Capítulo 2

Concordei em encontrar Luca, mas seria nos meus termos.

Eu disse a Dante que precisava de espaço. Disse que não conseguia dormir na casa onde outra mulher criava meu filho. Então ele me instalou na cobertura do Hotel Moretti, na Avenida Paulista.

Era uma gaiola dourada, luxuosa e sufocante.

Saí pela entrada de serviço à meia-noite.

Luca Salvatore estava esperando em um SUV preto a três quarteirões de distância, escondido nas sombras de um beco. Ele não parecia um salvador. Parecia uma arma. Tinha uma cicatriz atravessando a sobrancelha, e seus olhos eram desprovidos de calor.

"Aqui", disse ele, me entregando um envelope pardo.

Eu o abri. Um passaporte. Uma carteira de motorista. CPF. Tudo em nome de Catarina Alves.

"Por quê?", perguntei.

"Porque você é a melhor lavadora de dinheiro que esta cidade já viu", disse ele, a voz baixa e áspera. "E porque Dante é um tolo que jogou fora um diamante para pegar um caco de vidro."

Peguei o envelope. Não agradeci. No nosso mundo, gratidão era uma dívida, e eu já estava no vermelho.

Voltei para o hotel antes do amanhecer.

Dante estava me esperando na sala de estar da suíte. Ele andava de um lado para o outro, um copo de uísque na mão, o líquido âmbar balançando contra as paredes do copo.

"Onde você estava?", ele exigiu.

"Andando", eu disse, mantendo a voz firme. "Tentando lembrar quem eu sou."

Ele se abrandou instantaneamente. Pousou o copo e veio até mim. Cheirava a colônia cara e ao perfume fraco e enjoativo de Sofia.

"Senti sua falta, Elena. Todos os dias."

Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixa de veludo. Abriu-a.

Dentro havia um enorme diamante amarelo em forma de coração. Era cafona. Era chamativo. Era tudo que eu odiava.

"Para você", disse ele. "Para substituir os anos que perdemos."

Estendi a mão. Ele deslizou o anel no meu dedo.

Não parou. Deslizou direto pela junta do meu dedo e girou frouxamente na base.

Era grande demais.

Eu tenho dedos finos. Dedos de pianista, Dante costumava dizer. Sofia tem mãos de camponesa, grossas e fortes.

Dante congelou. Ele tentou ajustá-lo, o rosto ficando vermelho.

"Deve ser... você perdeu peso", ele gaguejou. "Por causa do coma."

Puxei minha mão de volta. O anel caiu no tapete com um baque surdo.

"Foi ajustado para ela, não foi?", perguntei, minha voz fria. "Você comprou isso para ela, ela não gostou, então você deu para o fantasma."

"Elena, não, não é isso-"

Eu o cortei. "Se as famílias entrarem em guerra hoje, Dante, agora mesmo... quem você salva? Eu? Ou a mãe do herdeiro?"

Ele abriu a boca para responder.

Seu telefone tocou.

O toque era específico. Era o que ele usava para assuntos de alta prioridade da família.

Ele olhou para a tela. Seus olhos se moveram para mim, depois de volta para o telefone.

"Preciso atender", disse ele. "É urgente."

"É ela, não é?"

"É assunto de família, Elena. Volto já."

Ele saiu para a varanda, fechando a porta de vidro. Observei-o atender a chamada. Vi sua postura relaxar. Vi-o sorrir.

Ele não estava negociando uma guerra. Estava acalmando um ataque de birra.

Olhei para o anel no tapete. Brilhava sob as luzes do lustre, um milhão de reais de carbono comprimido que não significava absolutamente nada.

Eu o peguei.

Fui até a lixeira da pequena cozinha.

Joguei-o dentro. Ele bateu contra uma lata de refrigerante vazia com um som final e oco.

"Eu não sou um prêmio de consolação, Dante", sussurrei para a sala vazia.

Fui para o quarto e arrumei as poucas roupas que tinha. Coloquei os documentos de Catarina Alves no forro da minha bolsa.

Quando Dante voltou, ele parecia aliviado.

"Desculpe, amor", disse ele. "Apenas um pequeno problema com uma remessa. Agora, sobre o anel..."

Apontei para a lixeira.

"Não serviu", eu disse. "Assim como eu não sirvo mais aqui."

Capítulo 3

A Gala de Aniversário dos Moretti era mais do que uma festa; era o evento social da temporada do submundo. Era onde tréguas eram brindadas com champanhe vintage e assassinatos eram ordenados com um aceno sutil.

Dante insistiu que eu fosse. Ele queria mostrar ao mundo que a família Moretti estava inteira. Queria exibir seu milagre.

Eu usei um vestido preto. Era de seda, com as costas nuas, e parecia alta-costura de luto feita para uma passarela.

Entramos no salão de baile, e o silêncio foi instantâneo. Trezentos predadores pararam de comer para encarar a mulher que havia saído de uma cova.

Dante segurou meu braço com força, seu aperto possessivo.

Meus pais estavam na mesa principal. Eles sorriram nervosamente, erguendo suas taças em uma saudação vazia. Estavam sentados ao lado dos Bianchi.

Então, as portas se abriram novamente.

Sofia entrou.

Ela usava vermelho. Vermelho-sangue. Uma declaração.

Ela segurava a mão de Leo.

A multidão se abriu para ela como o Mar Vermelho. Ela caminhou com o queixo erguido, a rainha usurpadora vindo reivindicar seu território.

Ela caminhou diretamente até nós.

"Dante", ela ronronou, beijando sua bochecha. "E Elena. Você parece... cansada."

Ela se virou para Leo. "Olha, Leo. Diga olá para a moça."

Leo olhou para mim. Ele usava um smoking em miniatura e parecia tanto com o pai.

Eu me ajoelhei. Estendi uma mão. "Leo, sou eu. Sou a mamãe."

Leo recuou. Ele enterrou o rosto na saia vermelha de Sofia.

"Não!", ele gritou. Sua voz ecoou no salão silencioso. "Você é o monstro! Mamãe disse que você é um fantasma! Vai embora!"

A sala ofegou.

Senti como se tivessem me estripado. Olhei para Dante. Faça alguma coisa, implorei em silêncio. Diga a ele.

Dante olhou para a multidão. Vi seus olhos se moverem para os soldados Bianchi observando, medindo a trêmula aliança política.

"Leo está confuso", disse Dante em voz alta, dirigindo-se à sala. "Já faz muito tempo."

Ele não corrigiu o menino. Ele não afastou Sofia.

Minha mãe correu até nós. Ela colocou o braço em volta de Sofia. "Oh, ele está apenas cansado, coitadinho. Sofia é uma mãe tão boa para ele."

A traição foi total. Meu próprio sangue havia escolhido o lado vencedor.

Sofia sorriu para mim. Era um sorriso de pura vitória.

"Você deveria ir descansar, Elena", ela sussurrou, baixo o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir. "Os mortos não deveriam assombrar os vivos. Assusta as crianças."

Ela tirou uma pequena caixa de sua bolsa e a pressionou em minha mão. "Um presente de boas-vindas."

Eu abri. Era uma passagem de avião só de ida para a Suíça.

Eu me levantei. A dor no meu peito se cristalizou em algo afiado e frio. Gelo.

Dante tentou pegar minha mão novamente. Ele ergueu uma taça. "À família", anunciou.

"À família", a sala ecoou.

Olhei para a vela piscando na mesa.

Inclinei-me perto de Dante.

"Aproveite seu brinde", sussurrei. "Porque eu vou queimar todos eles."

O sorriso de Sofia vacilou. Ela agarrou o peito, soltando um suspiro dramático. "Oh! Estou me sentindo fraca!"

Dante imediatamente soltou meu braço. "Sofia!"

Ele a segurou enquanto ela desmaiava, um desmaio perfeito e ensaiado.

"Peguem o carro!", ele gritou para seus homens.

Ele a pegou nos braços, embalando-a como se fosse um vidro precioso. Ele correu em direção à saída, com Leo correndo atrás dele, chorando por sua mamãe.

Eu fiquei sozinha no centro do salão de baile.

Trezentas pessoas assistiram o Dom levar sua amante embora e deixar sua esposa de pé nos destroços.

Virei-me para um garçom que passava com uma bandeja de champanhe.

Peguei uma taça.

Bebi de um só gole.

Então espatifei a taça no chão.

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