Ponto de Vista: Helena "Lena" Ferraz
Por uma fração de segundo, pensei que ele sabia. Pensei que a ligação silenciosa era a prova final que ele precisava para confirmar minha traição. Mas seus olhos, escuros e intensos, estavam fixos no teste de gravidez em sua mão, não no meu rosto. Ele pensou que meu segredo era o bebê.
Uma onda de alívio vertiginoso e temporário me invadiu.
"Um bebê, Helena", ele sussurrou, aproximando-se e envolvendo-me em seus braços. Ele enterrou o rosto no meu cabelo, sua voz embargada com o que parecia ser emoção genuína. "Nosso bebê. Por que você não me contou?"
Fiquei rígida em seu abraço, o calor de seu corpo parecendo uma violação. Eu tinha que fingir. Pelo papai. "Eu acabei de descobrir", consegui dizer, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "Eu queria encontrar a maneira perfeita de te contar."
Ele se afastou, suas mãos emoldurando meu rosto. Seus polegares acariciaram suavemente minhas bochechas. Era um gesto que ele havia feito mil vezes, um que sempre me fez sentir querida e segura. Agora, parecia apenas o movimento praticado de um mestre manipulador.
"Não precisamos de maneiras perfeitas", disse ele suavemente. "Isso é tudo que importa. Você, eu e este bebê." Ele se inclinou e me beijou, um beijo lento e profundo do qual me forcei a não recuar. "Precisamos conseguir o melhor cuidado para você. Imediatamente. Sua gravidez será considerada de alto risco, dado seu histórico."
"Não", eu disse, um pouco rápido demais. "Estou bem, Arthur. Vou apenas ver meu médico de sempre." A última coisa que eu precisava era estar sob seu controle, monitorada por médicos em sua folha de pagamento.
Seu sorriso se apertou. "Não seja boba, querida. Não vou permitir que você ou nosso filho recebam nada menos que o melhor. Já fiz algumas ligações."
Meu sangue gelou. "Já?"
Ele sustentou meu olhar, o seu inabalável. "Eu tenho uma equipe monitorando seus marcadores de saúde há meses. Eu sabia que você poderia estar grávida antes de você." A confissão foi entregue com o ar casual de um homem discutindo o tempo, mas era uma declaração arrepiante de seu controle. Ele estava me observando, me rastreando, como um espécime em um laboratório.
Lembrei-me da vez em que desmaiei no jardim alguns meses atrás. Ele insistiu em um check-up completo por uma equipe médica particular que ele trouxe da Suíça. Na época, fiquei comovida com sua preocupação. Agora eu via o que era: vigilância. Ele não estava me protegendo; estava monitorando seu ativo.
"Arthur, isso é... isso é demais", gaguejei.
"Nada é demais para minha família", disse ele, seu tom não deixando espaço para discussão. "Pedi a uma especialista para vir e ficar conosco, para supervisionar seus cuidados pessoalmente. Ela é a melhor em sua área."
Senti um nó de pavor se apertar em meu estômago. Eu não queria uma estranha em minha casa, em minha vida. Eu precisava de espaço para pensar, para planejar meu próximo movimento. Mas discutir apenas levantaria suas suspeitas. "Ok", sussurrei, a rendição amarga na minha língua. "Ok, Arthur."
Ele sorriu radiante, sua vitória absoluta. "Ela estará aqui esta noite."
Claro que estaria. Arthur Montenegro nunca perdia um segundo.
O resto do dia passou em uma névoa surreal. Arthur era um futuro pai dedicado, encomendando um quarto de bebê completo para ser projetado e instalado, fazendo nosso chef consultar um nutricionista e cancelando sua viagem a Tóquio. Ele estava desempenhando seu papel com perfeição, e eu fui forçada a desempenhar o meu, sorrindo e assentindo enquanto um grito silencioso ecoava em minha alma.
Naquela noite, a campainha tocou.
Arthur atendeu pessoalmente, seu rosto iluminado com uma antecipação ansiosa que eu não via há anos. Fiquei no arco da sala de estar, com os braços cruzados na cintura, observando.
Uma mulher estava em nossa porta. Ela era alta e esguia, com uma cascata de cabelos negros e um rosto que era ao mesmo tempo belo e assombrado. Ela parecia frágil, mas seus olhos continham uma inteligência afiada e desconcertante. Presumi que fosse a médica.
Então Arthur se moveu em direção a ela, e o jeito que ele a olhou fez o ar congelar em meus pulmões. Ele estendeu a mão e pegou a dela suavemente, seu polegar acariciando as costas da mão dela em um gesto de familiaridade íntima. Era um gesto que eu reconhecia. Era dele. Era meu.
"Júlia", disse ele, sua voz mais suave e vulnerável do que eu jamais ouvira. "Você conseguiu."
Júlia.
O mundo girou em seu eixo. Esta não era uma médica. Era ela. A mulher da videochamada. A cientista brilhante. Seu amor de infância. A razão pela qual minha vida inteira era uma mentira.
Ele a estava trazendo para nossa casa.
Minha mente voltou a mil momentos roubados — Arthur acariciando minha mão exatamente daquele jeito depois que aceitei seu pedido de casamento, depois que fizemos amor, depois da primeira cirurgia bem-sucedida do meu pai. O gesto tinha sido uma promessa silenciosa, um símbolo de sua devoção. E nunca tinha sido meu para começar. Era um afeto de segunda mão, um fantasma de um amor que ele sentia por outra. A dor foi tão aguda, tão específica, que pareceu um golpe físico, tirando meu fôlego.
Ele a conduziu para dentro, seu braço possessivamente em volta da cintura dela. "Helena, querida", disse ele, sua voz brilhante e falsa. "Gostaria que você conhecesse a Dra. Júlia Dantas. Ela é uma especialista renomada em gestações de alto risco e biologia regenerativa. Ela cuidará de você."
Ele a apresentou como médica. Ele me olhou diretamente nos olhos e mentiu.
Júlia me ofereceu um sorriso pequeno e adocicado. "É um prazer conhecê-la, Helena. Arthur me falou muito sobre você."
Antes que eu pudesse responder, Júlia de repente ofegou, sua mão voando para a garganta. Ela tropeçou, seus olhos se arregalando em pânico teatral. "A tinta", ela sussurrou, apontando um dedo trêmulo para o meu ateliê, onde eu havia deixado algumas telas secando. "Os vapores... terebintina... eu sou... sou alérgica."
Arthur se virou, seu rosto uma máscara de alarme. "O quê? Helena, o que você fez?" ele rosnou, sua fachada de dedicação desaparecendo em um instante.
"Eu... eu acabei de terminar uma pintura", gaguejei, confusa. "As janelas estão abertas. A ventilação está ligada. Os vapores são mínimos."
"Mínimo não é zero!" ele retrucou. Ele correu para o lado de Júlia enquanto ela começava a tossir dramaticamente. "Levem-na para o quarto do pânico! Agora! O sistema de filtragem de ar é independente. É o único lugar seguro." Ele latiu a ordem para os funcionários da casa, que se apressaram para ajudar uma Júlia agora ofegante.
"Arthur, espere", implorei, agarrando seu braço. "Ela está fingindo. Quase não há cheiro."
Ele arrancou seu braço do meu aperto, seus olhos ardendo com uma fúria que me aterrorizou. "Você é médica? É especialista em choque anafilático? Ela pode morrer! É isso que você quer?" ele sibilou, sua voz baixa e venenosa. Ele se virou e seguiu seus funcionários, deixando-me sozinha no enorme hall de entrada.
Suas palavras pairaram no ar, uma acusação cruel e injusta. Senti um pavor frio subir pela minha espinha. O quarto do pânico. O incêndio no meu ateliê me deixou com um caso grave de claustrofobia. Espaços pequenos e fechados faziam meu peito apertar, minha visão afunilar. Arthur sabia disso. Foi ele quem me abraçou durante os ataques de pânico. Foi ele quem instalou o quarto do pânico com seus sistemas de última geração, prometendo que eu nunca mais teria que temer ficar presa.
E agora ele estava usando meu trauma mais profundo contra mim.
Uma funcionária, uma jovem chamada Clara, aproximou-se de mim timidamente. "Ordens do Sr. Montenegro, Sra. Montenegro. Ele disse... ele disse que a senhora também deve ir para o quarto do pânico. Para garantir que não seja afetada pelos... pelos vapores."
"O quê?" Eu a encarei, incrédula. "Isso é loucura. O bebê-"
"Ele disse que era especialmente importante para o bebê", sussurrou Clara, seus olhos cheios de pena.
Era um castigo. Um castigo cruel e calculado por ousar questionar sua preciosa Júlia.
Eu não tinha escolha. Recusar seria escalar a situação, revelar meu jogo. Caminhei com as pernas dormentes em direção à porta escondida atrás da estante da biblioteca, meu coração batendo em um ritmo frenético de medo. Ao passar pela soleira para o pequeno cômodo sem janelas, vi Arthur pela porta aberta, ajoelhado ao lado de Júlia no corredor. Ele murmurava para ela, acariciando seu cabelo, todo o seu ser focado no conforto e segurança dela.
Ele nem olhou para trás quando a pesada porta de aço começou a chiar ao se fechar, selando-me na escuridão.
Ponto de Vista: Helena "Lena" Ferraz
"Arthur, não!" O apelo foi arrancado da minha garganta, cru com um terror que ele conhecia intimamente. A porta pesada se fechou com um clique, o som ecoando o fechamento final de uma tumba. A escuridão me engoliu por inteiro.
Minha respiração engasgou, meus pulmões gritando por um ar que de repente era denso demais para inalar. As paredes, eu podia senti-las, pressionando-me, roubando meu oxigênio, esmagando meus ossos. Minhas palmas ficaram úmidas de suor enquanto eu tateava contra o aço liso e frio da porta.
"Por favor, me deixe sair", implorei, minha voz um gemido patético contra o metal à prova de som. "Arthur, por favor."
Silêncio.
Ele sabia o que isso fazia comigo. Foi ele quem me encontrou, hiperventilando e arranhando as paredes de um elevador preso apenas um ano depois de nosso casamento. Ele me abraçou por horas depois, murmurando promessas de que nunca me deixaria sentir presa daquele jeito novamente. "Eu sou seu porto seguro, Helena", ele sussurrou em meu cabelo. "Sempre vou te proteger."
Outra mentira. Uma mentira linda e venenosa.
A memória do incêndio no meu antigo ateliê voltou com força — o cheiro acre de fumaça, o calor sufocante, a percepção aterrorizante de que a porta dos fundos estava trancada. Eu estava presa naquela época também, convencida de que ia morrer. Arthur tinha sido meu salvador, meu herói que arrombou a porta e me carregou para o ar limpo e fresco da noite.
E agora, o herói havia se tornado o monstro. Ele me trancou no escuro, usando meu medo mais profundo como sua arma.
Um leve som de arranhão veio do outro lado da porta. Minha cabeça se ergueu. Era um dos funcionários? Clara?
"Olá?" chamei, pressionando meu ouvido contra o aço frio. "Tem alguém aí?"
O arranhão parou, substituído por uma risada baixa e feminina. Era um som que se arrastava sob minha pele e fazia meu sangue gelar.
Júlia.
"Ele não vem te buscar, sabe", sua voz era uma provocação sedosa, abafada pela porta grossa. "Ele está comigo. Cuidando de mim."
Uma nova onda de pânico, quente e sufocante, me invadiu. "O que você quer?" ofeguei.
"O que eu quero?" Sua risada foi mais aguda desta vez. "Eu quero o que é meu. Quero minha vida de volta. Quero ele de volta. E você, minha cara substituta, é apenas um meio para um fim. Assim que ele conseguir o que precisa do seu pai, você será descartada como o resto do lixo."
"Você é louca", solucei, deslizando pela porta para me encolher no chão.
"Sou? Ele acabou de trancar sua esposa grávida, a mulher que supostamente carrega seu filho, em um quarto que ele sabe que a aterroriza, tudo porque eu tossi algumas vezes. Quem você acha que ele ama, Helena?"
A verdade de suas palavras foi um golpe físico. Envolvi meus braços em volta dos joelhos, tentando me fazer menor, tentando desaparecer. O ar estava rareando, a escuridão pressionando. Pontos pretos dançavam diante dos meus olhos.
"Por favor", sussurrei para a escuridão vazia. "O bebê."
Não sei quanto tempo fiquei lá. Poderiam ter sido minutos ou horas. O tempo deixou de ter significado. Minha mente era um turbilhão de terror, um rolo de filme em loop de fumaça e portas trancadas e o rosto frio e implacável de Arthur. Justo quando minha visão começou a afunilar completamente, ouvi o assobio da porta se destrancando.
A luz inundou o pequeno espaço, me cegando. Rastejei para trás, protegendo os olhos. Quando minha visão clareou, Júlia estava na porta, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. Arthur não estava em lugar nenhum.
"O tempo acabou", disse ela friamente. "Não se preocupe, eu disse a ele que você estava apenas sendo dramática. Ele é tão maravilhosamente crédulo quando se trata do meu bem-estar."
A visão dela, tão presunçosa e vitoriosa, acendeu uma faísca de raiva através do meu medo. "Fique longe de mim", engasguei, cambaleando para me levantar.
Ela deu um passo para dentro do quarto, seu sorriso se alargando. "Você não tem nada, sabe. Ele pertence a mim. Esta casa, o nome dele, o futuro dele — tudo deveria ser meu. Você é apenas um parasita que ele teve que tolerar para conseguir a cura."
Algo dentro de mim se partiu. Avancei, não para machucá-la, mas para empurrá-la para fora do meu espaço, para afastá-la de mim. "Me deixe em paz!" gritei.
Minhas mãos mal tocaram seus ombros, um empurrão desesperado nascido do terror. Mas Júlia era uma atriz. Ela soltou um grito agudo e se jogou para trás, desabando no chão da biblioteca em um monte.
"Helena, não!"
A voz de Arthur rugiu do final do corredor. Ele tinha visto. Ele tinha me visto empurrá-la. Ele correu até nós, seu rosto contorcido em uma máscara de fúria. Ele nem sequer olhou para mim. Ajoelhou-se ao lado de Júlia, envolvendo-a em seus braços.
"Você está bem? Ela te machucou?" ele murmurou, sua voz carregada de preocupação frenética.
"Eu... eu não sei", Júlia gemeu, segurando o braço. "Ela só... ela simplesmente me atacou. Disse que eu estava tentando roubar você dela."
"Ela está mentindo!" gritei, minha voz tremendo. "Ela estava me provocando! Ela fingiu o ataque de alergia, Arthur, ela está tentando se livrar de mim!"
Arthur lentamente levantou a cabeça, e o olhar em seus olhos parou meu coração. Era um olhar de puro e absoluto desprezo.
"Você empurra uma mulher doente no chão e ainda tem a audácia de mentir sobre isso?" ele rosnou, sua voz perigosamente baixa.
"Eu não-"
"Chega!" ele trovejou, levantando-se e avançando sobre mim. "Já tive o suficiente do seu ciúme e do seu teatro."
Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne como garras. "Júlia é uma convidada nesta casa. Ela é minha amiga e está doente. Você vai tratá-la com respeito, ou que Deus me ajude, Helena, você vai se arrepender."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e furiosas. "Ela não é sua amiga! Ela é a mulher que você ama! A mulher que você planeja usar meu pai para salvar!"
Seu rosto ficou pálido, seu aperto se intensificou até que eu gemi de dor. Por um segundo aterrorizante, vi um lampejo de algo em seus olhos — choque? Medo? Mas desapareceu tão rápido quanto veio, substituído por uma raiva gélida.
"Você vai para o seu quarto", disse ele, sua voz baixando para um sussurro mortal. "E vai ficar lá até aprender a se comportar como um ser humano civilizado e não como uma megera ciumenta."
Ele soltou meu braço com um empurrão, e eu cambaleei para trás. Ele me deu as costas completamente, curvando-se para levantar Júlia em seus braços como se ela fosse uma boneca de porcelana preciosa e quebrada.
"Eu te peguei", ele murmurou para ela, sua voz novamente suave e cheia de cuidado. "Não vou deixar que ela te machuque de novo."
Ele a carregou pelo corredor, para longe de mim, deixando-me sozinha com o peso esmagador de seu desprezo e a percepção arrepiante de que eu não era mais uma esposa nesta casa. Eu era uma prisioneira, e meu carcereiro e minha algoz agora viviam sob o mesmo teto.