Capítulo 2

–Marcy!– Shin sussurou e cutucou o ombro de Marcy que voltou a despertar e desviou o olhar para baixo inclinando a cabeça em gesto de respeito e saudação.

–M-muito prazer Senhor Miller–

Toda comitiva que acompanhava Ethan olhou para Marcy e para mão estendida e deixada no vácuo do CEO e presidente do grupo.

Era aceitável curvar a cabeça em gesto de saudação e respeito ali na Coreia, mas deixar a mão de um superior no vácuo, era o mesmo que proferir um grande insulto.

–Não vai apertar minha mão?– Ethan insistiu e viu Marcy se demorar a voltar a levantar a cabeça.

Marcy engoliu o nó em sua garganta e estendeu a mão apertando a mão de Ethan que apertou a sua com uma força mais que a necessária enquanto a encarava nos olhos ainda com seu sorriso simples que parecia normal aos olhos dos outros, mas que para ela parecia um sorriso diabólico carregado de rancor.

Marcy desviou o olhar e tirou sua mão da mão de Ethan.

–Então, como eu estava dizendo. Esses são os donos e fundadores da editora com a qual vamos assinar o contrato de pareceria para adaptação das obras em séries de drama– explicou o Diretor do estúdio.

–Ah entendo. E assinarão o contrato hoje?– Perguntou Ethan olhando para o mais velho, mas seu olhar sempre voltando para mulher que olhava para outro lado fugindo do olhar dele.

–Sim senhor. Eles estão cá para isso–

–E se importa se eu participar da negociação?–

Marcy olhou para Ethan que a encarava de volta. E os demais também ficaram intrigados. Não era comum o CEO de um grande conglomerado como aquele assinar um contrato secundário e pequeno como o contrato em questão. Cabia ao Diretor da área fazer aquilo.

–O Senhor quer participar da negociação?– perguntou o diretor confuso.

–Sim, algum problema? Esse estúdio é uma nova área que a minha empresa está explorando. E eu quero acompanhar de perto para saber com quem exatamente estamos lidando– disse olhando para Marcy que voltou a desviar o olhar.

–Claro senhor, como desejar. A reunião é daqui há meia hora, podemos continuar com a visita guiada ao estúdio enquanto isso–

–Esqueça a visita. Não vamos fazer os nossos convidados esperarem, certo?– perguntou voltando a olhar para Marcy. –Algum problema em adiantar a reunião? Senhorita Diaz?– Ethan insistiu afim de fazer ela olhar para ele.

Marcy voltou a olhar para Ethan e suspirou internamente mantendo a postura.

–Não, não há nenhum problema senhor, mas se me derem licença, eu vou usar o banheiro primeiro, com licença–

Marcy saiu dali com passos rápidos, e Ethan a acompanhou com o olhar até ela sumir entre os corredores.

"Você não tem para onde fugir ou correr de mim outra vez, Marcy"

.....

Marcy entrou no banheiro e começou a respirar fundo e rápido com a mão em seu peito que batia forte e rápido, enquanto lágrimas caíam de seu rosto, e logo foi até o lavatório, abriu a torneira e jogou água em seu rosto para ver se acordava daquele pesadelo, mas não. Era tudo real, ele estava ali.

Marcy se olhou no espelho enquanto via as imagens daquele dia passarem sua mente, o choro e a dor de Ethan quando ela o abandonou e julgou que nunca mais fossem se ver.

"Como isso foi acontecer? Como ele pode ser o homem que literalmente tem em suas mãos o poder de salvar a editora que construí com tanto esforço! Ele com certeza vai usar essa oportunidade para se vingar e destruir tudo que eu levei anos para construir. Não, eu não posso deixar isso acontecer, eu tenho que sair daqui agora, não posso permitir que isso aconteça!–

Marcy enxugou seu rosto e saiu do banheiro decidida em convencer seu sócio e melhor amigo a sairem dali o mais rápido possível. Podiam procurar outros investidores e parcerias, mas com aquele homem seria impossível, ele com certeza apenas destruiria tudo!

–Marcy onde você estava? Por que demorou tanto? O CEO e o diretor já estão a nossa espera na sala de reuniões, vamos, não podemos deixar eles esperaram– Shin segurou Marcy pelo pulso e foi caminhando em direção a sala, mas Marcy o parou.

–Shin espera, nós não podemos assinar esse contrato!–

–o que? Do que está falando? Esse contrato vai literalmente salvar a nossa editora, nós levamos um golpe muito grande com aqueles processos de plágio e todas as multas, e perdemos muita credibilidade no mercado, é um milagres uma empresa dessa dimensão ter nos dado essa chance. Assinando um contrato com essa empresa, todos os nossos problemas serão resolvidos! Vamos conseguir pagar todas as multas e dividas, vamos nos reerguer e voltar a construir o nosso sonho! O sonho que construímos juntos!– Shin segurou as mãos de Marcy com um largo sorriso esperançoso.

Eles tinham construído aquela editora com suor e sangue, mas o erro de um escritor da editora apresentar obras como suas e depois receberem a denúncia de plágio, tinha jogado anos de trabalho duro no esgoto, e logo vários outros processos de plágio começaram a surgir, muitos sem fundamento, mas a imagem deles já estava denegrida para qualquer pessoa acreditar neles. E a editora que antes era produtiva próspera e famosa, se tornou sinônimo de fraude com várias multas e processos encima.

–Eu sei que você está nervosa, afinal, essa é a nossa última chance de salvar a nossa editora, você saiu do seu país até aqui para realizar esse sonho que agora está por um fio, mas não desanime, eu tenho a sensação de que hoje tudo vai correr bem, então tenha confiança e vamos!– Disse Shin animadamente e voltou a caminhar em direção a sala de reuniões levando Marcy com ele.

Marcy apenas baixou o olhar e se deixou ser levada por ele. Como podia dizer a ele para desistirem da única chace de salvarem o trabalho de uma vida, por um erro que era somente dela?

Marcy e Shin entraram na sala onde estava o diretor, o CEO, seu assistente, e dois outros homens os esperando

Marcy olhou para Ethan sentado na cabeceira da mesa, e ele olhou de volta para ela como um juiz e um carrasco pronto para executar sua sentença que já tinha sido decidida 9 anos atrás

–Sentem-se, vamos começar a reunião–  A voz firme dele soou na sala cortando o silêncio com o olhar fixo apenas nela.

Capítulo 3

–Editora Freedom– começou Ethan enquanto olhava o documento em suas mãos, e os demais estavam tensos e em silêncio. Todos conhecia a fama dele de ser meticuloso nos negócios e não deixar passar nada.

–A nossa editora...–

–Tem muitos processos de plágio, apropriação, muitas multas dívida– Ethan interrompeu Shin e jogou a pasta de documentos sobre a mesa deixando o clima tenso no ar.

–Por que eu deveria desperdiçar o meu dinheiro investido em uma editora praticamente na ruína?– Ethan perguntou olhando para os demais, e parou seu olhar em Marcy que apenas desviou do olhar dele olhando para mesa em silêncio e com a cabeça levemente baixa.

–Bom, os processo de plágio foram apenas para as obras de um escritor recém contratado, era um escritor freelancer na verdade, ele nem fazia parta da nossa editora. Mas como a nossa missão é ajudar a tornar realidade os sonhos de pequenos escritores, nós aceitamos publicar o livro dele em nossa editora, porém, ele acabou sendo um vigarista plagiador e acabou nos causando todos esses problemas, já os restantes processos, já foram julgados e não há plágio algum senhor, sono uma editora séria– Explicou Shin tentando amenizar a situação.

–Ah, então quer dizer que vocês não fazem o vosso trabalho direito e não investigam com quem vão trabalhar? Me parece que são amadores e nada profissionais. Eu por outro lado, gosto de conhecer muito bem com quem vou trabalhar– Ethan voltou a olhar para Marcy que continuava evitando o olhar dele.

–nos negócios assim como em qualquer relacionamento, a informação e a confiança são indispensáveis, não concorda, Senhorita Diaz?– perguntou Ethan voltando a olhar para Marcy que finalmente levantou o olhar para ele.

Shin olhou para Marcy a incentivando a falar. Ele podia lidar com a parte dos negócios, mas Marcy sempre foi a melhor com as palavras, por isso era a Diretora geral, e a escritora com o maior número de best Sellers da editora.

Marcy sentia seu coração bater forte desde que entrou naquela sala, e pensar em falar diretamente com Ethan apenas a deixava mais nervosa e com a voz presa.

–Se me permite senhor– pediu o diretor do estúdio que era um grande diretor de cinema respeitado e conhecido, e também um crítico literário.

–Realmente a situação actual da Editora Freedom não é das melhores. Mas se for a ver os relatório e análises feitas por nossa própria equipe de 3 meses atrás, vera que era uma editora bastante produtiva sólida e próspera, vários livros deles já ganharam vários prêmios e adaptações, inclusiva obras da senhorita Diaz aqui presente que eu me atrevo a dizer que é uma das melhores escritoras da actualidade moderna. Eu acompanho o trabalho dela há anos desde que a editora foi fundada, e por isso eu sugeri essa editora para ser a nossa sócia no nosso novo projeto, eu confio no trabalho deles plenamente e aposto o meu nome em como essa parceria será boa para o nosso grupo também–

Ethan olhava para o mais velho com atenção. Sabia que ele era respeitado e tinha muita consideração pela opinião dele, por isso tinha o nomeado como diretor daquele estudo, mas seu assunto ali era outro.

–Entendi. O Senhor confia no trabalho trabalho deles, e eu confio no senhor–

Os outros suspiraram aliviados e com sorrisos.

–Mas e neles como pessoas? O Senhor confia neles? No caráter? Na lealdade? O senhor sabe que tipo de pessoas eles são e do que seu são capazes de fazer?–

Ethan olhou para Marcy –Pois su não confio–

O clima voltou a pesar na sala.

–O Senhor pode me garantir que eles não vão nos trair da pior forma e trazer vergonha e humilhação ao nosso estúdio, E destruir em segundos algo que levamos anos para construir?–

Ethan falava de forma normal mas olhando diretamente para Marcy sem se importar com os olhares dos outros que começavam a perceber uma certa tenção entre eles, como se aquilo fosse algo mais pessoal.

–Como já disse, eu somente trabalho com pessoas em quem confio. E sinceramente, eu não confio em pessoas que foram imprudentes o suficiente para deixar um plagiador entrar na editora deles, quem sabe que mais outras coisas baixas e desprezíveis eles fizeram para chegar onde chegaram?–

–Já chega!– Marcy se levantou batendo as mãos na mesa surpreendendo todos ali.

–Nós não temos que ficar aqui e ouvir insultos de uma pessoas que certamente já têm opiniões tomadas sobre nós. Se não pretende assinar o contrato não nos faça perder o nosso tempo– disse finalmente olhando para Ethan que a encarava de volta.

–Marcy!– Shin chamou tentando fazer ela se calar e sentar.

Ethan olhou para Marcy e tirou uma risada soprada. –Parece que toquei num ponto sensível, se acalme senhorita Diaz, não leve para o lado pessoal, são apenas negócios–

–o senhor é o único que está levando as coisas para o lado pessoal aqui. O senhor está nos julgando sem ao menos conhecer o nosso trabalho, o senhor por acaso já leu alguma de nossas obras?– perguntou Marcy o encarando fixamente.

  –Eu leio bastante, mas as vossas obras fantasiosas e fora da realidade não fazem o meu gênero de leitura.– respondeu frio e sério mantendo o olhar fixo na mulher a sua frente.

  –então com que base o senhor diz que não somos profissionais, experientes e ainda nos acusa de sermos desprezíveis e baixos? Só porque somos uma editora pequena constituída por pessoas que amam o que fazem? Só porque cometemos o erro de ajudar alguém que julgamos precisar da nossa ajuda? Mais de 50% das nossas obras já foram indicadas a prêmios, mais de 10% venceram os prêmios e temos um total de 8 obras que já ganharam adaptações para séries, filmes e animes, a nossa empresa tem potencial sim, e o senhor não pode desmerecer o nosso esforço com tanto desrespeito e nos ofender tão desrespeitosamente. Se quer contratar outros autores que o faça, chegamos onde estamos apenas com o nosso talento e eu lhe garanto que podemos chegar muito mais longe com ou sem essa parceria.– disse Marcy irritada olhando diretamente para aqueles olhos conhecidos porém tão desconhecidos agora, ignorando seu coração acelerado e seu corpo trémulo, e agora todos olhavam para ela.

Shin transpirou frio ao ouvir Marcy falar daquela forma com aquele homem, ela podia ser estrangeira assim como ele, mas não usar termos honoríficos naquela situação e dizendo aquelas coisas, soava tão desrespeitoso como cuspir na cara dele.

–B-Bom... o que a minha sócia quer dizer é que...–

  –tudo bem.– disse Ethan se acomodando na cadeira com uma expressão relaxada mostrando não estar afetado pelas palavras dela, na verdade, estava gostando de ver a velha Marcy, aquela que sempre lutava contra injustiça, mesmo no último momento ela tendo sido a mais injusta de todos.

–Já que a senhorita tem tanta confiança assim em seu trabalho, eu vou aceitar uma recomendação sua de uma de suas obras já que dizem ser tão talentosa– Ethan se levantou da mesa e todos fizeram o mesmo.

–Eu tenho uma reunião marcada agora e não posso ficar mais. Então, eu convido a senhorita para um jantar em meu apartamento, para que possamos discutir melhor sobre esse assunto, Senhorita Diaz–

–O que?– Marcy perguntou confusa assim como todos os outros.

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