Capítulo 2

MAJU

Alguns dias depois...

Meus pés parecem que estão em carne viva de tanto andar de um lado para outro. Quando minha mãe teve alta, saímos do hospital e gastamos o pouco que tínhamos com todos os remédios que o médico tinha receitado, aproveitei e comprei o jornal. Minha mãe não parava de chorar e se lamentar pelo fato de ter pedido a alguns meses atrás para darem baixar em sua carteira, e foi com esse dinheiro que ela deu entrada e financiou o restante da nossa casa no banco que já é cliente alguns anos. Fecho as portas dos meus pensamentos assim que chegamos em casa. Tratei de levar ela até o seu quarto e após vê que a mesma estava dormindo, voltei para sala e peguei o jornal . Ao olhar para o objeto meus olhos logo foram ao encontro de uma vaga para secretaria , meu coração começou a bater em um ritmo alucinante, minha respiração alterada, no impulso me levantei e peguei rapidamente o cartão telefônico e sair feito uma louca correndo em direção ao orelhão. Depois de fornecer alguns dados e assim que a mulher do outro lado da linha disse que eu deveria ir até o local indicado no anúncio para uma entrevista, minhas esperanças se renovaram depois do momento de pura angustia que passamos horas atrás, encerrei a ligação e com o coração dando pulos de alegria caminhei em direção a minha casa.

Resolvi não dizer nada ainda a minha mãe, pois farei uma surpresa a ela se caso consegui a vaga. Horas depois terminei de fazer o jantar e com minha mãe já alimentada dei boa noite e resolvi tomar um banho e dormir, pois queria chegar bem cedo a entrevista. Acordo em um sobressaltado assim que uma forte luz adentrou o meu quarto, instintivamente me levantei e fui em direção ao banheiro. Minutos depois de banho já tomando e arrumada , fiz o café rapidinho e quando deixei tudo já pronto segui em direção a parada de ônibus.

Depois de horas que mais pareciam uma eternidade enfim cheguei ao meu destino, ao adentrar o prédio tinha uma grande movimentação no ambiente , levantei o olhar e tinha várias mulheres em uma fila o que me deu a confirmação que todas vieram pelo mesmo motivo que eu , não demorou muito e uma mulher loira e muito bonita por sinal começou a distribuir algumas senhas e assim que chegou a minha vez ela me olhou de cima a baixo e logo sua voz de fez presente.

— Eu sinto muito em te informar que as senhas já acabaram , sem contar que você não corresponde aos critérios para vaga em aberto.

Ao ouvir as palavras da mulher a minha frente sentir minha garganta se fechar no mesmo instante que um nó se formou em minha garganta e antes que eu tivesse qualquer outra reação ela levantou a mão e dois brutamontes surgiram no meu campo de visão, novamente a voz enjoativa da desconhecida se fez presente.

— Mostre a mocinha aqui o caminho da saída. E não deixem mais ninguém entrar pois já temos um número suficiente de candidatas que correspondem ao perfil da vaga.

A minha vontade era avança em cima da infeliz, pois eu sei que tudo isso era por eu ser negra pois todas que olhei na fila eram brancas e ainda tinha algumas fichas em sua mão. Respirei fundo e antes que os dois indivíduos se manifestassem minha voz ecoou no ambiente.

— Você sabia que preconceito é crime? E ao contrário do que você disse eu jamais iria querer trabalhar em um local com pessoas tão preconceituosas que julgam as outras pela sua aparência. Não sou eu que não estou me enquadrando ao perfil desde lugar e sim ele que de fato nem deveria existir.

Com um giro nos calcanhares nem esperei que a mulher voltasse a se pronunciar, deixei o lugar sem olhar para trás. Desde esse dia eu venho andando por toda cidade procurando um emprego. Três dias se passaram e tudo que consegui foi uma vaga em uma lanchonete , além de pagar uma miséria eu teria que trabalhar dois turnos e cuidar de toda limpeza do ambiente. Não que eu esteja reclamando mais até o salário que a minha mãe recebia na casa dos Albuquerque era três vezes maior do que haviam me oferecido.

Ontem quando estava alguns metros da nossa e olhei um carro parado em nossa porta, senti um calafrio atravessar por todo o meu corpo aumentei o ritmo das passadas e ao adentrar o ambiente encontrei um senhor na sala conversando com a minha mãe, notando o estado de confusão em que eu me encontrava ela logo tratou de se manifestar.

— Filha esse é João o motorista da família Albuquerque. Ele acabou de me dizer que a vaga que eu ocupava ainda está disponível, pois dona Helena não gostou de nenhuma candidata que foram até a mansão para serem entrevistadas e como ela sabe que você tem mãos de fada na cozinha, mandou o João vim até aqui. Enquanto você não consegue um emprego melhor e eu possa voltar a trabalhar seria bom que ocupasse a vaga, pois todo o dinheiro que tínhamos gastamos com os medicamentos.

Mesmo depois de tantos anos eu jamais consegui esquecer do jeito que aquela mulher me olhou. Helena Albuquerque sempre foi uma mulher que tem um ar de soberba , que pensar ser melhor que todos a sua volta e jamais cogitei voltar a sua casa ou ter que trabalhar para sua família, mas vendo o jeito que minha mãe estava e sabendo que logo teríamos que comprar mais remédios e pagar a prestação no banco eu não poderia pensar só em mim e esquecer tudo que essa mulher que é meu maior orgulho, meu porto seguro já fez por mim, sem pensar duas vezes minha voz ecoou no cômodo.

— O senhor pode dizer a dona Helena que eu irei amanhã bem cedo. Que a vaga que era da minha mãe será ocupada pela sua filha.

Na manhã seguinte...

Olho para o grande portão a minha frente e uma sensação ruim apoderou-se de todo o meu ser, a minha vontade era de dar meia volta e retornar para minha casa . Assim que o portão foi aberto em passos largos caminhei até a entrada que minha mãe havia me dito. Quando adentrei a grande cozinha me deparei com Francisca que era responsável pelas roupas da casa, ela logo tratou de mim dizer que todos não estavam em casa , pois tinham passado a noite na casa de praia mais no final da tarde dona Helena já estaria de volta.

Aproveitei que não tinha ninguém em casa e comecei a limpa todo o ambiente. Depois de ter passado boa parte do dia entre passar pano nos dois andares da casa , lava os quatros banheiros e ainda deixar os vidros brilhando , tomei um banho rápido na área dos funcionários e voltei para cozinha para deixar a mesa da sala já pronta . Pelo menos não teria que fazer jantar pois eles sempre tomavam café ou comiam alguma coisa mais leve, então fiz um bolo e assim que deixei a mesa toda arrumada ao me mover para sair do cômodo a mulher que por anos sempre surgiu em meus sonhos apareceu em minha frente , meus lábios se mexeram e antes que algum som saísse entre eles sua voz grave ecoou no espaço.

— Eu espero que a sua mãe tenha te informado como funcionar as regras aqui. Se limite a fazer o teu serviço e não se esqueça que aqui você é somente uma empregada e não deve jamais se pronunciar se não for solicitada.

Ela nem deixou que eu falasse nada e começou a subir os degraus da escada. Agora eu sei o motivo pelo qual, mesmo tentando disfarçar sempre que minha mãe chegava em casa tinha uma tristeza no olhar. Um sentimento que eu nunca tinha sentido antes pairou sobre mim, nem que eu arrume um serviço de varrer as ruas dessa cidade mais não ficarei sendo tratada como escrava nesse lugar.

Olhei para o relógio na parede que marcava 17:30 da tarde, fui até o quartinho dos funcionários peguei a minha bolsa e deixei o lugar. Depois de alguns minutos na parada não demorou muito e o ônibus surgiu em minha frente, passei todo percurso de volta para casa pensando no que irei fazer no dia seguinte a única certeza que tinha era que não vou voltar para mansão dos Albuquerque. Passei tanto tempo perdida nos meus pensamentos que perdi a noção do tempo transcorrido só me dei contar quando já estava chegando próximo a parada que eu iria descer.

Com um turbilhão de pensamentos ecoando em minha cabeça fui caminhando até chegar em minha casa e ao entregar no cômodo ouvir algumas vozes vindo da direção do quarto da minha mãe, aumentei o ritmo das minhas passadas e ao chegar em seu quarto a vizinha estava próximo a sua cama . Olhei para minha mãe que estava com os olhos inchados e antes que eu perguntasse o que tinha acontecido a mulher do seu lado começou a falar.

— Sua mãe passou muito mal hoje , assim que recebeu a correspondência do banco com o boleto para o pagamento da prestação. Mas por sorte eu tinha vindo trazer um pouco do almoço que fiz e estava aqui para cuidar dela. Como eu disse a sua mãe agora que você está trabalhando na casa dos Albuquerque ela não deve se preocupar, pois terão como continua pagando as prestações.

Engoli em seco ao ouvir as palavras da mulher a minha frente. Vê o estado que ela ficou por medo de não conseguir pagar a prestação imagina como ficaria se soubesse que eu desistir do emprego. Eu não suportaria vê-la sofrendo por minha culpa, eu sei que vou precisar ser forte para suportar todos os obstáculos e não importa quanto isso me queime por dentro, Helena Albuquerque nada do que você possa fazer poderá me ferir mais do que vê a tristeza nos olhos da minha rainha . Eu Maria Júlia Silva farei até o impossível para vê novamente o brilho nos olhos da minha rainha.

Capítulo 3

MAJU

Horas depois ...

Acorda ! Filha !

Acordo em um sobressalto, meu corpo banhado pelo suor. Meus olhos se abriram indo de encontro aos da minha mãe. O forte incômodo que eu sentia na minha garganta me impedia de falar, tudo parecia tão real. Saio do estado catatônico que me encontrava quando ouço a voz da minha mãe.

___ Você está bem meu amor? Foi só um pesadelo.

Seus olhos negros estavam fixos em mim, percebi como ela estava preocupada. Então fiz o que achei ser o certo naquele momento.

___ Sim mãe. Acho que acabei sonhando com o filme que assistir mais cedo.

Ainda atordoada notei que ainda estava escuro. Então voltei minha atenção novamente para ela e disse:

____ A senhora pode volta a dormir já passou.

Ela deu um beijo na minha bochecha e aos poucos sumiu do meu campo de visão. Puxei o meu lençol e fiquei encolhida, ao lembrar do que aconteceu minutos atrás senti um tremor percorrer pelo meu corpo todo, era como se o sonho ruim e aquele homem fossem reais. O mais estranho era por está claro e mesmo assim uma sombra estivesse em volta do seu rosto me impedindo de vê sua verdadeira face.

Passava um pouco mais da cinco da manhã quando sai do meu quarto . Estava acordada fazia algum tempo, pois não conseguia parar de pensar naquele desconhecido, me levantei e tomei um banho para esquecer aquela sensação ruim. Quando entrei na cozinha encontrei a minha mãe que já tinha feito o café, ficamos entretidas conversando e quando olhei para o relógio e vi que já passava das seis . Eu precisava me apressar, terminei o café, lavei as louças, peguei a minha bolsa e após dá um beijo na minha mãe eu saí.

A rua estava tranquila , mas quando entrei no ônibus e o mesmo entrou em movimento, alguns minutos depois me deparei com a cidade do Rio de janeiro bem acordada, com sua energia inesgotável.

Uma hora depois cheguei ao meu destino. Passei voando pelos grandes portões e depois de ir até o pequeno quarto destinada aos funcionários, troquei de roupa e caminhei até a cozinha. Nos minutos seguintes tratei de providenciar tudo para o café da manhã, faltando só colocar na grande mesa o bolo favorito de Helena Albuquerque. Caminhei pelo corredor até chegar à sala grande e luxuosa da grande mansão e depois de colocar o objeto que estava em minhas mãos sob a mesa ouvi uma voz que fez todo o meu corpo estremecer.

___ Bom dia!

Levantei o olhar e fiquei paralisada no meio da sala com os olhos fixos na direção da escada ao me deparar com um homem estonteante. Ele parecia poderoso e confiante em seu terno impecável, cabelos perfeitamente alinhados , ele era lindo.

As minhas pernas pareciam que a qualquer momento iam fraquejar. Ele se moveu e parou em minha frente, seus olhos percorrem o meu corpo me avaliando de baixo a cima até seus olhos ficarem fixos no meu. O jeito como ele olhava para o meu corpo era como um animal prestes a devorar sua presa. Novamente sua voz ecoou.

___ Suponho que você seja a filha da Isabel!

Consegui abrir a boca e respondi.

____ Sim! E você deve ser o Andrey Albuquerque.

Antes que qualquer som saísse entre seus lábios uma voz enjoativa ecoou no ambiente.

____ Para você senhor Andrey Albuquerque.

Voltei minha atenção para mulher que tinha um ar de soberba. Descendo os degraus da escada, e assim que parou em nossa frente voltou a se pronunciar.

____ Como te falei ontem se quiser continuar trabalhando nessa casa, mantenha-se ocupada nos seus afazeres.

Senti um nó se formando em minha garganta, a raiva percorrendo em minhas veias , e assim que ia me manifestar a voz de Andrey novamente se fez presente.

____ Chega mãe! Eu quem falei com ela e como uma boa funcionária estava respondendo a minha pergunta. Agora preciso ir que tenho uma reunião daqui a meia hora.

Ele deu um beijo na testa da mulher a minha frente e com um giro nos calcanhares caminhou em direção a porta. Volto minha atenção para mulher a minha frente quando ouço a sua voz.

____ Não quero nenhuma aproximação sua com o meu filho. Então se mantenha afastada do Andrey ou te mostrarei o caminho da rua.

Cerrei os punhos , e a raiva tomou conta de mim, mas ouvir suas últimas palavras fizeram o nó que estava preso em minha garganta não se libertar.

___ Acredito que pelo estado da sua mãe você precise desse emprego.

Com os olhos nublados pelas lágrimas de ódio. Respirei fundo pois tudo que vinha na minha mente era a imagem da minha mãe. Depois de dizer a ela que não tinha intenção alguma em me aproximar do seu filho me afastei indo em direção a cozinha.

Assim que cheguei no cômodo . Fechei os olhos e me concentrei em um único pensamento. A minha mãe vale qualquer sacrifício, enquanto não arranjar outro emprego eu terei que suportar tudo isso. Durante o resto das horas o meu tempo se resumiu entre limpar a casa e fazer a comida. Com uma dor insuportável em minhas pernas olhei para o relógio e faltava vinte minutos para o meu expediente terminar, foi quando Helena Albuquerque surgiu em minha frente e pediu para deixar alguns lanches prontos pois mais tarde uma amiga viria com sua filha para mansão.

As horas passaram voando e depois de duas horas concluir tudo , olhei para o relógio e já estava bem tarde se não me apressasse perderia o ultimo ônibus. Com tudo já pronto, tomei um banho e já arrumada, deixei a mansão. Olhei para céu que estava escuro e tudo indicava que um temporal estava se aproximando, em passos largos caminhei em direção a parada de ônibus. Tudo estava deserto, passaram quase uma hora e nada do ônibus passar . Eu já estava nervosa quando começou a cai algumas pingos de água .

Fiquei tão distraída com os pensamentos em minha mãe que já devia está preocupada que nem me dei conta

quando um veículo obscuro parou em minha frente, o vidro escurecido escondia até o assento do motorista me deixando em total alerta, mais logo o vidro foi abaixado revelando a última pessoa que não imaginei que surgiria em minha frente. Meus pensamentos foram interrompidos quando sua voz grave se fez presente.

____ Vamos! Eu levo você.

Fiquei totalmente paralisada.

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