Alina Ferraz POV:
O ar no hall de entrada tinha gosto de cinzas. Meus ouvidos zumbiam e o mundo inclinou-se perigosamente. Encarei Ricardo, procurando por qualquer sinal dele, qualquer indício de que aquilo era uma piada cruel, mas seu rosto permaneceu impassível, seu olhar fixo em Larissa. Meu coração, que eu pensei já ter morrido mil mortes, encontrou uma nova maneira de se partir.
Larissa nos guiou para a sala de estar, seus movimentos fluidos e confiantes, como se fosse a dona do lugar. Ela me ofereceu um lugar no sofá de creme macio, uma nova adição que substituía o de couro gasto que eu costumava amar.
"Está com fome, querida?" ela perguntou, sua voz escorrendo uma preocupação açucarada. "Acabei de fazer um risoto de cogumelos incrível. Ricardo simplesmente adora."
Meu estômago se contraiu, um nó frio de náusea se formando lá no fundo. O cheiro rico e terroso do risoto, geralmente reconfortante, agora parecia zombar de mim. Era uma cena doméstica, quente e convidativa, mas eu me sentia como uma observadora alienígena, separada por uma vidraça impenetrável. A comida parecia veneno, um lembrete amargo de uma vida que eu cobicei e nunca tive.
Ricardo sentou-se ao lado de Larissa, sua mão repousando casualmente no joelho dela. Ele riu de algo que ela sussurrou, um som baixo e vibrante que costumava me arrepiar, mas agora apenas ecoava com uma dor oca. Suas cabeças estavam próximas, seus corpos alinhados, uma imagem perfeita e íntima de um casal profundamente apaixonado. Era uma cena arrancada dos meus sonhos mais agonizantes, agora se desenrolando em uma realidade vívida e esmagadora.
Eu não conseguia suportar assistir. Meu olhar caiu, fixando-se no padrão intrincado do tapete, qualquer coisa para evitar a visão de seu afeto sem esforço. Cada olhar compartilhado, cada toque gentil, era uma nova ferida, torcendo a faca mais fundo no meu peito.
"Eu... acho que vou subir para o meu quarto", murmurei, levantando-me do sofá. As palavras pareciam estranhas, forçadas. Eu precisava escapar, encontrar um lugar onde a felicidade deles não pudesse me alcançar.
O sorriso de Larissa não vacilou. "Ah, claro, querida. Você deve estar exausta. Ah, a propósito, espero que não se importe, mas eu tirei alguns daqueles arbustos velhos e feios do jardim. Eles estavam bloqueando a luz, sabe? E Ricardo concordou, eles precisavam ir."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Os arbustos velhos e feios. Meus arbustos. Os que eu plantei com meu pai, no dia seguinte à partida da minha mãe, um pequeno ato de desafio contra o vazio. A cada ano, eles floresciam com pequenas e desafiadoras flores brancas, um lembrete frágil de uma memória que se desvanecia.
"Os... os jasmins?" perguntei, minha voz mal um sussurro.
Ricardo finalmente olhou para mim, sua expressão indecifrável. "Larissa queria mais espaço para sua horta de ervas. É mais prático."
Prático. Esse era o Ricardo. Tudo se resumia à lógica, à utilidade. Meu coração, minhas memórias, nunca foram práticos.
"Certo", consegui dizer, a única palavra com gosto de poeira na minha boca. Minha voz estava desprovida de emoção, uma lousa em branco para combinar com a dele. A dispensa casual de algo tão precioso para mim pareceu um insulto final. Aqueles arbustos eram um elo tangível com meu passado, um confidente silencioso através de anos de solidão. Agora, eles se foram, substituídos pelas ervas práticas de Larissa.
Virei-me e me afastei, cada passo pesado, me arrastando ainda mais para o abismo do meu desespero. Eu só precisava do meu quarto, meu santuário, o único lugar onde eu poderia lamber minhas feridas em paz. Cheguei à porta familiar, minha mão tremendo levemente enquanto a empurrava.
Mas não era meu quarto.
As paredes, antes pintadas de um azul suave, agora eram de um carmesim vibrante e agressivo. Minha velha escrivaninha, empilhada com livros e esboços, desaparecera, substituída por um cavalete reluzente e uma tela meio acabada. O quarto zumbia com uma energia artística estranha, alienígena e hostil. Meu estômago despencou.
Ricardo apareceu atrás de mim, sua voz calma, seca. "Larissa precisava de um espaço de estúdio. Seu antigo quarto tinha a melhor luz." Ele gesticulou vagamente para a grande janela. "Nós mudamos suas coisas para o quarto de hóspedes no terceiro andar. É mais... privado."
Mais privado. Mais distante. Mais fora do caminho.
Assenti lentamente, incapaz de falar, incapaz de protestar. As palavras se alojaram em algum lugar na minha garganta, me sufocando. Meu quarto, meu último refúgio, fora sistematicamente desmontado, apagado, reaproveitado para outra pessoa. Para ela.
Meus olhos se desviaram para a tela no cavalete. Era um retrato, pintado vibrantemente. Ricardo. Seu perfil severo, mas suavizado, um toque de sorriso brincando em seus lábios, uma intimidade que eu nunca testemunhara. Abaixo do retrato, em pinceladas confiantes, havia uma data. Seis meses atrás.
Seis meses atrás. Muito antes de eu finalmente desistir de provocá-lo, muito antes de ser pega na delegacia. Muito antes de ele me trazer para "casa". Ele estava saindo com ela, amando-a, pintando-a. Tudo enquanto eu estava lá fora, desesperada por uma migalha de sua atenção, estourando cartões de crédito e me metendo em encrencas, acreditando tolamente que meu caos poderia abalá-lo de sua indiferença.
A percepção me atingiu como um maremoto, me afogando em um mar de traição e desespero esmagador. Ele havia seguido em frente. Ele nunca esteve comigo, não de verdade. Eu era uma criança a ser gerenciada, uma tutelada a ser abrigada, mas nunca amada. Nunca escolhida. Minha cabeça latejava, uma batida implacável de agonia. Meus joelhos enfraqueceram, e agarrei o batente da porta para não desabar.
Mais tarde naquela noite, enrolada no quarto de hóspedes estranho, as paredes carmesim do meu antigo espaço zombando de mim, rolei pelas redes sociais públicas de Larissa. Era um rolo sem fim de seu romance florescente. Fotos deles em galerias de arte, o braço dele ao redor dela. Ela rindo, radiante, agarrada ao lado dele. A linha do tempo era condenatória. Encontro após encontro, revelando um relacionamento que floresceu rapidamente, publicamente, apaixonadamente.
Então eu vi. Um vídeo. Ricardo, de joelhos, contra um cenário de luzes da cidade cintilantes, uma caixa de veludo aberta em sua mão. O grito de alegria de Larissa. Seu rosto, geralmente uma máscara de controle estoico, estava iluminado com afeto genuíno, uma ternura que fez meu estômago revirar.
"Quer casar comigo, Larissa Castro?" ele sussurrou, sua voz embargada de emoção.
A mesma voz que descartou meu amor como "doentio" e "infantil". A mesma voz que nunca me disse aquelas palavras, nem mesmo em afeto casual.
Ele a amava de verdade. Isso não era um arranjo, um show falso para mim. Isso era amor de verdade, do tipo que eu sempre desejei dele. E ele estava dando a outra pessoa, tão facilmente, tão livremente. Todo o calor, todo o afeto, toda a conexão profunda e duradoura que eu ansiava, ele oferecia a ela sem pensar duas vezes. Para mim, era dever frio; para ela, era devoção sem limites. A percepção foi um golpe final e devastador. Meu coração não estava apenas partido; estava pulverizado.
Assisti ao vídeo até meu celular morrer em minhas mãos, a tela ficando preta, me deixando na escuridão sufocante. O sono não veio, não podia vir. Minha mente repassava cada momento terno, cada olhar amoroso, cada risada cheia de alegria dos vídeos. A imagem de Ricardo, de joelhos, seus olhos cheios de adoração, queimava por trás das minhas pálpebras.
Pouco antes do amanhecer, um som abafado veio do andar de baixo. Um gemido suave, depois um murmúrio baixo e masculino. A cobertura foi projetada para isolamento acústico, mas no silêncio opressivo da noite, com meus sentidos hiperalertas, os sons íntimos se propagaram. Meu corpo enrijeceu, um pavor frio subindo pela minha espinha. Meu coração batia forte, um tambor frenético contra minhas costelas. Eram eles. Ricardo e Larissa. Os sons eram inegáveis, inconfundíveis.
Uma onda de humilhação, ardente e crua, me invadiu. Tapei a boca com as mãos, abafando um soluço. Minhas bochechas queimavam, meu corpo inteiro rígido de choque e autoaversão. Eu queria desaparecer, sumir no ar, escapar da realidade esmagadora que se desenrolava apenas alguns andares abaixo de mim.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, silenciosas e escaldantes. Rastejei para debaixo das cobertas, puxando o edredom sobre a cabeça, como se aquela barreira frágil pudesse bloquear a verdade. Os sons continuaram, uma sinfonia cruel de sua felicidade, sua intimidade, seu vínculo inegável. Eu não conseguia respirar. Não conseguia pensar. Tudo o que eu sabia era uma necessidade avassaladora e desesperada de estar em qualquer lugar, menos aqui. Eu tinha que ir embora. Para sempre.
Na manhã seguinte, desci as escadas furtivamente, meus olhos ardendo de uma noite sem dormir, minha alma pesada com uma determinação que eu não sabia que possuía. Ricardo estava no balcão da cozinha, não sozinho. Larissa estava com ele, empoleirada em um banquinho, seu cabelo ruivo flamejante um toque vibrante contra seu terno escuro. Ele estava gentilmente escovando o cabelo dela, seus dedos ternos, seu olhar suave. Ele estava fazendo por ela o que nunca fizera por mim.
Minha garganta parecia crua. Limpei-a, forçando uma expressão neutra no rosto. "Estou indo para a faculdade", anunciei, minha voz monótona, sem emoção.
Ricardo apenas assentiu, seus olhos ainda em Larissa. Ele não se despediu, não perguntou quando eu voltaria. Ele nem mesmo registrou verdadeiramente minha presença. Minhas palavras pairaram no ar, não ouvidas, não reconhecidas.
Uma profunda sensação de vazio se instalou sobre mim. Não havia lugar para mim aqui. Não mais. Eu era uma intrusa, um fantasma assombrando uma casa que não era mais minha. Isso não era apenas uma ausência física; era emocional. Eu fui apagada.
Saí pela porta e não olhei para trás. Fui direto para a secretaria da universidade. Eu precisava de um novo caminho, um novo futuro, um que não envolvesse Ricardo Veiga ou o peso esmagador de sua indiferença. Eu precisava de uma saída.
Encontrei a Professora Helena Matos, minha orientadora acadêmica, em seu escritório, cercada por pilhas de trabalhos de pesquisa. "Professora Helena", comecei, minha voz firme apesar da turbulência interna, "gostaria de perguntar sobre as oportunidades do programa de pós-graduação antecipada. Aquele em Campinas."
Ela ergueu os olhos, seus óculos empoleirados no nariz. "Alina? O programa da Unicamp? Eu te ofereci isso no semestre passado, e você recusou. Disse que tinha 'outros compromissos'." Suas sobrancelhas se ergueram, um toque de surpresa em seu tom.
Baixei o olhar, um lampejo de vergonha surgindo. "Eu sei, professora. Eu... cometi um erro. Mas agora estou pronta. Estou verdadeiramente pronta. Quero me inscrever. Eu preciso disso."
Minha voz falhou na última palavra, traindo o apelo desesperado por dentro. Encontrei seu olhar, implorando silenciosamente por uma chance de escapar da minha realidade sufocante.
Alina Ferraz POV:
No passado, minhas ameaças de deixar Ricardo eram sempre apelos mal disfarçados por atenção. "Vou me mudar", eu declarava, minha voz tingida de uma bravata artificial, secretamente esperando que ele segurasse meu braço, me dissesse que eu estava sendo tola, que meu lugar era aqui com ele. Ele nunca o fez. Ele simplesmente assentia, sua expressão indecifrável, e dizia: "Se você realmente acredita que é o melhor, Alina, você tem meu apoio."
Suas palavras eram como um banho de água fria, apagando qualquer faísca restante de desafio. Ele nunca lutou por mim. Nunca.
Mas desta vez, era diferente. Desta vez, enquanto eu estava no escritório da Professora Helena, meu coração não doía para que ele me impedisse. Doía por uma fuga. Eu não esperava uma reação; eu esperava um novo começo. Eu não diria a ele que estava indo embora. Eu simplesmente iria.
A Professora Helena me estudou por um longo momento, seu olhar surpreendentemente gentil. "A vida é uma série de escolhas, Alina", ela disse, sua voz suave, mas firme. "Algumas são feitas por você, mas as mais importantes você tem que fazer por si mesma. E às vezes, a escolha mais difícil é a que te liberta."
Ela empurrou os óculos para cima no nariz. "O programa da Unicamp é altamente competitivo. Você precisaria concluir todos os seus projetos finais, enviar uma proposta de pesquisa estelar e garantir uma carta de recomendação minha. Tudo em um mês."
Uma nova onda de lágrimas ardeu em meus olhos, mas eu as pisquei de volta ferozmente. Era isso. Minha tábua de salvação.
"Eu farei isso, professora", sussurrei, minha voz embargada de emoção. "Eu prometo. Não vou te decepcionar."
A determinação, feroz e inflexível, queimou através de mim.
Mergulhei nos meus estudos com um foco singular e desesperado. Dias se transformaram em noites, alimentados por cafeína e um impulso implacável. Eu acreditava que, se me mantivesse ocupada o suficiente, se trabalhasse duro o suficiente, a dor ardente no meu peito diminuiria, o vazio se preencheria e eu finalmente superaria o fantasma da indiferença de Ricardo. Era uma mentira, um escudo frágil contra a agonia, mas era tudo o que eu tinha.
Uma noite, voltei cambaleando para a cobertura, a hora tardia, o prédio estranhamente silencioso. Abri a porta do quarto de hóspedes — meu novo quarto — e congelei. Ricardo estava lá, sentado na beira da cama, um livro aberto em seu colo. Ele ergueu os olhos, seus olhos escuros encontrando os meus.
Meu coração deu um solavanco estranho, uma mistura de medo e um lampejo indesejado da velha esperança. Agarrei minha mochila com mais força, minha guarda imediatamente erguida.
"Ricardo", eu disse, minha voz monótona, cautelosa.
Ele fechou o livro, colocando-o cuidadosamente na mesa de cabeceira. Em sua mão, ele segurava um pequeno medalhão de prata. Meu medalhão. Aquele com a foto do meu pai dentro, que ele me dera no meu décimo aniversário. Eu não o usava há anos, tinha esquecido dele no caos da minha mudança.
"Eu encontrei isso", ele disse, sua voz mais suave do que eu esperava. "Estava na gaveta da sua antiga escrivaninha."
Uma pontada, aguda e inesperada, torceu meu peito. Aquele medalhão. Um pedaço tangível do meu pai, um símbolo do amor que eu perdi, o amor que Ricardo substituiu. Ele o segurava com tanta delicadeza, quase reverentemente. Meu olhar demorou nele, uma ponte frágil para um passado que parecia cada vez mais distante.
Permaneci em silêncio, incapaz de reconciliar este gesto gentil com a frieza que ele me mostrara por meses. Suas ações eram um emaranhado confuso de cuidado e desapego, me puxando em direções opostas.
Ele interpretou mal meu silêncio. Sua voz suavizou ainda mais. "Alina, eu sei que você está chateada. Mas fugir, causar problemas... não é a resposta. Não fique com raiva de mim."
Suas palavras eram quase um apelo, mas a suposição subjacente de que eu estava meramente "com raiva" ou "emburrada" foi como um tapa.
Seu calor inconsistente era uma armadilha cruel. Em um minuto, ele estava me cortando de sua vida, no seguinte, ele estava segurando uma memória preciosa. Era um ciclo que eu conhecia muito bem — sua preocupação branda, meu apego desesperado, seguido por sua retirada inevitável. Esse empurra e puxa era exaustivo, um dreno constante em minhas reservas emocionais.
Era doentio, esse constante chicote emocional. Meu amor por ele, antes um fogo rugindo, era agora uma brasa fumegante, ocasionalmente se inflamando com uma rajada cruel de vento, apenas para ser extinta novamente. O peso de tudo isso, o ciclo interminável de esperança e desespero, me deixou sentindo totalmente esgotada, oca.
"Não estou com raiva, Ricardo", eu disse, minha voz firme, desprovida da emoção que se agitava dentro de mim. "E não estou 'emburrada'."
As palavras eram verdadeiras. Eu não estava mais com raiva; eu estava apenas... farta.
Ele franziu a testa, um lampejo de irritação em seus olhos, mas não insistiu. Ele sempre odiava quando eu não me encaixava em suas caixinhas arrumadas de emoção. Ele tirou um convite ornamentado do bolso, o papel cartão pesado brilhando sob a luz suave da lâmpada. Ele me entregou.
"Meu escritório está organizando sua gala de caridade anual na próxima semana. É um evento importante. Espero que você esteja lá."
Não era um pedido. Era uma ordem, entregue com a autoridade silenciosa que ele sempre exercia.
"Ok", respondi, a única palavra uma rendição silenciosa. Eu não tinha energia para lutar com ele.
"E Alina", ele acrescentou, sua voz endurecendo ligeiramente, "não faça uma cena. Larissa estará lá. Não quero que ela fique chateada."
A ameaça não dita pairava pesada no ar. Sua prioridade, como sempre, era ela. Os sentimentos dela. Não os meus.
A dor familiar no meu peito se intensificou. Eu não consegui me conter. "Você a ama, Ricardo?"
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las, cruas e desesperadas.
Ele simplesmente olhou para mim, seus olhos escuros, sem piscar, indecifráveis. O silêncio se estendeu, longo e agonizante. Ele não disse nada. Mas em seus olhos, no sutil aperto de sua mandíbula, na maneira como ele evitou meu olhar, eu vi. A resposta. Um claro e inegável "sim".
Na manhã seguinte, tentei deslizar para o banco do passageiro de seu carro, aquele que eu sempre ocupei, uma tradição silenciosa. Mas uma bolsa de grife, transbordando com os materiais de arte de Larissa, estava lá, um marcador vibrante e inegável de sua presença. Era uma bolsa nova, cara, uma declaração flagrante de seu território.
Larissa saltou da cobertura, seu cabelo ruivo capturando a luz da manhã. "Ah, Alina!" ela disse animadamente, um sorriso conhecedor brincando em seus lábios. "Esse lugar é meu agora, querida. Ricardo diz que eu enjoo no banco de trás."
Ela piscou, um gesto cruel e brincalhão.
Meu estômago despencou. Ela não apenas tomara meu lugar em seu coração; ela estava sistematicamente me apagando de todos os cantos de sua vida. Até o banco do passageiro, meu pequeno e familiar conforto, agora era dela. Fui substituída. Completamente.
Mudei para o banco de trás, encolhendo-me no canto, uma sombra pequena e insignificante. A viagem foi uma sinfonia de suas risadas compartilhadas, suas brincadeiras fáceis, a mão de Larissa muitas vezes repousando no braço de Ricardo. Eles discutiram arte, direito, seus planos para o fim de semana. Eu ouvi, minha presença despercebida, um vazio silencioso e doloroso no fundo. Suas palavras, sua intimidade, pressionavam-me, sufocando-me com sua felicidade sem esforço.
A gala foi realizada em um salão grandioso e opulento. O ar zumbia com conversas sussurradas e o tilintar de taças de champanhe. Larissa, deslumbrante em um vestido carmesim, levou Ricardo a uma exibição proeminente.
Minha respiração ficou presa. Era uma pintura, enorme e impressionante, dominando a parede. Um redemoinho vibrante, quase violento de cores, retratando o rosto de uma mulher, devastado por lágrimas, seus olhos arregalados com uma dor crua e primal. Era um autorretrato, a assinatura de Larissa ousada e inconfundível no canto.
"Esta", anunciou Larissa, sua voz ressoando com paixão performática, "chama-se 'A Musa Não Correspondida'. É sobre a natureza sufocante de um amor que nunca pode ser retribuído, a agonia de ansiar por alguém que te vê como nada mais que uma criança."
Ela olhou para mim então, seus olhos brilhando com uma malícia triunfante. "Você entende, Alina?"
Senti um pavor frio se espalhar por minhas veias. Ela sabia. Ela tinha visto através de mim, através do meu coração partido, através do meu amor desesperado e não dito por Ricardo.
"Eu-"
"É uma peça poderosa, não é?" Larissa interrompeu, virando-se para Ricardo com um sorriso deslumbrante. "Então, querido, o que você acha? Meu trabalho mais pessoal."
Ricardo estudou a pintura, sua expressão em branco. Então, ele falou, sua voz seca e precisa, desprovida de emoção. "É... vívido. Mas acho essas exibições abertas de afeto não correspondido... cansativas. Doentias, até. Falam de uma falta de maturidade."
Suas palavras me atingiram, um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Ele estava falando de mim. Ele estava dissecando minha alma, minha dor mais profunda, e considerando-a imatura. Larissa pintara meu coração partido, e Ricardo o desprezara publicamente. A humilhação era um inferno ardente, consumindo cada pedaço da minha dignidade.
Minha visão embaçou. Minha cabeça ficou leve, minhas pernas instáveis. Eu não conseguia respirar. Tinha que sair. Virei-me abruptamente, tropeçando para longe da pintura, dele, dela.
"Alina, você está bem?" A voz de Larissa, tingida de falsa preocupação, me seguiu. "Você parece um pouco pálida, querida. Minha arte te afetou tanto assim?"
Cerrei a mandíbula, forçando um sorriso apertado e desdenhoso. "Estou bem, Larissa. Apenas um pouco sobrecarregada pela... profundidade emocional pura", eu disse, o sarcasmo grosso o suficiente para cortar com uma faca.
Ela riu baixinho. "Claro. Bem, se precisar de alguma coisa, estou aqui. Somos família agora, afinal." Ela deu um passo mais perto, sua voz caindo para um sussurro conspiratório. "Deixe-me andar com você. Você parece que vai desmaiar."
Mas sua bondade fingida desapareceu assim que estávamos a alguns passos de Ricardo. Seus olhos endureceram, seu sorriso se torcendo em um escárnio venenoso.
"Não pense que não percebi, garotinha. Todos os seus joguinhos patéticos, suas tentativas desesperadas de se agarrar a ele. Acabou. Ele me escolheu. E sempre vai me escolher." Sua voz era um silvo baixo e perigoso, mal audível acima do murmúrio geral da multidão. "Ele só quer que você suma."