— Por que você teve que pular em cima dela?! — Fala quase chorando. — Ela foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida!
— Se gostava dela, tinha que ter falado antes...
— Não é nesse sentido! — Exclama batendo na mesa. — Você nunca contratou uma assistente que realmente fizesse o seu trabalho, quando encontra uma assim, você parte pra cima, Ryan?!
— Me passa o whisky dentro do armário... por favor. Peço e ele o pega.
Fecho os olhos ouvindo as choradeiras do Kalel, segurando a bolsa de gelo no meu saco me lembrando de tudo o que eu gostaria de esquecer.
— Calma — olha pra garrafa. — Você pediu por favor?
O líquido desce queimando minha garganta, mas eu não respondo nada.
— Você está bem? Quer que eu te leve ao médico?
— Ela... ela me chamou de lixo...
— Oh — me olha surpreso.
Kalel respira fundo e começa a pegar os papéis do chão, um pouco sem jeito.
— Você também acha isso, né?
— Só porque ela disse isso... — arruma os papéis na minha mesa. — Não significa que o senhor seja igual a ele.
— Kalel, como meu amigo, eu quero que seja sincero comigo
— o olho sério. — Você também pensa o mesmo, não é? — Pergunto já sabendo a resposta.
— Olha Ryan — se senta na cadeira em frente a minha, extremamente nervoso mexendo na armação dos seus óculos. — Não me leve a mal, mas eu não acho que seja correto o modo como você trata as mulheres... Sei que pra você não parece ser nada demais, contratar as moças por aparência, usá-las e três dias depois demiti-las. Mas isso não é atitude de homem.
Balanço a cabeça compreendendo.
— Depois que a senhorita Gwen passou esses três dias e não houve nada. Pensei que tinha mudado de ideia e resolveu me ajudar.
— Te ajudar? — Levanto a sobrancelha.
— Ryan, se suas assistentes não fazem o trabalho delas, então sobra pra alguém fazer — aponta para si. — A senhorita Gwen é maravilhosa no que faz, é viciada em trabalho e muito inteligente! — Acena com a mão mostrando os papéis em cima da mesa. — Eu tive que orientá-la no início, mas não tive que fazer o trabalho dela nenhuma vez. Isso me ajudou porque não estava mais sendo sobrecarregado... O nosso desempenho no ano passado foi baixo por causa das suas escolhas para assistentes. Estou
querendo dizer, que o modo que você está lhe dando com as coisas não é nada produtivo.
— Entendo e sinto muito por isso. Agora eu vejo o quanto estava prejudicando a Parker’ In — olho para as pilhas de pastas em cima da mesa. — Mas você fugiu da pergunta, então dessa vez seja direto, Kalel. Você me acha ou não um lixo?
— Eu não te acho um lixo — como se fosse um tique nervoso, ele mexe novamente nos seus óculos. — Mas o que você faz...
— Me responde, Kalel! — Interrompo o seu discurso.
— Tá! — Se exalta. — Você é um lixo! Era isso que queria ouvir?! Estou sempre sobrecarregado porque você só contrata as mulheres pra comer. Eu nem sei o que é dormir direito porque tenho que lidar com o trabalho delas e o meu! — Desabafa falando rapidamente. — Eu não tenho vida social por sua causa. Quando enfim, penso que contrataria alguém que preste, estava enganado, porque você voou em cima dela. Ainda bem que ela te acertou em cheio! — Aponta para as minhas partes. — A Linda é uma mulher de caráter e nunca se sujeitaria a isso! E agora que ela foi embora quem vai sofrer sou eu! — Quase chora. — Por que você tinha que dar em cima da Linda?! Por quê?! Não consegue manter o seu zíper fechado? Tem que entrar em todo rabo de saia que passa na sua frente?!
Linda?
— Você pode se acalmar agora? — O olho sério. — Acho que entendi muito bem o que quis dizer.
Ele faz um bico de quem não gostou.
— Mas não significa que é igual a ele — ajeita os seus óculos nervoso. — Você não é o seu pai, Ryan.
— Richard — trinco o meu maxilar com raiva. — Ele não é o meu pai!
— Não significa que você seja igual ao Richard, só porque faz essas coisas.
— Significa sim — suspiro irritado. — Não é porque não sou casado, que não faça as mesmas coisas que ele faz — olho pro líquido âmbar do meu copo e bebo de uma vez. — Eu sempre o
abominei, sempre falei que quando crescesse jamais me tornaria alguém como ele... Agora, eu sou igual aquele lixo.
Richard Parker, era um homem casado, mulherengo, que não tinha um pingo de vergonha na cara. Quando era criança sempre o via entrando no quarto com várias mulheres. O mesmo quarto que dividia com a sua esposa, minha mãe. Como se isso não bastasse, ele falava que a culpa era dela, pois ela não o satisfazia direito. Cresci vendo os meus pais brigando, não eram agressões físicas, mas suas palavras eram piores do que um tapa. Sempre via minha mãe, Emily, chorando pelos cantos com as traições e as palavras duras dele.
Em todas as brigas ela sempre o chamava de lixo. E sempre me falava para ser um homem bom e jamais seguir o exemplo dele. Prometi a mim mesmo que seria um homem decente e não me tornaria igual o meu pai. Eles morreram num acidente de carro, estavam brigando tanto dentro do veículo que não viram o caminhão chegar.
Richard não sabia tratar uma mulher. As usava e depois as jogava fora, como se fosse um pedaço inútil de papel. Eu pensei que já que não era casado, então não fazia as mesmas coisas. Elas concordavam comigo, eu dava uma quantia generosa pelo seu silêncio e as mesmas não se importavam ou pelo menos fingiam que não. Mas ouvir a senhorita Gwen falar aquelas coisas. Só trouxe o meu maior pesadelo átona. Que era me tornar um lixo, exatamente como Richard Parker.
— O que eu tenho que fazer... — olho para o copo. — Para mudar isso? — Sinto o meu rosto esquentar. — Eu não quero ser igual a ele, Kalel... — desabafo com o meu amigo. — A senhorita Gwen olhou pra mim, assim como minha mãe olhava pro Richard...
— Você... — ele cria coragem pra falar. — Pode começar pedindo desculpas a ela e convencê-la a ficar.
Dou uma risada fria, achando graça da sua solução.
— Se não quer ser igual ao Richard, tem que agir diferente dele — me olha sério. — Ele era um homem orgulhoso, que nunca reconhecia o seu erro. Se pedir desculpas sinceras a senhorita Gwen. Será um passo na direção certa.
Engulo seco percebendo que ele tem razão.
— Eu posso tentar ser sincero — falo com dificuldade.
— Você não pode tentar — me interrompe olhando nos meus olhos. — Você tem que ser. Olhar nos olhos dela e dizer que sente muito e que não fará isso de novo. Pedir perdão por ter debochado da sua capacidade e dizer que ela é uma excelente profissional e que eu... quer dizer, você, adoraria tê-la de volta.
— Você tem certeza que não gosta amorosamente dela? — Levanto a sobrancelha desconfiado.
— Sim, eu tenho — fala firme. — Nesse mês que trabalhei ao lado da Linda e nos meses que a vi trabalhando no departamento de design. Aprendi a respeitá-la ainda mais como profissional. Ela sempre foi uma das primeiras a chegar e uma das últimas a sair... Não porque não termina o seu trabalho no horário, mas por se esforçar mais do que os outros naquilo que faz. Se você der uma olhada nesses projetos, vai entender o que eu estou falando.
Solto um suspiro olhando pra mesa.
— Eu posso até pedir perdão — falo calmamente. — Mas acho que tê-la de volta seria demais até pra ela.
— Não seria — nega com a cabeça. — Fica só entre nós, mas a Linda realmente precisa desse emprego. Sua condição financeira não são nada boa e esse salário a faria ter uma vida mais tranquila.
— Você realmente está apegado a essa mulher — me espanto.
— Um viciado em trabalho conhece o outro... — ele dá um sorrisinho sem graça. — Mas isso não seria só por ela, seria por você também — o olho sem entender e ele continua. — Já que a senhorita Gwen ajudou a abrir seus olhos. Quem melhor do que ela para mudar de opinião a seu respeito?
Abro a boca para contestar, mas acabo pensando sobre o assunto.
— Eu não sei, Kalel...
— Linda é uma pessoa maravilhosa, sempre dá uma segunda chance quando ver, de verdade, que alguém quer mudar.
— Agora está explicado o “Espero que o senhor vire uma pessoa melhor algum dia”.
— Ela aprendeu isso com os pais — sorri. — Sei que as coisas ficariam estranhas entre vocês e não estou falando para investir amorosamente. Mas se a pessoa que te chamou de lixo, visse sua mudança e trocasse a opinião a seu respeito...
— Comprovaria que não sou igual ao Richard — falo com a mão no queixo.
— Exatamente! — Concorda sorrindo.
É uma loucura muito grande tentar manter a Belinda aqui. Parte de mim quer esquecer toda essa história e tentar seguir em
frente de outra maneira. A outra parte, quer superar e passar desse jeito mesmo.
De uma coisa o Kalel tem razão, Richard jamais pediria desculpas a alguém. Se eu fizer isso, será um passo muito grande para não me tornar um canalha como ele.
O final de semana passou e eu acordava traumatizado com o que aconteceu. Repetindo o mesmo sonho, do chute no saco que recebi na sexta-feira e suas palavras me chamando de lixo.
Devo confessar que ela estava certa, eu tive um péssimo final de semana.
Para tentar resolver as coisas com a senhorita Gwen, tive que pensar diferente. Passei o fim de semana inteiro lendo e analisando todas as pastas que ela me trouxe. Sei que nada pode mudar o mal que fiz a ela, então resolvi valorizar o seu trabalho, que por sinal é muito bem feito.
Devo admitir que eu estava errado sobre mulheres bonitas não serem competentes.
Como a contratei com segundas intenções, resolvi parar de pensar só em mim mesmo e fazer pelo menos uma coisa certa para alguém.
Agora estou na minha sala, muito nervoso com esse pedido de desculpas.
— Bom dia, senhor Parker, Smith — ela fala respeitosamente, deixando sua carta de demissão em cima da mesa.
Eu olho pro Kalel — que está sentado no sofá ao lado da minha mesa — buscando o apoio dele. O mesmo me lança um olhar para eu fazer a coisa certa e volta a mexer no notebook.
— Eu... eu gostaria de conversar com a senhorita — aceno para ela se sentar. — Por favor.
Isso é mais difícil do que eu imaginava! Me desespero por dentro.
Belinda me olha, olha pro Kalel, que intercede com um aceno lhe dando segurança. Ela se senta e ficamos num silêncio constrangedor.
— Como foi o seu fim de semana? — Falo na intenção de quebrar o climão.
— Muito bom, dormir o sábado e o domingo inteirinho — o ruivo a olha duvidoso. — Sem me preocupar com trabalho e o meu ex-chefe assediador. E você, senhor Parker, teve um péssimo fim de semana? — Dá um sorrisinho doce. — Eu espero que sim.
Isso vai ser mais difícil do que eu esperava.
— Sim, o meu final de semana foi horrível — cruzo as pernas me lembrando do chute. — Eu estava pensando — falo calmamente lutando contra o meu orgulho. — Na nossa conversa da sexta-feira e como foi rude o que fiz com você.
Ela cerra os olhos me encarando, mas não me interrompe.
— A senhorita estava certa, se esforçou muito por cada tarefa que lhe passaram e foi desrespeitoso te tratar daquele jeito.
Belinda abre a boca sem entender, ela olha pro Kalel e ele lhe devolve um aceno, fazendo-a concordar com a cabeça.
— Pois bem... — se ajeita na cadeira me pedindo para continuar.
Ainda bem que o meu amigo está aqui. Não sei qual é a relação dos dois, mas graças a ele, ela está querendo me ouvir.
— Eu revisei todos os papéis que me passou na sexta. A senhorita fez um trabalho excelente. Também conversei com o Todd e descobri a discussão que tiveram por minha causa. Estou querendo dizer que está tudo impecável e me sinto mal por ter te assediado... Não que se a senhorita não fizesse um trabalho bem feito, não me sentiria mal por ter voado em você — me embolo. — Independente disso, eu tinha que ter lhe dado o devido respeito. Peço perdão pelo mal que lhe fiz e também peço que mude de ideia sobre deixar a Parker’ In.
Os ruivos trocam olhares conversando silenciosamente e ela se ajeita na cadeira desconfortável.
— Sei que o que fiz foi imperdoável, não estou tentando concertar aquilo, pois infelizmente não tem volta — continuo olhando nos seus olhos verdes. — Eu me arrependo por ter sido descortês, mas como profissional, seria um desperdício deixar uma excelente funcionária como você ir embora.
— O que está querendo dizer? — Fala calmamente.
— Estou querendo te contratar pelos seus serviços. Sem aparências, sem misturar trabalho com vida pessoal. Estou querendo fazer isso, pois te acho competente o suficiente para ocupar o cargo de minha assistente pessoal.
— Olha, senhor Parker — suspira. — Isso não vai dar certo, eu já detesto o senhor e dificilmente mudaria minha opinião de que é um canalha sem valor.
Que sutileza. Ironizo.
— Não estou pedindo para que mude, pode me odiar se quiser. Sei muito bem que a senhorita não confia em mim. O que eu fiz jamais irá se repetir. Sei que para você não vale nada, mas eu dou a minha palavra, que não tentarei te atacar e não farei nada sem o seu consentimento — afirmo olhando nos seus olhos. — O único relacionamento que quero ter contigo é só de empregador e funcionário.
— Bom, isso é estranho... Jamais imaginaria que o senhor soubesse pedir desculpas — ela suspira pensando seriamente.
Nem eu.
— Eu não confio no senhor — olha nos meus olhos. — Sendo sincera, realmente preciso desse emprego e não estou em condições de negar sua oferta. Mas eu não vou trocar o meu respeito por dinheiro. Saiba que se eu aceitar. Quero que tenha em mente que andarei com uma faca sempre na bolsa e não vou hesitar em te cortar se fizer isso novamente.
Coloco as mãos sobre o colo, traumatizado com o que ela acabou de falar.
— Certo! — Confirmo com a ideia e ela me lança olha desconfiada.
— E mais uma coisa — se levanta, inclinando o corpo na minha direção aproximando nossos rostos. — Quero que olhe
dentro dos meus olhos e me diga que essa não é uma brincadeira de mal gosto.
Fito bem sua íris verdes falando o mais sincero possível.
— Não é uma brincadeira. Eu realmente te peço perdão pela minha atitude. Não tentarei te atacar novamente. Pode sim usar uma faca e estou ciente disso. Mas abotoa sua blusa, ela abriu assim que você se inclinou — viro o rosto para o lado para não ver o seu decote.
Belinda se espanta e ajeita a roupa, com o rosto vermelha de vergonha.
— Certo — se senta com a face corada. — Meu salário — vai direto ao ponto.
— 75 mil dólares por ano.
— Setenta e cinco?! — Se assusta piscando freneticamente.
— Sei que é um pouco mais do que o valor do cargo em si. Mas a senhorita fez um ótimo trabalho, tenho certeza que não me decepcionará futuramente.
Também fiquei pensando no que o Kalel falou sobre ela realmente está precisando. Não quero usar isso para que a Gwen me perdoe, mas pelo fato de ter lhe desrespeitado.
— Certo! — Sorri. — Carga horária?
— Segunda à sexta, sábado meio período.
— Férias?
— Terá assim que completar 1 ano.
— Viagens à trabalho?
— Muitas. Despesas pagas pela empresa, quartos separados.
— Posso carregar uma faca?
— Avisarei o Jacob e ele estará ciente disso.
— O senhor está muito confiante — cerra os olhos.
— Eu falei, não vou te atacar novamente, então a faca não fará diferença.
Ela assente e continua.
— Hoje estou de folga?
— Só se a senhorita quiser.
— Meu novo contrato?
— Está sendo feito, amanhã poderá assiná-lo.
— Benefícios?
— Os mesmos que tinha no antigo contrato.
— Eu gostaria que aumentasse o valor do meu vale alimentação.
— De quanto está pensando?
— Uns 100 dólares a mais — seus olhos brilham.
— Certo, mais alguma coisa?
— Sim... — suspira. — Eu assinarei o novo contrato amanhã. Sei que eu deveria, mas não vou denunciá-lo por assédio, porém não terá uma segunda vez.
— Entendo — continuo firme. — Não chegará a esse ponto, sei que não acredita em mim, mas o que eu fiz não irá se repetir.
— Certo.
Não posso fazer a senhorita Gwen mudar sua opinião a meu respeito, devido o que fiz ela passar. Eu posso mudar como pessoa e sei disso, se no futuro a mulher que me ajudou abrir os olhos, continuar tendo o mesmo pensamento que ela tem agora. Eu só vou me esforçar ainda mais e se mesmo assim não resolver. Não dependerei da opinião dela para me tornar alguém melhor.
O primeiro passo eu já dei, agora faltam todos os outros que me farão ser um homem decente.
Alguns meses se passaram e assim como prometi, não avancei nenhuma vez na senhorita Gwen. Nosso relacionamento é de empregado a empregador, então não nos aproximamos de maneira alguma.
Mas não deixa de ser estranho.
Sempre estamos desconfortáveis um com o outro.
Como ela é minha assistente pessoal, parei de contratar mulheres só para sexo rápido. Separei as coisas e resolvi tirar um tempo para minha vida amorosa. Quis me abster de sexo sem compromisso. Inicialmente foi a coisa mais difícil que eu tive que fazer, pois eu era um homem com a vida sexualmente ativa. Mas só de pensar que eu estava ficando igual o Richard, me deu a força que precisava para largar essas coisas.
Nesse período, conheci uma morena muito linda com todos os atributos físicos que me atraem em uma mulher.