A voz do meu pai, geralmente retumbante, estava tensa de raiva contida. "Você finalmente percebeu, não é, Elisa?"
Ele não precisava que eu explicasse. Ele sabia. Ele sempre soube que havia algo errado com Heitor.
"Vou te tirar daí", disse ele, sua voz baixa e firme. "E Heitor Patrick vai pagar."
Ele delineou o plano. Uma separação legal, uma estratégia de saída à prova de falhas. Ele prometeu fazer parecer um divórcio silencioso e amigável, pelo bem de sua imagem pública. Pelo meu bem, ele disse.
Um pacote grosso de documentos chegou no dia seguinte, entregue por um mensageiro de rosto solene. A equipe do meu pai tinha sido eficiente. Assustadoramente eficiente.
Assinei cada página sem tremer, minha mão firme. Cada traço da caneta cortava mais um laço, mais uma camada de seu controle. Isso era liberdade.
Heitor apareceu ao meu lado da cama mais tarde, seu rosto pálido, uma sombra de remorso em seus olhos. Ele se preocupou comigo, ajustando meus travesseiros, me oferecendo água.
Ele interpretou o papel do marido perturbado perfeitamente. Era uma performance na qual eu já havia acreditado.
"Eu fiquei tão preocupado, Elisa", ele murmurou, seu toque leve em meu braço. "Você quase... você quase me deixou."
Sua voz estava carregada de uma estranha mistura de medo e possessividade. Quase engasguei com a ironia.
Ele acariciou meu cabelo, seu olhar terno, depois se levantou. "Preciso ver como a Beatriz está. Ela está arrasada."
E assim que ele saiu, a porta rangeu novamente. Beatriz. Seus olhos, geralmente frios, queimavam com uma fúria maníaca.
Ela entrou no quarto, sua presença uma corrente de ar frio. "Você se acha muito esperta, não é, Elisa?"
Um arrepio percorreu minha espinha. O ar crepitava com sua raiva.
Tentei falar, pedir ajuda, mas a mão dela tapou minha boca, abafando o som.
"Não se incomode", ela sibilou, seu hálito quente contra minha orelha. "Ninguém vai te ouvir."
Meus olhos percorreram o quarto. A porta estava fechada. Eu estava sozinha com ela. Completamente vulnerável.
Ela ergueu algo. Um bisturi cirúrgico. Sua lâmina brilhava sob as luzes fracas do hospital.
"Você quer dançar de novo, não é?", ela sussurrou, um sorriso arrepiante se espalhando por seu rosto. "Vamos ver como você dança depois disso."
Suas palavras foram o prelúdio de um pesadelo.
Dor. Uma dor lancinante, indescritível, explodiu através de mim enquanto a lâmina rasgava minha pele.
Eu me debati contra seu aperto, mas ela era impossivelmente forte, alimentada por um prazer sádico. Meu corpo arqueou, um grito silencioso preso em minha garganta.
Ela trabalhava com a precisão de uma cirurgiã, cada corte cuidadosamente colocado, projetado para infligir a máxima agonia.
Meu mundo se dissolveu em um caleidoscópio de agonia incandescente e pontos pretos.
Então, misericordiosamente, a escuridão.
Acordei com uma dor surda, um membro fantasma de dor. Meu corpo parecia... diferente. Curativos cobriam novas feridas, cicatrizes frescas sobre as antigas.
Heitor estava lá, sentado ao lado da minha cama, uma expressão de preocupação cansada em seu rosto.
"Beatriz... ela teve um surto", disse ele, sua voz monótona. "Ela ficou transtornada após sua experiência de quase morte. Ela se importa com você, Elisa."
Ele me ofereceu um documento legal. Um acordo de confidencialidade. Uma ordem de silêncio.
"Assine isso", ele insistiu, seus olhos implorando. "É pelo bem da Beatriz. Para protegê-la. Você não gostaria de arruinar a carreira dela, gostaria?"
Meu sangue ferveu. Protegê-la? A mulher que acabara de me torturar?
Eu o encarei, minha voz um sussurro rouco. "Você espera que eu proteja a mulher que me mutilou?"
Seu rosto escureceu. "Ela não quis, Elisa. Ela estava sob estresse. Você sabe pelo que ela passou."
Ele enfiou a caneta na minha mão. "Assine."
Minha mão tremia, não de fraqueza, mas de uma raiva indizível. Eu não lhe daria essa satisfação.
Seu maxilar se contraiu. "Tudo bem", ele rosnou, e acenou para os dois guardas parados na porta.
Eles agarraram meus braços, forçando minha mão sobre o papel. A caneta arranhou a página, assinando meu direito de falar.
Uma enfermeira entrou, seu rosto sombrio, para administrar minha nova medicação para dor. Eu a tomei, entorpecida.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Eu estava ali, uma boneca quebrada, meu espírito um fio frágil.
Mas o fio não havia se rompido. Ainda não.
Eles me forçaram a sair do hospital, ainda costurada e enfaixada, porque Heitor havia "providenciado" minha alta. Ele me queria fora de vista, fora da mente.
Suas ordens eram absolutas. Meu bem-estar era uma reflexão tardia.
Eu deveria comparecer a uma festa de noivado. A festa de noivado de Beatriz. Uma celebração do futuro dela, construído sobre as ruínas do meu.
Um vestido, brilhante e elegante, foi colocado para mim. Um colar, delicado e cintilante, repousava ao lado. Presentes de Heitor, ele disse.
Mas eu os reconheci. Eram de Beatriz. Suas roupas velhas, seus descartes. Ele estava me vestindo com os restos dela.
A enfermeira removeu cuidadosamente a última linha de soro do meu braço, seus movimentos gentis, quase apologéticos. Meu corpo parecia uma gaiola frágil.
Heitor andava de um lado para o outro impacientemente, verificando seu relógio. "Você está pronta, Elisa? Não podemos nos atrasar."
Ele mal olhou para mim, seu foco já em sua futura noiva.
Um guarda empurrou bruscamente minha cadeira de rodas em direção ao carro que esperava. Uma pontada de dor me atravessou, mas eu engoli o grito.
A ferida do meu lado se abriu, uma nova mancha carmesim tingindo o curativo branco sob meu vestido. A agonia era uma amiga familiar agora.
Fechei os olhos, um grito silencioso preso dentro de mim. Meu coração era um deserto estéril.
O carro parou. A entrada de sua grandiosa propriedade era uma majestosa escadaria de mármore. Minha cadeira de rodas não conseguiria subir.
Heitor se moveu para me levantar, um lampejo fugaz de preocupação em seus olhos.
"Não!" A voz de Beatriz, afiada e triunfante, cortou o ar. Ela estava no topo da escada, radiante em seu próprio vestido.
"Deixe-a andar", ela ordenou, um sorriso venenoso brincando em seus lábios. "Ela precisa conquistar seu lugar."
Minha respiração engasgou. A humilhação, quente e lancinante, me inundou. Lágrimas, indesejadas, escorreram pelo meu rosto.
Heitor parou, olhando entre nós. Então, sem uma palavra, ele se virou, envolvendo Beatriz em seus braços. Ele a carregou escada acima como se ela fosse uma noiva preciosa.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Um som desprovido de alegria, cheio de zombaria desolada.
Lembrei-me de todos os desprezos, todas as degradações sutis. A maneira como ele descartou meus sonhos, minimizou minha dor. Tudo fazia parte do plano.
Sussurros dos convidados, abafados e julgadores, chegaram aos meus ouvidos. "Coitadinha", eles murmuraram. "Olhe para ela. Tão patética."
A pena deles foi uma nova punhalada no meu coração. Minhas pernas, ainda fracas, ainda trêmulas, começaram a se mover. Um passo doloroso após o outro, eu me arrastei por aquelas escadas, um espetáculo de vergonha.
Procurei por Heitor. Por um pingo de compaixão. Mas ele havia sumido, engolido pela multidão cintilante.
Minha cadeira de rodas jazia abandonada no fundo, um destroço retorcido. Alguém deve tê-la chutado.
Caí no topo, um monte quebrado, lágrimas quentes queimando minhas bochechas.
Mãos rudes me levantaram, me arrastando para uma mesa isolada. Eu era uma convidada indesejada em meu próprio funeral.
A festa era um borrão de opulência. Lustres cintilantes, champanhe caro, o riso de mil estranhos.
Heitor, irradiando alegria, presenteou Beatriz com três presentes. Cada um mais extravagante que o anterior.
Um deles era um delicado medalhão, uma herança de família. Aquele que ele havia me prometido, quando eu pudesse provar que era digna.
Ele me disse que era um símbolo de amor verdadeiro, passado apenas para a mais querida. Uma piada cruel, de fato.
Eu ri de novo, um som oco e gutural que assustou os poucos convidados próximos. Foi uma risada de puro e absoluto desespero.
Beatriz olhou para mim, um lampejo de irritação em seus olhos. Ela achava que eu estava com ciúmes. Ela não tinha ideia.