Capítulo 2

— Eu quero desaparecer — eu disse ao telefone, minha voz um monotrilho morto. — Completamente. Quero que o mundo, e especialmente Heitor Bastos, acredite que estou morta.

Houve uma pausa do outro lado da linha. A voz de Hamilton, quando veio, era baixa e séria.

— Elena, o que aconteceu?

— Ele mentiu — eu disse. — Tudo foi uma mentira.

Eu não precisava dizer mais nada. Hamilton sabia o que Heitor significava para mim. Ele também sabia do que Heitor era capaz.

— Diga-me o que você precisa — ele disse, sem julgamento em seu tom, apenas aço.

— Um acidente de avião — eu disse, as palavras com gosto de veneno. — O mais rápido possível. Você pode arranjar isso?

— Considere feito — ele disse. — Eu cuido de tudo. Para onde você vai?

— Ainda não sei — admiti. — Apenas... para longe daqui.

— Eu tenho um lugar em Provence — ele ofereceu. — É tranquilo. Ninguém vai te encontrar. Vou enviar os detalhes. Apenas vá para o aeroporto particular no Campo de Marte amanhã à noite. Um jato estará esperando.

— Obrigada, Hamilton.

— Sempre, Elena.

Desliguei, uma nova onda de dor me invadindo. Fazer aquela ligação tornou tudo real. A vida que eu conhecia acabou. O homem que eu amava era um monstro que me destruiu sistematicamente enquanto fingia me valorizar.

Ele me traiu. Ele mentiu para mim. Ele se casou com outra mulher enquanto eu ainda usava seu anel.

Ele merecia ser traído. Ele merecia que mentissem para ele.

Ele me queria fora? Ótimo. Eu desapareceria do mundo dele tão completamente que seria como se eu nunca tivesse existido.

Uma batida suave na minha porta me fez pular.

— Sra. Bastos? — Era Maria, nossa governanta. — O Sr. Bastos está em casa. Ele está perguntando pela senhora.

Respirei fundo, compondo minhas feições em uma máscara de calma. Abri a porta.

Heitor estava no corredor. Quando me viu, um lampejo de pânico cruzou seu rosto antes de ser substituído por seu sorriso charmoso de sempre. Era uma performance que agora eu via com uma clareza horripilante.

— Elena, querida — ele disse, caminhando em minha direção e envolvendo seus braços em minha cintura. Ele tentou me beijar, mas virei a cabeça um pouco, e seus lábios roçaram minha bochecha. — Fiquei preocupado. Você ficou fora por tanto tempo.

Sua preocupação parecia ácido na minha pele. Eu podia sentir o perfume de Cândida em sua camisa.

— Eu só tinha algumas coisas para resolver — eu disse, minha voz cuidadosamente neutra. Afastei-me de seu abraço.

Meus olhos caíram sobre a mulher e a criança paradas atrás dele. Cândida e Joca.

— Quem são eles? — perguntei, minha voz seca, como se eu não soubesse.

Heitor relaxou visivelmente, um pequeno suspiro de alívio escapando de seus lábios. Ele achou que eu não sabia. Ele achou que poderia continuar mentindo.

— Ah, esta é uma surpresa maravilhosa — ele disse, sua voz cheia de falso entusiasmo. — Elena, lembra como conversamos sobre querer um filho? O quanto queríamos encher esta casa grande de risadas?

Ele gesticulou para o menino.

— Este é o Joca. Ele é órfão. Eu pensei... pensei que poderíamos adotá-lo. Dar a ele um lar. Uma família.

Ele estava usando minha infertilidade, a própria ferida que ele e sua esposa secreta causaram, como uma ferramenta para seu engano. A crueldade disso era de tirar o fôlego.

— E esta — ele disse, indicando Cândida — é a Srta. Camargo. Ela é uma cuidadora do orfanato que se apegou muito ao Joca. Eu a contratei para ser sua babá, para ajudá-lo a se adaptar.

Ele colocou a mão na cabeça de Joca.

— Joca, diga olá para sua nova mamãe.

Meu coração parecia um bloco de gelo. Nova mamãe. A ironia era uma pílula amarga.

O menino, Joca, olhou para mim com olhos grandes e inocentes. Mas havia algo frio neles, algo que não combinava com seu rosto angelical.

— Olá... mamãe — ele disse, sua voz pequena e hesitante.

Heitor sorriu, um pai orgulhoso.

— Ele não é maravilhoso, Elena?

Cândida permaneceu em silêncio, seus olhos baixos, interpretando perfeitamente o papel de uma babá humilde. Mas eu podia ver o leve sorriso de escárnio em seus lábios. Ela estava gostando disso. Ela estava gostando da minha humilhação.

— Ele é um menino adorável — eu disse, minha voz oca. Olhei para Heitor, meu olhar firme. — Estou um pouco cansada. Acho que vou me deitar.

O sorriso de Heitor se contraiu. Ele viu algo em meus olhos, uma frieza que não estava lá antes.

— Você está se sentindo bem, querida? — ele perguntou, sua testa franzida com falsa preocupação. — Você parece pálida.

— Apenas uma dor de cabeça — menti. Virei-me e caminhei em direção ao nosso quarto, minhas costas retas.

— Deixe-me pegar uma sopa para você — Heitor gritou atrás de mim, sua voz pingando com a falsa ternura que agora me revirava o estômago. — A Maria faz a melhor canja de galinha. Vai te fazer sentir melhor.

Eu não respondi. Fechei a porta do quarto atrás de mim e me encostei nela, a fachada de calma desmoronando. Eu estava tremendo de novo, um tremor profundo e violento que começou na minha alma.

Mais tarde, Joca trouxe a sopa para o meu quarto, empurrado por um Heitor sorridente.

— Seja um bom menino e cuide da sua mamãe — Heitor arrulhou, afagando sua cabeça.

O menino carregava a bandeja com cuidado. Ele a colocou na mesa de cabeceira, seu rostinho sério.

— Eu vou te ajudar, mamãe.

Por um momento, senti uma pontada de algo além de ódio. Ele era apenas uma criança, um peão no jogo doentio de sua mãe. Estendi a mão para pegar a tigela dele.

Quando meus dedos se fecharam em torno da cerâmica quente, ele soltou. Deliberadamente.

A tigela virou, e a sopa escaldante derramou sobre minha mão e pulso. Gritei, puxando minha mão para trás. A pele já estava ficando vermelha e irritada.

Os olhos de Joca se arregalaram. Ele soltou um grito agudo, segurando sua própria mão.

— Ai! Minha mão! Você me queimou! — ele gritou, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Você fez de propósito! Você me odeia!

Capítulo 3

Heitor e Cândida invadiram o quarto ao som dos gritos do menino. Seus rostos eram máscaras de alarme.

Heitor correu imediatamente para o lado de Joca, pegando-o nos braços. Ele nem sequer olhou para mim.

— O que foi, Joca? O que aconteceu? — ele perguntou, sua voz frenética.

— Ela me queimou! — o menino soluçou, apontando um dedo trêmulo e ileso para mim. — Ela fez de propósito! Ela me odeia!

A cabeça de Heitor virou-se para mim. Seus olhos, momentos antes cheios de falsa preocupação por mim, agora ardiam com uma fúria fria.

— Elena, qual é o significado disso? — ele exigiu, sua voz baixa e perigosa. — Ele é apenas uma criança. Como você pôde?

— Eu não... — comecei, mas ele me cortou.

— Ele é nosso filho agora — Heitor rosnou. — Eu o trouxe aqui para você, para te dar uma família, e é assim que você o trata? Porque você não pode ter um dos seus, vai machucar um menino inocente?

As palavras foram um tapa na cara. Ele estava usando minha dor, o sacrifício que fiz por ele, como uma arma contra mim.

Ele me deu as costas, sua atenção focada unicamente na criança chorando.

— Está tudo bem, Joca. O papai está aqui. Vou chamar o médico. Nós vamos cuidar de você.

Ele carregou o menino para fora do quarto, com Cândida seguindo de perto. Antes de sair, ela me lançou um olhar por cima do ombro. Era um olhar de puro e triunfante ódio.

Fui deixada sozinha no quarto, o cheiro de canja de galinha denso no ar. A tigela quebrada no chão, um símbolo da minha vida estilhaçada. Minha mão latejava com uma dor lancinante.

Heitor nem sequer olhou para a minha queimadura.

Eu ri, um som amargo e quebrado que ecoou no quarto vazio. Que tola eu tinha sido.

Fui ao banheiro e coloquei água fria na mão. A pele estava formando bolhas. Encontrei o kit de primeiros socorros e enfaixei a queimadura desajeitadamente, a dor um lembrete físico e agudo das feridas mais profundas e invisíveis que ele havia infligido.

Lembrei-me de uma vez, anos atrás, quando cortei o dedo enquanto cozinhava. Era um corte minúsculo, mal sangrando. Heitor me levou correndo para o pronto-socorro, seu rosto pálido de preocupação. Ele segurou minha mão o tempo todo, sussurrando que não suportava me ver sentir dor.

Aquele homem se foi. Ou talvez ele nunca tenha existido.

O amor, percebi com uma certeza arrepiante, não era eterno. Podia morrer. Podia ser morto.

A porta se abriu e Heitor entrou. Ele viu minha mão enfaixada e teve a decência de parecer culpado.

— Elena, eu... — ele começou. — Sinto muito pelo que eu disse. Eu só estava preocupado com o Joca.

Ele se aproximou, sua voz suavizando.

— Ele é só um garotinho. Ele não quis causar problemas. Você consegue encontrar em seu coração a capacidade de perdoá-lo?

Eu o encarei, meu coração um nó congelado no peito. Ele estava me pedindo para perdoar a criança que me machucou deliberadamente, enquanto ele me acusava de malícia.

Eu não disse nada.

Ele suspirou, um som de paciência cansada.

— Olha, o Joca está muito abalado. Vou dormir no quarto dele esta noite, para ter certeza de que ele está bem.

Era outra desculpa para estar com ela. Eu sabia. Mas eu não me importava mais.

— Tudo bem — eu disse, minha voz seca.

Ele pareceu surpreso com minha concordância fácil. Ele esperava uma briga, lágrimas, acusações. Ele não sabia que a mulher que teria feito essas coisas já estava morta.

Ele se inclinou e beijou minha testa, um toque breve e frio.

— Descanse um pouco.

Então ele se foi.

Deitei em nossa cama enorme e vazia, encarando a escuridão. Eu era uma estranha em minha própria casa, uma forasteira em minha própria vida.

Mais tarde, eu ouvi.

O som veio do quarto ao lado, aquele que Heitor supostamente estava compartilhando com a criança. Foi um som suave no início, um choro abafado.

Então, um gemido baixo. A voz de Heitor, densa com um prazer que eu conhecia tão bem.

E então outro som. O suspiro de uma mulher, uma mistura de dor e êxtase. Cândida.

— Seu animal — ela gemeu. — Eu te odeio.

— Você adora — Heitor rosnou de volta, sua voz um zumbido baixo de paixão. — Diga meu nome, Cândida. Diga.

— Nunca — ela soluçou.

Sua resposta foi uma risada baixa, seguida pelos sons rítmicos e inconfundíveis de dois corpos se movendo juntos.

Apertei os olhos, minhas mãos se fechando em punhos. Pressionei meu rosto no travesseiro para abafar o grito que subiu em minha garganta.

Ele estava no quarto ao lado, com a mulher que me esfaqueou, que tirou meu futuro de mim. Ele estava fazendo amor com ela, enquanto eu jazia aqui, quebrada e sozinha.

Minha mente voltou a um tempo em que seus pais se opuseram ao nosso casamento por causa da posição social inferior da minha família. Heitor os enfrentou, sua voz ressoando com convicção.

— Eu amo a Elena — ele declarou. — Vou me casar com ela, com ou sem a sua bênção. Ela é a única que eu amarei para sempre.

Ele tinha sido tão feroz, tão leal. Minha rocha. Meu protetor.

Aquela lealdade agora era uma piada. Seu amor, uma mentira.

Fiquei ali por horas, ouvindo os sons de sua traição, até que a casa finalmente ficou em silêncio. Eu não dormi. Apenas encarei a escuridão, meu coração completa e totalmente morto.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED