Capítulo 2

Ela estava em silêncio com o livro no colo, estudando. Quem é que acorda e já começa a estudar? A Carina, é claro! Enquanto eu odeio, ela adora. Também foi a melhor aluna, sem surpresa alguma, a que tirou 10 em todas as matérias do ano passado. O senhor Roriz a elogiou pra caramba. Eu falo mal desse seu jeito focado nos estudos, mas tenho orgulho da minha amiga. Ela é incrível mesmo!

Para quebrar o silêncio, ligo o rádio. Acho que ela não vai se importar. Começa a tocar uma música que adoro: Felipe Ret - Libertina.

"Hoje ela é minha menina, linda mulher, libertinaa...

Hoje ela é minha menina, linda mulher, libertinaa…

Libe, libe, libe, libertinaa, ai, ai, ai..."

Estava curtindo a música, mas de repente não escuto mais nada. Olho para o lado e noto que a Carina está brava.

— Estava ouvindo, sabia? Não posso mais ouvir música? — Indago.

— Poder, você pode! — Disse. — MAS ESCUTA EM SOM AMBIENTE E NÃO ESTOURANDO MEUS TÍMPANOS! — Grita. Agora eram meus tímpanos que estavam estourando. Verifico minha orelha, checando se não fiquei surdo com esse grito. Olho para ela sem entender.

— Desculpa, mas adoro aquela música e não percebi que estava tão alto assim. — Digo com suavidade, voltando a atenção para a estrada.

— Tudo bem... Devo desculpas por ter falado daquele jeito. — Ela diz encolhendo os ombros. — É que... É que... — Para de falar. Tem alguma coisa aí?

— Fala, garota.

— Sabe... O que... — Me olha e depois volta a olhar pra frente. — Não é nada importante. — E muda de assunto. Oi? Sério? Aí tem. Você não me engana.

— Carina Gonçalves Martins! Diz o que aconteceu! — Ela arregala os olhos.

— Não! Você vai ficar preocupado... — Coloca o livro na altura do peito e abraça. — Não é nada... Já disse!

— Me deixa te falar uma coisa... — Minha atenção continuava na estrada, apesar de ela me deixar nervoso com todo aquele mistério. — EU JÁ ESTOU PREOCUPADO! ENTÃO FALA!

— Ok. Ok. Não precisa gritar. — Solta o ar. — Mas promete que não vai ficar nervoso? — Me analisa.

— Prometo. Fala logo. — Mencionei.

— Sabe que meu pai paga a faculdade? Depois que se separou da minha mãe, continuaria pagando, lembra? — Coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Sim. O que tem? — Não enrola, Carina! Diz logo que estou ficando ansioso, porra!

— Bem... Bem... Bem... — Gagueja.

— Fala. — Merda, estou perdendo a paciência. — Pode ir direto ao assunto, por favor!

— Meupaiparoudepagarevouterquefazerumaprovahojeparaganharumabolsa. — Olho para ela sem entender o que me disse.

— Bruno, OLHA PRA FRENTE! — Levo um susto, percebo que estou fora da estrada. Dou uma freada brusca e quase atropelei o cachorro que estava na calçada. Me viro para ver como a Carina está, tiro o cinto e vejo se não se feriu. Graças a Deus ela está bem.

— Está louco? Quase nos mata e ainda atropela o cachorrinho! — Ela me dá uma bronca. — Seu... Seu... Bobo.

— Eu estou todo preocupado com você, se não sofreu nenhum dano e você me chama de bobo? Não tem de quê. — Faço sinal de positivo pra ela e cruzo os braços.

— Aii... Desculpa... Desculpa, Bruno. — Ela tira o cinto e me abraça. — Você está bem? Não se machucou? — Começa a procurar por algum ferimento.

— Estou bem. — A afasto. — Agora me explica isso direito. Pode repetir o que você disse, mas devagar, por favor. — Ela balança a cabeça afirmativamente.

— Vou ter que fazer uma prova para ganhar uma bolsa. Meu pai parou de pagar a faculdade. — Ela diz, e não tenho como não perceber que nunca a vi daquele jeito. Insegura, nervosa, aflita…

Depois que Dona Andréa se separou do senhor Ricardo Gonçalves, dono de uma empresa que agora não me lembro o nome, ele trabalhava muito e quase não parava em casa, sempre viajando, viagens longas, de uns três meses, mais ou menos isso. Ela e a mãe tinham vida de madame. Carina só andava de táxi, usava roupas de grife, as duas iam para os melhores salões do Rio de Janeiro.

Sua mãe também tinha essa mordomia, porém não era o suficiente; faltava a presença, o amor e carinho, sentimentos que coisas materiais não substituem. Até que saiu na televisão, no programa de fofoca, que o senhor Gonçalves estava tendo um caso com uma de suas colegas de trabalho. Pior maneira de descobrir uma traição.

Então, decidiram que mesmo o casal estando separado, ele continuaria pagando a faculdade. Ele era um mau marido, mas, em compensação, era um bom pai. Sempre conversava com ela por telefone, arrumava um jeito para passar um final de semana com ela. Mas ela me contou que depois que fez uma viagem de negócios para o Canadá, ele não retornou mais as ligações. A mãe dela disse que deveria ser o trabalho, então ela parou de se preocupar.

— Ontem minha mãe recebeu uma ligação do diretor Roriz. Ele disse que meu pai parou de pagar e perguntou se ela pagaria. Ela disse que não, foi quando ele disse que abriu uma vaga de uma bolsa de 100% e que tenho que fazer uma prova hoje! Hoje, Bruno! — Encostou a cabeça no banco do carro. Estava aflita.

— Por isso que você está nervosa? — Já sem o cinto, me viro, olho para ela e pego na sua mão.

— Estou estudando desde ontem, quando minha mãe me contou... E agora, Bruno? — Cai uma lágrima de seu rosto. Droga! Chega a doer meu peito vê-la naquele estado. — Se eu não co…

— Nem se atreva a pensar isso. — Coloquei minha mão na sua boca. Não deixei que terminasse a frase. — Você consegue. É a garota mais inteligente que conheço. — Seguro seu rosto e enxugo a sua lágrima. — Lembra que teve uma prova surpresa na aula de literatura na semana passada? — Tento animá-la. Me ajeito no banco, colocando o cinto de segurança, e ligo o carro.

— S... Sim... E tirei a maior nota. Nem acreditei. Até o professor me elogiou. — Ela sorri. Detalhe: um sorriso lindo!

— Então? Você consegue! Pense positivo. — Digo.

— Tem razão, Bruno! Vou pensar positivo. Isso não vai me abalar. — Ela coloca o cinto e dá um tapa no livro que está no seu colo.

— Isso aí. — Depois de animar minha amiga, voltamos a ouvir o rádio. Ela começa a dançar e nos divertimos. Com isso, nem percebemos que chegamos ao estacionamento da faculdade. Ela voltou a ficar nervosa, e eu peguei na sua mão para acalmá-la.

— Vai dar tudo certo, Carina! Estou aqui! — Digo, e ela me abraça.

— O que seria de mim sem você? — Ela se afasta e me olha nos olhos. — Obrigada por estar ao meu lado. — Me beija no rosto e não digo nada, só balanço a cabeça. Saímos do carro e fui com ela até a sala do diretor. Porém, sinto meu coração bater mais forte depois do seu beijo. Que merda está acontecendo comigo?

Capítulo 3

Estava chegando na sala para fazer a prova. Começou bater um nervoso, um medo. Segurando minha mão Bruno me puxa.

— Calma, você consegue. — Disse ele. Balancei a cabeça afirmativamente.

 “Você consegue Carina! Você consegue Carina!” Repetia isso como um mantra em minha mente. Chegamos na diretoria. O senhor Roriz abre a porta, dou um salto e acabei nos braços do meu amigo por conta do susto.

— Pensei que não vinha mais, senhorita Martins. — Diz com deboche. Nunca fui com a cara desse diretor. — Achei que tinha desistido. — Ajeita os óculos. Analisou Bruno e eu, já que estávamos abraçados.

— NÃO! — Dei um berro e ele se assustou. — Quero dizer, não desisti. Só tive um imprevisto no caminho. — Olhei para o meu amigo que desviou o olhar.

— Ok, senhorita Martins. Vamos entrar para fazer essa prova? — Deu passagem para que eu pudesse entrar. — Não podemos ficar aqui fora de prosa, venha!

— S... Sim... — Estava prestes a entrar, Bruno me segura, incentivando que ia dar tudo certo. Estava todo carinhoso comigo.

— Vou te esperar aqui fora. — O senhor Roriz se aproxima e diz que meu amigo não poderá fazer isso. Bruno fica sem entender, já que chegamos cedo e a aula não tinha começado. Quando ia debater, o diretor disse que o treinador queria conversar com ele.

— Como assim? Não tenho nada pra falar com ele. — Rebate. Estava ao seu lado, com o braço na minha cintura. E eu observando aquela conversa.

— Já disse. Está surdo rapaz? — Ele encara Bruno. — Ele quer falar com você e pronto! — Diz todo rude. Meu amigo ia dar uma resposta, então falei no seu ouvido.

— Você não vai fazer nenhuma besteira, né? — Olha para mim, depois olha para o diretor. Segurei seu queixo entre os dedos e virei para mim. - Vou ficar bem. Vai lá ver o que ele quer. — Compreende, balança a cabeça em sinal de confirmação, antes que eu possa entrar, me dar um abraço forte... Pegando-me de surpresa.

— Vai lá e arrasa! — Sussurra no meu ouvido. Não digo nada, só balanço a cabeça e dou um sorriso. Ele se afasta e vai ao encontro do treinador.

— Vamos entrar, senhorita Martins? — Avistei meu diretor parado ali só me observando. Entro na sala, ele fecha a porta. Pede para eu sentar numa mesa redonda de cor marrom e entrega a prova.

Vamos lá Carina, você consegue!

Foram as duas horas mais longas da minha vida. Não pela prova, pois enquanto fui fazendo, fui me acalmando aos poucos.

Quanto tempo durou? Uns trinta minutos? Ou vinte e cinco? Ah... Sei lá. Só sei que conseguir fazer a prova.

Sabe as duas horas que falei? Então, estava esperando meu querido diretor. Até parece, aff... Ele estava corrigindo e começou a bater um nervosismo, uma ansiedade. Poxa, que demora em corrigir uma bendita prova! Ai, ai. Vai que eu tenho um enfarte fulminante?!

Um dia vi uma pesquisa que pessoas que sofrem de ansiedade por esperarem uma prova para ganhar uma bolsa de estudo, tipo eu com essa, correm um risco maior de terem um infarto...

Ok, eu acabei de inventar isso. Mas, e se acontecer?

Comecei a bater os pés embaixo da mesa.Com isso o diretor olha para mim, acho que percebeu minha ansiedade. O Sr. Roriz levantou-se de sua mesa e veio na minha direção.

Ai meu Deus! Acho que meu coração vai sair pela minha boca agora!

— Não precisa ficar mais nessa impaciência toda. — Parei na mesma hora. — Já está corrigida a sua prova. — Entregou e continuou — Tirou a nota máxima. Parabéns. Conseguiu a bolsa!

— MEU DEUS! MEU DEUS! EU CONSEGUI! — Gritei de tanta felicidade, saltei da cadeira que estava, fui em direção do senhor Roriz e dei-lhe um abraço.Acho que não estava esperando, pois noto que ficou sem graça pela minha atitude. Afasto-me e agradeço mais uma vez.

Vou até a mesa, pego minha mochila, agradeço novamente por ele ter dado mais uma chance para fazer a prova, mesmo chegando atrasada. Sei que ele detesta atraso, mas mesmo assim deixou-me fazer.

Estava saindo da sala, quando ele disse que sou uma ótima aluna, não tem o que reclamar de mim, mas fez questão de dar "conselho", mesmo que eu não o tenha pedido. Para eu ter cuidado com "certas amizades" que no futuro poderiam me prejudicar. Não respondi, queria sair logo dali, mas ficou claro que ele estava se referindo ao Bruno. Até parece que ia dar ouvidos para aquele sem noção do senhor Roriz. Eu estava grata por ele ter perdoado meu atraso, mas isso não dava direito dele querer palpitar sobre minhas amizades.

Eu consegui a bolsa de estudo!Pensei em ir até a sala do treinador para dar a notícia ao Lu, mas olho a hora e vejo que faltavam três minutos para a aula, e decido só mandar uma mensagem pra ele.

Pronto! Já foi. Tomara que não seja grave a conversa com seu treinador. Apesar de que ele sempre se safa dos problemas.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED