Ponto de Vista: Helena
O ar estéril do hospital grudava em minhas roupas enquanto eu seguia Arthur, meu corpo se sentindo frágil e fino, um fantasma em sua órbita frenética. Ele não tinha me dito uma palavra desde que chegamos, todo o seu ser focado na porta fechada do quarto particular de Bianca.
Quando o médico saiu, Arthur correu para frente, suas mãos agarrando o jaleco branco do homem.
"Como ela está?"
"Ela está bem, Sr. Ferraz. Apenas uma concussão leve e um pulso torcido. Ela precisará descansar."
Os ombros de Arthur caíram com um alívio tão profundo que era quase palpável. Ele murmurou seus agradecimentos, seu olhar já fixo na porta, e quando ela se abriu e Bianca emergiu, pálida e delicada com uma bandagem no pulso, seu mundo se estreitou para ela. Ele a envolveu com o braço, seu toque infinitamente gentil, sussurrando palavras de conforto que eu nunca o ouvi pronunciar.
Ele nem sequer olhou na minha direção. Eu era invisível. Um móvel. Era uma sensação familiar, mas pela primeira vez, não doeu. Era simplesmente um fato.
Ele levou Bianca embora, seu braço um escudo protetor ao redor dela. Fiquei sozinha no corredor por um longo momento antes de me virar e sair do hospital, pegando meu próprio táxi de volta para a cobertura que nunca pareceu um lar.
De volta ao vasto e vazio apartamento, tentei fazer uma xícara de chá, mas minhas mãos tremiam. A delicada xícara de porcelana, parte de um conjunto que Daniel me dera de aniversário, escorregou da minha mão. Ela se estilhaçou no chão de mármore, o som ecoando a fragmentação da minha ilusão de quatro anos.
Foi isso que me quebrou. Não a negligência de Arthur, não os sorrisos de escárnio de Bianca, mas os pedaços quebrados de uma memória. Um soluço rasgou minha garganta, cru e áspero.
"Daniel", sussurrei, caindo de joelhos em meio aos cacos. "Daniel."
Minha mente voou de volta para ele, para o calor fácil de seu amor. Era ele quem me envolvia em um cobertor quando eu adormecia no sofá, quem sabia exatamente como eu gostava do meu café, quem beijava a ponta do meu nariz só para me fazer sorrir. Uma vez, quando cortei meu dedo, apenas um pequeno corte de uma faca de cozinha, ele tratou como um ferimento grave, limpando-o com um cuidado exagerado, sua testa franzida em concentração, antes de colocar um curativo com tema de desenho animado e beijá-lo para sarar.
A dor na minha mão agora era aguda quando um pedaço da porcelana quebrada cortou minha palma. O sangue brotou, pingando no chão branco. Eu encarei as gotas vermelhas, um contraste gritante com o mármore limpo e frio. Essa dor era real. Tangível. Não como a dor fantasma que eu vinha perseguindo por quatro anos.
Algo daquilo foi real? Aquele amor desesperado e avassalador que eu pensei sentir por Arthur? Não. Era uma miragem. Uma projeção da minha dor em um recipiente conveniente.
Um novo sentimento começou a borbulhar através da tristeza — uma determinação feroz e fria. São Paulo. Caio Montenegro. Um novo começo. Um de verdade.
Levantei-me, tirando cuidadosamente o caco de porcelana da minha palma e envolvendo minha mão em uma toalha de papel. Então fui ao meu escritório e abri os papéis do divórcio que minha advogada havia enviado por e-mail. Limpos, simples, irrevogáveis.
Liguei para minha advogada, Sara.
"Estou com os papéis. Você pode enviá-los para a assinatura de Arthur?"
"Ele precisa assiná-los pessoalmente, Helena", disse ela gentilmente. "Ou dar autorização verbal para que alguém assine em seu nome."
Claro. Outro obstáculo. Disquei o número de Arthur, meu coração uma batida firme e regular no peito. Ele atendeu no segundo toque, sua voz impaciente.
"O que foi, Helena? Estou ocupado."
"Preciso que você autorize minha advogada a-"
Ele me interrompeu.
"Agora não."
Ao fundo, ouvi a voz suave e enjoativa de Bianca.
"Arthur, querido, pode me ajudar com este travesseiro? Não está muito bom."
E então eu ouvi. Um tom que eu nunca, jamais, tinha ouvido de Arthur. Era gentil, paciente, quase terno.
"Claro, Bia. Deixa eu arrumar para você. Assim?"
O contraste foi um golpe físico. A dispensa fria para mim, a ternura sem limites para ela. Foi a confirmação final que eu nunca soube que precisava.
De repente, a voz de Bianca voltou, mais alta desta vez.
"É a Helena? Aff, diga a ela para parar de te incomodar."
Houve um som abafado, e então a voz de Arthur voltou, ainda curta, mas com uma nova ponta.
"Tudo bem. Seja o que for, diga à sua advogada para cuidar disso. Autorize o que precisar."
Ele desligou.
Foi tão fácil. Ele me deu permissão para terminar nosso casamento sem pensar duas vezes, tudo para apaziguar a mulher ao seu lado.
Passei a mensagem para Sara. Em uma hora, um mensageiro chegou. Espalhei os papéis na mesa de jantar onde Arthur e eu nunca havíamos compartilhado uma refeição.
Assinei meu nome. Helena Soares. Não Ferraz. A tinta era preta e final.
Liberdade.
Com os papéis despachados, comprei uma passagem só de ida para São Paulo. Primeira classe. O voo era para depois de amanhã. Eu precisava de mais um dia para fazer as malas, para cortar os laços finais.
Arthur não voltou para casa naquela noite, nem no dia seguinte. Fiz as malas em paz, uma estranha sensação de libertação preenchendo os espaços vazios nos armários. Não havia muito o que levar. A maior parte desta vida pertencia a ele.
Na noite do segundo dia, ele finalmente entrou. Parecia cansado, mas contente. Ele viu minhas malas prontas perto da porta e franziu a testa.
"Indo a algum lugar?", ele perguntou, um toque de aborrecimento em sua voz.
Ele caminhou em minha direção, estendendo a mão para segurar meu rosto, um gesto raro e displicente que ele às vezes fazia quando queria algo.
"Não fique chateada com a Bianca. Eu vou te compensar."
Eu me afastei de seu toque. Sua mão congelou no ar. Ele me olhou, realmente me olhou, pela primeira vez em dias, e a confusão nublou suas feições.
"Não preciso que você me compense, Arthur", eu disse, minha voz calma como um lago congelado. "Não preciso de mais nada de você."
Ponto de Vista: Helena
Virei-lhe as costas, um movimento simples que pareceu construir um muro, tijolo por tijolo silencioso. Fui até minhas malas, verificando as etiquetas uma última vez. Florianópolis (FLN) para São Paulo (CGH). Minha nova vida.
Atrás de mim, o silêncio era pesado. Eu podia sentir a confusão de Arthur irradiando pela sala. Ele estava acostumado com minhas lágrimas, meus apelos silenciosos por atenção, meus silêncios magoados. Essa calma fria e distante era uma linguagem que ele não entendia. Um sentimento oco começou a florescer em seu peito, um vazio desconhecido onde minha adoração constante e inabalável costumava estar. Ele provavelmente descartou isso como aborrecimento, um lampejo de irritação com minha súbita rebeldia. Ele era um homem que racionalizava as emoções até que elas deixassem de existir.
"Você ainda está brava", ele finalmente disse, sua voz tingida com uma espécie de paciência cansada, como se estivesse lidando com uma criança birrenta. Ele foi até a cozinha e se serviu de um copo de uísque, o tilintar do gelo contra o vidro o único som.
Virei-me para encará-lo, apoiando-me em minha bagagem.
"Onde está a Bianca?", perguntei, meu tom leve, conversacional. "Você não deveria estar com ela?"
Ele tomou um gole de sua bebida, seus olhos se estreitando. Ele pensou que isso era uma nova tática, um estratagema sarcástico para chamar a atenção.
"Ela está em casa, descansando. Os pais dela estão com ela." Ele girou o líquido âmbar em seu copo. "Olha, Helena, eu sei que estive... ausente. A festa de gala é na próxima semana. Iremos juntos. Vou te comprar aquele colar que você estava olhando."
Um suborno. Uma tentativa barata e impensada de amenizar as coisas, como ele sempre fazia. No passado, eu teria me agarrado a essa pequena oferta, a essa migalha de atenção. Agora, era apenas insultante.
"Não estou interessada na festa de gala, Arthur", eu disse. "Nem no colar."
Sua mandíbula se contraiu.
"Não seja difícil. Desfaça as malas. Saímos em uma hora para jantar com meus pais."
Antes que eu pudesse recusar, ele se aproximou, agarrou meu braço e me puxou em direção ao quarto. Seu aperto era como ferro.
"Vá se trocar." Não era um pedido.
Na viagem silenciosa para a mansão de seus pais, seu telefone tocou.
"É a Bianca", ele disse, não como um pedido de desculpas, mas como uma constatação. Uma crise que só ele poderia resolver. Ele parou o carro abruptamente. "Saia", disse ele, seus olhos já distantes, focados em seu telefone. "Pegue um táxi. Tenho que ir até ela."
Ele me deixou na beira de uma estrada mal iluminada, sem pensar duas vezes, pela segunda vez em três dias. A humilhação nem sequer registrou mais. Eu simplesmente observei suas luzes traseiras desaparecerem, depois chamei um Uber.
No dia seguinte, recebi uma mensagem de um dos amigos de Arthur, um banqueiro bajulador chamado Tadeu. 'Festa na boate hoje à noite. Arthur quer você lá.' Eu sabia que Arthur não tinha enviado a mensagem. Mas eu queria ver Bianca uma última vez. Eu queria ver a mulher que, inadvertidamente, me libertou.
Eu fui. A boate estava barulhenta, vibrando com a música e a conversa da elite da cidade. Eu os vi imediatamente — Bianca e seu círculo de bajuladores. Bianca me viu também, e um pequeno sorriso malicioso brincou em seus lábios. Enquanto eu passava por sua mesa, ela deliberadamente esticou o pé. Eu tropecei, e sua amiga prontamente "acidentalmente" derramou um coquetel vermelho e pegajoso na frente do meu vestido branco.
O grupo explodiu em risadas. Bianca olhou para mim, seus olhos brilhando de triunfo.
"Ops", disse ela, sua voz escorrendo falsa simpatia. "Você é tão desastrada, Helena."
Eu fiquei ali, encharcada e humilhada, o líquido frio se infiltrando no tecido. Eu não chorei. Nem sequer vacilei. Apenas olhei para ela.
"Se divertindo?", perguntei calmamente.
O sorriso de Bianca vacilou por um segundo, desconsertada pela minha falta de reação. Então ela pegou o celular.
"Ah, você tem que ver isso. Arthur me mandou ontem à noite."
Ela tocou um vídeo. Era Arthur, no que parecia ser seu escritório, falando para a câmera. Ele estava sorrindo, um sorriso raro e genuíno que eu quase nunca tinha visto.
"Para a Bia", ele disse, sua voz suave. "Feliz aniversário adiantado. Sei que você sempre quis isso." Ele ergueu um conjunto de chaves de um carro esportivo novinho em folha, o modelo exato sobre o qual Bianca vinha falando há meses. O vídeo era íntimo, pessoal e claramente não destinado aos meus olhos.
"Ele é tão fofo, não é?", Bianca arrulhou, guardando o celular. "Ele se lembra de cada coisinha sobre mim."
Tadeu, sentado ao lado dela, interveio com uma risada.
"Nossa, o Ferraz está caidinho. Você o tem na palma da mão desde que eram crianças."
Meu olhar permaneceu em Bianca. O vídeo, a humilhação pública — tudo era apenas ruído agora. Ruído branco antes do silêncio.
"Sabe", eu disse, minha voz cortando suas risadas, "vocês dois são perfeitos um para o outro."
Todos pararam e me encararam.
"Ele é arrogante e egoísta", continuei, meus olhos fixos nos de Bianca, "e você é manipuladora e cruel. É uma combinação feita no céu."
Virei-me para Tadeu.
"E você pode dizer uma coisa para o Arthur por mim."
Inclinei-me, minha voz baixando para um sussurro conspiratório, mas alto o suficiente para toda a mesa ouvir.
"Diga a ele que eu mandei ele se foder."