As luzes fluorescentes da Mckee Management zumbiam com um som que parecia insetos rastejando sob a pele de Hester. Ela atravessou as portas de vidro, com a coluna rígida. Fazia vinte e quatro horas que ela estivera na chuva na City Hall, vinte e quatro horas desde que se tornara a esposa secreta de um bilionário. Mas ali, naquele escritório, ela ainda era apenas Hester Irwin — a estrela em declínio, a mercadoria.
Sussurros a seguiram enquanto ela passava pela recepção. Os estagiários pararam de digitar. O ar estava denso com uma pena performática que fazia Hester querer gritar. Eles não sabiam do casamento. Só sabiam que ela estava "passando por dificuldades".
Haywood a interceptou antes que ela pudesse chegar ao seu armário. Ele parecia frenético, o cabelo ligeiramente desgrenhado, o suor brotando em seu lábio superior. Mas quando a viu, ele estampou aquele sorriso familiar e charmoso — o sorriso que ela costumava pensar que era o sol.
"Hester, querida", disse ele, estendendo a mão para segurar seus ombros. "Onde você esteve? Fiquei te ligando a noite toda."
Hester se encolheu quando as mãos dele a tocaram. Ela disfarçou o movimento com uma tosse, recuando. "A bateria acabou", mentiu ela, com a voz monótona. "Fiquei na casa de uma amiga."
"Você nos deixou loucos de preocupação", disse Haywood, guiando-a à força para seu escritório. "Vamos. Temos uma crise."
Ele empurrou a porta para abri-la. Brandy Craig estava sentada no sofá de couro, enxugando os olhos com um lenço de papel. Ela parecia radiante, apesar das lágrimas falsas. Usava um suéter folgado, escondendo a barriga que Hester agora sabia que carregava o filho de Haywood.
"Hester!", Brandy exclamou, com a voz aguda e estridente. "Graças a Deus você está aqui. É um desastre."
"O que está acontecendo?", Hester perguntou, encostada no batente da porta. Ela manteve as mãos nos bolsos, os dedos roçando o metal frio do cartão de titânio.
"Estou inchada", Brandy fungou. "É... retenção de líquido. Estresse. Não consigo entrar no vestido da final para o desfile de hoje à noite. O zíper não sobe."
Hester olhou para a cintura de Brandy. Não era retenção de líquido. Era uma barriga de grávida. A audácia da mentira era de tirar o fôlego.
Haywood andava de um lado para o outro no escritório. "O cliente está furioso. Se a Brandy não desfilar, perdemos o contrato. Mas ela não pode desfilar com essa aparência... assim."
Ele parou e olhou para Hester. Seus olhos se estreitaram, calculistas.
"Você precisa desfilar por ela", disse Haywood.
Hester o encarou. O silêncio se estendeu, tenso como a pele de um tambor. "Como é que é?"
"O tema é 'Baile de Máscaras'", Haywood explicou, gesticulando com as mãos animadamente. "As modelos usarão máscaras que cobrem o rosto todo. Ninguém vai saber que é você. Você tem as mesmas medidas — bem, costumava ter. Você consegue entrar nele, mesmo que apertado."
"Você quer que eu seja a dublê de corpo dela?", Hester perguntou, com a voz baixa.
Brandy sorriu com desdém, largando o lenço. "É pela agência, amiguinha. Você já passou do seu auge, de qualquer forma. Assim, você ainda pode ser útil. Pense nisso como... pagar suas dívidas."
Hester sentiu o sangue pulsar em seus ouvidos. Eles queriam usar o corpo dela para salvar a carreira de Brandy. Queriam que ela desfilasse na passarela, recebesse os aplausos e deixasse Brandy levar o crédito, tudo isso enquanto roubavam seu dinheiro e seu futuro.
Era a armadilha perfeita. E era a oportunidade perfeita.
Hester abriu o punho cerrado dentro do bolso. "Tudo bem", disse ela.
Haywood piscou, surpreso com sua submissão fácil. "Sério?"
"Pela empresa", disse Hester, inexpressiva. "Eu faço."
Haywood soltou um suspiro de alívio, batendo palmas. "Eu sabia que você vestia a camisa da equipe. Vá para a prova de roupa. Agora."
Hester se virou e foi para o camarim. No momento em que a porta se fechou, ela pegou o celular. Ligou para Josie, a única gerente júnior que sempre a tratara com respeito.
"Josie", Hester sussurrou. "Você está perto do local do evento?"
"Sim, estou na montagem. Por quê?"
"Prepare uma equipe de filmagem. Não a da agência. A nossa. Preciso de imagens em alta definição do desfile final. Foque nos sapatos. Foque no andar."
"Hester, o que você está fazendo?", Josie perguntou, com a voz confusa.
"Estou pegando de volta o que é meu."
Hester desligou. Olhou para o vestido pendurado na arara. Era uma obra-prima da alta-costura — renda preta, seda carmesim, uma estrutura de espartilho que parecia punitiva.
Ela se despiu. Puxou o vestido para vesti-lo. Não precisou de esforço para entrar. Serviu como uma segunda pele. Brandy nunca teve tamanho de amostra; ela era comercial. Hester era alta-costura. O zíper subiu com um silvo satisfatório.
Ela pegou a máscara. Era elaborada, coberta de penas pretas e cristais, escondendo tudo da testa ao nariz, deixando apenas o queixo e a boca visíveis.
Ela a colocou. Olhou-se no espelho. A mulher que a encarava de volta não era a namorada cansada e traída. Era uma predadora.
Ela enviou uma mensagem de texto para o número de contato que Isham lhe dera. *Vai assistir ao desfile hoje à noite?*
A resposta chegou dez segundos depois. *Sou o dono da emissora que está transmitindo.*
Hester sorriu. Era uma expressão fria e cortante.
Ela saiu do camarim. A área dos bastidores era um caos — spray de cabelo, gritaria, corpos seminus correndo. Brandy estava sentada em uma cadeira de maquiagem, enfiando um donut de açúcar na boca.
"Tente não tropeçar", Brandy gritou, com a boca cheia, limpando o açúcar dos lábios. "Minha reputação está em jogo."
Hester não respondeu. Passou por Brandy, alongando a passada. Sentiu a mudança em seu centro de gravidade. A música estava começando — um baixo pesado e pulsante que fazia o assoalho vibrar.
Haywood agarrou seu braço uma última vez antes que ela chegasse à cortina. "Lembre-se. Você é a Brandy. Saltitante. Divertida. Mande um beijo no final."
Hester olhou para ele através dos buracos da máscara. "Não se preocupe, Haywood. Serei inesquecível."
O gerente de palco fez a contagem regressiva. "Três. Dois. Um. Vai."
A cortina se abriu. A luz branca e ofuscante da passarela a atingiu. O clamor da multidão era uma parede física de som.
Hester entrou na passarela. Ela não saltitou. Não sorriu. Ela liberou o andar que a tornara famosa cinco anos antes — o andar que eles tentaram enterrar.
Hester entrou na passarela como uma bala saindo da câmara de uma arma.
O "Brandy Walk" era famoso por ser comercial, acessível, um pouco paquerador, com um balanço de quadril que dizia "garota da casa ao lado". Hester não fez isso. Ela baixou os ombros, alongou o pescoço e cravou os saltos no chão com uma precisão quase violenta. Era o "Cobra Walk", o estilo que ela havia aperfeiçoado em Milan, mas com uma mudança sutil, quase imperceptível, em seu balanço de quadril — o suficiente para ser novo, mas mantendo sua essência letal.
A reação do público foi imediata. Uma onda de suspiros percorreu a primeira fila. Cabeças se viraram. Óculos de sol foram abaixados. Os sussurros começaram, competindo com o grave pesado da música.
"Aquela é a Brandy?", murmurou um editor de moda, alto o suficiente para ser ouvido por cima da música. "Ela parece... mais alta. Marcante."
Pierre, o estilista da coleção, inclinou-se para a frente em seu assento, com os olhos arregalados. "Mon Dieu", ele sussurrou. "Aquele movimento. Não é a garota da prova de roupa, e ainda assim... é familiar. Como um fantasma de Milan. É... arte."
Hester focou no final da passarela. As luzes estavam quentes em sua pele, ofuscantes e purificadoras. Ela não conseguia ver os rostos na multidão, apenas um mar de escuridão além do brilho. Mas ela sabia que ele estava lá.
Isham Rhodes estava sentado na primeira fila, bem no centro, com as pernas cruzadas e uma expressão indecifrável. Ele não estava tirando fotos como o resto dos influencers. Ele estava observando. Ele viu o queixo — a linha nítida e desafiadora. Ele viu o jeito que as mãos dela se moviam, não balançando frouxas ao lado do corpo, mas cortando o ar.
Era sua esposa.
Hester chegou ao final da passarela. Este era o momento em que Brandy geralmente dava uma pirueta e soprava um beijo.
Hester parou. Firmou os pés. Incluiu a cabeça para baixo e, em seguida, ergueu o olhar lentamente. Seus olhos, emoldurados pelas penas pretas da máscara, cravaram-se na lente da câmera no centro do fosso dos fotógrafos. Ela não sorriu. Lançou o "Olhar da Morte" — um olhar de domínio absoluto e arrepiante.
Ela o sustentou por três segundos. Uma eternidade em tempo de passarela.
Então, ela se virou. O balanço de seus quadris enquanto caminhava de volta era hipnótico, um pêndulo de seda e renda.
Os aplausos explodiram. Não eram palmas educadas; era um rugido. Era o tipo de som geralmente reservado para ícones.
Nos bastidores, Brandy assistia ao monitor, seu rosto ficando vermelho e manchado. "Ela está roubando meus holofotes!", ela gritou, atirando sua rosquinha comida pela metade na tela. "Essa vadia está andando errado! Ela está arruinando a minha marca!"
Haywood estava suando através da camisa. Ele andava de um lado para o outro, olhando entre o monitor e a cortina. "A imprensa está adorando", ele gaguejou. "Eles acham que é você. Está tudo bem. É boa publicidade."
Hester atravessou a cortina. A adrenalina ainda corria por ela, fazendo as pontas de seus dedos formigarem.
Brandy avançou sobre ela. "Você se acha esperta?", ela sibilou, erguendo a mão para dar um tapa em Hester.
Hester segurou o pulso de Brandy no ar. Seu aperto era de ferro. "Cuidado", disse Hester, sua voz um pouco abafada pela máscara, mas nítida o suficiente para cortar vidro. "Você vai quebrar uma unha. E você precisa delas para lutar com unhas e dentes para voltar a ser relevante."
"Onde ela está?", uma voz bradou.
Pierre invadiu os bastidores, seguido por uma falange de câmeras e assistentes de iluminação. "A musa! O mistério!"
Ele ignorou Brandy completamente. Foi direto até Hester.
"Você!", Pierre apontou um dedo bem-cuidado para ela. "Aquele andar! Era a alma da coleção!"
Brandy tentou se colocar na frente de Hester. "Pierre, querido, sou eu, a Bra-"
Pierre acenou com a mão para ela sem olhar. "Saia, criança. Estou falando com a artista."
Haywood interveio, exibindo seu sorriso de empresário. "Sim, Pierre, este é o nosso conceito... uma nova direção para a Brandy..."
"A Mckee Management tem talentos ocultos", uma voz grave cortou o barulho.
A multidão se abriu. Isham Rhodes entrou. O caos dos bastidores pareceu congelar ao seu redor. Ele não olhou para Haywood. Não olhou para Brandy. Caminhou direto até Hester.
"Uma performance incrível", disse Isham. Ele parou perto o suficiente para que ela pudesse sentir o aroma nítido de sua colônia — sândalo e ar frio.
Ele se virou para a imprensa, que agora se aglomerava ao redor, com microfones estendidos. "Quem é esta 'Estrela Misteriosa'?", Isham perguntou, sua voz se projetando com facilidade.
Ele deliberadamente não a chamou de Brandy.
Os repórteres começaram a gritar. "Quem é você?" "Tire a máscara!" "É a Brandy?"
Hester olhou para Isham. Seus olhos eram escuros, firmes. Ele estava lhe dando o palco. Ela olhou para Haywood, que estava pálido, balançando a cabeça levemente, implorando com os olhos para que ela entrasse no jogo.
Ela não tirou a máscara.
"Eu sou simplesmente aquela que faz o trabalho", disse ela no microfone mais próximo.
A frase pairou no ar. Era enigmática. Era pesada.
Isham ofereceu-lhe o braço. "Permita-me escoltar a estrela até seu transporte. O público merece manter o mistério por uma noite."
Era uma ordem, não um pedido. Os repórteres recuaram. Haywood ficou parado, de boca aberta, incapaz de impedir o bilionário de levar sua "cliente".
Hester pegou o braço de Isham. O tecido do terno dele era macio sob seus dedos. Eles saíram juntos, deixando para trás os flashes e a confusão.
Ao saírem do local, Hester olhou para trás. Haywood e Brandy estavam parados em meio aos destroços de seu próprio plano, pequenos e diminuindo à distância.