Os corredores de Ravenshire pareciam mais escuros do que Eleanor se lembrava. Talvez fossem as cortinas pesadas, ou talvez fosse ele - Edward, o homem cuja sombra agora voltava a cobrir a propriedade como uma névoa fria. Quando partira, jurara a si mesma que esqueceria seu nome. Agora, ali estava ele, cruzando portas como se ainda fosse o dono de tudo, inclusive dela.
Mas ela não era mais aquela garota que escrevia cartas em noites de tempestade e esperava uma resposta que jamais viria.
Subiu as escadas em direção ao quarto que lhe haviam reservado - não o de convidada, tampouco o de condessa. Ainda era cedo para reclamar tal título. O casamento precisava ocorrer primeiro. Um papel assinado. Uma aliança no dedo. Uma cerimônia diante de uma sociedade faminta por escândalos.
- Lady Ashford - chamou uma criada, apressada atrás dela.
Eleanor parou no corredor e virou-se, paciente.
- Sim, Molly?
- Há uma correspondência vinda de Londres. Entregaram hoje cedo.
Eleanor estendeu a mão e tomou o envelope selado. O brasão em cera vermelha era inconfundível: o selo da Baronesa Fairmont, sua antiga patronesse e, durante algum tempo, algo próximo de uma mentora. No entanto, nada com aquela mulher vinha sem segundas intenções.
- Obrigada, Molly. Pode ir.
Trancou-se no quarto e, com dedos cuidadosos, rompeu o selo. A carta era curta, mas carregava veneno nas entrelinhas:
"Querida Eleanor,
Soube de tua união iminente com o Conde de Ravenshire. Não posso senão parabenizá-la - ou lastimá-la, a depender do ponto de vista. Lembro-me bem da última vez em que mencionaste o nome dele com tanto veneno na língua quanto um escorpião. Diga-me, minha cara, és capaz de conviver com um homem que outrora fugiu do altar como um covarde? Ou estás prestes a vingá-lo com o chicote de tua própria astúcia?"
Com um misto de saudades e cinismo,
Baronesa A. Fairmont
Eleanor suspirou. Todos sabiam. E, pior, todos esperavam algo dela - seja uma reconciliação poética ou uma tragédia pública. Talvez, pensou, pudesse lhes oferecer ambos.
Na manhã seguinte, o sol finalmente rompeu as nuvens, mas a luz pouco fazia para dissipar o frio dentro da casa. Eleanor caminhava pelos jardins ao lado de Lady Beatrice, uma viúva idosa e vizinha constante da família Blackwell. A velha senhora era uma das poucas pessoas que ousava falar abertamente sobre as desgraças da aristocracia.
- O conde voltou com mais rugas e menos sorrisos - comentou ela, sem cerimônia. - Espero que não espere amor dele. Homens assim não sabem amar.
Eleanor sorriu, triste.
- Não espero amor. Apenas que cumpra sua parte.
- Então já estás adiantada à maioria das mulheres que conheço. - Lady Beatrice deu de ombros. - Mas cuidado, minha jovem. Homens perigosos se tornam ainda mais perigosos quando obrigados a obedecer uma mulher.
Naquele instante, um passo ecoou atrás delas.
- Não costumo obedecer ninguém, Lady Beatrice - disse Edward, aproximando-se com um sorriso ladeado. - Mas posso fazer exceções para senhoras respeitáveis.
A idosa ergueu uma sobrancelha, divertida.
- Milorde, achava que ainda dormia. Os demônios já o acordaram tão cedo?
- Eles nunca dormem - respondeu ele, com um toque de ironia.
Eleanor observava os dois, tentando decifrar se o conde estava se esforçando para parecer afável ou se aquilo era sua forma natural de seduzir até as pedras. De qualquer forma, funcionava. Lady Beatrice riu, tocando-lhe o braço.
- Deixo-vos a sós. Imagino que tenhas coisas mais interessantes a discutir com a futura condessa.
Assim que ficaram a sós, Eleanor cruzou os braços.
- Vieste espionar-me?
- Vim caminhar - respondeu ele. - Mas, se por acaso esbarrei em ti, creio que não é um crime.
- Tudo que fazes parece sempre um acidente. Uma fuga. Uma ausência.
Edward arqueou uma sobrancelha.
- Estás colecionando mágoas ou tentando me punir?
- Talvez os dois.
- Eu poderia dizer que sinto muito - disse ele, dando um passo mais perto -, mas estaríamos ambos mentindo. Nunca fui bom com arrependimentos.
- Fica melhor com promessas quebradas - replicou ela.
Eles se entreolharam. A tensão entre os dois parecia uma corda esticada sobre fogo. E, por um instante, nenhum deles falou. O vento brincava com os cabelos soltos de Eleanor, e Edward quase estendeu a mão para tocá-los. Quase.
- O casamento será público - disse ela, mudando de assunto. - E será no fim do mês. Precisamos publicar o anúncio.
- Já tão decidida?
- Não vim até aqui para hesitar.
Ele assentiu, admirando a firmeza dela. Estava diferente. Menos ingênua, mais letal.
- Muito bem, então. Casaremos no dia trinta. E depois?
- Depois? - ela inclinou a cabeça. - Depois você me deixará em paz.
Ele sorriu, irônico.
- Isso nunca foi parte do contrato.
Na noite seguinte, Eleanor decidiu percorrer os corredores da mansão. Há muito perdera o sono, e a presença de Edward a deixava inquieta. Estava prestes a subir a escada principal quando ouviu vozes vindas da biblioteca. A porta estava entreaberta.
Ela aproximou-se em silêncio.
- ...não confio nela - dizia Edward. Era sua voz, mais rouca, mais baixa. - Eleanor quer algo, e não é só o título.
- E o que pensas que ela deseja? - perguntou outro homem. A voz era de Lachlan, o novo administrador da propriedade.
- Vingança. Controle. Talvez poder. Ela nunca me perdoou por tê-la abandonado. E sabe usar isso com habilidade.
Eleanor se afastou da porta com o coração apertado. Talvez ele estivesse certo. Talvez tudo aquilo fosse mesmo sobre poder. Mas era ele quem a obrigava a isso. Um homem que retorna sete anos depois como se nada tivesse acontecido não merecia compaixão. Merecia... resposta.
No entanto, ao voltar ao quarto, encontrou algo inesperado sobre a cama: uma rosa branca.
Sem bilhete. Sem assinatura. Apenas a flor, fresca, perfumada, ainda com orvalho.
Ela soube de imediato que fora ele.
E por mais que sua razão mandasse ignorar o gesto, seu corpo - esse traidor - reagiu com calor.
Eleanor deitou-se com a rosa entre os dedos e, antes de dormir, pensou em algo que não ousava confessar nem a si mesma:
Parte dela ainda o queria.
Na manhã seguinte, o anúncio do casamento fora publicado no The London Gazette. Os nomes estavam lá, lado a lado, como se formassem uma unidade inquebrantável: O Conde Edward Blackwell e Lady Eleanor Ashford anunciaram oficialmente sua união, marcada para o dia trinta do corrente mês, em Ravenshire Hall.
A notícia espalhou-se como pólvora, acompanhada de comentários sussurrados, especulações e apostas sobre quanto tempo duraria tal união. Eleanor ignorava as cartas e bilhetes que chegavam a cada hora. Mas havia um nome entre os remetentes que a fez hesitar: Alistair Thorne, seu antigo pretendente - e inimigo declarado de Edward.
Ela não o via desde que recusara sua proposta dois anos atrás. E agora ele escrevia:
"Querida Eleanor,
Fiquei surpreso ao saber que decidiste entregar tua mão a alguém que a desprezou por tantos anos. Sei que tua inteligência não se curva facilmente a convenções, então pergunto: o que esperas ganhar com isso? Se precisares de um aliado, sabes onde me encontrar.
Com respeito e lembrança,
Alistair"
Ela fechou a carta com dedos trêmulos.
A guerra entre corações e interesses estava só começando.
O saguão de Ravenshire encheu-se de movimento conforme os dias passavam. Costureiras, floristas, mordomos e chefes de cerimônia entravam e saíam como peças de um tabuleiro cuidadosamente manipulado por mãos invisíveis. Tudo precisava estar perfeito - e tudo seria observado.
Eleanor observava tudo do alto da sacada central, com o diário fechado sobre o colo e a mente ainda agitada pela carta de Alistair Thorne. Ele era perigoso, mas havia um charme na maneira como ameaçava sem erguer a voz. Ainda assim, aceitar sua oferta seria o mesmo que incendiar o castelo antes de entrar. E ela não podia - ainda não.
- Lady Ashford - anunciou o mordomo, interrompendo seus pensamentos. - Um convite chegou de Lady Mortimer. Um baile exclusivo para os noivos da temporada. Espera-se vossa presença... e a de Lorde Ravenshire, naturalmente.
Eleanor ergueu os olhos, o coração pesando. Baile. Público. Olhares. Dança.
- Diga que aceitaremos - respondeu, com calma ensaiada. - Será o primeiro de muitos.
Naquela noite, Eleanor foi até a ala oeste da mansão. O lado onde Edward ficava. O convite exigia planejamento, trajes, aparência. Mas também exigia uma encenação: a de um casal que se suportava, que sorria, que conhecia as rotinas e preferências um do outro.
Bateu duas vezes na porta. Nada.
Abriu mesmo assim.
Edward estava à meia luz, a camisa aberta no peito, os cabelos úmidos, recém-saído do banho. Ele olhou por cima do ombro, sem surpresa.
- Achei que já não batias antes de invadir.
- Achei que já não te importavas.
Ele riu, baixo.
- Toque justo. A que devo a honra?
Ela aproximou-se e estendeu o convite.
- Lady Mortimer. Baile. Esta sexta. Teremos que dançar.
- A velha Mortimer ainda insiste em ver jovens sofrendo sob seus lustres. - Ele pegou o papel com desdém. - Supõe-se que fingiremos gostar um do outro?
- Não. Suponho que faremos parecer que podemos coexistir sem nos matar.
Ele sorriu com ironia. Deixou o papel sobre a mesa e foi até a garrafa de uísque.
- E o que espera que eu vista? - perguntou, virando o líquido âmbar no copo.
- Algo que pareça nobre. Discreto. E caro. - Ela hesitou antes de acrescentar: - Teremos os olhos de Londres sobre nós.
- Eles nunca deixaram de nos observar, Ellie.
Ela odiava aquele apelido nos lábios dele. Porque o fazia lembrar.
Antes que pudesse retrucar, ele se aproximou com o copo em mãos.
- Acredita que enganarão todos com um simples baile?
- Não quero enganar. Quero controlar a narrativa.
- Então controla a mim - murmurou ele, tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, o leve cheiro de especiarias e tabaco. - Consegue?
Ela o encarou com firmeza. Uma batalha muda, de vontades, orgulhos e feridas antigas.
- Ainda não. Mas vou conseguir.
O baile de Lady Mortimer era o evento da temporada. Na sexta-feira, carruagens bordadas se alinhavam diante do portão da propriedade Mortimer, enquanto os convidados atravessavam os salões dourados com taças de champanhe, plumas e expectativas.
Eleanor surgiu como uma deusa entre os mortais.
Vestia-se de prata líquida, um cetim que escorria pelo corpo, moldando-lhe as curvas e expondo mais do que a aristocracia costumava aceitar. Mas não era vulgar. Era o tipo de provocação elegante que obrigava qualquer um a parar e notar. O decote era preciso, o bordado, letal. E os olhos? Dois cacos de gelo em brasa.
- Parece que preferes guerra em vez de paz - disse Edward ao vê-la.
Ele usava um terno preto de corte impecável, a gravata prata refletindo a luz das velas. Lindo demais para um homem tão perigoso.
- Guerra atrai mais aliados do que submissão - respondeu ela, aceitando o braço dele sem hesitação.
Eles entraram juntos no salão, uma pintura viva daquilo que a sociedade mais desejava ver: escândalo, poder, beleza e mistério.
Lady Mortimer veio recebê-los com entusiasmo artificial.
- Conde! Lady Ashford! Que prazer finalmente vê-los lado a lado. Londres anseia por vosso enlace.
- Então lhes daremos o espetáculo que merecem - disse Eleanor, sorrindo como se não escondesse uma lâmina na manga.
As danças começaram. Primeiro as formais, seguidas pelas mais íntimas. Quando o mestre de cerimônias anunciou a valsa, Edward estendeu a mão a Eleanor sem ironia.
- Uma dança, minha quase condessa?
Ela hesitou apenas um segundo. Depois aceitou.
Os dois deslizaram pelo salão como se sempre tivessem sido amantes - ou rivais. Ele guiava com perfeição. Ela, com altivez. O toque das mãos, firme. O olhar, um duelo.
- Está aproveitando o espetáculo? - sussurrou ele, os lábios quase roçando sua orelha.
- Estou comandando-o.
- E se eu quiser tomar o controle?
- Tarde demais, Edward. Já estás dançando conforme minha música.
Ele riu, e pela primeira vez em anos, foi genuíno.
- A Ellie de antes jamais falaria assim.
- A Ellie de antes morreu quando esperou tua carta por três anos.
Silêncio.
Ele a puxou mais para perto, tão perto que ela sentiu seu coração bater.
- Talvez eu devesse lamentar.
- Talvez devesse mesmo.
A música acabou. Eles pararam. E a sala explodiu em aplausos, não pela música, mas pelo que os dois representavam: um escândalo renascido, um casal que prometia incendiar toda a temporada.
Mais tarde, quando estavam prestes a deixar o baile, um criado entregou a Eleanor um envelope preto. Sem remetente. Sem lacre.
Ela o abriu ali mesmo, sob a luz do saguão, com Edward ao lado.
Dentro havia apenas uma frase escrita com tinta vermelha:
"Você não pode controlá-lo. Mas eu posso destruí-lo."
Edward olhou por cima do ombro dela. A expressão endureceu.
- Quem te mandou isso?
Eleanor dobrava o papel com calma.
- Alguém que não entendeu a mensagem. Ainda estou no comando.
Mas por dentro, ela sabia: o passado estava se movendo. E eles não estavam mais sozinhos nesse jogo.