde musgo. Gostaria de

apresentar a pessoa que escolheu essa cor para Chris, com certeza ele teria

ótimas ideias.

Retiro minha opinião sobre achar uniformes atraentes. Experimento

outras peças e só consigo imaginar que apenas Chris saberia o que fazer

com aquilo.

— Ficou bom em você.

Não sei de onde ela tirou essa ideia, tive que colocar por cima do

vestido.

— Ainda bem. — Murmuro ainda em dúvida.

Nada que um toque de Natasha não resolva.

— Quantas camisetas?

— Só duas. Qual o custo?

— Nenhum, a empresa fornece.

Quem pagaria por isso?!

Ela empacota duas peças e as pego agradecendo enquanto volto para

o elevador.

Essa tarde está sendo inovadora, porém bem também cansativa. Esse

sobe e desce de elevador, sorrisos e apertos de mãos. Claro que estou muito

empolgada, mega ansiosa para começar logo.

Me despeço das meninas da recepção e ando até o meu carro.

Na segurança do meu carro solto um gritinho quando fecho a porta.

Preciso contar tudo para as meninas! Chris com certeza vai querer me fazer

visitinhas aqui. Esse lugar é incrível!

Hoje é dia de comemoração!

CAPÍTULO 4

Natasha Damasceno

Me olho no espelho e sorrio.

Apenas uma calça jeans com alguns centímetros acima do tornozelo

e um pouco de rasgos nos joelhos, para deixar meu look mais despojado,

uma sandália de salto fino com tiras entrelaçadas, uma mini blusinha

rendada por de baixo do uniforme com os dois primeiro botões abertos e as

mangas com duas dobras, um coque frouxo, uma leve maquiagem

destacando meus olhos castanho, meus acessórios e uma bolsa de tira fina

preta.

Nunca, nem mesmo nos meus melhores sonhos, imaginei que teria

tanta roupa como tenho hoje. Claro que devo isso ao Chris. Se dona Esther

visse meu closet agora com certeza eu levaria um puxão de orelha.

Dou um sorriso por pensar em mamãe. Sinto saudade dela e de

papai, aposto que ele deve estar aproveitando o tempo de pesca. Sr. Raul

tem os melhores salmões da região e as mais lindas árvores de maçãs, desde

pequena sempre gostei de subir nelas e comer o máximo que eu conseguia e

depois ficava de castigo.

— Caralho, você é uma gata! — Digo a mim mesma.

Falo isso todos os dias de manhã, nada melhor que sua autoestima

nas nuvens, nada melhor do que você se amar.

Pego minha bolsa com o que preciso e vou para a sala de estar. Lá

encontro minha caixa com alguns pertences para colocar na minha sala.

Quando voltei para casa depois de ter conhecido a empresa, não tive

sossego de Chris. Ele queria saber cada detalhe da empresa e do meu chefe,

na verdade nem tive muito o que falar dele, ele só foi me dar as boas-vindas

e deixar sua presença muito bem marcada na minha mente. Depois,

chamamos as garotas e fomos para nosso cantinho de sempre. Costumamos

nos reunir na Vinícola San Jhosua, aprendi a gostar de vinho com a garotas

e quando queremos descontrair e colocar os assuntos em dia, lá é o primeiro

lugar que vamos.

Chego ao trabalho e estaciono meu Toyota Camry preto em uma das

vagas na garagem do prédio.

Ainda tenho muito o que aprender sobre a empresa, a história, as

filiais, os objetivos. Com certeza somos mais do que simples contadores de

outras empresas, se não esse escritório não seria tudo isso.

— Oi Candice! — Cumprimento animada.

— Oi! E então, pronta para começar? — Diz ela sorrindo.

Vejo que a mesa dela sem nenhum papel.

— Com certeza.

Ai, que friozinho na barriga.

Com um sorriso no rosto eu entro em minha sala, agora é hora de

deixar o meu gosto aflorar. No frigobar deixo uma xícara, uma taça, um

copo simples e alguns lanchinhos. Em cima do frigobar, dois copos de

whisky, apenas para enfeite, bem óbvio que não posso beber álcool em

serviço. Na minha mesa meu troféu da faculdade que gosto de exibir com

orgulho, algumas canetas diferentes, marcadores de texto, papéis de

lembrete que me ajudam muito e um aromatizante. Vamos combinar que

toda mulher, gosta de algumas coisinhas só para enfeite. Lembro que na

escola eu comprava várias canetas diferentes só para deixar meu caderno

todo colorido.

Sorrio dando uma espiada na janela atrás de mim, o sol está longe e

os tons de laranja e vermelho vão sumindo aos poucos. Aproveito para tirar

uma foto dessa paisagem.

Ligo o computador. Uau! Que tela gigante!

Coloco uma foto minha de fundo e senha. Segurança é muito

importante e percebo que uma das gavetas tem fechadura, isso é ótimo.

Providencio minha playlist, deixo tocando baixinho e começo a olhar os

papéis a minha frente.

Coitado do Gael. Uma empresa desse porte e só ele para cuidar de

algo importante, Cooper obviamente teve motivos importantes para ele ficar

tanto tempo sem outra pessoa no cargo.

Para minha felicidade e das borboletas do meu estômago, amo o

que faço.

Resolvi fazer contabilidade porque sempre tive facilidade em

matemática. Meus colegas do ensino fundamental me achavam uma

alienígena porque conseguia fazer tudo certo, na verdade o que facilitava

tudo era meu pai.

Desde pequena eu sempre o acompanhava nas entregas de suas

mercadorias, nas vendas de peixes, de maçãs, verduras. Papai sempre foi

muito cuidadoso e carinhoso com a plantação dele e isso resultou em bons

clientes, eu ficava escutando atenta a cada coisa que ele dizia, cada

negociação, sonhava em ser como ele quando adulta.

No ensino médio ele me ensinava por conta própria as matérias mais

complexas e eu, com minha curiosidade, pegava os livros da biblioteca

municipal e ia estudar. Passava um bom tempo nas estufas escondidas

estudando.

Até quando entrei na faculdade isso nunca mudou, tínhamos nossa

dinâmica para estudarmos juntos. Mesmo com Bruno em minha vida, nunca

deixei minha relação com meu pai de lado, sempre fomos unidos.

Eu também tinha uma ligação com mamãe, mas ela preferia mais

cuidar da casa e de nós. Ela sempre me ensinou a ter as melhores

qualidades, me ensinou a ser uma pessoa carinhosa, gentil com o próximo.

Eu roubava os bolinhos de limão que ela fazia e deixava na janela para

esfriar.

Por Deus! Eu sofria tanto com dores de barriga.

Com Chris morando lá por um tempo, induzi ele a fazer o mesmo,

coisa que Bruno nunca teve o prazer de querer tentar. Claro que era uma

coisa besta, mas eram pequenas coisas que eu nunca quis deixar de lado.

Não tenho irmãos. Meus pais até tentaram, mas por obra do acaso,

ou do destino, ou até de Deus, sou filha única e, sinceramente, levando em

consideração da forma que fui criada, acho que eu não conseguiria dividir

meus pais com um possível irmão.

Entretanto eu os dividi com uma prima. Suelen, irmã de mamãe e

minha tia, casada com o tio Travis, tiveram minha “querida” prima,

Meghan.

A safada era uma invejosa.

Como não temos outros irmãos, eu e ela sempre fomos unidas, mas

por obra do capeta, se é que posso dizer assim, ela me traiu.

Quase no fim do meu ensino médio, conheci Bruno. Bruno Cegatto.

Eu estava passeando pela faculdade, só para matar minha

curiosidade e para não me perder no primeiro dia como caloura, e ele estava

ajudando alguns novatos, no caso, me ajudou. Desde então sempre esteve

por perto, nos intervalos das aulas nos esbarrávamos pelos corredores.

Santa Pipoca! No trote ele me pegou distraída.

Os outros não nos deram nenhum aviso ou dica sobre o trote e, de

repente, só senti jatos de tintas em mim. Na hora eu fiquei brava, mas só até

perceber que era o trote e que, além de mim, vários outros calouros estavam

sendo atingidos na saída da faculdade. Quando vi que ele estava entre os

bagunceiros, não contive minha risada e ele foi o primeiro a se aproximar

para me dar boas-vindas. Limpou meu rosto com todo cuidado do mundo,

sorrindo largo para mim.

Fiquei tão vidrada naqueles olhos castanhos brilhando ao me olhar.

Ainda foi gentil e me levou à minha casa. Depois daquilo ele nunca mais se

afastou. Tivemos alguns encontros, algumas saidinhas, cineminha e por fim,

namoro sério. Claro que tive alguns peguetes, mas ele, de alguma forma,

sempre estava por perto.

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