Capítulo 2

Capítulo 1

Sophia Mariani

O vento frio da tarde atravessava minha jaqueta fina, penetrando até os ossos, enquanto eu segurava a pequena mão de Rosie. Ela saltitava animada de azulejo em azulejo pela calçada, como se o mundo fosse um grande jogo, cantando uma musiquinha inventada que rimava pouco, mas me fazia sorrir.

- Um, dois, três, piso só nos quadradinhos! - ela cantava, rindo sozinha quando errava o ritmo.

Olhei para ela e tentei gravar cada detalhe: o cabelo castanho-claro preso em duas tranças tortas, as bochechas coradas pelo vento frio de Denver, o casaco rosa já gasto nos cotovelos. Rosie tinha apenas seis anos, mas parecia carregar a luz que mantinha o meu mundo de pé.

O nosso prédio logo apareceu à frente. Um edifício antigo, de tijolos pálidos e paredes descascadas, no subúrbio. O corredor de entrada tinha sempre um cheiro persistente de mofo, misturado ao odor de comida dos vizinhos e cigarro velho. Não era bonito, muito menos acolhedor. Mas era o que eu conseguia pagar com o salário da floricultura. E, de alguma forma, com Rosie ao meu lado, tentava acreditar que era um lar.

Não foi sempre assim.

Havia uma época que não precisávamos morar nessas condições. Nossos pais morreram em um acidente de acarro a três anos atras e desde então perdemos tudo. Nossa casa, nosso conforto e principalmente nosso api e nossa mãe.

Ela parou de repente, abaixando-se para arrancar algumas margaridas que teimavam em nascer tortas nas rachaduras da calçada. Juntou um pequeno ramalhete improvisado e ergueu como se fosse um tesouro.

- Olha, Sophia! Vou colocar na jarra da mamãe. Vai ficar bonito!

Meu coração se apertou. Sorri, mesmo sentindo o nó na garganta.

- Vai sim, meu anjo. A mamãe ia adorar.

Rosie acreditava que, colocando flores no apartamento, mantinha mamãe por perto. Eu não tinha coragem de desfazer essa fantasia.

Estávamos prestes a subir as escadas quando um homem de terno cinza surgiu no saguão, interceptando nosso caminho. Ele carregava uma pasta de couro e tinha aquele olhar sério, burocrático, que imediatamente fez meu coração disparar.

- Senhorita Mariani? - a voz firme cortou o ar.

- Sim... - respondi, ainda desconfiada.

- Sou oficial de justiça. Preciso falar com você.

O homem com um terno azul marinho e olhar cansado nos parou antes de subirmos.

Meu estômago se revirou. Segurei a mão de Rosie com mais força e forcei um sorriso para ela.

- Rosie, querida, por que você não sobe primeiro? Vá abrir a porta e escolha uma historinha pra gente ler daqui a pouco.

Ela me olhou desconfiada, franzindo a testa.

- Mas, Sophia...

- Vai, meu amor. - Acariciei sua bochecha. - Prometo que não demoro.

Com relutância, ela subiu os degraus correndo, as trancinhas balançando. Esperei até que seus passos sumissem antes de encarar o homem.

- O que aconteceu? - perguntei, já temendo a resposta.

Ele abriu a pasta, retirando alguns papéis.

- Recebemos uma denúncia sobre suas condições de moradia. O apartamento não é considerado adequado para uma criança.

Senti meu peito comprimir.

- O quê? Mas eu trabalho o dia inteiro, faço tudo por ela. Não é justo...

Ele não pareceu se abalar.

- A senhora está prestes a perder a guarda de sua irmã se não providenciar outro endereço. O prazo é de trinta dias.

- Trinta dias? - Minha voz saiu num sussurro quebrado.

- Caso contrário, a tutela será transferida para parentes mais estáveis ou, na ausência deles, para um abrigo da prefeitura.

Minha respiração falhou. A palavra "abrigo" ecoou como uma sentença de morte. Rosie em um lugar frio, longe de mim. Não. Não podia acontecer.

Assenti sem forças. O oficial fechou a pasta com um estalo seco e se afastou, deixando-me sozinha naquele corredor úmido.

Subi as escadas devagar, cada passo pesado como chumbo. A lembrança do acidente que mudou nossas vidas veio com força: eu tinha dezoito anos quando recebi a ligação. Nossos pais haviam saído para uma viagem curta de carro. Nunca voltaram.

De um dia para o outro, precisei ser irmã e mãe. Precisei assinar papéis, provar que podia cuidar de Rosie, enquanto ainda chorava escondida no travesseiro. Três anos se passaram desde então. Três anos tentando segurar o mundo nas costas.

Quando empurrei a porta do nosso apartamento, encontrei Rosie sentada no tapete da sala, de pernas cruzadas, um livro de capa gasta no colo. As paredes amareladas, descascadas em alguns cantos, denunciavam a idade do lugar. O sofá era velho, herdado de uma vizinha, e a mesa de centro tinha marcas de copos que nunca saíam. Havia uma pequena prateleira onde eu mantinha vasos de flores sempre frescas, minha tentativa de trazer vida àquele espaço cinzento.

Rosie ergueu o rosto e sorriu com aquela inocência que me desmontava.

- Você demorou, Soph. Já escolhi a história!

Engoli o choro que ameaçava transbordar e me ajoelhei diante dela. Passei a mão pelos cabelos finos e a puxei para um abraço apertado.

- Qual você escolheu? - perguntei, forçando leveza na voz.

- O da princesa que não queria casar com o príncipe bobo. - Ela riu. - Porque ela queria plantar flores em vez de ficar presa no castelo.

Sorri com ironia.

- Essa princesa parece alguém que eu conheço.

Rosie inclinou a cabeça.

- Parece você?

- Talvez. - Beijei sua testa. - Mas se eu fosse princesa, adivinha quem seria minha rainha?

- Eu! - ela gritou, batendo palmas.

- Exatamente.

Rimos juntas. Momentos assim me faziam esquecer, por alguns segundos, do peso que carregava.

Fui até a cozinha minúscula - um espaço estreito com azulejos rachados e um fogão que fazia barulhos estranhos - e preparei leite quente com chocolate em duas canecas descascadas. Rosie se aninhou no sofá com a manta colorida que tricotei no inverno passado.

- Sophia? - ela chamou, segurando o livro aberto. - Quando a mamãe e o papai estavam vivos, você também lia histórias com eles?

A pergunta me pegou de surpresa. Engoli em seco.

- Sim, meu amor. - Respondi, sentando ao lado dela. - O papai lia em voz alta e sempre mudava a voz dos personagens. A mamãe ria e dizia que ele parecia um ator.

Os olhinhos dela brilharam.

- Então agora você faz igual.

Assenti, sorrindo com lágrimas contidas.

- Vou fazer igual.

E comecei a ler, imitando vozes engraçadas, arrancando gargalhadas dela. A cada riso, a cada olhar cheio de confiança, eu reforçava dentro de mim a promessa silenciosa: não importa o que acontecesse, eu nunca deixaria que a tirassem de mim.

- Eu sei, meu anjo... - minha voz falhou, mas forcei um tom leve. - E vai ser a melhor história do mundo, porque é você quem escolheu.

Ela riu baixinho, sem imaginar que, por trás do meu sorriso, havia uma tempestade de medo. Segurei-a ainda mais forte, prometendo silenciosamente que não importava o que acontecesse - eu nunca deixaria que a tirassem de mim.

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Capítulo 3

Capítulo 2

Sophia Mariani

O aroma de rosas e lírios preenchia o ar da pequena floricultura, como se tentasse me anestesiar contra a ansiedade que latejava dentro do meu peito. Passei a manhã inteira em silêncio, podando hastes e organizando arranjos sem realmente enxergá-los. Minha mente não saía do ultimato que o oficial de justiça havia deixado: trinta dias.

Alice, minha colega de balcão e confidente de plantão, percebeu meu estado desde a primeira hora. Ela tinha o tipo de olhar que atravessava qualquer fachada.

- Está escrito na sua testa que alguma coisa aconteceu, Soph. - Ela largou a fita que enrolava num buquê de tulipas e cruzou os braços. - Vai me dizer ou vou ter que arrancar à força?

Suspirei, deixando as tesouras de poda de lado.

- Eu não queria falar disso aqui... mas não aguento mais guardar só para mim.

Alice se aproximou, apoiando o quadril no balcão, pronta para ouvir.

- Ontem... - engoli seco, sentindo a garganta queimar. - O oficial de justiça apareceu. Disseram que o nosso apartamento não serve para uma criança. Se eu não mudar de endereço em trinta dias, vão tirar a Rosie de mim.

Os olhos de Alice se arregalaram, a mão dela indo instintivamente para cobrir a boca.

- Meu Deus, Soph... isso é um absurdo! Você faz tudo por aquela menina, todo mundo sabe disso.

Balancei a cabeça, tentando conter as lágrimas.

- Mas fazer tudo não é o suficiente. Eu não tenho como pagar um aluguel melhor, não sozinha.

Alice me puxou para um abraço apertado, cheirando a lavanda e terra molhada.

- Você não vai perder a Rosie. Vamos encontrar um jeito. Eu prometo.

A esperança parecia tão distante que doía acreditar, mesmo assim deixei aquele abraço me aquecer.

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À tarde, enquanto o sol começava a atravessar as vidraças da loja, o senhor Osvaldo surgiu do escritório. Apesar da idade avançada, ele sempre tinha o semblante sereno, com o avental de jardineiro impecavelmente limpo. Mas, naquele dia, havia preocupação em seus olhos.

- Sophia, preciso de um favor. - Sua voz grave, mas gentil, chamou minha atenção. - Elizabeth não conseguiu sair da cama hoje. As costas dela pioraram.

Dona Elizabeth é a esposa do senhor Osvaldo.

- Pobre dona Elizabeth... - murmurei, preocupada.

- Pois é. - Ele coçou a barba grisalha. - Ela sempre leva a remessa de flores da semana para o Cooper Grand Hotel. Mas, como não tem condições de ir, queria pedir que você acompanhasse meu filho Joseph.

Meu coração deu um pequeno salto. O nome Cooper sempre me causava um arrepio incômodo, mesmo sem que eu entendesse o motivo exato. Respirei fundo e forcei um sorriso profissional.

- Claro, senhor Osvaldo. Eu vou.

Ele assentiu, satisfeito.

- Obrigado, menina. Você tem mãos delicadas, vai saber representar bem a nossa floricultura.

Poucos minutos depois, Joseph apareceu no balcão carregando as caixas com folhagens frescas. Diferente do pai, ele era quieto, sempre meio distraído, mas competente no trabalho.

- Então... vamos? - ele perguntou, ajeitando os óculos no rosto.

Olhei rapidamente para Alice, que me deu um sorrisinho cúmplice e uma "boa sorte" silencioso.

Peguei minha bolsa, respirei fundo outra vez e segui Joseph até a caminhonete carregada de flores.

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