O meu telemóvel tocou pela décima oitava vez sem resposta, o som do toque de chamada a misturar-se com o barulho da chuva torrencial que batia contra as janelas.
A água já subia pela rua, castanha e furiosa, arrastando caixotes do lixo e detritos.
As notícias na televisão, antes de a eletricidade falhar, falavam de inundações históricas em Lisboa.
Eu estava grávida de nove meses, sozinha em casa.
Tentei ligar ao meu marido, Diogo, outra vez.
Desta vez, ele atendeu. A sua voz soou distante e irritada, abafada por latidos de cão.
"Clara? O que foi? Estou ocupado."
"Ocupado?", a minha voz tremeu, "Diogo, a água está a entrar em casa, a eletricidade foi abaixo, eu estou sozinha."
Houve uma pausa. Ouvi a voz da minha meia-irmã, Sofia, ao fundo, suave e chorosa.
"Diogo, o Trovão está tão assustado com os trovões, podes abraçá-lo?"
O meu estômago revirou-se.
"Diogo, onde estás?"
"Estou em casa da Sofia", disse ele, impaciente, "O cão dela entrou em pânico com a tempestade, e o pai está a ajudá-la a acalmar o animal. Tivemos de vir a correr."
A casa da Sofia ficava do outro lado da cidade, longe da nossa, longe da zona de perigo das inundações.
"O teu padrasto, o Rui, também está aí?", perguntei, a incredulidade a gelar-me o sangue.
"Sim, claro. A Sofia estava desesperada. Tu estás bem, a nossa casa é num primeiro andar, a água não chega aí. Liga aos bombeiros se estiveres com medo."
A sua indiferença era total.
"Eu preciso de ti", sussurrei, as lágrimas a começarem a escorrer. "Estou com dores, acho que são contrações."
"Não sejas dramática, Clara. É só o stress. Respira fundo. Tenho de ir, a Sofia precisa de mim."
Ele desligou.
Olhei para a chamada terminada. Depois para a minha barriga enorme. A dor intensificou-se, aguda e real.
Ele escolheu acalmar o cão da meia-irmã em vez de vir ter com a sua mulher em trabalho de parto no meio de uma inundação.
Naquele momento, soube que o nosso casamento tinha acabado. O meu filho ainda nem tinha nascido, e já estava a ser abandonado pelo próprio pai.
A dor seguinte veio mais forte, uma onda que me tirou o fôlego.
Agarrei-me à mesa da cozinha, a única coisa estável no meu mundo a girar.
O meu telemóvel tinha pouca bateria. Liguei para o 112. A linha estava constantemente ocupada.
Toda a cidade estava em pânico, e eu era apenas mais uma pessoa em apuros.
Tentei a minha mãe.
"Mãe", solucei quando ela atendeu, "Acho que o bebé vai nascer."
"O quê? Clara, o Diogo está contigo?"
"Não. Ele está com a Sofia. O cão dela estava assustado."
O silêncio do outro lado da linha foi pesado. A minha mãe, Helena, sabia exatamente o que aquilo significava. Ela vivia com o pai da Sofia, o meu padrasto Rui, há anos. Conhecia a dinâmica familiar.
"O Rui também não está em casa", disse ela, a sua voz tensa. "Ele disse que ia ajudar o Diogo com uma emergência."
Uma emergência. Um cão assustado.
"Estou a tentar arranjar maneira de ir ter contigo, filha. As ruas estão cortadas, mas vou tentar."
"Mãe, não venhas. É perigoso demais."
"Eu sou tua mãe."
A chamada caiu. A bateria do meu telemóvel morreu.
Fiquei na escuridão, apenas com o som da tempestade e a dor crescente no meu corpo. Cada contração era um lembrete da minha solidão.
Onde estava o homem que jurou amar-me e proteger-me?
Ele estava a consolar outra mulher, a minha meia-irmã, sobre o seu cão.
A imagem deles os três juntos – Diogo, Sofia e o meu padrasto Rui – formou-se na minha mente. Uma família feliz.
E eu? Eu era um inconveniente. O nosso filho era um fardo que chegava na pior altura.
A água começou a infiltrar-se por baixo da porta. Senti um líquido quente a escorrer-me pelas pernas.
Não era a água da inundação.
A minha bolsa de águas tinha rebentado.
O pânico apoderou-se de mim. Gritei, mas ninguém me ouviu.