Capa do Romance O Dia Em Que Meu Amor Se Despedaçou

O Dia Em Que Meu Amor Se Despedaçou

8.1 / 10.0
Abandonada na chuva após uma viagem, descobri que meu noivo, Caio, mentiu para estar com Karine. Enquanto ele alegava problemas mecânicos, ela se exibia em fotos nos braços dele. O cansaço de anos de abuso psicológico e manipulações finalmente me libertou. Percebi que o amor não justifica suportar tamanha crueldade. Sem olhar para trás, decidi encerrar esse ciclo de traições. Liguei para meu chefe e aceitei a vaga em Londres, partindo para o exterior por cinco anos.

O Dia Em Que Meu Amor Se Despedaçou Capítulo 1

Meu noivo, Caio, deveria ter me buscado no aeroporto depois da minha viagem de duas semanas sozinha. Em vez disso, fui abandonada na chuva, trocada por sua protegida "frágil", Karine.

Ele alegou problemas no carro, mas uma única ligação revelou a verdade: ele estava numa festa, comemorando com ela.

Então veio a mensagem de Karine — uma selfie dela em seu colo, com a legenda: "Não se preocupe, o Dr. Alencar é todo meu esta noite!"

Momentos depois, uma mensagem de Caio: "Desculpa, meu amor. Problema no carro. Tive que deixar a Karine em casa primeiro. Chego assim que puder. Não precisa me esperar."

A contradição descarada, os anos de gaslighting e abuso emocional, finalmente quebraram algo dentro de mim. Ele passou três anos me fazendo sentir pequena, insegura e louca, sempre priorizando o drama fabricado de Karine em detrimento do meu bem-estar.

Eu costumava pensar que amar significava suportar sua crueldade, mas ali, encharcada e traída, percebi que meu amor tinha limites.

Então, fiz uma ligação. "Sr. Matos", eu disse, com a voz firme. "Sobre aquela vaga de cinco anos no exterior, em Londres. Eu gostaria de aceitar."

Capítulo 1

A mensagem de Caio brilhou na tela, quente e exigente, acusando-me de magoar sua protegida, Karine, com uma única e inocente postagem — uma postagem que agora parecia o último suspiro de uma versão de mim que estava morrendo. Eu tinha acabado de descer do avião, o ar frio da Islândia ainda grudado em minhas roupas, um contraste gritante com a bagunça úmida que me saudou de volta em São Paulo. Minha viagem de duas semanas sozinha tinha sido planejada como uma fuga, uma forma de clarear a cabeça, mas a realidade da minha vida estava esperando. Ela me atingiu antes mesmo de eu chegar à esteira de bagagens.

Meu celular, um aparelho que eu ignorei de propósito por catorze dias gloriosos, vibrava sem parar na minha mão. Era uma avalanche digital. Chamadas perdidas de Caio: 37. Mensagens de voz: 12. Mensagens dele: tantas que não dava para contar, uma mancha de notificações vermelhas. Chamadas perdidas de Karine: 0. Mensagens dela: 0.

Meu polegar pairou sobre o contato de Caio. Eu quase não atendi. Quase.

O telefone tocou de novo, uma vibração nova e insistente. Desta vez, apertei o botão verde.

"Júlia, onde diabos você esteve?" A voz de Caio foi um ataque imediato, afiada e carregada com uma irritabilidade familiar. Sua preocupação não era com a minha segurança. Nunca era.

Respirei fundo, o ar viciado do aeroporto enchendo meus pulmões. "Acabei de pousar, Caio. Eu te disse que ficaria incomunicável."

"Incomunicável?" ele zombou. "Você estava 'incomunicável' enquanto a Karine estava tendo um ataque de pânico por causa das suas atitudes impensadas."

Meu maxilar se contraiu. "Minhas atitudes? Do que você está falando?"

"Aquela foto que você postou", ele cuspiu as palavras, cada uma uma ferroada. "A da cachoeira. A legenda. A Karine viu. Ela está arrasada."

Pisquei, tentando lembrar da postagem. Islândia. Uma cachoeira majestosa. Minha legenda tinha sido algo sobre encontrar a paz. O que poderia perturbar Karine?

"Arrasada?" repeti, a palavra soando sem graça na minha boca. "Por que uma foto de uma cachoeira deixaria a Karine arrasada?"

"Foi a sua legenda, Júlia!" A voz de Caio subiu, beirando a exasperação. "'Finalmente encontrei um lugar onde o ar não é pesado com toxicidade.' Ela acha que você estava falando dela. Ela acha que você a estava atacando."

A acusação pairou no ar, pesada e absurda. Eu nem tinha pensado em Karine quando escrevi aquilo. Eu estava pensando nele. Em nós.

"Ela está inconsolável agora", ele continuou, sua voz suavizando para um tom que eu raramente ouvia, um reservado para os 'inocentes' e 'frágeis'. "O problema de coração dela, você sabe. Estresse não faz bem para ela. Ela teve que tirar o dia de folga."

Ele estava falando sobre o problema de coração dela. De novo. Uma condição que convenientemente se manifestava sempre que ela precisava de atenção, especialmente de Caio. Meus dedos se moveram sem pensamento consciente. Desbloqueei meu celular. Naveguei até meu Instagram. Encontrei a postagem ofensiva. Uma bela cachoeira. Minha legenda. Simples. Honesta.

Toquei nos três pontos. Então, "Excluir".

A foto desapareceu, levando com ela uma pequena parte daquela paz islandesa.

"Pronto", eu disse, minha voz neutra. "Sumiu. Diga à Karine que peço desculpas por qualquer angústia que tenha causado. Não foi minha intenção. Não postarei nada vago assim novamente."

Um instante de silêncio. Ele se estendeu, estranho e perturbador. Caio, geralmente tão rápido com uma resposta, estava sem palavras.

"Ela ainda está chateada?" insisti, um toque de algo frio e afiado no meu tom. "Porque se estiver, posso redigir um pedido formal de desculpas. Talvez mandar flores. Que tipo de flores ela gosta, Caio? Algo puro, talvez? Lírios brancos, para combinar com a inocência dela?"

Outro silêncio, mais longo desta vez. Imaginei sua testa franzida, seus olhos semicerrados, tentando decifrar essa nova Júlia, desapegada.

"Júlia", ele finalmente disse, sua voz hesitante. "Você esteve fora por duas semanas. Não tive notícias suas."

A observação era tão egocêntrica, tão completamente desprovida de preocupação real por mim, que uma risada amarga ficou presa na minha garganta. Ele não estava perguntando se eu estava bem. Ele não estava perguntando se minha viagem foi boa. Ele estava apontando minha ausência como se fosse uma afronta pessoal a ele.

"Eu estava viajando", lembrei-o, minha voz calma, quase serena. "Como eu te disse que faria. Presumi que você estivesse ocupado."

"Eu estava", ele retrucou, recuperando sua arrogância. "Com a Karine. De olho nela depois daquele... incidente. Ela é muito sensível, Júlia. Você sabe disso."

"Eu sei", eu disse, e uma calma estranha se instalou sobre mim. Era como assistir a uma peça onde eu já sabia todas as falas. "E eu entendo completamente. O bem-estar dela é claramente uma prioridade."

"Você... não está chateada?" Sua voz estava carregada de incredulidade, um desafio. Ele esperava lágrimas. Ele esperava raiva. Ele esperava a antiga Júlia.

"Por que eu estaria chateada, Caio?" Minha voz estava firme. "Percebi algo sobre as emoções. Elas são como dinheiro. Você as gasta com o que importa. E o que importa tem que ser genuíno. Tem que ser real."

Eu costumava acreditar que mostrar emoção, revelar vulnerabilidade, era um sinal de coragem, um sinal de conexão profunda. Eu costumava pensar que amor significava lutar, discutir, fazer as pazes. Pensei que significava estar perpetuamente disponível para os altos dramáticos e os baixos esmagadores.

Mas eu estava errada.

Amor de verdade, cuidado de verdade, não era sobre drama fabricado ou reafirmação constante. Era quieto. Era estável. Era presente. Não era uma performance, e não era uma moeda a ser esbanjada com alguém que nunca viu seu valor. Eu tinha gasto tanto da minha riqueza emocional, apenas para encontrar a conta bancária vazia.

Caio ficou em silêncio novamente. Eu quase podia ouvir as engrenagens girando em sua cabeça, lutando para computar essa nova versão de mim.

"Eu te busco", ele finalmente ofereceu, as palavras soando ocas, um reflexo nascido do hábito em vez de um desejo genuíno. O convite parecia uma obrigação, uma tarefa que ele estava relutantemente realizando.

"Não será necessário, Caio", eu disse, meu olhar varrendo o terminal movimentado, um mundo de possibilidades se abrindo de repente diante de mim. "Já arranjei uma carona."

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