Capítulo 2

Horas depois...

Suzana chegou a casa da amiga, que ao ouvir tudo o que aconteceu não conseguia acreditar, cai sentada na poltrona com as mãos sobre a boca e olha para a amiga que parece estar em outro planeta.

- O quê? Repete, que não entendi nada. Aquele otário te roubou? Ele te deixou sem nada?

- Só tenho as minhas roupas, não sobrou mais nada.

- Jesus! – Priscila se jogou no sofá com os olhos arregalados. – Eu sempre soube que ele não prestava, mas nunca imaginei que fosse capaz disso.

Priscila nunca gostou do Joaquim. Às vezes, Suzana achava que era porque ele tinha a escolhido no lugar de Priscila. Quando as amigas o conheceram, ambas ficaram interessadas nele, mas Joaquim gostou de Suzana, e os dois começaram a namorar. Mas agora ela percebia que todas as observações que a amiga fez sobre o ex-marido ao longo do tempo eram verdadeiras.

- Eu nunca te ouvi, sempre achei que você ainda se interessava por ele.

- Credo! – Priscila olhou para a amiga, indignada. – Nunca ficaria com um boy de uma amiga, principalmente se ele fosse um egocêntrico como o seu ex-marido. Ele pessoalmente era insuportável, eu só o suportava por sua causa.

- O que eu vou fazer, amiga? Como vou sobreviver sem casa, sem trabalho e tendo que cuidar da minha família?

- Vamos dar um jeito. Por ora, você fica aqui comigo. Vou esvaziar aquele quartinho de bagunça lá nos fundos. É pequeno, mas vai dar para você dormir. Eu tenho um colchonete aqui e você fica com ele até comprarmos a sua cama. E vou liberar uma parte do meu armário para você. Depois podemos vender aqueles seus vestidos caros. Tem um bazar em Copacabana que paga muito bem, isso vai te ajudar a levantar uma grana até você arrumar um emprego.

- Não sei como te agradecer, Pri. Estou em estado de choque. – Suzana a abraçou, chorando, e a segurou com força.

- Não precisa agradecer amiga, eu sei que faria o mesmo por mim.

- Claro que faria. – Ela se afastou e enxugou o rosto.

- Pare de chorar, vamos tirar as suas coisas daquela casa e se livrar de todo o seu passado.

Suzana respirou fundo e deu um longo abraço na amiga. Naquele momento era tudo o que ela precisava, alguém que a escolhesse e não julgasse.

****

Horas depois...

Como não tinha quase nada para levar, em pouco tempo Suzana embalou as suas coisas. Ligou para o advogado que representava o novo proprietário e entregou as chaves da casa. Saiu sem olhar para trás, não queria mais se lembrar da vida de fachada que levou naquele lugar.

Agora ela sabia que todos os anos que passou ao lado do marido foram ilusão; se ele a amasse de verdade, nunca teria lhe dado um golpe. Aquele canalha a usou e a passou para trás. Depois de seis anos, entre namoro e casamento, Suzana dedicou a vida a ele, e agora ficou sem absolutamente nada.

- Você realmente não tem ideia de para onde ele foi? Podemos tentar encontrá-lo pela internet, pedir ajuda dos amigos que tinham em comum, ou algo parecido. Ele não pode ter evaporado do nada, tem que ter alguma pista de onde ele está. – O irmão da Priscila lhe deu essa sugestão.

- Não tenho noção de onde ele possa estar Pablo, só sei que foi para São Paulo em uma reunião, e, depois disso, só recebi ligações dele até ser despejada ontem à tarde da minha casa.

- Isso parece até história de novela. Aquele teu marido sempre me pareceu um safado, mas não esperava tanto.

- Não era só eu que não gostava dele. – Priscila falou enquanto tirava a última bolsa do carro do irmão.

- Acho que só eu não percebia o mau-caratismo dele.

- Você estava apaixonada, por isso não percebia. – Pablo tentou justificar a falta de atenção dela.

- Você tem razão. – Suzana teve que concordar com ele.

Sempre imaginou o marido como um homem acima do bem e do mal, mas agora percebia que estava apenas sob o efeito da paixão.

Assim que entraram na casa da Priscila, o seu celular tocou. Quando viu o nome da mãe no visor, Suzana se encolheu. Se a sua mãe chorasse, mais uma vez ela desabaria.

- Oi, mãe.

- Arrumei um lugar para ficarmos, graças a Deus. – A voz de sua mãe era trêmula, e Suzana percebeu que estava tentando segurar o choro. – A Vânia, aquela minha prima que mora aí, no Recreio dos Bandeirantes, vai nos receber. Ela tem uma casinha pequena desocupada no quintal e vai nos ceder o local. Até o fim de semana, nos mudaremos, o Levi da padaria vai fazer o frete da nossa mudança sem cobrar nada. Você sabe que ele é um bom amigo do seu pai.

- Mãe... – A voz morreu quando percebeu que a mãe resolveu tudo em pouco tempo. – Sinto muito, fui ao advogado, e ele disse que toda a transação foi feita com uma procuração assinada por mim, mas eu juro que não

assinei nada, não estou entendendo o que aconteceu.

Sua mãe suspirou pesadamente do outro lado da linha.

- Aconteceu que esse seu marido é um bandido e roubou tudo o que você ajudou a construir ao lado dele. O que mais tem nesse mundo é gente ruim, filha. Mas não se preocupe, Deus nos dará tudo de volta e cobrará dele tudo o que está nos fazendo.

- Só a senhora para ser tão forte nesse momento, eu estou devastada com toda essa situação. Não sei o que farei da minha vida.

- Tudo tem jeito, filha, agora que estou saindo daqui da Serra, poderemos ficar mais próximas. Se você quiser, pode ficar com a gente lá, seu pai vai ficar feliz em ter as meninas dele de volta sob as suas asas.

- Eu sei que ele ia gostar, mãe. - Pela primeira vez nesse dia, Suzana sorriu. Ter sua família tão perto dela seria um bálsamo para a dor que estava sentindo. – Mas estou na casa da Priscila, e aqui é melhor para arrumar um emprego.

- Tudo bem, meu amor. Assim que eu estiver saindo daqui, aviso, mas fica com o coração em paz, filha, vamos superar toda essa crise, e de alguma maneira encontraremos esse homem.

- Mãe, como o papai está?

- Ele reagiu melhor do que pensei, está mais preocupado com você do que com a perda da casa. Fica tranquila, que estamos bem, o importante é que estamos com saúde, vamos nos ajeitar.

- A senhora não existe, mãe.

- Existo sim, filha, e te amo demais. Cuide-se, meu amor, até domingo mamãe chega.

- Também te amo, mãe. – Ela pediu a benção da mãe antes de desligar.

- Sua mãe é incrível, que inveja. – Priscila sorriu e levou algumas das suas bolsas para o próprio quarto.

- Eu sei.

- Fiquem por aí, que tem um rato nesse quartinho. – Ambas escutaram Pablo gritar no fundo da casa.

Elas se entre olham e gritaram ao mesmo tempo. Correram para o quarto de Priscila e se trancaram e apenas ouviram a briga feroz do Pablo com o rato. Graças a Deus que ele se ofereceu para desocupar o quarto, se ele não tivesse feito isso, elas estariam desesperadas e sozinhas nessa casa.

- Seu irmão é um herói.

- Eu sei. Nele, podemos confiar. – Priscila soltou um grito quando ouviu o irmão berrar um palavrão e abraçou a amiga

Suzana percebeu que estava sem rumo, mas que ao menos sobraram verdadeiros amigos ao seu lado, aos quais poderia sempre confiar.

Capítulo 3

Theodoro odiava atrasos. Para ele, pessoas que não cumpriam horários não mereciam confiança. Nos seus negócios, não tolerava um segundo de atraso. Ou chegava na hora marcada ou não lhe encontraria. Se acontecesse um erro sequer, ele estava fora.

Mas, nesse momento, estava tolerando esse atraso, porque se tratava do seu melhor amigo. Murilo nunca conseguiu seguir um mísero horário. Em todos os encontros deles, Theodoro se preparava para esperar muito, mas desconfiava seriamente que o amigo fazia isso só para lhe irritar.

Quando começou a cogitar ir embora, o amigo apareceu no restaurante. Estava todo desgrenhando e com o semblante tenso. Alguma coisa grave tinha acontecido.

- Já não era sem tempo. – Theodoro não se abalou em cumprimentá-lo, estava irritado demais para isso

- Não começa, Théo, eu tive um problema.

- Sempre tem, Murilo, você adora inventar uma história para encobrir as suas merdas. – Ele fez sinal para o garçom trazer outro uísque

Estava tão tenso, que precisava relaxar com uma bebida.

- Dessa vez é verdade. – Murilo se acomodou na frente do amigo. – Cara, acabei de descobrir com o meu advogado que um empresário que conheço deu um golpe na esposa. Ele conseguiu uma procuração da pobrezinha e vendeu todos os bens deles. Não deixou nada para ela, a

não ser as roupas. Todo o resto ele tirou da coitada.

Theodoro ergueu a sobrancelha ao ouvir essa história. Não acreditava que a mulher fosse tão burra a ponto de passar uma procuração para o marido dando plenos poderes para que ele vendesse todos os seus bens.

- E o que isso te atinge? Se ela é uma dessas mulheres burras que não enxergam nada além do Botox, você não tem culpa. Tenho certeza que em breve ela arruma outro marido rico e consegue tudo de novo. – Ele bebeu uma generosa dose do seu uísque e sentiu o calor da bebida descer pela sua garganta

- Ele vendeu a casa dos pais dela, e eles também estão na rua. – Murilo ainda se recusava a acreditar que o babaca do Joaquim traiu uma mulher especial como Suzana. – Théo, eu estive com eles há um mês, e o cara babava pela mulher, eu não estou entendendo nada.

- Ela não deveria estar correspondendo às expectativas dele. – Sem paciência para o assunto, Theodoro olhou o cardápio para saber o que iria escolher.

- Eles estavam casados há quatro anos, não acha que é tempo demais para ele não saber quais expectativas a mulher poderia não corresponder?

- Porra! - Theodoro se irritou profundamente em ter que ouvir fofoca. - Não conheço o casal, não me importo com os problemas deles e não quero saber se ela está na rua. Simplesmente não me importo com nada disso.

O amigo o encarou, perplexo. Às vezes, Murilo desconhecia o amigo que convivia desde a escola. Tudo bem que ele sabia que Theodoro não gostava de saber da vida dos outros, mas, dessa vez, era uma história importante.

- Você não tem coração?

- Tenho e está ótimo, fiz check-up há dois meses. O médico disse que tenho coração de atleta... para ser mais preciso, um coração de leão, como ele mesmo insinuou.

- Vai começar com suas ironias? Odeio seu humor ácido.

- Se você parar de falar asneiras, posso ser mais cordial amigo.

- Theodoro,, eu estou dividindo com você o drama de uma bela mulher que está na rua. Você deveria ficar consternado com a situação dela.

- Agora sim, tudo está explicado, você quer comer a pobre sem-teto. Entendi tudo, meu caro, eu ando com o raciocínio lento nos últimos tempos. Sorry!

- Quanta deselegância. Você é um merda, na boa, não se fala assim de uma dama.

Agora Murilo pegou pesado, o que fez com que Theodoro jogasse a cabeça para trás e soltasse uma estrondosa gargalhada, sem se importar com as pessoas ao seu redor.

Essa piada do amigo foi ótima e merecia uma boa risada.

- Falou o rei da noite do Rio. – Ele se inclinou sobre a mesa e estreitou os olhos para Murilo enquanto sussurrava. – Você é tão cordial assim com as putas que gerencia? Importa-se com o coração delas ou só pensa no dinheiro que elas trazem para você?

Ouvir Murilo falar em "dama" foi demais para Theodoro. O cara tinha uma agência clandestina de acompanhantes de luxo, e queria chamar uma mulher idiota de "dama". Realmente era uma grande piada.

- Vai se foder. – Murilo olhou para os lados, incomodado. – Você sabe que não gosto de falar desses assuntos em público. – Claro que ele não gostava, ninguém do meio social deles sabia dos negócios escusos de Murilo.

- Ninguém ouviu, relaxa, mas pare de bancar o bom rapaz, nós dois sabemos que você é o vilão da história.

- Eu não engano as mulheres, elas vão à minha procura sabendo o que posso oferecer. Sou um homem de negócios como você.

- Sei... – Theodoro escolheu o seu pedido e fez sinal para o garçom se aproximar. – A única diferença é que não tenho uma empresa de fachada para camuflar meu real negócio.

- Vamos entrar nessa discussão novamente? Eu faço isso há anos, e você sabe disso.

Sem mais conversa, Theodoro fez o seu pedido.

- Você vai querer o quê?

- O mesmo que você – Murilo respondeu, irritado, e com toda a tranquilidade do mundo, seu amigo fez outro pedido e dispensou o garçom.

- Estou com muita fome, não tomei o desjejum hoje. – Theodoro olhou o celular, viu que mil mensagens tinham chegado e percebeu que as pessoas pareciam não parar nem por um minuto

- Você é tão antiquado, fica falando nesse linguajar refinado. – Murilo fez uma careta. – Você está comigo, não com aquele conselho de velhos babões que administra.

- E você é um chato. Eu falo como quiser, o meu dinheiro me permite falar até em latim.

- Cala a boca! – Irritado, Murilo chutou a canela de Theodoro por baixo da mesa

A prepotência do amigo era algo que o tirava do sério.

– Preciso encontrar uma maneira de ser solidário com a nova solteira da praça. Eu sempre tive tesão pela mulher do Joaquim e quero muito me aproximar dela. Juro que dou casa, comida e roupa lavada para aquela mulher, ela é muito gostosa, cara. No meu cardápio de meninas, não tem nenhuma que chegue aos pés dela. Se você a visse, ficaria completamente louco.

Era cansativo para Theodoro ouvi-lo dizer que toda mulher que sentia tesão era a mais linda do mundo. Às vezes, Theodoro desconfiava que o amigo possuía problemas mentais, porque isso não era normal.

- Vamos mudar de assunto? Eu estou pensando em passarmos um final de semana em Angra. Só andei três vezes no meu iate novo, quero dar mais utilidade para ele.

- Quer que eu arrume umas meninas para enfeitálo? Posso te passar o meu cardápio.

- Engraçadinho! Você trata as mulheres como se fosse alimentos de um restaurante barato. – Theodoro fez deboche da proposta do amigo – O inferno vai congelar no dia em que eu pagar uma mulher para ficar ao meu lado. Pode deixar que convido umas meninas, terei quantas mulheres eu quiser à minha disposição e melhor... de graça.

- Você é quem sabe, a oferta ainda está de pé. Agora me conte sobre o fora que a Pâmela te deu, estou curioso.

Theodoro ignorou a felicidade na voz do Murilo e contou o seu problema. Nesse momento, se sentia puto por ter sido deixado por Pâmela, e apenas o amigo iria entender o que estava sentindo.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED