Capítulo 2

Hoje era nosso terceiro aniversário de casamento, mas a mesa de jantar estava fria e silenciosa, apenas com a luz das velas tremeluzindo sobre os pratos intocados. Vitor ainda não tinha chegado, e o relógio na parede já marcava dez da noite, cada tique-taque parecia zombar da minha expectativa. Eu tinha passado a tarde inteira preparando seus pratos favoritos, mas a comida já estava fria, assim como meu coração.

Finalmente, a porta se abriu, e Vítor entrou, trazendo consigo o ar gelado da noite. Ele nem sequer olhou para a mesa de jantar que eu havia arrumado com tanto esmero, apenas afrouxou a gravata e se jogou no sofá, com o rosto exausto e impaciente.

"Vítor, você voltou", eu disse suavemente, me aproximando com um sorriso forçado. "Preparei o jantar, hoje é nosso aniversário de..."

"Estou cansado, Laura", ele me interrompeu, sua voz desprovida de qualquer calor. "Não estou com fome, só quero tomar um banho e descansar."

Tentei me aproximar, querendo abraçá-lo, mas ele virou o corpo, me evitando de forma brusca. Sua rejeição foi tão clara e fria que me senti humilhada. A decepção e a tristeza me inundaram, mas eu me recusei a chorar na frente dele.

"Só um pouco, eu fiz o seu favorito", insisti, ainda com uma ponta de esperança.

Ele se levantou e olhou para mim com um desprezo que eu nunca tinha visto antes. "Você não entende? Eu não quero comer. Não me incomode." Ele se virou e subiu as escadas, me deixando sozinha na sala de estar escura e fria.

Mais tarde, naquela noite, eu não conseguia dormir. A cama ao meu lado estava vazia e gelada. Levantei-me e fui até seu escritório, pensando que talvez pudesse encontrar alguma pista, qualquer coisa que explicasse sua distância. Foi quando vi o celular dele sobre a mesa, vibrando com uma nova mensagem. Eu sabia que não deveria, mas não resisti.

A tela se iluminou com uma notificação de Camila, sua amiga de infância e a mulher que ele sempre mencionava com um carinho que nunca me deu. "Vitor, querido, já estou com saudades. A noite foi maravilhosa."

Meu coração parou. Abri a conversa e um mar de mensagens íntimas inundou a tela. Fotos deles jantando juntos esta noite, em um restaurante caro, rindo e parecendo um casal apaixonado. Havia mensagens trocadas há meses, anos. "Eu te amo", "Você é a única para mim", "Mal posso esperar para me livrar dela e ficarmos juntos". Cada palavra era uma facada.

Então eu entendi tudo. Nosso casamento, desde o início, era uma farsa. Um plano. Lembrei-me de como ele me cortejou, tão apaixonado e atencioso. Ele me perseguiu por um ano inteiro, sempre aparecendo nos momentos certos, me tratando como uma rainha.

Eu era a filha perdida da família Queiroz, uma família rica, mas que me abandonou quando criança. Fui adotada por um casal maravilhoso, meus verdadeiros pais, que me deram todo o amor do mundo e uma fortuna ainda maior. Mas a família Queiroz me encontrou quando eu completei dezoito anos, insistindo que eu voltasse para eles, pois eu era a chave para uma aliança de negócios com a família de Vítor, os Ferraz. Eu era apenas uma peça em um jogo de interesses.

Lembrei-me do "acidente" que sofri antes do nosso casamento, um sequestro que terminou com Vítor me salvando heroicamente, levando um tiro no braço para me proteger. Na época, eu o vi como meu herói, meu salvador. Agora, tudo parecia uma peça de teatro bem ensaiada. O herói era o vilão.

Seu comportamento mudou drasticamente depois que nos casamos. A gentileza desapareceu, substituída por frieza e indiferença. Eu me perguntava o que tinha feito de errado, me culpava, tentava de tudo para agradá-lo, mas nada funcionava. Agora eu sabia o porquê. Ele nunca me amou.

Eu me senti uma idiota completa, uma marionete em suas mãos e nas de sua família. A raiva e a dor me consumiam. Eu não podia mais ficar aqui. Peguei meu celular e disquei um número que não usava há muito tempo.

"Pai?", minha voz tremeu.

"Laura, minha querida! O que aconteceu? Você está bem?", a voz calorosa do meu pai adotivo, Ricardo, soou do outro lado da linha, cheia de preocupação.

O som de sua voz foi o suficiente para quebrar minha compostura. As lágrimas que eu segurei a noite toda finalmente rolaram pelo meu rosto. "Pai, eu quero ir para casa."

"Claro, minha filha. A qualquer hora. O que aquele desgraçado fez com você? Eu vou mandar o jato particular te buscar agora mesmo. Ninguém mexe com a minha filha", a voz dele era firme e cheia de uma autoridade que poderia abalar o mundo dos negócios.

"Obrigada, pai", eu sussurrei, sentindo um pingo de esperança pela primeira vez naquela noite terrível. Eu ia embora. Eu ia deixar esse inferno para trás e nunca mais olhar para trás. A família Ferraz e a família Queiroz iriam se arrepender do dia em que me usaram.

Capítulo 3

Na manhã seguinte, o som estridente do meu celular me acordou de um sono agitado. Eu mal havia dormido, a traição de Vítor se repetindo em minha mente como um pesadelo. Era uma mensagem de sua mãe, a matriarca da família Ferraz.

"Laura, já faz três anos. Quando você vai nos dar um neto? A família precisa de um herdeiro. Não me decepcione."

Senti um calafrio percorrer minha espinha. A pressão era constante, um lembrete de que meu único valor para eles era como uma incubadora. Eu ignorei a mensagem, mas a náusea já havia se instalado no meu estômago.

Pouco depois, Vítor desceu as escadas, já vestido em um terno impecável, como se a noite anterior não tivesse acontecido. Ele me olhou com seu habitual ar de superioridade.

"Sua saúde sempre foi fraca, não é de se admirar que você não consiga engravidar", ele disse com desdém, o tom casual tornando as palavras ainda mais cruéis. Era uma acusação, como se fosse minha culpa, minha falha.

Minhas mãos se fecharam em punhos sob o lençol. Eu queria gritar, jogar na cara dele todas as mentiras, mas me contive. Ainda não era a hora.

"Levante-se e se arrume", ele ordenou, nem mesmo me olhando nos olhos. "Temos um compromisso."

"Que compromisso?", perguntei, a voz rouca. Eu não queria ir a lugar nenhum com ele.

"Não faça perguntas. Apenas faça o que eu digo", ele respondeu, já se dirigindo para a porta. "Estou esperando no carro. Não demore."

Senti uma onda de desconfiança e ansiedade. O que ele estava planejando? Contra a minha vontade, levantei-me e me vesti, o coração pesado de maus pressentimentos. Entrei no carro em silêncio, e ele dirigiu sem dizer uma palavra, a tensão entre nós quase palpável.

O carro não parou em um restaurante ou em um evento social, como eu poderia esperar. Ele parou em frente a um prédio alto e moderno, com uma placa que dizia "Clínica de Fertilidade e Genética Avançada".

Meu estômago gelou. "Vítor, o que estamos fazendo aqui?", perguntei, o pânico começando a tomar conta de mim.

Ele me ignorou, saiu do carro e abriu minha porta, seu gesto um comando silencioso para que eu o seguisse. Senti-me como um cordeiro sendo levado ao matadouro, mas uma parte de mim estava curiosa para ver até onde sua crueldade iria. Ele me guiou para dentro, por corredores brancos e estéreis, até uma sala que parecia um consultório médico.

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