Capítulo 2

Kelly Ferraço

Sabe quando você abre os olhos e se encontra dentro do seu quarto e tudo parece estar diferente? Por exemplo, o sol parece mais radiante hoje e também parece ter mais nuvens no céu claro. O meu quarto já não é mais aquele quarto de menina, todo cor de rosa e cheio com bonecas. Ele agora expõe pôsteres dos meus cantores preferidos nas paredes e claro do meu ator preferido também. O que eu mais gosto fica bem de frente para a minha cama. É um pôster do Tom Ellis sentando com classe e elegância em um trono negro e alto, grande e tenebroso. O cara representa o próprio diabo, o pai das trevas, mas exala um poder de sexualidade que estremece as calcinhas das meninas — que o meu pai ou o meu tio Oliver não escutem os meus pensamentos — isso me faz lembrar da última vez que tive um namorico. O coitado do Léo não teve sossego na vida desde então. Os dois marmanjos fizeram um tipo de tortura psicológica com o garoto e em menos de uma semana, esse se afastou de mim como o diabo fugia da cruz. Bom, hoje especialmente estou fazendo quinze anos e estou no ensino médio. Por mim, pulava essa parte e já ia direto para o curso de gastronomia, o meu maior sonho, mas os adultos da minha casa faz questão pela conclusão dos meus estudos. Fazer o que, né? Espreguiço-me em cima da cama, esticando o meu corpo sobre o do colchão e me viro para encarar a porta branca do meu quarto e inicio uma contagem regressiva cheia de ansiedade. Cinco, quatro, três, dois… Sorrio amplamente. Um… A porta se abre e Carolina Kappas Ferraço, minha irmã caçula passa por ela carregando o seu coelhinho de pelúcia cor de rosa pelas orelhas gigantes.

— Feliz aniversário, Kell! — diz com uma empolgação gigantesca e pula animada em cima da cama e automaticamente o meu corpo quica em cima do colchão macio me fazendo rir. Seus pulos são altos como se tivesse dentro de um pula-pula, mas eu a puxo para o meu colo, dando-lhe muitos beijos por todo o seu rosto. Carol, como a chamamos, se parece com o meu pai, na verdade, ela é a cópia registrada dele. Ela é morena e tem feições bem expressivas, do tipo que não consegue esconder a sua felicidade ou a sua tristeza. Não demora muito e os meus pais invadam o meu quarto, cantando parabéns para mim. Adonis como sempre segura uma deliciosa bandeja de café da manhã em suas mãos. Pena que hoje ainda é segunda e terei que ir para o colégio em algumas horas. Mas confesso, só tem um lado bom nisso tudo. Felipe Cortez — Lipe para os íntimos. Ain, jesus! Que o meu pai e o meu tio não descubram, mas o carinha do segundo ano é uma perdição total. Nada de corpo malhado, ele é alto e forte por natureza mesmo. Os cabelos são de um castanho-claro e são cheios de cachos sedosos que caem sobre sua testa, dando-lhe um charme ao seu rosto quadrado e ele usa um perfume que, minha nossa! Confesso, que no último baile da escola nós quase chegamos a nos beijar. Que o meu… há, vocês sabem quem não devem descobrir isso nunca... nunquinha. Medo? Não, não é medo. Meu pai e o meu tio são as melhores pessoas desse mundo! E eu os amo do jeito que eles são. Digamos que seja só receio mesmo, afinal a primeira impressão do primeiro namorico é a que fica, não é?

— Apaga as velinhas princesa, mas não antes de fazer o seu pedido de aniversário. — Meu pai pede, se inclinando um pouco e eu encontro um cupcake com uma mini vela em formato de um pequeno número quinze acesa no topo. Fecho os meus olhos e encho os pulmões de ar e antes de soprar a velinha, penso em algo que me faz sorrir. Ah qual é, não vou contar o que pedi para vocês! Se não, não vai se realizar, certo? Só digo uma coisa, só realizarei esse sonho daqui a dois anos.

— Parabéns, filhota! — Minha mãe diz se acomodando ao meu lado no colchão e me abraça logo em seguida. O meu pai faz o mesmo do outro lado e a Carolina faz a festa caindo em cima do abraço coletivo. Rio alto quando caímos todos no colchão.

Amo essa família e acredite, desde que Adonis e Agnes se casaram a minha vida tem sido esse encanto de abraços e beijos matinais, de aniversários na cama com direito a cupcakes e tudo, e claro, ganhar uma irmãzinha como essa Penélope Charmosa não tem preço. A Carolina é simplesmente encantadora. Ela é amorosa, carinhosa e diferente de mim, é mais tranquila também. Mas não se enganem, a garota é tão esperta quanto eu era quando criança. — Hora de cuidar meninas. — Dona Agnes avisa depois da rápida bagunça em cima da minha cama. Ela sai em seguida levando a minha irmã para o seu banho e o meu pai se ocupa em tirar a bandeja intocada de cima da cama, mas antes de sair do quarto ele me olha sério. Sabe aquele olhar de pai que quer te dizer alguma coisa? É exatamente esse olhar que ele está fazendo agora. Ele ajeita uma mecha solta do meu cabelo atrás da minha orelha e com um suspiro começa a falar.

— Você cresceu, filha — diz o óbvio. Sorrio.

— É o que acontece quando se faz aniversários todos os anos — comento com um leve tom de brincadeira e ele sorri.

— Verdade. — Papai puxa uma respiração e se ajeita de novo no colchão.

— Olha, eu sei que já tivemos essa conversa algumas vezes — E lá vamos nós. Penso revirando os olhos internamente. — Mas querida você sabe que o papai só quer o seu bem, não é? — pergunta cuidadoso. Claro que eu sei, mas nem sempre o meu bem está em me afastar dos meninos, certo?

— Sim, eu sei — digo com um suspense no ar.

— Kell, papai não vê a hora de estarmos trabalhando juntos no bistrô, como uma bela dupla, sabe?

— Sim, eu sei. — Dessa vez respondo com aquele receio. — Eu pensei que já éramos uma dupla — comento.

— E nós somos. Mas para você ser uma profissional e assumir aquilo tudo junto comigo, preciso do seu empenho. Namorar agora só iria atrapalhar. — Ai chegamos no pico da nossa conversa. Todo ano Adonis encontra uma maneira de me convencer a não namorar. O que nesse exato momento não vai ser possível, porque o Lipe já está na minha, assim como eu estou na dele, se é que vocês me entendem. Porém, tem aquela história, “o que os olhos não veem, o coração não sente” e quem não ouve a verdade também.

— Não se preocupe com isso papai, eu sempre serei a sua número um. Afinal, eu quero ser igualzinha a você quando crescer. — Minto parcialmente e de uma forma descarada e ele me lança aquele olhar de pai orgulhoso. Porque ele tem que ser tão ciumento? Adonis abre um sorriso largo e afaga os meus cabelos, os assanhando ainda mais o emaranhado de fios dourados.

— Boa menina! — Ele diz com satisfação e mais uma vez sorrio. Tolinho! Penso me sentindo uma criança malévola. Ele sai do quarto e eu pulo para fora da cama, correndo direto para o banheiro.

_____

Enquanto caminho pelo imenso pátio do colégio, levando uma mochila pesada nas costas e cheia de materiais escolares e de botons que enfeitam o objeto, observo os alunos que costumam se reunir no pátio antes do início das aulas. Logo sou cercada pelas meninas mais travessas do colégio e diga-se de passagem, da minha turma também. Elas e somente elas, sabem do meu casinho de olhares com o Lipe. Não sabem o que é casinho de olhares, não é? É tipo, quando você não tem a coragem de chegar perto, entendeu? Tipo, nada de beijos e isso inclui selinhos também e nada de pegar na mão, contando aquela história de juramento do dedinho. Eu e o Lipe apenas nos olhamos. O que é ridículo, pois eu já tenho quinze anos e ainda sou praticamente uma bv. O quê? Tive um único namorico de beijos rápidos no cantinho da boca e isso não conta como beijo de verdade. Embora a tia Flávia sempre nos desse cobertura, o Léo não passava disso. Não sei dizer se era medo dos dois homenzarrões ou se por inexperiência mesmo. O fato é que eu já assisti cada beijo de língua em algumas cenas de filmes que confesso, preciso de um daqueles, sem tirar e nem pôr.

— É nesse final de semana, meninas. — Maah avisa com uma animação contida. Maah, é a abreviação do nome Marina. Um sistema que usamos para encobrir uma, a outra. Assim os adultos não descobrem com quem exatamente estamos tramando. Portanto, não irão atrás da dita cuja para descobrir os nossos passos. E quando eu digo adultos, eu me refiro ao ciumento do meu pai, mancomunado com o ciumento do meu tio. E mais uma vez eu me pergunto… Porque eles são assim?

— Sua mãe deixou? — Cris pergunta em uma mistura de empolgação e surpresa. Sorrio para a empolgação da garota, mas a Maah dá de ombros.

— Meus pais vão viajar esse final de semana, então tecnicamente sim, eles deixaram.

— Não deixaram não! Puta merda, menina! Você não falou com eles? — A garota rebate quase revoltado. — Ok, já deu para perceber que a Cris é o cérebro da turma, né? Ela está sempre preocupada com os horários, com os trabalhos, com as nossas reuniões malucas e claro, com a aprovação dos nossos pais seja lá qual for a situação — não que eu seja uma garota irresponsável. Minha mãe me ensinou desde cedo tudo sobre ter responsabilidades e acreditem, eu aprendi direitinho. Mas confesso que estou ansiosa demais por essa noite e quero muito que ela aconteça e eu juro que terei juízo!

— Cris, deixa de ser mala! Que mal pode acontecer em uma simples noite do pijama? Meu Deus, garota! — Maah rebate mal-humorada.

— Só acho que devia ter um adulto por perto. — A garota retruca de volta.

— Bom, a Estrela sempre deixa uma vizinha de olho em mim. Então, tecnicamente teremos um adulto de olho. — Marina rebate, inflando seu peito e abrindo um sorriso sabichão.

— Ela vai estar na casa? — Cris insiste e a nossa amiga revira os olhos com impaciência.

— Lógico que não, Cristiane! — Ela rosna.

— Então, como ela ficará de olho em nós, Marina? — Cris ralha com toda a sua sabedoria.

— Bom, isso já não é problema meu. Agora, vocês vão ou não vão? — Marina insiste e aguarda a nossa resposta levando as mãos à cintura. Eis a pergunta de cem milhões de dólares.

— Eu só vou se a Kelly for. — Cris cruza os braços passando a bola para mim.

— Amarelona! E aí, Kell?

— Estou dentro — digo sem titubear e dessa vez é a Cris quem revira os olhos. Escuto os resmungos derrotados da nossa amiga e a risada vitoriosa da Maah logo em seguida. O quê? Acham mesmo que eu estou errada? Sério? É uma noite do pijama, um lance só de meninas, o que poderia dar errado além de deixarmos a cozinha da dona Frida Belini uma bagunça e de fazermos uma guerrinha de travesseiros? Acreditem, vai ser bem divertido!

Meio-dia em ponto eu entro em minha casa e largo a mochila pesada em cima do sofá da sala e os botons fazem um barulho engraçado quando a mesma quica sobre o estofado macio. Vou direto para a cozinha e como de costume, de segunda a sexta a imensa torre de vidro, como o meu pai costuma dizer é todinha minha. A essa hora meu pai está no comando do bistrô e a minha mãe ainda está na Model e a Carolina já está na escola. Como eu disse, o espaço é todinho meu. Abro a geladeira e encontro alguns ingredientes para fazer um delicioso frango xadrez, uma salada verde e um arroz temperado. Eu já falei que amo cozinhar? Mas, não é qualquer prato, não sou do tipo caseira. Eu gosto da magia da degustação, da mistura dos sabores, da fantasia das cores nos pratos e acho que é por isso que eu já tenho dois cadernos de receitas próprias. Criatividade minha e algumas dessas minhas receitas já são até premiadas, o que deixa o meu pai ainda mais orgulhoso de mim. Sabe a parte mais interessante? A Carolina é louca por modas e de vez enquanto a pego vestindo as roupas da mamãe e calçando os saltos dela também. Ela pega uma escova de cabelos e finge que é um microfone e começa a apresentar um desfile de modas imaginário entre as suas bonecas e isso torna tudo mais equilibrado em nossa família. Largo os ingredientes estrategicamente em cima do balcão e só então percebo um pequeno papel de bloquinho amarelo preso debaixo de uma fruteira. A letra feminina, escrita com uma caneta azul, deixa um pedido para mim.

“Pode ficar com a Carolina e com a Nathalia essa noite?

Mamãe agradece.”

Sorrio. O serviço de babá sempre me rende um dinheiro legal. É claro que eu fico com a Flávia e a Agnes Mirins. Nunca vi serem tão parecidas.

____

Seis e quarenta da noite...

Aqui estou eu em frente a uma tv de trinta e seis polegadas, assistindo o segundo filme da Malévola com as duas meninas que mais amo nesse mundo. Na nossa frente há três caixas de pizzas vazias e uma garrafa de refrigerante de dois litros pela metade, que nós praticamente devoramos durante o filme. Em algum momento o meu celular faz um bip baixinho e eu o pego sorrindo ao ver que é uma mensagem de Maah.

#Mensagem de Mariana para Kell:

Não conta para Cris,

mas teremos alguns convidados

especiais na nossa farrinha.

Eu simplesmente encarei a mensagem embasbacada. Quem essa maluca inventou de chamar? Passo um rabo de olho nas meninas e vejo que elas estão atentas ao filme e começo a digitar rapidamente.

#Mensagem da Kell para Maah:

Quem você convidou, maluca?

#Mensagem da Mariana para Kell:

Ok, vê se não surta, tá?

Chamei o Fabinho, o Call e o Lipe.

Ajeito-me abruptamente em cima do sofá sentindo o meu corpo estremecer de ansiedade. Meu coração simplesmente disparou dentro com violência dentro do meu peito e a minha boca ficou seca imediatamente. Meus dedos tremulavam e digitavam rápido demais.

Mensagem da Kell para Maah:

Ficou maluca?

#Mensagem da Mariana para Kell:

Kell, nós vamos para o terceiro ano.

Quer chegar virgem até lá, sério?

Porque eu não quero!

Jesus! Rogo imediatamente. Ela está pensando em…

#Mensagem da Kell para Maah:

Eu não vou transar, com você sabe quem!

#Mensagem da Mariana para Kell:

Você, eu não sei.

Mas, cansei do meu status.

Então eu não vou perder tempo.

#Mensagem da Kell para Maah:

Não podemos esconder isso de Cris, Marina.

Ela vai pirar.

#Mensagem da Mariana para Kell:

Não seja tola, Kelly Ferraço!

Se você contar, ela não participará.

#Mensagem da Kell para Maah:

Isso é muito sério, Mariana Belini!

E não, eu não esconderei isso dela.

#Mensagem da Mariana para Kell:

Rolando os olhos para você, Kelly Ferraço!

Você que sabe.

— Kell, podemos pegar alguns doces? — Carolina pergunta me fazendo tirar os meus olhos da tela do celular. Ela parece sonolenta. Encaro a telinha e decido que está na hora de encerrar o assunto.

#Mensagem da Kell para Maah:

Depois conversamos.

Estou de babá das meninas essa noite.

Guardo o celular de volta na minha bolsa e desligo a tv ouvindo os protestos das meninas.

— Hora de ir para cama, meninas, já está tarde. — Nathalia me levanta o dedo indicador e me encara como se fosse uma profissional da negociação.

— Sabe que a mamãe não está aqui, não é? — Sorrio.

— Sim, eu sei.

— Então, que tal deixar a gente ver o final do filme? Prometo que nenhum deles ficará sabendo. — Que sapeca! Penso. A pirralha mal saiu das fraldas e já sabe usar o seu poder de persuasão. Agacho-me um pouco, levando as mãos aos joelhos e ficando cara a cara com a guria.

— Bela tentativa, Naty, mas não vai rolar. Cama agora! — ralho com um tom sério.

— Aí Kell, deixa de ser chata! — Carolina reclama. E u ergo o meu corpo e apenas encaro as meninas de sobrancelhas erguidas.

— Você é um adulto difícil de se enrolar! Se fosse o meu pai, já estava no bolso. — Naty diz girando nos próprios calcanhares e ambas vão em direção das escadas.

— Não se esqueçam de escovar os dentes. — grito quando ambas alcançam o topo da escadaria. Mais um bip e eu corro até a bolsa para finalizar essa conversa absurda com a Marina e para a minha surpresa, a mensagem não é dela e sim de um número desconhecido.

#Número desconhecido:

Espero que não se importe.

Peguei o seu número com a Marina.

Será que podemos nos ver amanhã depois da aula?

Coração quase saindo pela boca agora! Respira fundo Kelly, não é nada demais. É só o boyzinho que anda preenchendo a sua mente e o seu coração nessas últimas semanas. Digo para mim mesma e sorrio. Logo me vejo digitando ansiosa e o mais rápido possível outra vez.

#Mensagem da Kell para número desconhecido de vocês sabem quem.

Claro!

Pronto, essa noite eu não durmo!

NOTAS DO AUTOR:

Começando mais um livro amores, espero que vocês acompanhem junto comigo mais um romance gostoso com muito bom humor! Vamos lá?

Capítulo 3

Petrus Borbolini

Me sento na cadeira de ferro que tem um tom alaranjado e um policial põe uma algema me prendendo a pequena mesa à minha frente. Aonde eu fui me meter? Droga, eu podia estar agora em meu escritório, fazendo o meu trabalho e ganhando o meu dinheiro suado. Como dizia a minha mãe; “de grão em grão a galinha enche o papo.” Sempre achei esse ditado devassado, mas agora ele faz todo sentido para mim. Do outro lado da cela, vindo por um corredor largo, vejo Simone Borbolini, minha prima e confesso que sinto raiva de vê-la aqui mais uma vez. Não entendo porque ela ainda não desistiu de mim. Sério, olha para mim agora. Não sou ninguém, perdi o meu nome, a minha credibilidade, a minha decência e quase prejudiquei o meu melhor amigo e tudo isso por causa do Adam Klive Parker. Aquele desgraçado me enganou direitinho e por mais que os advogados façam e tentem provar que eu também fui mais uma vítima desse desgraçado, eu ainda estou aqui. Perdi treze anos da minha vida e nesses longos anos as únicas pessoas que vieram me ver foram a Simone e o meu irmão, Oliver. Sinto falta do meu amigo e se arrependimento matasse, a esta hora eu estaria debaixo de sete palmos de terra.

Eu e Adonis tínhamos um pacto de irmãos. Nós sempre nos apoiamos, sempre estivemos por perto seja qual fosse a situação e eu ainda não acredito que fiz aquilo com ele. Com certeza o meu pai deve estar envergonhado. Franklin Borbolini é um homem muito correto, sincero e íntegro e sempre nos ensinou a seguir por esse caminho. E eu falhei miseravelmente. Só me resta agora juntar o resquício de dignidade que ficou no fundo do poço e de alguma forma tentar consertar as coisas com o Adonis e quem sabe me aproximar dele outra vez, lhe pedir perdão, algo que tentei fazer algumas vezes, na esperança de que viesse me ver, mas ele nunca veio. Sei que isso não será nada fácil e eu o entenderei perfeitamente se nunca me perdoar. Eu o traí e não sou mais o homem de sua confiança.

O som da fechadura se abrindo me desperta e eu encontro os olhos meigos da minha prima me avaliando. Simone é uma mulher extremamente linda! Os seus cabelos cor de ouro agora estão mais compridos e o jeans que reveste o corpo pequeno, desenha cada curva com riqueza de detalhes. A blusa branca está um pouco suada e revela um pouco do sutiã meia taça de cor clara. Ela se aproxima da mesa e joga sobre ela um envelope branco com um emblema da polícia federal. Eu encaro o envelope por alguns segundos e depois os olhos claros e vividos e ela me sorri amplamente.

— Conseguimos — diz finalmente. Me ajeito na cadeira e me perguntando o que exatamente nós conseguimos? Ela parece lê os meus pensamentos. — Você está livre, Petrus Borbolini — fala radiante. O coração dispara forte no peito quando escuto a palavra “sair” da sua própria boca e mais uma vez encaro o envelope largado em cima da mesa. Com as mãos trêmulas seguro o objeto e o abro sem a menor paciência, liberando o papel que tem o meu nome no topo. Leio o conteúdo do documento e rio sentindo o alívio nas lágrimas que começam a se formar em meus olhos depois de anos. Olho para Simone, sentindo as mesmas molharem o meu rosto em seguida. Queria poder abraçá-la, mas as algemas não me permite. E como se lesse os meus pensamentos, Simone se levanta da sua cadeira, contorna a mesa e se agacha ao meu lado para me abraçar forte.

— Obrigado! — digo quase sem voz e sentindo um nó apertar a minha garganta. — Por não desistir de mim. — Completo. Ela se afasta um pouco e enxuga as minhas lágrimas.

— Eu jamais desistiria de você, Petrus — sussurra. — Me perdoe se demorei muito! — Faço não com a cabeça.

— Não peça perdão por isso. Eu mereci cada minuto que fiquei nesse lugar — resmungo baixinho, puxando a respiração para conter as minhas emoções. — Quando eu posso sair daqui? — pergunto ansioso e ela volta a sorrir.

— Agora mesmo, se você quiser. — Um sorriso espontâneo se abre imediatamente.

— É claro que eu quero! — Ela retribui o meu sorriso animada.

— Então, quero que volte até a sua cela e quero que arrume as suas coisas. O advogado já está acertando a sua saída. Estarei te esperando do lado de fora. — Simone deixa um beijo cálido em meu rosto molhado e sai. O policial veio logo em seguida e tirou as algemas do meu pulso e segurando o meu braço, me guiou para fora da sala de visitas. Enquanto caminho de volta para minha cela, fico olhando Simone desaparecer por uma porta de ferro larga e alta.

Finalmente a liberdade! Finalmente uma chance de reconstruir a minha vida! Terei que começar do zero, mas isso não importa. Dessa vez farei tudo valer a pena, cada esforço, cada conquista e dessa vez não farei pelo caminho mais fácil.

_____

— Estive pensando, você bem que podia ficar em meu apartamento. — Ela diz de repente enquanto dirige o carro pelo asfalto da BR. Eu a encaro surpreso, mas ela dá de ombros. — É só enquanto você consegue organizar a sua vida, Petrus.

— Eu não acho que seria uma boa ideia, Simone. Eu sou um cara bem espaçoso e... — Tento protestar, mas ela me lança um olhar rápido e depois volta a se concentrar no trânsito.

— Relaxa, Petrus. Não estou te pedindo em casamento. Eu sei que tudo que você tinha foi confiscado pelo banco. Você vai ter que começar de baixo e eu só estou te oferecendo um lugar para ficar. Só isso. — Insiste. Olho para o lado de fora, pela janela do carro sem lhe dar uma resposta e respiro fundo. O pior é que eu realmente não tenho onde ficar. A minha única chance é me agarrar à mão que Simone está me estendendo. Então faço um sim com a cabeça concordando com ela e volto a olhá-la.

— Tudo bem Simone, eu aceito. Mas será por pouco tempo — aviso. Ela acena um sim sorrindo e eu volto a encarar as ruas pela janela.

Esses meses dentro da prisão me ensinou muita coisa e da pior forma possível. Por muitas vezes me livrei de algumas ciladas e tive que baixar a minha cabeça para algumas coisas. Era isso ou perder a minha vida lá dentro. A pior parte era ter que pagar para ter uma boa noite de sono. Os caras que estavam de olho em mim podiam me matar dormindo se eu vacilasse. Tive tempo de sobra para pensar em minha vida e durante alguns desses pensamentos, pus na minha cabeça que preciso encontrar aquela idiota da Sandy e fazê-la pagar por cada minuto que eu passei lá dentro e claro, o Sniph também. Esse me pagará em dobro. E o Adam, esse já está pagando o seu preço. O carro da Simone para em frente a um belo hotel que fica bem no centro da cidade. Olhando o edifício daqui de dentro do carro, ele parece alcançar o céu. Eu saio do veículo pegando a minha mochila que está largada no banco de trás. Uma mochila com poucas roupas, foi tudo o que me restou. Sinto o calor da palma da mão da Simone em minhas costas e nós começamos a andar em direção da entrada do prédio. Confesso que me sinto como um peixe fora d'água diante de tamanho luxo, mediante a roupa que estou usando agora. Um jeans surrado, uma camiseta de algodão e um par de sandálias de couro. Levo as mãos aos cabelos, agora mais cheios e crescidos e solto o ar com força me sentindo incomodado com essa situação. Adentramos o elevador e em silêncio e quando esse se fecha, me concentro nos números vermelhos do painel, para ver se a minha mente para de pensar um pouco.

Ok, eu só preciso voltar ao mercado de trabalho, encontrar alguns investidores e começar a dá os meus primeiros passos sozinho. Depois disso, estarei andando com os meus próprios pés. Penso.

As portas metálicas se abrem e Simone sai na minha frente, mexendo em sua bolsa em busca das chaves. Aproveito para olhar o largo corredor que tem as paredes em tons claros e alguns detalhes com madeiras finas e envernizadas. Há também algumas lamparinas em formato de tulipas transparentes nos cantos das paredes e alguns vasos coloniais com algum tipo de planta verde e viçosa dentro deles. O piso de madeira escura e lustrosa completa o requinte do lugar. Escuto o barulho da chave na fechadura e logo a porta está aberta e Simone me dá passagem e meio sem graça eu entro no apartamento. O lugar é bem a cara dela, tem o jeitinho todo dela. Móveis modernos com tons claros, uma única parede pintada de rosa choque, que expõe um quadro imenso de nós quatro rindo sobre as gotículas d’água. A imagem me faz sorri. Me lembro bem desse dia. Eu, Oliver, Adonis e Simone fomos a um parque aquático, foi um dia marcante e bem divertido.

— Eu amo esse quadro! — Ela diz me despertando. — Ele me lembra o dia mais divertido das nossas vidas. Isso aconteceu dias antes do Adonis ir para longe, lembra? Antes de você se tornar um homem da cidade. — Suspiro abrindo um sorriso e aceno em concordância.

— É uma ótima foto! — comento e a olho.

— Vem, quero te mostrar o seu quarto — diz segurando a minha mão e me puxa para o outro lado da sala. Logo entramos em um corredor pequeno e estreito que tem três portas brancas. Simone abre a segunda porta e faz um gesto de mão para que eu entre. Adentro o cômodo e de cara um objeto muito conhecido me chama a minha atenção. Um troféu de surf que eu ganhei na minha adolescência. Olho para trás e encaro a linda garota sorridente encostada no espaldar da porta me olhando.

— Achei que se sentiria mais à vontade se tivesse algo seu aqui — diz. Sorrio com vontade pela primeira vez desde que pus os meus pés para fora daquele inferno.

— Obrigado, Si! — pronuncio o seu apelido de infância e o seu sorriso parece se ampliar.

— Não tem o que agradecer, Petrus. Está com fome? — pergunta. Faço não com a cabeça.

— Eu só preciso de um banho e dormir um pouco, se você não se importar — peço.

— Eu não me importo. Vou sair um pouco então. O apartamento é todo seu. — Ela avisa e depois vem até mim e fica nas ponta dos pés para beijar-me o rosto. Os nossos olhos se encontram por alguns segundos e algo diferente acontece dentro de mim, mas não sei ao certo o que é.

______

Em anos essa é a primeira vez que deito a minha cabeça em um travesseiro macio e repouso o meu corpo sem preocupações e sem o medo real da morte. Abro os meus olhos e encaro um sol de fim de tarde através das imensas janelas de vidro transparentes. Porra, eu dormi praticamente o dia inteiro! Me sento na cama e esfrego os meus olhos, passando as mãos nos cabelos e sacudindo os fios em seguida. Preciso cortá-los. Penso. Meu estômago começa a roncar e eu lembro que não comi nada o dia inteiro. Então saio da cama e antes de sair do quarto encosto o meu ouvido na madeira da porta, mas não escuto nada além do silêncio do outro lado. Ótimo! Simone ainda não voltou. Penso me sentindo mais à vontade e saio do quarto em seguida, usando apenas uma cueca boxer e vou a procura da cozinha.

O apartamento é grande e bem espaçoso. Fora do corredor encontro a sala de visitas e mais duas portas e logo encontro a cozinha por trás de uma imensa parede de vidro fosco, acoplada a sala. Entro no cômodo parando bruscamente na entrada, quando vejo a minha prima usando apenas um minúsculo short de algodão bege. O short é tão pequeno que parte da sua bunda fica de fora. A danada está dançando alguma música agitada nos seus fones de ouvidos, enquanto cozinha algo que eu não sei o que é. Os meus olhos atrevidos varrem o corpo pequeno e semi nu. Seguindo um pouco mais para cima, encontro o top negro que deixa boa parte do seu tronco de fora também. Merda! Eu não devia ficar aqui a olhando, certo? Porra, Simone você quer me matar? Puxo a respiração de nervoso e resolvo sair da cozinha, andando de costas e sem tirar os meus olhos de cima dela. Penso em voltar e anunciar a minha chegada, quem sabe assim ela se recompõe? Dou mais um passo para trás quando ela se vira segurando uma panela e solta um grito alto, me fazendo gritar também. A panela que estava em sua mão vai ao chão e espalha uma espécie de molho e Simone leva uma mão trêmula ao peito.

— Droga, eu não sabia que você estava aí! — diz nervosa e se agacha para pegar a panela. — Ai, merda! — Ela solta um gemido dolorido em seguida e sem pensar duas vezes, eu corro ao seu encontro.

— Você está bem? — pergunto preocupado, me agachando ao seu lado e seguro a sua mão, analisando sua pele imediatamente. — Está machucada, se queimou? — pergunto passando a mão em seu corpo, verificando cada parte dele e paro quando noto que ela tem o olhar fixo em mim. Merda, estou só de cueca! Mas que porra? Inquiro mentalmente e exasperado quando noto o olhar da minha prima fixos em uma parte de mim. Eu olho na mesma direção e me vejo completamente armado, duro, de barraca armada e engulo em seco. Puta que pariu! Encontro os seus olhos em seguida. Simone parece enfeitiçada com algo e eu não sei aonde enfiar a minha cara.

— Eu... eu não sabia que você estava em casa... eu... vou — gaguejo as palavras e tento me afastar, mas ela segura a minha mão e me lança um olhar pesado, mas logo parece despertar de algo e ela afrouxa o seu aperto. Eu me levanto do chão e me afasto sem saber o que realmente está rolando aqui e saio imediatamente da cozinha.

Aonde você estava com a cabeça, Petrus? Essa não é a sua casa, você não pode simplesmente andar nu pelos cantos e achar que isso é normal. Me repreendo. Porra, eu fiquei duro para ela? O que está acontecendo com você, cara? Simone Borbolini é sua prima, portanto é intocável para você. Digo para mim mesmo diante do espelho do banheiro, encarando o cara barbado à minha frente. Depois de um banho frio e demorado e de pôr uma roupa, resolvo voltar para a cozinha. Simone agora está usando um vestido que é colado ao seu corpo, porém a saia é solta e vai até a metade das suas coxas. Ela mudou de roupa. Constato me sentindo mais relaxado. Melhor, assim podemos conversar sem que eu fique de olho nos seus peitos. Resmungo irritado e internamente.

— Fiz um pouco de batatas na maionese, um arroz colorido e bife. Não sou nenhum Adonis Kappas na cozinha, mas eu me viro. — Ela brinca descontraída e eu forço um sorriso para minha prima. A simples menção do nome de Adonis na mesa, me diz que não devo adiar por muito tempo a nossa conversa. A observo montar um prato para mim e depois um para ela. Resolvo pegar a garrafa de vinho que está dentro de um balde com gelo e sirvo duas taças, entregando uma a ela. Simone toma um gole da bebida me olhando através da borda da taça.

— O que vai fazer essa noite? — Ela pergunta depois que deixa a taça descansando sobre o tampo da mesa e leva o garfo ao seu prato. Dou de ombros.

— Não tenho nada programado — falo com desdém e ela sorri.

— Ótimo! Hoje é sexta e eu pensei que podíamos ver a turma, dançar um pouco e beber, o que acha? — Eu bufo largando os talheres em meu prato e me encosto na cadeira para olhá-la de forma especulativa.

— Você acha uma boa ideia? Quer dizer, o Adonis vai estar lá, não vai? — questiono. Ela faz um sim com a cabeça.

— Não acha que está na hora de vocês se acertarem? — sugere e eu bufo em resposta.

— Não sei se estou preparado, Simone.

— Vamos lá, Petrus. Você teve treze anos para se preparar para esse momento. Porque adiar mais? — indaga e eu penso que ela pode estar certa. Assinto.

— Você está certa — falei e peguei a minha taça a esvaziando em seguida. E que venha a noite! Penso apreensivo e volto a comer, dessa vez em silêncio.

NOTAS DO AUTOR:

Um pouquinho do nosso semi vilão, Petrus. Espero que aprendam a amá-lo como eu aprendi.

Enfim, ele está saindo da cadeia e agora terá que correr atrás do prejuízo. Será que Adonis será capaz de perdoá-lo?

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O Chef 2

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