Capítulo 2

Os dias que se seguiram ao procedimento foram uma névoa de dor silenciosa e determinação férrea. Ava movia-se pelo apartamento como um fantasma, a dor física um contraponto tênue à agonia cortante em sua alma.

Ela disse a Ethan que precisava descansar, que o estresse pela morte do pai e a ausência dele haviam cobrado seu preço. Ele aceitou, com a atenção já se dispersando.

Ela começou a organizar seus pertences, não com tristeza, mas com um estranho sentimento de desapego. Roupas, joias, presentes de Ethan: eram todos adereços de um espetáculo do qual ela não queria mais fazer parte. Providenciou para que tudo fosse discretamente doado.

Estava apagando Ava Cole, a mulher que Ethan tentara moldar. Ava Miller aguardava para ressurgir.

Ethan voltou de uma viagem de negócios uma semana depois, alheio a tudo. Encontrou-a mais quieta, mais distante, mas atribuiu seu comportamento ao luto que ela ainda vivia.

Trouxe uma coisa para você, disse ele, entregando-lhe uma caixa de veludo. Dentro, uma pulseira de diamantes brilhava friamente. "Para te animar."

Sua cegueira era espantosa. Ele ainda acreditava que bens materiais poderiam reparar o abismo que havia criado.

É linda, Ethan, disse ela, com a voz desprovida de emoção. Não pôs a pulseira no pulso.

Ele franziu o cenho levemente, mas não insistiu. Já falava de um jantar beneficente, de manter as aparências.

Ele ainda não fazia ideia de que o chão sob seus pés estava prestes a ruir.

A dor constante e surda em seu abdômen era um lembrete. Certa tarde, uma cólica particularmente aguda a fez perder o fôlego.

Nesse exato momento, seu telefone tocou. Era Olivia.

Ava? Oi. Estou em Nova York por uns dias. Assuntos de família. Queria ver se a gente podia se encontrar.

A voz de Olivia era calorosa, amigável, completamente inconsciente da devastação que, em parte, ajudara a provocar.

Ava sentiu uma onda de emoções complexas: raiva, pena e uma estranha afinidade.

Antes que pudesse responder, Ethan entrou na sala, e seus olhos se iluminaram ao ver o nome no identificador de chamadas.

Ethan praticamente arrancou o telefone da mão de Ava.

Olivia! Que surpresa! Você está na cidade?, sua voz era vibrante, cheia de uma vida que Ava não ouvia direcionada a si havia meses.

Ele ignorou o rosto pálido de Ava, sua mão pressionada contra o lado. Já fazia planos com Olivia, de costas para a esposa, completamente absorto na conversa.

Ava o observou, e uma certeza gélida se instalou dentro dela. As prioridades dele estavam cristalinas.

Ela era um pensamento secundário, uma substituta.

A pontada em seu lado se intensificou, mas não era nada comparada ao vazio que sentia.

Ethan desligou, com um sorriso satisfeito no rosto.

A Olivia quer ver a família. Vai ter um encontro na propriedade dos Hayes, nos Hamptons, neste fim de semana. Ela pediu especificamente que você fosse.

Ele apresentou a situação como uma obrigação, um dever familiar.

É importante, Ava. Pelas aparências, pela Olivia.

Suas palavras soavam ocas; sua preocupação com ela, fingida.

Ava assentiu em silêncio. Não sentia nada. Nem raiva, nem tristeza. Apenas um vasto nada onde antes existia seu amor por ele.

Seu distanciamento emocional era um escudo que se fortalecia a cada dia.

Eles chegaram à imensa propriedade dos Hayes, nos Hamptons, na tarde de sábado. O ar estava denso de dinheiro antigo e tensões veladas.

Ethan, sempre charmoso, estava em seu elemento.

Enquanto caminhavam em direção à casa principal, ele colocou uma pequena caixa, primorosamente embrulhada, na mão de Ava.

É para a Olivia, disse ele em voz baixa. "Um pequeno presente de boas-vindas. Da nossa parte."

Ava olhou para a caixa. Sabia, com uma certeza nauseante, que aquele presente fora escolhido por Ethan, para Olivia, pensando em Olivia.

Ela era apenas a mensageira.

A manipulação dele era tão arraigada, tão casual, que chegava a ser espantosa.

Olivia os recebeu na porta, bela e elegante. Aos trinta anos, era uma galerista de arte internacional bem-sucedida, a mulher que Ethan nunca superou.

Ela abraçou Ava calorosamente. "Ava, que bom te ver. E Ethan." Seu olhar se demorou nele por uma fração de segundo a mais.

Os parentes explicaram a Olivia sobre o casamento, e ela fingiu uma surpresa polida, embora Ava suspeitasse que ela sabia mais do que deixava transparecer.

A atmosfera estava carregada, com correntes sutis percorrendo a conversa educada.

Ava os observava, uma espectadora distante do drama de sua própria vida.

Ethan entregou o presente a Olivia, usando Ava como intermediária.

A Ava escolheu para você, Olivia, mentiu ele, suavemente.

Olivia abriu a caixa. Um deslumbrante colar de safira, uma peça que Ava lembrava vagamente de Olivia ter admirado anos atrás, antes mesmo de Ethan entrar em sua vida.

Ethan, Ava, é... deslumbrante, disse Olivia, encontrando o olhar de Ethan. "Você se lembrou."

Ava viu o lampejo de cumplicidade passar entre eles.

Era um presente com história, uma história que a excluía por completo.

Sentiu-se uma intrusa em seu momento particular.

Olivia, graciosa e serena, agradeceu a ambos.

Vou ficar na cidade por pouco tempo, anunciou ela à família reunida. "Apenas resolvendo algumas pendências antes de voltar para Paris."

Ava viu a expressão de Ethan vacilar, uma sombra breve cruzando seu rosto com a menção da partida de Olivia.

Então, Olivia se voltou para Ava, passando os dedos pelo colar. "Isto é realmente especial. É da cor do mar Egeu, não é? Você tem um gosto maravilhoso, Ava."

O elogio parecia mais direcionado à memória de Ethan do que à suposta escolha de Ava.

Ava esboçou um sorriso contido.

O Ethan sempre foi muito atencioso com presentes, disse ela, a voz deliberadamente leve, com um toque de algo indecifrável.

Olivia olhou para Ethan, depois de volta para Ava, com uma expressão curiosa. Ethan pareceu momentaneamente desconfortável.

Ava sabia que Olivia entendia o subtexto. O presente não era "nosso". Era de Ethan, um símbolo de sua obsessão duradoura.

Ava era simplesmente a mensageira, um fantasma naquela reunião.

No jantar, Ethan foi atencioso, mas não com Ava. Ele se lembrou do vinho favorito de Olivia, de sua preferência por frutos do mar em vez de carne vermelha, de sua aversão a certos temperos.

Ele fez o pedido para Olivia, relembrou refeições que compartilharam na Europa, com o foco inteiramente nela.

Ava, ainda se recuperando e aconselhada a comer alimentos leves, foi amplamente ignorada. Suas necessidades alimentares relacionadas à gravidez, que Ethan antes fazia questão de atender, pareciam completamente esquecidas.

Ele encheu o prato de Olivia com iguarias, enquanto Ava beliscava um pãozinho.

O contraste era gritante, uma exibição pública de seus verdadeiros sentimentos.

Ava observava, seu entorpecimento inicial se convertendo em uma resolução fria e implacável.

Capítulo 3

Mais tarde naquela noite, a brisa fresca dos Hamptons soprava. Solto por várias taças de um vinho caro, Ethan Cole falava mais alto, expansivo.

Ele dominava a conversa no terraço, com Olivia a seu lado, rindo de suas histórias.

Ava mantinha-se um pouco afastada, segurando um copo de água.

Ethan, encorajado pelo álcool e pela proximidade de Olivia, inclinou-se na direção dela.

Sua voz, um pouco arrastada, ecoou na noite silenciosa. "Sabe, Liv", ele murmurou, "você ainda é a mulher mais cativante em qualquer ambiente."

Ava ouviu cada palavra. Desconcertada, Olivia lançou um olhar rápido em sua direção.

Ethan pareceu não notar, perdido em sua própria narrativa.

A crueldade casual em suas palavras, ditas como se Ava não estivesse ali, a atingiu como um golpe.

Ava sentiu uma dor aguda no peito, um aperto que lhe roubava o ar.

Era aquilo. A prova final, inegável.

Ela não significava nada para ele. Apenas uma substituta. Uma semelhança conveniente.

Levantou-se em silêncio, murmurou que precisava de ar e retirou-se discretamente do terraço.

Encontrou um lavabo deserto, onde o frio dos azulejos foi um choque bem-vindo contra sua pele febril.

Olhou para o próprio reflexo: uma mulher pálida, abatida, que mal reconhecia.

A mulher que Ethan Cole tentara apagar.

Mas ela não seria apagada.

Do lado de fora, escondida nas sombras de um grande vaso de samambaia, Ava apoiou-se na parede fria. Da varanda acima, ouviu as vozes de Ethan e Olivia.

A voz de Ethan estava mais baixa agora, mais intensa, pesada de emoção e álcool.

Eu precisava fazer isso, Liv. Casar com a Ava... foi o único jeito. Ela é tão parecida com você, principalmente quando era mais nova. E é sua prima. Isso me manteve por perto, na sua vida.

O sangue de Ava gelou. Ele estava confessando. De forma clara, aberta.

Eu esperava... esperava que, ao vê-la, ao estar com ela, você percebesse o que nós tivemos, o que ainda poderíamos ter.

Suas palavras teciam uma tapeçaria grotesca de obsessão e manipulação.

Olivia soava chocada, a voz um sussurro tenso. "Ethan, isso é... monstruoso. Ava é uma pessoa, não uma peça no seu jogo."

Ela me adora, continuou Ethan, a voz carregada de uma arrogância arrepiante. "Ela nunca me deixaria. Está esperando um filho meu, Olivia. Um filho que eu esperava que se parecesse com você, com a gente."

Ele chegou a mencionar um nome que haviam discutido para o bebê, um nome que agora distorcia como mais um elo com Olivia. "Imagine, a pequena Elena... um lembrete constante."

Elena era o nome do meio de Olivia.

Ava levou a mão à boca para abafar um soluço. Nojo, horror e uma tristeza profunda e avassaladora a tomaram por completo.

O mundo girou. As pernas de Ava cederam. Ela desabou no chão, a mão indo instintivamente para o abdômen ainda liso.

A criança. O filho dela. Concebido numa mentira, desejado como um substituto.

Uma onda de náusea a atingiu.

Ele nunca a amou. Nem por um único momento.

Tudo não passara de uma encenação, uma farsa calculada.

Uma promessa silenciosa formou-se nos escombros de seu coração.

Ela não seria seu peão. Não deixaria que ele a usasse, nem a memória do filho deles. Nunca mais.

Ela seria livre. Precisava ser.

A voz de Ethan, cheia de uma confiança embriagada, desceu novamente.

A Ava vai ficar bem. Ela é forte. E me ama demais para questionar qualquer coisa. Ela vai ter o bebê, vamos ser uma família, e você e eu... podemos nos acertar.

A arrogância dele era espantosa. Ele realmente acreditava que a controlava, que a possuía.

Ava fechou os olhos. A arrogância dele seria sua rota de fuga.

Ele jamais a veria chegando.

Ele a julgava fraca, maleável. Estava prestes a descobrir o tamanho do seu erro.

Sua dor, agora, era uma arma fria e afiada.

Na manhã seguinte, de volta ao apartamento em Nova York, Ava movia-se com uma energia silenciosa e focada.

Ethan sofria de ressaca, alheio à tempestade que rugia dentro dela.

Fez ligações. Pesquisou. Reservou um voo só de ida para São Francisco, com um carro particular para o Napa Valley.

Um lugar que sempre sonhara em visitar, que representava um novo crescimento, uma nova vida.

Sua nova vida.

Ela começou a se apagar, sistematicamente, do mundo de Ethan Cole.

Alguns dias depois, Olivia ligou para Ava.

Ava, podemos conversar? Só nós duas. Talvez... talvez no túmulo do seu pai? Eu gostaria de prestar minhas homenagens como se deve.

A voz de Olivia soava hesitante, tingida por uma emoção que Ava não conseguia decifrar. Culpa? Pena?

Ava sentiu um lampejo de cansaço. Queria dizer não, cortar todos os laços.

Mas uma pequena parte dela, a que ainda via Olivia como família, sentiu uma obrigação relutante.

Tudo bem, Olivia. Amanhã à tarde?

Ava estava prestes a sair para o cemitério quando Ethan entrou no apartamento.

Onde você vai?, ele perguntou, o tom casual, mas o olhar aguçado.

Encontrar Olivia. No túmulo do papai.

Ele franziu a testa. "Olivia? Por que não me avisou?"

Sua possessividade, sua necessidade de controlar cada interação, era sufocante.

Ela me ligou, disse Ava, a voz cuidadosamente neutra.

Eu vou com você, ele declarou, já pegando as chaves do carro.

Ava não discutiu. A presença dele já não importava. Seu plano estava em andamento.

Ele era um fantasma em seu futuro, um futuro que ele nem sequer conseguia imaginar.

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