Capítulo 2

Eu até queria sair hoje, mas amanhã tenho que acordar cedo. Então, resolvi avisar à Ana e à Cecília que não poderei ir ao barzinho que combinamos. Afinal, estou sem grana, e o meu bolso está me pedindo para ser mais responsável.

Adoro sair e me divertir com minhas amigas, mas desta vez o rolê vai ficar para outra oportunidade.

Enviei uma mensagem para a Ana, comunicando que não vou conseguir nos encontrar. E, confesso, fiquei com aquela pontinha de arrependimento. Ah, como eu queria arrumar um gatinho e dar uns beijinhos! Mas, não será hoje.

Quando a noite caiu, voltei para casa, tomei aquele banho revigorante que todo mundo sabe que é essencial depois de um dia cansativo, preparei um lanche, jantei e, por fim, me dei ao luxo de me tranquilizar. O objetivo? Relaxar e tentar dormir com a ansiedade pela entrevista do dia seguinte.

Deitei-me, fechei os olhos e logo adormeci, esperando que o próximo dia chegasse rapidinho.

Às seis da manhã, o despertador me acordou. Levantei e fui tomar um banho para começar o dia com o humor lá em cima.

Não tem nada melhor do que um banho matinal, é como se a água lavasse não só o corpo, mas também as preocupações.

Eu simplesmente amo essa sensação!

Sinto-me leve e energizada, e de repente o dia parece promissor. Hoje, mais do que nunca, eu precisava que esse dia fosse leve e positivo. Nada de drama, só vibrações boas e otimismo.

tomei meu café, e me arrumei de maneira simples, mas com aquele toque refinado, sabe? Porque, para quem não tem grana, a gente faz o que pode para não parecer que está na pior.

Como a residência ficava no Leblon, a uns trinta minutos ou mais da minha casa, eu sabia que precisaria sair mais cedo para não me atrasar. De metrô é mais rápido, então fiquei tranquila quanto ao tempo.

O problema é que o metrô está passando daqui a pouco, e eu realmente preciso me apressar, ou o atraso será inevitável. E, sinceramente, atrasar agora, no dia da entrevista, seria um desastre. Não posso deixar isso acontecer.

A Liliana deixou bem claro que o senhor Anthony não tolera atrasos. Eu, que em algumas ocasiões já tive a honrosa experiência de me atrasar, estava decidida a não cometer esse erro novamente. Hoje, fui pontual.

Ao chegar, fiquei de boca aberta com a grandiosidade da residência, que mais parecia uma mansão. Apresentei-me ao segurança que estava na entrada, e ele rapidamente acionou o interfone, permitindo minha entrada.

Fiquei pensando: Meu Deus, por que alguém construiria uma casa tão grande, especialmente um homem viúvo com duas filhas?

Mas, por outro lado, quem sou eu para questionar o que as pessoas fazem com sua grana, né?

Logo fui recebida por uma mulher extremamente amável, que me pediu para esperar no escritório. Gentilmente, ela me conduziu até o cômodo, e ali fiquei, aguardando ansiosamente para finalmente conhecer o senhor Anthony e, quem sabe, iniciar uma nova etapa na minha vida profissional.

- Já passou das 7 horas e o homem pontual ainda não apareceu.

Assim que pronunciei essas palavras, ele entrou na sala.

Será que ele ouviu?

Minha propensão à indiscrição verbal me traiu, como sempre!

Mas, para minha sorte, ele optou por não comentar o ocorrido. Apenas se dirigiu ao outro lado da mesa, como se nada tivesse acontecido.

Que ser humano maravilhoso, Jesus amado!

Que homem... meu Deus!

Eu não pude evitar. Uma sensação de calor invadiu meu corpo de forma quase elétrica.

Uau, isso foi... impressionante!

Agora estou em apuros!

Como deve ser a experiência de observar um homem assim todos os dias? Ele é... maravilhosamente irresistível!

Quem diria que ele possuía uma beleza dessa magnitude? Eu mal consegui processar minha própria reação.

Você já se sentiu assim? Perder o controle do corpo diante de um homem que te atrai, como se o próprio universo parasse?

Pois bem, é exatamente isso que estou sentindo agora!

E o pior: ele nem me olha. Sequer percebe a minha presença quando entra no escritório.

Preciso parar de pensar nisso, ele provavelmente será meu chefe.

"Peço desculpas pela demora! Você tem experiência prévia? Já trabalhou como babá? Tem afinidade com crianças? Trouxe seu currículo para a entrevista? São muitas perguntas, eu sei!"

- De jeito nenhum! Nunca trabalhei como babá. Minha experiência anterior foi como assistente administrativa em uma empresa, mas infelizmente fui demitida.

- E qual foi o motivo da sua demissão? Agora, você vai cuidar de duas crianças de quatro anos, então preciso entender melhor o porquê do seu desligamento, especialmente considerando que você não tem experiência com crianças - disse ele, o homem incrivelmente belo, que sequer me olhou diretamente.

Por que ele quer tanto saber a razão pela qual fui demitida? Isso não faz o menor sentido...

Esse homem deve ter algum tipo de paranoia. Só pode!

Mas como vou explicar que deixei o emprego porque o meu chefe tentou algo?

Ele vai pensar que eu aceitei ou, pior, que provoquei! Mas, de jeito nenhum, vou expor essa história.

- Fui dispensada porque me atrasei e esqueci de concluir uma tarefa importante que meu chefe havia solicitado - soltei a primeira desculpa que me veio à mente.

Que justificativa horrível! Jasmine, você está péssima nisso. Ele com certeza nunca vai me contratar agora.

- Tenho um carinho enorme por crianças, senhor. De verdade! - apressei-me em dizer, tentando suavizar o estrago.

Finalmente, o homem dos olhos azulados que eu já havia classificado como "os mais lindos do planeta" ergueu o olhar para mim. Pena que ele parecia mais sério que professor corrigindo prova de aluno bagunceiro.

Poxa, que homem é esse, hein?

Se ele estivesse em casa o tempo todo, eu com certeza seria demitida por pensar besteira. Quer dizer, eu jamais tentaria algo, claro! Pelo menos eu acho que não...

- Senhor, será necessário dormir aqui durante o trabalho? - perguntei com um nó no estômago. - Minha mãe precisa de cuidados. Ela está enfrentando problemas na coluna e nos ossos, tem muita dificuldade para se locomover. Preciso estar em casa à noite para cuidar dela.

- Sem problemas. Traga sua mãe para cá - disse ele, seco como um biscoito água e sal. - Preciso de alguém que durma aqui para cuidar das crianças. Isso não estava claro? Se aceitar, terá que dormir aqui, e pode trazer sua mãe. Caso contrário, tenho outras candidatas. O dilema é seu.

Mas que sujeito mais mal-educado! Meu primeiro instinto foi dizer umas boas verdades, mas lembrei que eu realmente precisava do emprego. Engoli em seco e mantive a calma.

- Certo, senhor. Eu aceito.

Ele pareceu satisfeito, ou pelo menos menos carrancudo, e logo retornou a mexer em seus documentos, quase sem me olhar. Depois de mais algumas instruções, avisou que eu deveria começar na próxima segunda-feira, com apenas um dia de folga a cada duas semanas.

Um dia de folga?

A cada duas semanas?

Nesse momento, quase gritei. Mas engoli o desespero e me despedi, prometendo voltar na segunda.

Enquanto saía, só conseguia pensar: Jasmine, o que você está fazendo da sua vida?

Como assim, apenas um dia de folga a cada quinze dias? Isso é uma piada, né?

E os meus lugares preferidos para sair?

O que eu faço com as noites que planejei com minhas amigas?

O pior: quando vou arrumar tempo para encontrar um gato decente para beijá-lo?

Ah, isso só pode ser brincadeira!

Estava tão indignada que, quando percebi, já tinha saído do local e estava quase chegando em casa. A irritação ainda queimava em mim, e a cada passo eu repassava a conversa na minha cabeça.

Aquele homem... Será que ele tem algo contra mulheres negras?

Mas, pensando bem, se ele fosse preconceituoso, nem teria me pedido para retornar, certo?

Me considero negra. Sou mais clara, é verdade, mas ainda assim, negra com muito orgulho. Minha mãe, com sua pele bem negra e uma beleza arrebatadora, sempre foi meu exemplo de força e determinação.

Ah, os olhos verdes... Esses eu herdei do traste do meu pai, que sumiu da minha vida antes mesmo de eu ter idade suficiente para entender o que isso significava.

Mas sabe de uma coisa?

Nunca senti falta. Minha mãe fez questão de preencher qualquer lacuna com um amor tão imenso que não deixava espaço para saudade de quem não merecia.

Graças a Deus, nunca tive problema em ser quem sou. Sou negra e sempre fui muito feliz com isso. Minha mãe me ensinou a caminhar de cabeça erguida, porque sabia que o mundo nem sempre seria gentil. E, por isso, nunca precisei buscar validação de ninguém.

Agora, refletindo sobre aquele homem, talvez tenha sido precipitada ao imaginar que ele pudesse ser preconceituoso. Se fosse, ele não teria me pedido para voltar. Ainda assim, a maneira como ele fala, tão fria e direta, dá vontade de balançar os ombros dele e dizer: "Ei, você tem um coração aí dentro?"

Deixei o assunto para lá. Afinal, se tem algo que aprendi com minha mãe, é que energia ruim a gente devolve para o universo e segue em frente.

É triste pensar que existem pais que não estão à altura do título tão nobre que carregam. Não é só sobre ter um filho, é sobre ser presença, cuidado e amor.

Com esses pensamentos, cheguei em casa. Minha mãe estava na sala, como sempre, com um sorriso que iluminava o ambiente. E eu sabia que, apesar do desafio desse emprego, faria tudo valer a pena.

Capítulo 3

Há exatos quatro anos e meio, meu mundo desmoronou. Minha esposa, a luz da minha vida, partiu para sempre enquanto dava à luz nossas filhas gêmeas.

Isadora não era apenas minha esposa; ela era meu tudo. Nós vivíamos uma história intensa, repleta de amor e cumplicidade. Ainda consigo ouvir sua risada ao me contar que estava grávida – um som que, naquele instante, pareceu preencher todos os cantos do meu ser com felicidade.

Mas essa felicidade foi cruelmente testada. Os meses que se seguiram foram um misto de esperança e medo. A gravidez trouxe desafios que nenhum de nós poderia prever.

A pressão arterial dela subia a níveis alarmantes, e as queixas de dor tornaram-se constantes. Eu a acompanhava em cada consulta, impotente diante dos termos médicos que pareciam um idioma estranho, enquanto o pavor crescia em meu peito.

Quando chegou o sétimo mês, a tragédia bateu à nossa porta. Isadora acordou em agonia, e eu a levei às pressas para o hospital. O que aconteceu em seguida ainda é um borrão de vozes, lágrimas e desespero. Eles me disseram que ela havia sofrido eclâmpsia durante o parto. Em questão de horas, eu perdi o amor da minha vida.

Mas a mesma noite em que Isadora me foi arrancada trouxe a única coisa capaz de manter meu coração batendo: minhas filhas. Os médicos lutaram contra o tempo, e, graças a eles, minhas pequenas guerreiras nasceram, frágeis e prematuras, mas vivas.

Eu me lembro de segurar as duas pela primeira vez. Elas eram tão pequenas, tão delicadas. Chorei como nunca havia chorado, porque enquanto meus braços estavam cheios, meu coração estava vazio.

A cada novo marco – o primeiro sorriso, as primeiras palavras, os primeiros passos – uma parte de mim se enche de alegria, enquanto outra sangra de saudade.

Às vezes, no silêncio da noite, penso em como seria se Isadora estivesse aqui. Como ela estaria orgulhosa de nossas meninas. Como ela seguraria suas mãos e as guiaria com a ternura que só ela tinha.

Isadora era minha âncora, meu lar, e agora eu tento encontrar força no amor pelas nossas filhas. Elas são a razão pela qual continuo. Mas todos os dias carrego o peso do vazio que ela deixou. E todos os dias, sinto a dor de um amor eterno que, mesmo além da vida, ainda pulsa em meu peito.

Por que este destino desabou sobre mim?

Por que Deus decidiu arrancar ela – e de mim – todas as possibilidades de um futuro juntos?

Isadora era tudo o que havia de mais belo neste mundo. Seus cabelos dourados, caindo em ondas suaves, combinavam perfeitamente com seus olhos azuis que refletiam um oceano de calma e mistério.

Eu a amava com uma intensidade que mal consigo descrever, e cada vez que olho para nossas filhas, sinto a presença dela de forma quase cruel. Elas têm os mesmos olhos hipnotizantes e os mesmos fios dourados, uma lembrança constante do que perdi.

Sinto uma saudade avassaladora. O silêncio da casa pesa como um luto interminável. Ela tinha apenas vinte e cinco anos, tão jovem, com tanto a viver, e ainda assim o destino decidiu que nossa história terminaria de forma tão abrupta.

Casamo-nos quando ela tinha dezoito, mas nossa conexão era muito anterior a isso – éramos almas gêmeas desde os tempos de escola, e juntos construímos uma vida que parecia destinada à felicidade.

Agora, minhas filhas e eu estamos navegando por esse vazio. Recentemente, perdemos a babá que cuidava delas; ela retornou para sua cidade natal. Liliana, minha secretária de longa data, recomendou uma jovem para o cargo. Concordei em entrevistá-la, sem grandes expectativas, e pedi que fosse pontual.

No dia seguinte, às 7 horas em ponto, ela já estava no local combinado. Eu, no entanto, estava atrasado. A noite anterior havia sido um caos; minhas filhas choraram por horas, e eu mal preguei os olhos. Quando cheguei, cansado e com a mente embotada, ouvi uma breve reclamação dela sobre minha demora, mas decidi ignorar. Não tinha energia para confrontos tão cedo.

Sentado à mesa, com documentos espalhados à minha frente, iniciei a conversa sem erguer os olhos. Era rude, eu sabia, mas minha exaustão não permitia gestos de cortesia. Perguntei, com voz monótona, se ela tinha experiência no cuidado de crianças. A resposta dela me tirou do torpor: "Não."

Levantei o olhar, finalmente, e a vi pela primeira vez. Jovem, quase tão perdida quanto eu me sentia. Por um instante, algo no olhar dela – um misto de determinação e vulnerabilidade – me deixou sem palavras. Ela parecia tão deslocada quanto eu, mas havia algo ali, algo que eu não conseguia definir.

O que estava prestes a acontecer, naquele instante, eu ainda não sabia. Mas, de alguma forma, a chegada dela traria uma mudança – para mim e para as minhas filhas. Uma mudança que, talvez, eu nem soubesse que precisava.

Parece que encontrar uma babá que realmente se conecte com minhas filhas é mais difícil do que eu imaginava. A Carminha, com sua paciência infinita e habilidades incríveis, deixou um vazio que parece impossível de preencher.

Desde que ela partiu, Isabelly e Mikaelly têm resistido a qualquer nova babá que tento trazer para suas vidas. E, honestamente, não as culpo.

Elas têm apenas quatro anos e meio, mas já possuem um senso aguçado de quem as faz se sentir seguras. Com a Carminha, havia uma conexão quase mágica. Ela entendia cada choro, cada risada, cada olhar.

Sua formação em enfermagem fazia dela não apenas cuidadora, mas também uma figura protetora. Quando ela decidiu voltar para sua cidade natal, senti que perdíamos mais do que uma funcionária – perdíamos alguém que era parte da nossa pequena família.

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